Talvez decorra daí, apressadamente, a imagem de imobilidade geral do ser-aí diante dos acontecimentos apropriativos e dos mundos históricos por eles irrompidos. As irrupções lhe são alheias, e os horizontes epocais não lhe convocam em sua constituição e sedimentação. Mas Heidegger salvaguarda uma possibilidade que muito interessa ao trabalho aqui exposto: a de lembrar, a partir e de dentro dos mundos históricos, seu caráter de historicidade. Heidegger retira da mão do ser-aí o volante que direciona a constituição epocal, mas devolve à sua possibilidade reflexiva a via de dar-se conta do caráter negativo de constituição destes mesmos mundos.
A salvaguarda deste espaço é o que poderá, para Hannah Arendt, aparecer como a resistência possível diante da técnica e da violência, ou melhor, do totalitarismo. Arendt se dedicou diretamente ao tema da violência e, portanto, será mister tangenciar as discussões às quais deu voz a partir de uma visada crítica. Esta via será importante para se pensar projetos históricos não a luz do projeto que o ser-aí promove mediante a sua existencialidade, mas pensar os projetos existenciários dos entes cujo modo de ser é a abertura, mediante um projeto global que se relaciona com o acontecimento apropriador. A era da técnica se mostra como época histórica de um projeto global que é a história do ocidente: como projeto de mundo do nosso tempo tecnocrático.
Fenomenologicamente, é preciso fazer vistas à violência dentro um de um panorama cuja dinâmica de existência se revela como o acontecimento apropriador, e não a partir do ser-aí.
O mundo técnico produz violência sobretudo pela maneira através da qual já previamente posiciona os entes: como fundos de reserva. Esta é a questão seminal de uma factibilidade radical, que reduz os entes a uma conjuntura volátil, no sentido de sustentar a funcionalidade da tecnocracia, que necessita de meios energéticos – processar, armazenar e reprocessar; o reprocessamento contínuo dos entes, entes tomados como manancial energético. Como consequência, nada parece ser um fim em si mesmo: a técnica é o fim em si mesmo que torna tudo meio para que ela se retroalimente. Não há mais nenhuma instância substancial no mundo: nem sujeito, nem objeto; até porque o problema heideggeriano transborda a questão da separação entre sujeito e objeto, uma vez que a própria técnica já promove, a seu modo, esta superação, por ser uma dinâmica sem nuclealidade que se espraia em todas as partes e direções, funcionalizando e fazendo de tudo um grande lastro energético que a retroalimenta.
Em “A questão da técnica”6, Heidegger (2007, p. 375) tematiza a possibilidade da busca por uma “livre relação para com ela [a técnica]” , consistindo tal relação na abertura de nossa existência à essência da técnica. É justo esta busca que se antepõe à técnica, uma vez que o modo técnico de aproximação e desvelamento dos entes jamais se dirige à essência dos mesmos, mas apenas os utiliza enquanto subsistência e disponibilidade. Abrir-se à essência da técnica – essência esta que não consiste em algo técnico – é passar ao largo dos aprisionamentos das posturas de negação ou propagação cega da técnica: “Por todos os lados, permaneceremos, sem liberdade, atados à ela, mesmo que a neguemos ou a confirmemos apaixonadamente” (HEIDEGGER, 2007, p.376). Há, portanto, certo aprisionamento comum tanto na retificação, quanto na ratificação da técnica, pois nenhum dos dois permite o desvelamento de sua essência. Dizer sim ou não à técnica é ainda girar em seus meandres.
A concepção corrente de técnica se refere a uma “determinação instrumental e antropológica” (HEIDEGGER, 2007, p.376) que a compreende como um meio para fins do fazer humano. Deste modo, a técnica aparece como instrumentalidade, apresentando um fazer correto que se refere ao seu uso adequado. Heidegger compreende tal concepção como correta, porém não como verdadeira. Por correta, ele entende apenas uma relação de adequação com aquilo que se tem à frente. Já o verdadeiro converge com o intuito inicial de
6 As interlocuções entre a questão da técnica e a Psicologia vêm sendo pensadas por diversos pesquisadores dessa área: Feijoo (2004), Mattar, Rodrigues & Sá (2006) e Sá (2017).
liberdade no poder “desocultar em sua essência o que está à frente” (HEIDEGGER, 2007, p.377).
