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O Centro Democrático Espanhol e os clandestinos

No documento Washington Luis de Assis Pinheiro.pdf (páginas 59-62)

2.2 Experiências associativas em São Paulo

2.2.2 O Centro Gallego/Centro Democrático Espanhol

2.2.2.1 O Centro Democrático Espanhol e os clandestinos

Percebemos que a comunidade espanhola, reunida em torno do Centro Democrático Espanhol, tinha um forte sentimento de solidariedade para com as famílias dos presos políticos da ditadura de Franco. Esse sentimento se expressava materialmente no envio de quantias em dinheiro para diversas famílias dos prisioneiros políticos.

Uma característica do Centro Democrático era a realização de atividades sócio- culturais através das quais se afirmavam iniciativas políticas clandestinas de auxílio aos familiares dos prisioneiros republicanos. Isso acontecia mesmo com a proibição por lei 20 da participação de estrangeiros em atividades políticas no Brasil.

Assim, podemos perceber que a entidade que, de modo geral, se constituía como uma associação étnica de ajuda aos que se preocupavam com seus problemas econômicos, também tinha características políticas ao recolher fundos para enviar aos familiares dos presos políticos do regime franquista.

Acompanhando um momento em que a conjuntura política brasileira vivia momentos de agitação, a atuação do Centro Democrático Espanhol no período foi marcada por uma intensa atuação política. Os membros do Centro Democrático entendiam a importância de ajudar as famílias dos presos do regime de Franco. Nesse período foi criada a "Seção Feminina", que organizava a arrecadação e envio de alimentos, dinheiro e roupas para as famílias dos presos políticos em Espanha. Segundo Florentina Canto: “Se formou, em 1963, a Seção Feminina, através da esposa do Guardiola, que veio do Uruguai. Então, desde esta época começamos a participar das atividades – bien, atividades todas escondidas, pois não poderíamos intervir na política do Brasil, sendo espanhóis ...” (GATTAZ, 1996: 76).

O intenso trabalho na preparação dos eventos também é recordado por Juana Naranjo:

As mulheres tinham no Democrático a Seção Feminina: uma vez por semana, nos reuníamos no Centro, fazíamos comida pra 400 pessoas, um puchero... a gente ia comprar, preparava, servia, lavávamos a louça e ainda pagávamos o nosso convite!...

A gente também tinha o bar no Centro Democrático e cada semana ficavam duas:

20 Ver: BRASIL. Decreto-Lei nº 383, de 18 de abril de 1938. “Veda a estrangeiros a atividade política no Brasil e dá outras providências”.

fazíamos a comida em casa, levávamos sem cobrar nada e o dinheiro das vendas a gente ia guardando para mandar para os presos. (GATTAZ, 1996: 76).

Florentina Canto nos mostra a participação de vários membros da comunidade espanhola que, de diferentes formas, ajudavam para que os eventos pudessem acontecer satisfatoriamente:

Nós fazíamos comidas, trabalhávamos, viu! Fazíamos comida para 120 pessoas! E tudo fazíamos nós! Pedíamos aos espanhois que sabíamos que tinha uma padaria, eu ia lá, pois ele era da minha terra: “não podia nos dar o pão? Estamos precisando de 200 ou 300...”. Íamos ao mercado central, falávamaos com todos: ao Ponces bonzinho - que em paz descanse - pedíamos garbanzos, ele nos dava grão de bico;

outro patrício nos dava batata, tinha um senhor que fazia chorizos... Preparávamos almoço para 200 ou 300 pessoas, mas ninguém nos ajudava, só nós, um grupo de mulheres fantásticas! Com vontade de fazer algo, com vontade de lutar, com vontade de ver o lucro, aquele dinheiro, que separávamos tanto para esse preso, tanto para mandar para a família ... (GATTAZ, 1996: 76).

A motivação para a organização da ajuda aos presos políticos e seus familiares, por uma parte da comunidade espanhola no Brasil, relacionava-se com uma rede de relações étnicas e também políticas, de oposição ao regime de governo espanhol, como mostra Juana Naranjo:

Foi por intermédio de Marcos Ana, que esteve aqui, que isso começou: ele nos mandava o endereço das famílias dos presos políticos na Espanha e cada uma escrevia para uma família... o dinheiro a gente mandava por meio do Marcos Ana: ia primeiro pra França, pra Espanha não podia ir... Quando chega o fim de ano, já tínhamos os nomes dos que estavam presos, então mandávamos pelo correio Nescafé, cigarros... Quando saía um da cadeia, a família nos escrevia e falava: 'Olha, ele já saiu, agora vamos dar o endereço de outra família que está precisando mais que a gente'. Mesmo que eles não tivessem nada, não tivessem emprego, quando saíam mandavam outro endereço pra gente ajudar ... (GATTAZ, 1996: 76).

Na primeira metade dos anos 1970, o Centro Democrático viveu um período de declínio de sua atividade e mudou de endereço diversas vezes para espaços cada vez menores.

Em 1973, a redução no número de sócios levou a instituição a uma fusão com a Casa de Espanha, momento em que diversas associações espanholas se unificaram em torno da Sociedade Hispano- Brasileira de Socorros Mútuos.

