A eleição de Margaret Hilda Thatcher, na Inglaterra, em 1979, e a de Ronald Wilson Reagan nos Estados Unidos, um ano mais tarde, foram os governos que ficaram marcados por iniciarem a implementação do programa neoliberal, seguidos por diversos países ao norte da Europa Ocidental. Como medidas de governo, Thatcher elevou as taxas de juros, baixou os impostos sobre altos rendimentos, aboliu os controles sobre os fluxos financeiros. No que diz respeito às relações de trabalho, seu governo atuou fortemente para enfraquecer o movimento operário sendo responsável por elevar os níveis de desemprego, enfrentar e reprimir greves8, impor uma nova legislação contrária aos sindicatos, além de cortar gastos sociais. O governo Thatcher, ainda seguindo o receituário neoliberal, executou um amplo programa de privatizações nas áreas de habitação, indústria do aço, eletricidade, petróleo, ferrovias, gás e água.
No restante do continente europeu o quadro de governos conservadores era alterado com a eleição de governantes ligados ao campo político social-democrata, com Benedetto Craxi na Itália, Mário Soares em Portugal, Andréas Papandréu na Grécia, François Mitterrand na França e Felipe González na Espanha. Segundo Anderson (1995), esses governos fracassaram em combater o modelo neoliberal:
“Na Espanha, o governo de González jamais tratou de realizar uma política keynesiana ou redistributiva. Ao contrário, desde o início o regime do partido no poder se mostrou firmemente monetarista em sua política econômica: grande amigo do capital financeiro, favorável ao princípio de privatização e sereno quando o desemprego na Espanha rapidamente alcançou o recorde europeu de 20% da população ativa”. (ANDERSON, 1995).
Ao fim do seu governo, González não oferecia nenhuma mudança significativa do ponto de vista da economia que pudesse anular o desgaste de ter implementado medidas neoliberais. O desemprego e as medidas recessivas, além dos casos de corrupção, reformas na previdência e na legislação trabalhista, altas taxas de juros e limitações dos gastos públicos, colocou para os trabalhadores um sinal de igual entre o governo socialista e os governos da direita.
baseava-se a ideia de que os imigrantes poderiam contribuir com o momento que o país vivia.
A elite brasileira ainda mantinha uma antiga preocupação, datada do século anterior, acerca do tipo de estrangeiro que serial ideal para viver no país. A maioria dos espanhóis que chegavam ao Brasil na metade do século XX se direcionava para o estado de São Paulo, em segundo lugar o maior desembarque era no Rio de Janeiro.
No pós-guerra, as discussões em torno da imigração espanhola para o Brasil demonstraram-se fator significativo para as relações diplomáticas entre os dois países. A diplomacia brasileira em Madrid percebeu a necessidade de estabelecer um acordo com a Espanha sobre o tema para atrair um tipo de imigrante que estivesse de acordo com o perfil dos modelos étnicos e políticos defendidos pelo governo de Getúlio Vargas. Para a elite brasileira, os espanhóis faziam parte do que seria o tipo de imigrante ideal pelo fato de serem brancos e católicos. (SOUZA, 2009: 255).
Eram dois os principais tipos de migrantes que o governo brasileiro queria atrair: o agricultor e o de formação técnica, este, muito importante para um projeto de desenvolvimento industrial, aquele para contribuir com o adensamento populacional do país.
(SOUZA, 2009: 255). Se por um lado, a imigração espanhola seria bem vinda, por outro, havia que se ter alguns cuidados, pois, um movimento migratório espontâneo poderia fazer com que o país recebesse imigrantes indesejáveis. Assim, era necessário controlar esse fluxo de pessoas, ordenando as formas de deslocamento. A diplomacia brasileira passou a orientar os seus trabalhos neste tema a partir da busca de uma migração pautada em contratos de trabalho, o que não excluía a estratégia das cartas de chamada. Assim, um acordo formal entre os governos dos dois países poderia ser um passo importante para o controle do tipo de migrante desejado pelo Brasil. (SOUZA, 2009: 256).