Em semelhante direção, busca-se no presente trabalho alcançar algo que se difere de uma concepção correta acerca da violência, mas que caminha no sentido do desocultamento de sua essência. É possível compreender uma aproximação do tema com a questão da técnica, uma vez que sendo este o horizonte epocal vigente, é através do mesmo que a questão é inicialmente posicionada, como vem sendo apresentado: “O querer-dominar se torna tão mais iminente quanto mais a técnica ameaça escapar do domínio dos homens.” (HEIDEGGER, 2007, p.376). Em relação à violência, quanto mais ela aumenta, mais é tomada sob a ótica da correção técnica enquanto possibilidade de domínio e de controle, tomando métodos coercitivos como meios para fins, tal como máquina que produz resultados desejados, caso bem operada. Aproxima-se a possibilidade de encontrar, na essência da técnica, o que sustenta a questão da violência como problema na atualidade, bem como o que sustenta as correspondentes formas de lida com a mesma: “Onde fins são perseguidos, meios são empregados e onde domina o instrumental, ali impera causalidade” (HEIDEGGER, 2007, p.377).
De modo distinto do pensamento causal, e das noções de correspondência ou representação adequadas enquanto verdade, Heidegger ressalta a noção de alethéia como caminho para a compreensão da essência da técnica. Resgatada do grego, tal noção aponta para o “trazer à frente [...] na medida em que algo oculto chega ao desocultamento”
(HEIDEGGER, 2007, p. 380). Tratar a verdade como correspondência adequada se afina à compreensão metafísica de subsistência de núcleos e essências prévias tais quais gabaritos eternos; a compreensão de verdade como alethéia condiz com a fenomenologia enquanto compreensão daquilo que aparece, tal como aparece, do próprio fenômeno.
No movimento de desocultar o oculto vige, para Heidegger, tanto a questão da verdade, quanto a de produção – ambas necessárias à reflexão sobre a técnica:
O produzir leva do ocultamento para o descobrimento. [...] Este surgir repousa e vibra naquilo que denominamos o desabrigar” (p.377). Apresenta-se, assim, o desabrigar – ou descobrir, desocultar – como fundamental para o gesto produtivo e para o aparecer da verdade como alethéia: “Questionamos a técnica e aportamos na alethéia, no desabrigar. O que a essência da técnica tem a ver com o desabrigar?
Resposta: tudo. Pois no desabrigar se fundamenta todo produzir. [...] A técnica não é portanto, meramente um meio. É um modo de desabrigar. Se atentamos para isso, abrir-se-á para nós um âmbito totalmente diferente para a essência da técnica. Trata- se do âmbito do desabrigamento, isto é, da verdade. (HEIDEGGER, 2007, p.380)
Tal tomada da questão pode gerar estranhamento, como ressalta Heidegger (2007, p.380) na sequência, mas tal é esperado para que se possa abrir à essência da técnica. Técnica é, muitas vezes, também tomada como algo parecido com ter um amplo conhecimento sobre um assunto. Justifica, ainda, que “O conhecer dá explicação e, enquanto tal, é um desabrigar”.
Ele continua: “Técnica é um modo de desabrigar. A técnica se essencializa no âmbito onde acontece o desabrigar e o desocultamento, onde acontece a alethéia.” (HEIDEGGER, 2007, p.
381).
Uma vez posicionado que a essência da técnica guarda relação íntima com a verdade enquanto desvelamento, torna-se possível deter-se então justo naquilo que a técnica acaba por desvelar em seu movimento: “O desabrigar imperante na técnica moderna é um desafiar (Herausfordern) que estabelece, para a natureza, a exigência de fornecer energia suscetível de ser extraída e armazenada enquanto tal.” (HEIDEGGER, 2007, p.381).
