[Este livro] Foi escrito com a convicção de serem passíveis de descoberta os mecanismos que dissolveram os tradicionais elementos de nosso mundo político e espiritual num amálgama, onde tudo parece ter perdido seu valor específico [...].(ARENDT, 2012, p.12)
Em 2016, houve o rompimento parcial da ciclovia Tim Maia no Rio de Janeiro, localizada na encosta da Avenida Niemeyer no bairro de São Conrado, após forte ressaca do mar, acarretando a morte e o ferimento de transeuntes. Justificou-se, à época, que os engenheiros não teriam incluído a força das marés nos cálculos da obra referida. No Jornal O Globo (2016), o colunista Ancelmo Gois citou o escritor Autran Dourado quando do desabamento do viaduto Paulo de Frontin na mesma cidade, na década de 70: “Se os engenheiros que o projetaram tivessem lido Machado de Assis, não errariam nos cálculos,
porque saberiam pensar”. O pensar aqui não se refere à funcionalidade da cognição, mas ao vislumbre compreensivo que reata os entes a seus campos intencionais originários - reata-os, como diria Dilthey, à vida. O movimento puramente tecnocrático calcula uma ciclovia ou um viaduto, tais como se fossem entes destacados de qualquer contextualidade; tais como se fossem tarefas a serem cumpridas com precisão, mas nunca com reflexão. Ciclovias genéricas, viadutos ideais. A menção a Machado de Assis é uma forma de inserir um elemento pensante, crítico, questionador e de profundidade, onde aparentemente, só há funcionalidade. Ou nem isso.
No esvaziamento do desafio do mundo tecnocrático, a tomada de disponibilidade dos entes mantem velada uma perspectiva de reflexão. Como Heidegger (2007) aponta, a operação de armação da técnica solapa a essência de desvelamento da técnica, a partir da qual se pode encontrar a reflexão necessária sobre a verdade enquanto desabrigo de perspectiva. O giro da técnica afasta o pensar como via de relação, restando o uso, o reuso, o armazenamento e a troca.
Ainda nesta vereda, há um experimento psicológico já repetido em diversas universidades (CALLIGARIS, 2001) que aponta para algo que podemos equiparar a este esquecimento burocrático do pensar: um vídeo mostra um salão com dois times de basquete - um vestido de preto, outro de branco. Cada time possui uma bola, e ao espectador é dada a tarefa de contar quantos passes o time de branco fará. Ao sinal, os jogadores de ambos os times começam a se mover freneticamente, fazendo passes em direções diversas. Em meio a isso, uma pessoa fantasiada de gorila passa pelo meio dos participantes, dançando e fazendo movimentos variados, e sai novamente de cena. Ao fim do experimento, a resposta mais comum é simplesmente a entrega da tarefa inicial, muito bem cumprida: o número de passes foi contado, mas a maior parte das pessoas sequer nota o “gorila”.
O engendramento à tarefa bem delimitada é tamanho, que aquelas pessoas, cujas capacidades cognitivas estão em dia, não conseguem enxergar qualquer outra manifestação fora daquilo a que se prepararam para ver. Seus respectivos sentidos psicofísicos de visão também estão em perfeito funcionamento: esta não é a questão. A questão atravessa o olhar enquanto abertura de sentido ao fenômeno, enquanto pensar que compreende, não enquanto relação possibilitada pelos órgãos dos olhos. A surpresa dos participantes ao final do experimento, quando lhes é revelada a presença do “gorila”, contrasta com a satisfação sentida no instante anterior, quando escutam o número de passes correto e confirmam o bom cumprimento de sua tarefa. Por um lado, apenas fizeram seu trabalho, por outro, percebem
que esqueceram de pensar: um pensamento que remete a articulações de sentido, não à provisão de resultados.
Interessa à Arendt compreender a operação em jogo no totalitarismo, no sentido de por que mecanismos se dá, se estrutura e se perpetua um sistema como este, de tamanha violência:
Compreender não significa negar nos fatos o chocante, eliminar deles o inaudito, ou, ao explicar fenômenos, utilizar-se de analogias e generalidades que diminuam o impacto da realidade e o choque da experiência. Significa, antes de mais nada, examinar e suportar conscientemente o fardo que o nosso século colocou sobre nós – sem negar sua existência, nem vergar humildemente ao seu peso. Compreender significa, e, suma, encarar a realidade sem preconceitos e com atenção, e resistir a ela – qualquer que seja. (ARENDT, 2012, p.12).
Enquanto Heidegger compreende a relação entre o nada – enquanto negatividade do mundo que irrompe em horizontes históricos – e a técnica como desmedida – no sentido de nivelamento de todas as possibilidades ao nível da disponibilidade –, Arendt tomará como pedra angular do totalitarismo a experiência do ninguém, do nivelamento do homem à qualidade de massa, massa requisitada a tarefas da técnica.