Diversos imigrantes - cujos depoimentos também foram recolhidos por Gattaz -, nos demonstram essa face política da instituição.

Para Antoni Vaño, “O Centro Democrático Espanhol foi realmente um centro político.

Não foi um centro recreativo, não foi um centro de imigração, não foi nada disso. Até o extremo de que quando a liberdade voltou à Espanha, o Centro se autodissolveu...”

(GATTAZ, 1996: 86).

Segundo Juana Naranjo:

Nesta época, os presos políticos já tinham saído das cadeias, a gente já não tinha nada pra fazer, então acabamos com o Centro Democrático em 75... Muitos amigos foram embora pra Espanha, não tinha mais possibilidade de manter o Democrático porque eram poucos sócios... E aí começaram a juntar as casas de Espanha...

(GATTAZ, 1996: 86).

Florentina Canto, por outro lado, nos diz:

Tivemos o Clube na Rua da Figueira, depois foi pra Conselheiro Furtado, depois fomos para a R. Wandenkolk e dali fomos para a Casa de Espanha... O que aconteceu? Quando morreu Franco, como a maioria era gente política, lhes pareceu que seria melhor voltar pra Espanha, tinha que haver uma mudança grande. Então a maioria foi embora quando viu que palitos tocava o rei ... (GATTAZ, 1996: 86).

Para Enrique García:

Todo o fundamento que sustentava o Centro Democrático perde sua essência e aí surge uma contradição: o que mantém o Centro Democrático? É a ditadura de Franco? Se não existisse a ditadura não se mantinha o Centro? (...) Acabou o franquismo, e ainda com as circunstâncias econômicas que passava o Brasil, muitos vão embora, porque vêem que aqui não têm futuro nenhum. O Brasil era o ‘país do futuro’, mas ficou sem futuro nenhum; as pessoas percebem e se ván. Além disso, alguns vão morrendo... Daquela 'velha guarda' - aqueles que chegam aos sessenta anos, que lutaram na Guerra Civil, que conheceram tudo - alguns vão morrendo. E não vem gente nova, por cauda das condições econômicas do Brasil, da evolução da Espanha e de outros países que te criam um futuro, então o Centro Democrático tende a desaparecer... (GATTAZ, 1996: 87).

Da mesma forma que ocorreu a fusão entre o Centro Democrático e a Casa de Espanha, diversas entidades espanholas, posteriormente, realizaram processos de fusão com a Sociedade Hispano-Brasileira de Socorros Mútuos, porque a diminuição de associados também atingia outras sociedades espanholas naquele momento.

Segundo Carmem Moreno:

Somos sócios de lá, mas já frequentamos menos, não é mais aquele canto que a gente tinha, em que éramos todos dos mesmos ideais. É uma coisa diferente, muito mais heterogênea. Antes havia uma motivação política para se reunir e aí não há política. (GATTAZ, 1996: 87).

Para Pascual Peiró Babiera:

Depois se manteve aqui o Hispano-Brasileiro, que é como te falei antes: a gente se junta de vez em quando, faz uma festinha, do tipo de uma região, de outra região:

uma vez é madrilenho, outra vez andaluz, outra vez é catalão, outra vez é galego...

Eles avisam: 'Olha, tem uma festa, tal dia...', então você paga os convites e participa.... (GATTAZ, 1996: 87).

Para os membros remanescentes do então antigo Centro Democrático Espanhol, o convívio e as relações no interior da Sociedade Hispano-Brasileira de Socorros Mútuos era diferente. O novo espaço não foi completamente assimilado. Assim, as amizades preservadas do tempo do Centro Democrático continuaram a ser cultivadas num outro espaço, de âmbito familiar. As mulheres que organizavam as atividades da Seção Feminina passaram a organizar reuniões nas próprias casas, inclusive com a participação dos seus maridos, como afirma

Carmem Moreno:

Nós continuamos nos reunindo nas casas a cada 15 dias à tarde - as mulheres continuaram. Inclusive os homens começaram a participar porque era o único meio deles se reunirem; no Clube era difícil e na casa de cada um ficávamos mais à vontade...

É mais um bate-papo informal, um encontro de amigos: se brinca e se fala do que acontece, da história que estamos vivendo.... (GATTAZ, 1996: 89).

Podemos perceber que os vínculos étnicos não necessariamente eram os únicos a serem considerados nas relações estabelecidas pelos imigrantes. As relações políticas e as afinidades ideológicas estabelecidas na convivência dentro do Centro Democrático, que ajudaram a construir uma identidade de grupo, foram importantes na no desenvolvimento das relações comunitárias entre essas pessoas, seja ao longo da existência da entidade, ou mesmo no momento posterior ao fim do próprio Centro Democrático.

Apesar de oriundos de diferentes regiões de Espanha e de terem opiniões políticas diferentes, a oposição ao regime ditatorial de Franco e o sentimento de solidariedade expresso no auxílio material aos familiares dos presos políticos, foram elementos base para a construção de uma identidade de grupo entre esses espanhóis.

No documento Washington Luis de Assis Pinheiro.pdf (páginas 59-62)