Fundamentalmente, Heidegger aponta na técnica um modo de apresentação dos entes enquanto disponibilidade para extração e armazenamento; para uso. O movimento de desafio revela uma exigência de fornecimento àquilo que já posiciona como suscetível aos seus efeitos, pois assim os desvela. Aos entes resta um modo de mostração enquanto reserva, manancial e matéria-prima à demanda de uso.
Heidegger (2007, p.381, grifo nosso) compreende uma diferença marcante entre a técnica moderna e o fazer um camponês antigo, a exemplo, uma vez que “[...] o camponês antigamente preparava [a terra], onde preparar ainda significava: cuidar e guardar. O camponês não desafia o solo do campo”. A tomada da terra enquanto recurso mineral ou de qualquer outra natureza – ou seja, a tomada da terra como recurso – é o que caracteriza a técnica enquanto um modo de desabrigar que desafia.
Há um modo específico de pôr as coisas na técnica que é o modo do desafio; por sua vez, o modo do desafio é aquele que visa extrair: “É um extrair na medida em que explora e destaca. Este extrair, contudo, permanece previamente disposto a exigir outra coisa, isto é, impelir adiante para o máximo de proveito, a partir do mínimo de despesas”. (HEIDEGGER, 2007, p.382). A extração carrega, aqui, o sentido de exigência de disponibilidade dos entes como recursos a serem armazenados a serviço de um fim produtivo: um fundo de reserva. Tal é o modo de pôr, de posicionar, vigente na técnica – o modo do desafio:
Este acontece pelo fato de a energia oculta na natureza ser explorada, de explorado ser transformado, do transformado ser armazenado, do armazenado ser novamente distribuído e do distribuído renovadamente ser comutado. Explorar, transformar, armazenar e distribuir são modos de desabrigar. Este, contudo, não decorre de modo simples. Também não desemboca em algo indeterminado. O desabrigar desabriga
para si mesmo os seus próprios e múltiplos caminhos engrenados, porque os dirige.
A direção mesma, por seu turno, é conquistada em todos os lugares. A direção e a segurança tornam-se inclusive os traços fundamentais do desabrigar desafiante.
(HEIDEGGER, 2007, p.382, grifo nosso)
Ressalta-se que o desafio da técnica que põe os entes em disponibilidade não se dá sem norte. Ao contrário, lhe é próprio o gesto de direcionar e assegurar os uso, transformações e comutações do que é desafiado. É da técnica o movimento do controle, de modo a assegurar a constante disponibilidade do que desafia. Denota-se aí que a técnica resguarda em si uma espécie de mecanismo de retroalimentação, uma vez que seu modo de dispor os entes como reserva garante sua sustentação, como uma máquina que fosse capaz de transformar tudo em combustível e, por isso, garante sua continuidade: “Por toda a parte ele é requerido, para ficar posto imediatamente para um pôr e, na verdade, numa tal disposição, para novamente ser passível de encomenda para uma encomenda ulterior” (HEIDEGGER, 2007, p.383).
Deste modo, dá-se às coisas uma posição fixa (Stand), cuja alcunha é a de subsistência (Bestand), significando uma essência de recurso dada a tudo o que o desafio desvela, um sentido único de provisão aos desabrigos promovidos pela técnica: “Aquilo que subsiste no sentido da subsistência não nos está mais colocado diante de nós como um objeto”
(HEIDEGGER, 2007, p.383), não nos aparece de outra forma que não como disponibilidade produtiva, tendo sua forma de ser requerido reduzida a uma, à da provisão.
Uma ambivalência se faz presente neste ponto quanto ao papel do homem na técnica:
ao mesmo tempo que é manifestamente o homem que completa o pôr do desafio como aquele modo que desabriga subsistência (HEIDEGGER, 2007, p.383), este mesmo homem decididamente não detém a exclusividade de assento deste modo, nem tampouco o provoca por vontade (HEIDEGGER, 2007, p.387).
