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A Espanha no pós guerra

No documento Washington Luis de Assis Pinheiro.pdf (páginas 32-37)

Na segunda metade do século XX, a Espanha passou por dois processos importantes segundo Márcia Costa (2010). Um deles se relacionou com as mudanças políticas internas, iniciadas em 1977, após a morte do ditador Francisco Franco, e o outro esteve relacionado com a entrada do país na Comunidade Européia.

As mudanças na esfera da política interna espanhola surgiram a partir da pressão de movimentos sociais pela democratização das instituições políticas do país. Uma parte desses movimentos sociais tinha atuação no movimento sindical e essa presença em conflitos de ordem trabalhista já provocava o aumento das mobilizações desde o início da década de 1960.

A partir dessa década, mesmo com a proibição da utilização da greve como forma de pressão, esse instrumento de reivindicação da classe trabalhadora se potencializou, aumentando numericamente ao longo de toda a década, principalmente nos setores de mineração, siderurgia, metalurgia e construção civil das cidades e regiões mais industrializadas como Barcelona, Madrid, País Vasco e Astúrias.

Uma indicação da crise que vivia o regime espanhol foi exposta no fato de os conflitos trabalhistas se tornarem tão numerosos que, contraditoriamente, o Ministério do Trabalho foi obrigado a reconhecer e registrar a existência das greves que aconteciam e que eram cada vez mais numerosas3. Foram 780 greves em 1963 e 1600 greves em 1970. (JIMÉNEZ, 1991:

353).

O outro processo dizia respeito às relações externas espanholas. A integração do país à Comunidade Econômica Européia, em 1986, obviamente trouxe impactos para o cenário interno no período posterior. O governo espanhol, para responder às exigências do processo de integração, executou reformas que afetaram a economia e o mercado de trabalho num momento de crise. Tais reformas buscavam soluções tanto para a recessão que elevou as taxas de desemprego, como para a concorrência com o mercado externo. (COSTA, 2010: 505).

O "milagre espanhol", que logo se tornou uma importante peça de propaganda para o regime franquista, foi possível entre outros fatores, pela retomada dos diálogos na esfera das relações internacionais entre o país e diversos organismos multilaterais a partir de esforços diplomáticos dos Estados Unidos. Num momento de retomada do desenvolvimento econômico do capitalismo ocidental e de disputa por influência e polarização política por conta da Guerra Fria, seria um equívoco para o bloco capitalista manter o isolamento econômico da Espanha naquele momento.

Mesmo com o país iniciando um momento de desenvolvimento econômico, cerca de um milhão de trabalhadores espanhóis deixaram o país no período entre os anos de 1960 e

3 Sobre os movimentos grevistas durante a ditadura franquista ver: CARMONA, Álvaro S. Huelgas en el franquismo: causas laborales, consequencias políticas. Valencia. Historia Social-UNED, nº 30. p. 39-61. 1998.

1970 de forma oficial para a trabalharem na França, na Alemanha, na Suíça, na Bélgica e na Holanda4. O número de emigrantes que deixou a Espanha extra oficialmente ficou próximo a esse número. O envio de divisas desses emigrantes para a terra natal, fruto do seu trabalho em solo estrangeiro, foi um aporte substancial que auxiliou no desenvolvimento industrial da Espanha. (CORTÁZAR e VESGA, 1994: 618).

Entre o período de 1961 e 1974 o Produto Interno Bruto espanhol seguiu em torno do patamar de sete por cento. Números positivos na esfera econômica e um largo período registrado desse ciclo de expansão da economia, essa foi a base de crescimento que possibilitou um salto qualitativo no desenvolvimento do país em relação a um longo período anterior. O eixo central do desenvolvimento espanhol naquele momento foi o crescimento do setor industrial. Esse movimento permitiu tal setor deixar para trás a sua condição de fragilidade e possibilitou, ainda, superar dificuldades que impediam sua competitividade em relação ao mercado externo. Uma consequência desse momento de desenvolvimento industrial foi o avanço da organização e da produção do setor de bens e serviços. Esse setor seria responsável por ocupar o primeiro lugar no Produto Interno Bruto do país, assim como se tornaria o maior em gerar postos de trabalho para a população economicamente ativa.

(JIMÉNEZ, 1991: 325).