Um ponto de fundamental importância para que o governo brasileiro tentasse estabelecer políticas para controle das pessoas que entravam em território nacional, foi a tentativa de impedir chegada de cidadãos espanhóis com histórico de participação política. Os resquícios da Guerra Civil Espanhola ainda eram bem vivos e a ditadura de Franco ainda perseguia ferozmente toda e qualquer resistência ao seu domínio. Recordemos, ainda, que eram bem vivas as memórias da ação do movimento sindical e anarquista nas primeiras décadas do século XX no Brasil, que contou também com a ativa participação de espanhóis.
(MENEZES, 2011).
O esforço do corpo diplomático dos dois países resultou na construção de um projeto
de acordo sobre migração, que foi enviado pela embaixada do Brasil, em Madrid, para o Itamaraty em 1953. No projeto, o regime de Franco propunha que somente os agricultores ficassem livres da apresentação da carta de chamada ou de contrato de trabalho.
Com o destino definido, algumas pessoas procuravam um despachante que pudesse facilitar a tramitação burocrática da documentação exigida pelo governo brasileiro. Por outro lado, diversas pessoas que buscavam um meio de se transladar ao Brasil, muitas vezes burlavam as exigências de diversas formas.
Questões como conseguir uma carta de chamada ou apresentar uma profissão entre as relacionadas como as de interesse do governo brasileiro, eram as preocupações que se manifestavam na organização para o deslocamento que podiam se resolver através de falsificações feitas por agentes de viagens. O mais importante naquele momento para quem pretendia buscar melhores oportunidades de trabalho, era ter acesso aos documentos que permitisse, de forma oficial, entrar no país de recepção. (PERES, 2003: 222). 9
Os vistos eram concedidos somente quando o candidato possuía passaporte com declaração de profissão. Junto a isso, era preciso apresentar um certificado profissional emitido com alguma facilidade pelos sindicatos ligados ao Ministério do Trabalho, pois, as autoridades espanholas não exigiam comprovação da profissão informada. (PERES, 2003:
241).
Apesar do esforço governamental para direcionar essa imigração através de normatizações, a maioria dos que se deslocaram o fez de forma autônoma. A assinatura do acordo de migração entre Brasil e Espanha seria realizada apenas em 1960, num momento em que o fluxo do deslocamento de espanhóis para o Brasil estava diminuindo consideravelmente.
As dificuldades enfrentadas para a reconstrução econômica da Europa no pós-guerra levavam a uma perspectiva não muito animadora, tampouco o continente africano ou asiático despertavam interesse nos galegos.
Para os espanhóis da Galícia, era no continente americano que estavam localizadas as melhores condições para as tentativas de um futuro melhor. Por conta de diversos atrativos, o
9 O Decreto nº 3.010, de 20 de Agosto de 1938, regulamentou a emissão de documentação para imigrantes.
Brasil recebia um olhar particularizado. O modelo de desenvolvimento do país e a aceitação governamental para a imigração foram fatores que concorreram neste sentido. Gerações anteriores de galegos já haviam feito esse trajeto, de modo que, através de familiares ou amigos, era possível conhecer um pouco do lugar de chegada. Ao apontar os fluxos de contatos anteriores entre o migrante e seus familiares e conhecidos, consideramos importante, a noção apresentada por Fernando Devoto das “cadeias migratórias” que reúnem e disponibilizam informações e contatos para os que migram. O termo, aprofundado pelo autor, foi concebido por pesquisadores australianos na década de 1960 e serve para caracterizar as redes de informações que se estabelecem entre os migrantes, sejam eles familiares ou conhecidos. (TRUZZI, 2008: 202).