Heidegger (2007, p.383) toma o ser-aí, neste ponto, em consonância com o que foi discutido em relação ao acontecimento apropriador: uma vez que a técnica se apresenta como contorno epocal, não se faz enquanto produção ou decisão do ser-aí, mas sim, o convoca a lhe corresponder em seu anúncio: “Mas ele [o homem] não dispõe do descobrimento por onde a realidade a cada vez se mostra ou se retrai. O fato de que, desde Platão, a realidade se mostra à luz das ideias não foi Platão quem o provocou. O pensador apenas correspondeu ao que se lhe anunciou.”. Deste modo, não é o ser-aí o detentor de uma suposta escolha sobre como as coisas a ele se apresentarão, não é o requerer algo feito por ele: inclusive porque, ele mesmo, o homem, é também requerido pela técnica.
Tal ponto se mostra de grande importância no presente caminho de pensamento em relação à violência, pois abre a possibilidade de compreender o homem como um ente ex- sistente que está “dentro” de uma ótica de violência, ao invés do pensamento sustentado por uma atitude natural que posiciona usualmente a violência como produção subjetiva do homem. Tal possibilidade não pretende alienar o homem da reflexão acerca da violência, mas tal como o gesto exposto na virada heideggeriana com o acontecimento apropriativo, e aqui aprofundado na questão da técnica, pode tangenciar a questão da violência sem ter no homem uma posição central e produtora de mundos. Como já anteriormente apresentado, é manisfesto que os irrompimentos epocais e os requerimentos desafiadores se dão por correspondência e por convocação ao homem; porém, não se resumem a produções volitivas deste ente, nem tampouco a decisões por ele controladas.
Ao modo de convocação do homem ao desafio da técnica, Heidegger denomina armação (Ge-stell). Por armação, entende a invocação que reúne o homem ao requerer das coisas enquanto subsistência:
Assim, a técnica moderna, enquanto desabrigar que requer, não é um mero fazer humano. Por isso, devemos também tomar aquele desafiar, posto pelo homem para requerer o real enquanto subsistência tal como se mostra. Aquele desafiar reúne o homem no requerer. Isto que é reunido concentra o homem para requerer o real enquanto subsistência. (HEIDEGGER, 2007, p.384)
Posiciona, assim, a técnica como algo que não se restringe nem a um fazer humano, pois o homem é requerido pela técnica, nem a um “mero meio no seio de tal fazer”
(HEIDEGGER, 2007, p.386). Desta forma, circunscreve o pensamento sobre a técnica fora do eixo que centraliza no ser-aí a dação de sentido. O homem é convocado pelo horizonte epocal da técnica e habita esta requisição de modo peculiar. Se a técnica convoca a natureza como
“depósito caseiro de reserva de energias” (HEIDEGGER, 2007, p.386), convoca o homem correspondente a este modo, de forma que produzirá seus conhecimentos embebido em ótica análoga, tal como o faz através “da moderna e exata ciência da natureza. Seu modo de representar põe a natureza como um complexo de forças passíveis de cálculo. [...] para que ela se exponha como um contexto de forças previamente passível de ser calculado”.
Torna-se uma exigência do imperar da armação a que a natureza se apresente permanentemente como um “sistema de informações” (HEIDEGGER, 2007, p.387) a sustentar explicações causais – provavelmente corretas – acerca de si, revelando a armação como um modo através do qual “a realidade se desabriga como subsistência” (HEIDEGGER, 2007, p.387). É sob este modo que foi possível mostrar, no capítulo 1, a tomada informativa e
calculante acerca da violência no documento que ocupa um lugar central na contemporaneidade. Ali, resolver o “problema” da violência mostrou-se como um tabelar de causas a partir dos acontecimentos que são tomados como manancial informativo.