A política de abertura econômica para investimentos do capital estrangeiro e a instalação de empresas multinacionais nesse período, serviu para incrementar o desenvolvimento industrial, ainda que, para consumo interno e sob uma base de tecnologia importada. Outro aspecto importante daquele momento foi que tal processo possibilitou também uma diversificação da economia do país com o início das atividades do setor de turismo, que se firmaria nas décadas seguintes5 como setor fundamental para a economia espanhola. (COSTA. 2010: 505).

Nessa etapa, até a década de 1970, o regime franquista procurava combinar dois

4 Sobre o tema ver os textos: ASPERILLA, A. F. A emigración como exportación de mano de obra: el fenómeno migatorio a Europa durante el franquismo. In Historia Social-UNED, nº 30. Valencia, 1998. ABAD, A. M., SECO, M. M. Españolas exiliadas y emigrantes: encuentros y desencuentros en Francia. In Les Cahiers de Framespa, Nº 5, 2010, disponível em: <http://framespa.revues.org/383>. Acesso em: 10 mar. 2015.

5 Discutindo o momento de crescimento econômico do pós guerra, o historiador Eric Hobsbawm apresenta: “A Espanha, que praticamente não tinha turismo de massa até a década de 1950, recebia mais de 44 milhões de estrangeiros por ano em fins da década de 1980, um número ligeiramente superado apenas pelos 45 milhões da Itália.” (HOBSBAWN, 1995: 259).

elementos importantes para o funcionamento do governo. O desenvolvimento do modo de produção capitalista na Espanha apresentou-se fortemente marcado pela intervenção estatal na proteção ao mercado interno e também por uma forte repressão sobre o movimento sindical espanhol. Além combater a construção de uma oposição política ao regime, reprimir a reorganização do movimento operário cumpria o papel de impedir também a ascensão de mobilizações populares de reivindicações por reajustes salariais, pois os aumentos salariais poderiam comprometer o planejamento econômico governamental naquele momento.

Ao longo de décadas no poder, a ditadura de Franco reprimiu toda e qualquer oposição ao seu regime. Partidos de oposição e sindicatos independentes foram perseguidos e colocados na ilegalidade, seus membros foram presos e diversos foram assassinados. O regime franquista realizou uma intervenção na estrutura dos sindicatos e reorganizou o modelo sindical sob o seu total domínio. A combinação entre o controle da economia e o controle das relações de trabalho foi importante na implementação do projeto econômico governamental. O aparato repressivo do regime permitiu que o empresariado reorganizasse os processos de trabalho do modelo produtivo nos moldes que mais lhe interessavam. Como apenas as características repressivas do regime não eram o bastante para execução do projeto econômico, algumas concessões por parte do governo foram feitas aos trabalhadores através de garantias jurídicas de direitos trabalhistas como o salário mínimo e a estabilidade no emprego, além da regulamentação da jornada de trabalho. (COSTA, 2010: 507).

O modelo econômico do período foi organizado com uma divisão da produção em base a um pequeno setor de grandes empresas públicas com acesso tecnológico e uma parte numericamente mais ampla de pequenas empresas do setor privado, produzindo para o mercado interno com baixa capitalização e pouca qualificação profissional.

Essa estrutura produtiva foi modificada com processos de privatização de empresas públicas e com a aposta de algumas empresas que buscavam disputar espaço no cenário internacional. Nas décadas posteriores, os processos de ajuste neoliberal que a Europa vivenciou também foram executados na Espanha e o país sofreu pressões para reorganizar o seu modelo buscando competitividade no mercado externo. Esses ajustes também se expressaram através de medidas que afetaram fortemente o mundo do trabalho.

No governo do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE)6, entre 1982 e 1986, foram realizadas diversas reformas sociais e políticas. Para Marcia Costa (2010) a partir da pressão dos movimentos sociais organizados, algumas medidas foram tomadas para a redução das desigualdades com aplicação de políticas públicas de bem estar social:

"Nesse período, prevalece a política dos pactos nacionais, por meio da qual as centrais sindicais e outros movimentos sociais atuaram como fortes protagonistas no avanço de conquistas sociais e políticas importantes:

expansão dos serviços públicos, com destaque para os investimentos no campo da saúde, da educação e da infra-estrutura urbana, e maior democratização das instituições políticas, especialmente, dos canais de interlocução com os empresários e com o governo". (COSTA, 2010: 505).