Sobre a noção de “cadeias migratórias” para uma compreensão mais ampla do fenômeno do deslocamento, Fernando Devoto afirma que:
O conceito de cadeia migratória posto em circulação inicialmente no pós guerra pelos estudiosos australianos do grupo de Canberra, tem sido utilizado recentemente em numerosos trabalhos produzidos por pesquisadores europeus e norteamericanos.
A cadeia se revelou como um instrumento especialmente adequado para a compreensão dos complexos processos microsociais implicados nas migrações internacionais e para restituir um posto relevante nas análises explicativas das estratégias formuladas pelos mesmos grupos migrantes. A cadeia, enfim, ajuda a perceber os movimentos migratórios não como processos de ruptura, tal qual eram implicitamente considerados nos estudos clássicos dos anos sessenta, senão como um processo de interação recíproca entre o país de origem e o país de acolhida10. (DEVOTO, 1988).
Dessa forma, no pós Segunda Guerra observa-se a retomada de um fluxo migratório significativo em direção ao Brasil. Junto a italianos e portugueses, os espanhois estavam entre as nacionalidades com reconhecimento e legitimidade perante o governo brasileiro, devido a laços já marcados anteriormente. Mesmo que houvesse uma preferência por trabalhadores especializados por parte do governo brasileiro, também aportaram em solo brasileiro homens e mulheres sem um instrumental técnico. (SOUZA, 2009: 63).
10 No original: “El concepto de “cadena migratoria” puesto em circulación inicialmente em la segunda postguerra por los estudiosos australianos del grupo de Canberra, ha sido utilizado recientemente em numerosos trabajos producidos por investigadores europeus y norteamericanos. La cadena se ha revelado como um instrumento especialmente adecuado para la comprensión de los complejos procesos microsociales implicados em las migraciones internacionales y para restituir un puesto relevante em el análisis explicativo a las estratégias formuladas por los mismos grupos migrantes. La cadena, em fin, ayuda a percibir los movimientos migratórios no como procesos de ruptura, tal cual eran implícitamente considerados en los estudios clásicos de los años sesenta, sino como um proceso de interacción recíproca entre el país de origen y el país de acogida”. (DEVOTO, 1988: 3).
Os braços abertos do governo brasileiro respondiam a um momento de estratégia de crescimento baseada na industrialização. Em 1955, foi eleito Juscelino Kubitschek com pouco mais de três milhões de votos. O salto que o seu governo se propunha a construir se materializava na chave propagandística conhecida por "Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo". (SKIDMORE, 1982: 204).
A recepção do presidente Kubitschek, em 1956, no início de seu mandato, por Franco responde a uma necessidade do ditador espanhol na manutenção de laços diplomáticos de muito interesse naquele momento. Na ocasião, o presidente brasileiro foi homenageado, recebendo a mais alta insígnia do país, o cordão da “Grande Cruz Isabel, a Católica”.
Para acompanhar os acontecidos na Galícia o consulado brasileiro em Vigo enviava ao Itamaraty recortes com reportagens e artigos de jornais como o “Faro de Vigo”, notadamente franquista, que se relacionavam com o Brasil direta ou indiretamente, sendo que, em 1951, uma determinação do Ministério das Relações Exteriores tornou obrigatório o envio desse tipo de material. (PERES, 2003: 63).
No início do pós-guerra, o Brasil recebeu uma intensa migração de portugueses italianos e espanhóis. Entre as décadas de 1940 e 1960, aproximadamente 120 mil espanhóis se deslocaram para o Brasil, alguns desses chegaram através do Comitê Intergovernamental para as Migrações Européias (CIME)11. Sucessor da Organização Internacional para Refugiados, o CIME tinha como função ordenar processos migratórios relacionados a diferentes situações, como os deslocamentos relacionados a conflitos políticos, religiosos e étnicos, ou ainda, os movimentos migratórios com perfil econômico. (PERES, 2003: 34).