Ainda, uma ambivalência se dá entre o ser requerido do homem pela técnica e, ao mesmo tempo, sua não reduz a esta requisição: “porque o homem é desafiado mais originariamente do que as energias naturais, a saber, no requerer (Bestellen), ele nunca será uma mera subsistência” (HEIDEGGER, 2007, p.384). O homem se situa de forma essencial no âmbito da armação, caminho de desabrigo para o qual é conduzido pela técnica. Heidegger denomina como destino (Geschick) esta condução, também compreendida como um envio, uma convocação. O destino aparece como o sempre convocar ao qual o homem está sujeito e para o qual sempre responderá. O movimento do oculto ao descoculto, ou seja, o movimento do desabrigar, é um envio do destino: “Destino, neste sentido, é também um produzir”
(HEIDEGGER, 2007, p.388). É neste sentido que Heidegger compreende que no cerne do desabrigo da técnica, está a possibilidade de liberdade:
O destino do desabrigar sempre domina os homens. Nunca é, porém, a fatalidade de uma coação. Pois o homem se torna justamente apenas livre na medida em que pertence ao âmbito do destino e, assim, torna-se um ouvinte (Hörender), mas não um servo (Höriger). A essência da liberdade, originariamente, não está ordenada segundo a vontade ou apenas segundo a causalidade do querer humano. [...] A liberdade está num parentesco mais próximo e mais íntimo com o acontecimento do desabrigar, isto é da verdade. (HEIDEGGER, 2007, p. 388, grifo nosso)
Retoma-se aqui a compreensão da essência da técnica enquanto um desabrigar como alethéia. Tratar do destino como uma forma de desocultamento, ao mesmo tempo em que é o que convoca o homem ao envio da armação, é ressaltar o caráter de liberdade enquanto movimento de desvelamento, presente inclusive na técnica. Tal liberdade não diz respeito a noções ônticas e sedimentadas, tais como o exercício de arbítrio, mas justo ao âmbito próprio do destino, que aparece em desabrigos:
Todo desabrigar pertence a um abrigar e ocultar. Mas o que está oculto e sempre se oculta é o que liberta, isto é o mistério. Todo desabrigar surge do que é livre, vai para o que é livre e leva para o que é livre. A liberdade do que é livre não consiste nem na independência do arbítrio, nem no compromisso com meras leis. A liberdade é que iluminando oculta, em cuja clareira paira aquele véu que encobre o que é essencial em toda a verdade e deixa surgir o véu como o que encobre. A liberdade é o âmbito do destino, que toda vez leva um desabrigamento para o seu caminho.
(HEIDEGGER, 2007, p. 388)
A liberdade do homem requerido pela técnica não está, então, nem em perpetuá-la cegamente, nem em provocar insurgência contra a mesma, mas justo na possibilidade abrir-se à sua essência, que se funda na liberdade dos modos de desvelamento. A partir de tal liberdade, pode o homem tomar proposições corretas ou falsas, mas não perfaz nisto seu maior perigo, mas sim, “[...] o perigo de em todo o correto se retrair o verdadeiro”
(HEIDEGGER, 2007, p.389), ou seja, que na subsistência da armação se mantenha obnubilada essência da técnica enquanto desocultamento. Em tal obscurecimento que toma a técnica como instrumental, reside a possibilidade do homem caminhar naquilo que Heidegger (2007, p.389-390) denomina a “margem mais externa do precipício, a saber, caminhará para o lugar onde ele mesmo deverá apenas ser mais tomado como subsistência. Entretando, justamente este homem ameaçado se arroga como a figura do dominador da terra”.
Assim, mantendo-se obscurecida a essência desabrigadora da técnica, o homem se reduz a manancial energético ao mesmo tempo em que se encontra abissalmente distante de assim perceber-se. O que Heidegger (2007, p.390) aponta no trecho suso mencionado é a concomitante percepção do homem enquanto controlador da técnica, justo no auge de seu ser controlado por ela: “O domínio da armação ameaça com a possibilidade de que a entrada num desabrigar mais originário possa estar impedida para o homem, como também o homem poderá estar impedido de perceber o apelo de uma verdade mais originária”. Por verdade mais originária, pode-se entender a essência da técnica. O exercício da técnica enquanto convocação à armação pode silenciar a possibilidade de aparição de sua essência, blindando esta possibilidade não só pelo homem estar igualmente tomado como subsistência, mas também, e talvez principalmente, por acompanhar neste momento a arrogação do homem ameaçado como aquele que domina a técnica, entendida como instrumental, entendida também como subsistência.