Na parte final de sua obra Origens do totalitarismo, Arendt (2012) se dedica a compreender as instituições e operações do movimento totalitário, centralizando muitas de suas reflexões no nazismo alemão, enfocando a experiência do holocausto. Compreende que os campos de concentração e de extermínio nos regimes totalitários funcionaram como um laboratório, “onde se demonstra a crença fundamental do totalitarismo de que tudo é possível”
(ARENDT, 2012, p. 581), desafiando e relativizando qualquer medida anterior. O caminho percorrido para tal, que fundamenta o domínio do sistema, passa por uma sistematização da pluralidade humana, reduzindo-a a um único e mesmo “indivíduo”: o ninguém.
O totalitarismo se dá por intermédio da propagando e do terror, tendo na degradação humana exponencial seu vértice. Com os homens sendo reduzidos e nivelados a entes a dispor, a “simples coisa” (ARENDT, 2012, p. 582) o movimento totalitário provoca um perecer das noções de identidade, particularidade, caráter e outras tantas que asseguram uma experiência senso comum de importância, lugar e diferenciação no mundo. Arendt ressalta que este processo de institucionalização dos homens, com a quebra da compreensão de individualidade, reduz os mesmos a um feixe de reações, tão radicalmente distinto de tudo o que há nele de personalidade e caráter (ARENDT, 2012, p. 584), tornando-os o caldo de cultura idealmente receptivo às atrocidades cometidas.
O primeiro passo do domínio totalitário nazista foi o de matar a pessoa jurídica do homem (ARENDT, 2012, p. 594), formando certas categorias de pessoas excluídas da
proteção da lei. Ato contínuo, têm-se os campos de concentração também ao largo de um sistema penal usual. O domínio totalitário era responsável por fazer com que as categorias confinadas aos campos perdessem a capacidade de cometer quaisquer atos, legais ou criminosos.
Minar mais ainda a ideia de pessoa moral do homem era o que intensificava a preparação da massa da cadáveres vivos, sem perspectivas de qualquer espécie, marchando para a morte sem vibrar qualquer tipo de emoção, eis que essa já tinha sido totalmente retirada de seus corpos combalidos e de seus espíritos alquebrados: “Mas a vitória totalitária pode coincidir com a destruição da humanidade, pois, onde quer que tenha imperado, minou a essência do homem.” (ARENDT, 2012, p.13). O assassinato à pessoa “moral” começava nas condições monstruosas do transporte aos campos, onde centenas de homens eram amontoados em vagões de gado apertados e insalubres. Nus, colados uns aos outros, urinando, evacuando, vomitando e morrendo lado a lado: “[...] o que é preciso compreender é que a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem; que, na verdade, a psique, o caráter e a individualidade parecem, em certas circunstâncias, manifestar-se apenas pela rapidez ou lentidão com que se desintegram” (ARENDT, 2012, p.585).
Tal processo tinha sequência na chegada aos campos, com a raspagem dos cabelos e a vida em condições precárias e exploratórias de seus corpos, destinadas a matar em doses homeopáticas, destruindo a condição humana de forma inexorável: “A principal característica do homem da massa não é a brutalidade nem a rudeza, mas o seu isolamento e a sua falta de relações sociais normais.” (ARENDT, 2012, p.446). A cena é de uma imensa massa de
“cadáveres de mortos”, precedida por uma imensa massa de “cadáveres vivos”, privados de sua condição humana, esta entendida como sua possibilidade de resposta, de criação, de resiliência. Arendt compreende que estas almas mortas e estes espíritos alquebrados talvez expliquem como milhões de seres humanos se deixaram levar, sem resistência, às câmeras de gás: Antes dos corpos, foi destruída a espontaneidade e a capacidade do homem de criar algo novo, nada restando além de marionetes reagindo de forma previsível, ainda quando estavam marchando para a morte.
A tentativa de compreender os elementos dessa experiência esbarra no senso comum que se recusa a crer que tudo é possível (ARENDT, 2012, p.585), inclusive as atrocidades cometidas. Faltam paralelos para comparar a vida nos campos de concentração, pois seu horror não pode ser alcançado. Eles podem ser pensados como limbo, purgatório ou inferno (ARENDT, 2012, p.591), tendo em comum o lastro de massa humana, tratada como disponibilidade:
Uma pessoa pode morrer em decorrência de tortura ou fome sistemática, ou porque o campo está superpovoado e há a necessidade de liquidar o material humano supérfluo. Inversamente, pode ocorrer que, devido a uma falta de novas remessas, surja o perigo de que os campos se esvaziem, e seja dada a ordem de reduzir o índice de mortalidade a qualquer preço. (ARENDT, 2012, p.588-589)
Arendt acentua que criminosos eram parte da população dos campos de concentração, porém usualmente só eram direcionados para lá após o cumprimento de sua pena. Essa massa era importante para dar credibilidade ao sistema, que preconizava existir para abrigar elementos à margem da sociedade. Sua presença era uma concessão do estado totalitário aos preceitos da sociedade, que assim poderia mais docemente se acostumar aos campos de concentração. Além disso, ao misturar criminosos aos demais detidos, tornava evidente que estes haviam atingido o pior nível social. Todos os prisioneiros se encontravam misturados, a fim de evitar qualquer grau de solidariedade entre os mesmos.