No Brasil, o Senado Federal aprovou a constituição do CIME em dezembro de 1956, que logo foi sancionada por João Goulart. Neste mesmo ano, também a Espanha passou a fazer parte do CIME. Assim, os primeiros espanhóis que vieram por intermédio de subvenção do CIME chegaram ao Brasil em 1957. Alguns detinham conhecimento técnico e foram aproveitados na indústria automobilística.
Uma outra parte de espanhóis, formada principalmente por galegos, participou do
“Plano de Reunião Familiar”. O projeto, iniciado em 1958, contava com o apoio da Igreja Católica através da ação da “Misión Católica Española” e tinha o intuito de trabalhar para a
11 O CIME foi organizado fora da estrutura da Organização das Nações Unidas, pois os EUA, que financiavam o comitê, não queriam a participação dos países do bloco socialista. (PROCHNOW, 2014).
reunião de membros de uma mesma família que havia ficado dispersa por conta da emigração.
Como parte do programa, foram incluídos principalmente idosos, mulheres e crianças.
A senhora Purificación Esteves foi uma das pessoas que emigraram participando desse programa. Nascida em fevereiro de 1944, em Pontevedra, ela chegou no Rio de Janeiro em agosto de 1962. Seu pai veio para o Brasil dez anos antes, mas a sua mãe ficou na Espanha com os cinco filhos do casal, quatro mulheres e um homem. Este morava com os avós paternos até ser chamado para se juntar ao pai em 1955. As dificuldades em acumular dinheiro e uma disputa familiar envolvendo a posse de um terreno foi um dos argumentos que justificaram a migração do restante da família.
Por sua vez, um irmão dele passou a perna nele, aí os pais dele deram esse terreno dele, então nunca mais quis voltar e aí chamou, a gente veio. Na época tinha, chamava de ‘Ação Católica’, não pagava nem a passagem, aí vinham os imigrantes.
Quando vejo aquele filme "Titanic", né? Estou me vendo dentro do "Titanic", lá embaixo, no porão, igualzinho. Muito imigrante mesmo que vinha. Então viemos pra aqui, já estava meu pai, chamou meu irmão e depois minha mãe com quatro mulheres e um homem, que um irmão já até faleceu.12
A maior parte dos espanhóis que se deslocaram ao Brasil neste período, porém, como já mencionado, o fez por conta própria. Alguns já possuíam contatos que quase sempre era de parentes familiares ou amigos que se encontravam, há tempo, em terras brasileiras.
O trabalho do governo brasileiro de convencimento acerca das oportunidades oferecidas pelo país aos estrangeiros também era um dado do período. Havia na Galícia, a partir de iniciativas do consulado do Brasil em Vigo, um trabalho sistemático de propaganda.
Na maioria dos casos, porém, para as pessoas que pensavam em emigrar, o modo mais confiável de se obter informações sobre a economia e o modo de vida no Brasil, era mesmo conversar com parentes, conhecidos e amigos de pessoas que já haviam se estabelecido em terras brasileiras.
A última grande leva migratória de espanhóis em direção ao Brasil ocorreu entre as décadas de 1950 e 1960, sendo que uma parcela desses imigrantes teve como destino o Rio de Janeiro. Observando este movimento, é possível constatar a continuidade de um fluxo de imigrantes oriundos da região da Galícia que remonta ao século XIX, o que denota uma relação de identidade já há muito construída.
Esses imigrantes ainda buscavam superar as difíceis condições de vida de sua terra natal, uma vez que a economia espanhola, quando não lhes reservava o desemprego, lhes
12 Depoimento de Purificación Esteves, em entrevista realizada em 28 de maio de 2011.
oferecia baixíssimos salários.
O senhor Enrique Babio, nascido em Sada, La Coruña, chegou no Rio de Janeiro em 1952. Carpinteiro de profissão, Babio, que já era casado, afirma que não teve coragem para trazer sua família. Deixou a esposa e o filho na terra natal e veio sozinho para o Brasil com a intenção de “pegar um dinheiro e já voltar”.