Quanto a este perigo, então, não cabe ao homem mudar sua época no sentido de buscar decidir como a mesma vai se dar, nem tampouco embarcar em jornada exaustiva para posicionar o modo como os entes lhe aparecerão: seriam tentativas vãs e se mostrariam apenas em mais modos de exercer seu próprio tempo, uma vez que dele não se pode esquivar.
Porém, Heidegger (2007, p.391) resguarda no próprio cerne do perigo da convocação a possibilidade de recolher a técnica em sua essência, trazendo seu autêntico aparecer – a que denomina salvar: “[...] o domínio da armação não pode se esgotar em apenas obstruir todo brilhar de cada desabrigar e todo aparecer da verdade. Então, a essência da técnica deve antes justamente abrigar em si o crescimento daquilo que salva.”.
Para fazer ver tal possibilidade de modo a garantir a visibilidade dos desvelamentos, Heidegger (2007, p.394) ressalta que é preciso avistar a essência da técnica, e não apenas fitar a técnica. Isto se mostra ao passo em que a técnica aparece como um modo de desvelamento do mundo (enquanto recurso), e não apenas como instrumento cujo manejo que devemos dominar. Isto seria a “salvação”, entendida como “a percepção-resguardadora (Wahrnis) da essência da verdade” (HEIDEGGER, 2007, p.394), da verdade enquanto desocultamento. A salvação se dá, portanto, a partir da essência da técnica, a mesma técnica que, ambiguamente, coloca em perigo a relação com a essência da verdade (HEIDEGGER, 2007, p.394).
Deste modo, a essência da técnica aparece claramente como algo nada técnico, resguardando justo a possibilidade de criação de vias refratárias ao desafio que a técnica convoca. Há uma ambivalência entre o que Heidegger denomina como “perigo” e “salvação”, pois aparecem em proximidade intrínseca, ao mesmo tempo que apontando para possibilidades abissalmente distantes. É neste campo que a questão se dá, fazendo ver tal relação entre as possibilidades de obscurecimento total da verdade – enquanto alethéia – e aquelas que justamente possibilitam vê-la. A ambivalência se dá, pois a possibilidade de ver a verdade acontece justo através do reconhecimento do obscurecimento, e não por via diametralmente oposta a ele. Não é em guerra à técnica que se pode encontrar algum quinhão de relação com as coisas que não se subordine unicamente à requisição da subsistência: é justo fazendo ver a essência da própria técnica que isto pode se dar:
Desse modo, ainda não estamos salvos. Mas somos convocados para termos esperança na luz do que salva. Como pode isto acontecer? Aqui e agora nas pequenas coisas, para que cultivemos a salvação em seu crescimento. Isto implica que tenhamos em vista, a toda hora, o perigo extremo. [...] O fazer humano nunca pode imediatamente ir ao encontro deste perigo. A empresa humana nunca pode sozinha banir este perigo. Mas, a meditação humana pode refletir sobre o fato de que tudo o que salva necessita de uma essência superior à do perigo, embora ao mesmo tempo a ela aparentada. (HEIDEGGER, 2007, p.394-395)
Pelo horizonte epocal, torna-se menos comum a possibilidade de escuta mais à experiência do possível. A sensação vigente de liberdade e autonomia se mostra como aquilo que a técnica justamente enquanto submissão. Para a operação da técnica, é necessária a percepção ilusória da autonomia. A inversão sutil é a da sensação de operar a técnica, enquanto esta própria sensação é sinal da técnica já operando sobre o homem. Nisto, há um reino de disponibilidade generalizada – tudo parece disponível. Tudo se resume a injunções passíveis de volatização a qualquer momento, devido à ausência de desvelamentos distintos