O bom senso é impotente no que diz respeito ao pensamento utilitário, pois os regimes totalitários criam um mundo demente que funciona. A agressividade inerente ao totalitarismo não vem do desejo pelo poder. Não se trata também de expansão por amor aos lucros. Arendt a compreende uma questão puramente ideológica (ARENDT, 2012, p.607), para tornar o mundo coerente com o que o regime acredita e provar que seu supersentido estava correto: “O fim prático do movimento é amoldar à sua estrutura o maior número possível de pessoas, acioná-las e mantê-las em ação; um objetivo político que constitua a finalidade do movimento totalitário simplesmente não existe.” (ARENDT, 2012, p.456)
É em benefício desse supersentido que é necessário ao totalitarismo destruir todos os vestígios de dignidade humana. A submissão imposta pela polícia nazista fazia parte de um sistema onde a vítima é tão destruída e destituída de tudo que a torna humana, que sobe ao patíbulo sem esboçar resistência. Os Estados totalitários procuram de forma sistemática demonstrar a superfluidade do homem, para que se reconheçam como supérfluos, através de um sistema de formação de indivíduos esvaziados.
Respeitar a dignidade humana significa o reconhecimento do homem e das nações como entidades e isso oferecia risco ao regime totalitário. Os regimes totalitários buscam transformar a natureza humana, minando a moral e tirando a possibilidade de resistência:
Desde os tempos antigos, a imposição da igualdade de condições aos governados constituiu um dos principais alvos dos despotismos e das tiranias, mas essa equalização não basta para o governo totalitário, porque deixa ainda intactos certos lações não políticos entre os subjugados, tais como laços de família e de interesses culturais comuns. O totalitarismo que se preza deve chegar ao ponto em que tem de
acabar com a existência autônoma de qualquer atividade que seja, mesmo que se trate de xadrez. Os amantes do ‘xadrez por amor ao xadrez’, [...], mostram que ainda não foram absolutamente atomizados todos os elementos da sociedade, cuja uniformidade inteiramente homogênea é a condição fundamental para o totalitarismo. (ARENDT, 2012, p.452)
As soluções totalitárias podem sobreviver à queda dos regimes totalitários e ficar à espreita de uma oportunidade para voltar à cena, sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social e econômica de um modo digno do homem, eis que demonstraram ser a solução mais rápida do problema do excesso de população, das massas economicamente supérfluas e socialmente sem raízes: “Potencialmente, as massas existem em qualquer país e constituem a maioria das pessoas neutras e politicamente indiferentes.” (ARENDT, 2012, p.439).
Em “Origens do totalitarismo” (1951/2012), Arendt se refere a um sistema no qual todos os homens são igualmente supérfluos, a que se refere a noção ali utilizada de mal radical, apontando para a radicalidade enquanto absolutização do mal, enquanto justamente o gesto de eliminação da pluralidade em nome do nivelamento do superfluidade. Os que manipulavam o sistema acreditavam na própria superfluidade e os assassinos totalitários não se importam se eles mesmos estarão vivos ou mortos, sendo pois, supérfluos. Em sua obra de 1963, porém, Eichmann em Jerusalém (1999), Arendt subintitula “Um relato sobre a banalidade do mal”, ressignificando o conceito de mal radical anteriormente referido em sua obra. Não se trata de uma negativa da posição estabelecida em 1951, mas de um modo distinto que pudesse fazer ver aquilo que Arendt havia apreendido ao assistir o julgamento de Adolf K. Eichmann em Jerusalém, acusado de inúmeros crimes cometidos durante o holocausto.
Àquilo que Arendt anuncia na obra de 1963, já se encontra nuclearmente referido na publicação anterior aqui mencionada. Arendt se dirige ao julgamento com a expectativa de encontrar uma espécie de monstro perverso, que reunisse em si todas as características mais atrozes e diabólicas do ódio. Para sua perplexidade, Arendt encontra um burocrata insosso.
Um “trabalhador”, um produtor de seu tempo, um subordinado eficiente.