Ah, não havia, estava na pós-guerra. Tinha acabado a guerra de Espanha, tava a guerra da Alemanha e não havia, não havia nada. E mesmo quem conseguia um emprego pagava-se pouco. Eu tinha conseguido uma posição para a fábrica de armas, de carpinteiro. O término de uma culatra de uma metralhadora pra fazer, aprovaram, mas o que me iam pagar não dava para as passagens.13
A senhora Purificación Esteves também nos contou sobre as dificuldades que sua família passava no momento em que decidiram mudar de país.
Tinha meu pai e meu irmão, mas quem veio primeiro foi meu pai. Ele veio aqui em cinquenta e dois. Já tinha dez anos que ele estava aqui. Então, ele veio na época que a gente morava de aluguel e naquela época era pobreza mesmo.
Era na época do Franco, coisas assim, pão, comida, era tudo racionado. Então, meu pai veio pra cá porque os pais deles deram um terreno e aí ele veio pra aqui pensando de juntar um dinheiro e aí fazer uma casa lá. Só que com a gente, lá ficou minha mãe com cinco filhos, aí o dinheiro que mandava, na época o câmbio estava muito ruim e mandava dinheiro pra gente, então ele não conseguiu juntar o dinheiro para essa casa.14
O senhor Angel David Torres Garcia, músico e representante comercial, nascido em Pontevedra, já tinha três primos morando no Brasil quando decidiu também emigrar, chegando no Rio de Janeiro no ano de 1958.
A guerra começou em trinta e seis e acabou em quarenta, em trinta e nove. Depois começou a segunda guerra mundial, que acabou em quarenta e cinco. Quando acabou a de Espanha, entrou o Hitler, foi aquela turma toda invadiu a Polônia e começou a matar gente. Eu vim pra aqui, para o Brasil, ganhar dinheiro. Eu vim para aqui porque logicamente, não estava muito bom. Estava começando e tal, mas não estava muito bom naquela época. Se passava muita fome, eu vi morrer gente de fome, eu vi, um vizinho meu ali. Depois de sessenta, sessenta pra frente, melhora.
Eu fui à Espanha com o Franco.
Eu vim pra aqui porque eu tive uma menina lá, uma moça que a gente namorou e tivemos um filho. Então, eu sei que não teria vida ali. O que eu ia fazer ali? Eu ia morrer de fome? Então eu vim pra cá. Aqui eu comecei a arrumar um dinheirinho e depois ia voltar. Naquela época se casava por procuração. Ela casou com um irmão me representando, aqui eu casei com outra pessoa representando ela. Eu casei por procuração, depois ela veio com a menina, tudo legal. 15
13 Depoimento de Enrique Babio, em entrevista realizada em 26 de maio de 2011.
14 Depoimento de Purificación Esteves, em entrevista realizada em 28 de maio de 2011.
15 Depoimento de Angel David Torres Garcia, em entrevista realizada em 28 de maio de 2011.
Dado o seu isolamento na comunidade internacional, o regime político de Franco teve muitas dificuldades para organizar a economia do país no período pós-guerra. Um elemento que tornou ainda mais delicada a situação da economia da Espanha naquele momento, foi o fato de o país ter sido excluído do processo de reconstrução da Europa partir dos planos de investimentos que constavam no Plano Marshall.
Para o regime de Franco, a emigração era um instrumento auxiliar no sentido de funcionar como um regulador social. Assim, foi possível a manutenção de algum equilíbrio econômico e político, utilizando deliberadamente a migração como uma área de escape para as tensões sociais advindas da falta de perspectiva para os trabalhadores. A partida dos que emigravam era até desejada pelo governo, que desejava livrar-se do que considerava uma mão-de-obra excedente. Por outro lado, a remessa de divisas vindas do trabalho dos que partiram da Espanha contribuía com a reestruturação da economia do país.