Apesar das medidas na área social, contraditoriamente, o governo social-democrata de Felipe Gonzalez também foi responsável por executar medidas de ajuste neoliberal que afetaram o modo de vida da classe trabalhadora espanhola, como a desregulamentação das regras de emprego. Como argumento, o governo afirmava serem medidas necessárias para combater a recessão e o desemprego, que em 1994 chegou ao patamar de 24% da população economicamente ativa.

Para Perry Anderson (1995), a estagnação do modelo econômico do pós-guerra se apresentou com a recessão provocada pela crise do petróleo em 1973, em combinação com altas taxas de inflação e baixas taxas de crescimento, o que abriu espaço para a aplicação do ideário neoliberal7. Friedrich Hayek, um dos principais defensores do modelo neoliberal desde 1944, argumentava que a desigualdade era um valor positivo e afirmava que a culpa pela crise devia ser creditada ao poder de pressão do movimento sindical, pois suas reivindicações por reajuste salarial e a exigência de políticas públicas de cunho social impediriam o acúmulo de capital. Assim, as medidas a serem tomadas deveriam considerar a diminuição do orçamento público com os gastos sociais, o enfrentamento ao poder de mobilização dos sindicatos (inclusive com a aceitação de níveis “naturais” de desemprego), a redução de impostos sobre altos rendimentos, entre outras medidas.

6 Para uma posição sobre o período do governo do Partido Socialista Operário Espanhol, ver: ARCE, J. M. M.

La época socialista (1982-1996). III Simposio de Historia Actual. Logroño, Instituto de Estudios Riojanos, La Rioja. pp. 127-142, 2002.

7 JERÔNIMO DE FREITAS, A.; THURY, L. A. O poder das ideias e as ideias do poder: a vitória da convenção neoliberal a partir da crise econômica mundial da década de 1970. In Oikos volume 9, nº 2 pp. 93-119,

NEI/UFRJ. Rio de Janeiro, 2010.

A eleição de Margaret Hilda Thatcher, na Inglaterra, em 1979, e a de Ronald Wilson Reagan nos Estados Unidos, um ano mais tarde, foram os governos que ficaram marcados por iniciarem a implementação do programa neoliberal, seguidos por diversos países ao norte da Europa Ocidental. Como medidas de governo, Thatcher elevou as taxas de juros, baixou os impostos sobre altos rendimentos, aboliu os controles sobre os fluxos financeiros. No que diz respeito às relações de trabalho, seu governo atuou fortemente para enfraquecer o movimento operário sendo responsável por elevar os níveis de desemprego, enfrentar e reprimir greves8, impor uma nova legislação contrária aos sindicatos, além de cortar gastos sociais. O governo Thatcher, ainda seguindo o receituário neoliberal, executou um amplo programa de privatizações nas áreas de habitação, indústria do aço, eletricidade, petróleo, ferrovias, gás e água.

No restante do continente europeu o quadro de governos conservadores era alterado com a eleição de governantes ligados ao campo político social-democrata, com Benedetto Craxi na Itália, Mário Soares em Portugal, Andréas Papandréu na Grécia, François Mitterrand na França e Felipe González na Espanha. Segundo Anderson (1995), esses governos fracassaram em combater o modelo neoliberal:

“Na Espanha, o governo de González jamais tratou de realizar uma política keynesiana ou redistributiva. Ao contrário, desde o início o regime do partido no poder se mostrou firmemente monetarista em sua política econômica: grande amigo do capital financeiro, favorável ao princípio de privatização e sereno quando o desemprego na Espanha rapidamente alcançou o recorde europeu de 20% da população ativa”. (ANDERSON, 1995).

Ao fim do seu governo, González não oferecia nenhuma mudança significativa do ponto de vista da economia que pudesse anular o desgaste de ter implementado medidas neoliberais. O desemprego e as medidas recessivas, além dos casos de corrupção, reformas na previdência e na legislação trabalhista, altas taxas de juros e limitações dos gastos públicos, colocou para os trabalhadores um sinal de igual entre o governo socialista e os governos da direita.

No documento Washington Luis de Assis Pinheiro.pdf (páginas 32-37)