Arendt encontra um homem vazio, tais quais os prisioneiros que os campos de concentração produziam. O esvaziamento já apontado por Arendt em 1951 ganha novas dimensões a partir da experiência de presenciar as enunciações de Eichmann. O espectro oco se fez ver nos depoimentos de Eichmann, que não denotavam nenhum traço de prazer ou satisfação nos crimes cometidos; nem, sequer, de apropriação plena daquilo que havia feito:
“Quanto mais se ouvia Eichmann, mais obvio ficava que sua incapacidade de falar estava
intimamente relacionada com sua incapacidade de pensar, ou seja, de pensar do ponto de vista de outra pessoa” (Arendt, 1963, p.62).
Arendt extrapola as implicações do esvaziamento para um sistema de pensamentos e relações dominante, que torna as ações infundadas, alienadas, banalizadas – mas, nem por isso, menos relativas ao mal. Para acentuar tal ausência de fundamento, Arendt refere-se à banalidade do mal, compreendendo que o mal não possui necessariamente uma raíz de perversão ou vontade de inferir dor e/ou sofrimento a outrem. A banalidade do mal se dá pelo apagamento completo desta dimensão em que “outrem” surge. É justo pelo atropelamento desta possibilidade relacional, que o mal se dá e se espalha: pela ausência de pensamento, de reflexão, de encontro com a alteridade, de aparição de diferença e relevo. É banal não porque é desimportante, mas porque não tem fundamento. Exatamente por não tê-lo, é mal; caso o tivesse, teria raízes refletidas. Neste sentido, Arendt abandona a expressão “radical” não por contradizer as inferências feitas em 1951, mas para expressar a ausência de radicalidade enquanto raíz, não enquanto absoluto, na experiência de mal que viu em Jerusalém.
A banalidade do mal se apresenta no homem tecnocrático que raciocina bem e resolve problemas com destreza, mas que é incapaz de se questionar ou de questionar seu horizonte histórico. Eichmann era um homem inteligente, extremamente capaz naquilo que fazia: um burocrata perfeito - um perfeito burocrata. E justamente por isso, não pensava. A banalidade do mal está no fato de que aquilo que é socialmente virtuoso, politicamente aceito e legítimo no âmbito jurídico, no caso de Eichmann, veicula uma estrutura genocida: “Essencialmente, o líder totalitário é nada mais nada menos que o funcionário das massas que dirige; não é um indivíduo sedento de poder impondo aos seus governados uma vontade tirânica e arbitrária.
Como simples funcionário, pode ser substituído a qualquer momento [...].” (Arendt, 2012, p.456)
O caminho de pensamento arendtiano passa por apontar o totalitarismo como desproporcional em relação a toda a história do Ocidente – tal como a técnica. Arendt entende o totalitarismo como sistema, e não meramente um produto de um partido. Sistema amorfo, justo por caracterizar-se pela pluraridade caleidoscópica de estratégias, convergentes à mesma finalidade: tornar tudo supérfluo. A superfluidade da vida revela-se em sua descartabilidade, onde, no totalitarismo, inclusive aqueles que surgem como comandantes são descartáveis, revelando a ausência de referência e volatização de tudo que é tomado como manancial energético; revelando, portanto, um movimento contíguo entre técnica e totalitarismo.
Torna-se, assim, uma estrutura de violência renovável, reciclável. Deste modo, pensar violência exige a extensão de seu significado a algo para além de homicídios, furtos e
ferimentos, pois pode aparecer em sociedades funcionais, com índices irrisórios de criminalidade, mas onde todos os entes são peças. Peças de engrenagem autoemancipada, sem raiz, com giro próprio e autônomo, retroalimentada por suas próprias produções. Para Arendt, o totalitarismo continua depois da guerra: na economia, nas relações sociais, na política... O gesto homogeneizante totalitário permanece onde perpetua o utilitarismo, tal como a lógica de mercado. O ecocídio, a exemplo, que se dá pela lógica do capital, representa esta continuidade, a despeito da perenidade ou perecibilidade de partidos políticos totalitários. O pensamento de Arendt permite o rompimento da caricatura da violência: um sistema de inclusão, porém que sustente a descartabilidade, não representa nenhuma mudança de posição fundamental em relação à violência.
A violência se revela como algo muito mais estrutural do que a caricatura dos atos de negação de certas vidas, porque até as vidas que são afirmadas, o são apenas funcionalmente:
são igualmente descartáveis, tão logo esta funcionalidade tenha seu sentido evaporado. Abre- se a discussão da constituição histórica de mundo enquanto matéria-prima da violência, para além de seus nichos inicialmente identificados, dentro dos quais a violência aparece apenas em um caráter dual, causal e metafísico.