Uma grande parte desta população considerada excedente pelo governo espanhol era da Galícia. Entre 1946 e 1959, as províncias espanholas de onde mais emigraram pessoas foram: Santa Cruz de Tenerife, Orense, Pontevedra, La Coruña, Lugo, Oviedo, Almeria, Vizcaya, e Barcelona, sendo que as quatro províncias galegas estão entre os primeiros lugares desta lista de classificação. (PERES, 2003: 209).
É possível reconhecer diferentes tipos de deslocamentos, ainda que pequenos e regionais, como parte dos modos de vida dos galegos, diferente do que podemos supor quando pensamos numa sociedade agrária, que teoricamente seria sedentária por conta da relação com a propriedade rural, seja com uma agricultura ou uma pecuária de subsistência como a desta região de Espanha.
Muitas vezes, já na infância, algumas pessoas eram afastadas da casa de seus pais e passavam por diferentes casas de familiares, de acordo com as possibilidades existentes para o seu desenvolvimento biológico e educativo. Na idade adulta, também alguns profissionais de ofícios mais tradicionais como pedreiros, afiadores, consertadores de guarda-chuva e castradores, também se deslocavam entre as cidades em busca de trabalho. Mesmo trabalhadores sem um ofício definido, muitas vezes precisavam deixar suas aldeias para buscar algum emprego que lhes garantisse alguma renda. Seu destino poderia ser o trabalho em campos distantes, como também poderiam seguir para as grandes cidades na busca de trabalho como operário não-qualificado. (PERES, 2003: 214).
O serviço militar, com duração de dois anos, e empregando uma grande parcela de jovens era outra forma de deslocamento para os galegos. Os conflitos militares e a emigração eram os principais motivos para a falta de homens nas forças militares. Uma parte destes jovens cumpria o serviço militar até mesmo no Marrocos. As mulheres também viviam a experiência da mobilidade em Espanha. Muitas delas deixavam suas casas nas aldeias para trabalharem nos campos, em outras regiões, ou ainda, como empregadas domésticas, amas de leite e babás nas grandes cidades.
Para os deslocamentos regionais, feitos dentro do território espanhol, a possibilidade de reencontro com os parentes, a casa, a aldeia, os amigos, era mais rápida e era mais palpável. No deslocamento para outro país, para outro continente, através do Oceano Atlântico, por vários dias de viagem, com altos custos financeiros, estava colocada ali, também uma barreira maior para o reencontro com o seu local de origem, seus amigos e parentes.
O deslocamento para outro continente, entretanto, era bem diferente, pois contava com ingredientes mais complexos. Implicava numa espacialidade outra, dadas as grandes distâncias percorridas. Certamente o sentimento era diferente. Por outro lado, o fato deste deslocamento, na maioria dos casos, ter alguma relação com fluxos de contatos anteriores entre parentes ou conhecidos, poderia tornar a emigração um pouco menos problemática.
Os galegos cresciam vivenciando a experiência do deslocamento para a América através de seus parentes e também dos conhecidos e amigos mais próximos. Ouviam contar sobre os que migravam de forma temporária ou em definitivo. Os que haviam obtido sucesso serviam como exemplo de que o trabalho do outro lado do Atlântico poderia trazer bons frutos, e mesmo os casos de dificuldades daqueles tantos outros que ainda lutavam por uma melhoria de vida, serviam como estímulo para a superação. Pior do que estava não podia ficar.
Ao conhecer diferentes casos de deslocamento e conhecer, também, pessoas que tinham contatos com migrantes que já viviam na América ou haviam retornado de lá, poderia- se ter uma noção das dificuldades e possibilidades que estavam reservadas para aqueles que tinham a intenção de trabalhar em outro continente.
Uma vez que a decisão de partir havia sido tomada era preciso começar a preparação, que envolvia, ainda, a definição sobre o destino do deslocamento. Entre os anos 1950 e 1960,