pautas menores, umas mais utópicas, outras mais particulares de cada colégio. Em alguns colégios, por exemplo, existia a demanda por exoneração imediata do diretor ou diretora.
Vale destacar que, segundo Simone Fátima Flach e Anita Helena Schlesener (2017), as
ocupações além de constituírem-se em exercício de liberdade de expressão, caracterizaram-se
como um movimento legítimo referendado pela Constituição Republicana de 1988, Estatuto
da Juventude e Estatuto da Criança e do Adolescente.
Mal completava um mês de aula e, no dia 10 de março, logo pela manhã, os alunos trancam os portões do pátio e realizam um protesto contra a direção da escola. A polícia é chamada para conter a revolta e, mesmo assim, ela segue por todo o dia, continuada pelas turmas da tarde e da noite. Durante toda a semana, são feitas manifestações relâmpagos – a qualquer momento os alunos descem para o pátio e protestam. A diretora se reúne com alguns representantes dos estudantes e se compromete a cumprir uma série de reivindicações feitas por eles. Passado dois meses sem que nada fosse cumprido, ocorre uma manifestação, e a diretora ameaça cinco alunos de expulsão.
Depois disso, o movimento entra em refluxo e praticamente desaparece. [...]
No segundo semestre uma aliança firmada entre os alunos, funcionários, professores e o sindicato dos professores se compromete a retomar a mobilização. Em meados de novembro, todos paralisam os trabalhos e convocam a comunidade e os pais a protestarem em frente à escola. No mesmo mês, os alunos boicotam o SARESP e participam de um ato junto a outros colégios contra a prova. Em dezembro, consegue uma reunião com o Secretário de Educação, Paulo Renato, e exigem a saída da diretora. Mas o ano acaba sem nenhuma resposta.
No entanto, logo no início de 2010, o governo do Estado anuncia a remoção da diretora e a nomeação de uma nova gestão. Os alunos comemoram a vitória com um gosto amargo na boca: embora a derrubada da direção expressasse a força que os estudantes haviam conquistado, a nova administração não seria escolhida pela comunidade escolar, como eles queriam, mas pelo governo.
Após a conquista, o movimento desmantelou. Grande parte dos estudantes envolvidos na luta concluiu o Ensino Médio e deixou a escola. Os poucos que restaram, estavam dispersos. Embora tivessem o projeto de construir um grêmio que fosse capaz de dar continuidade a essa batalha e manter os alunos organizados, não conseguiram fazer nada nesse sentido. Tudo voltara a ser como antes, e a nova diretoria logo se mostrou tão autoritária quanto a anterior. Os estudantes não tinham mais força para se levantar contra ela e foram se conformando. Mas, no fundo, muitos continuam revoltados com a escola e guardam a mesma raiva que os alunos tinham em 2009. E enquanto for assim, eles tem tudo para se organizar de novo. (O MAL EDUCADO – JORNAL – 09/2012 apud CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 60-61)
A segunda foi a Poligremia, articulação entre grêmios de diversas escolas particulares e estaduais (incluindo a Vieira) que durou de 2010 a 2011. No ano de fundação do coletivo O Mal Educado, quatro estudantes que participaram da Poligremia escreveram um artigo que foi publicado no site Passa Palavra denominado “A experiência da Poligremia – autocrítica em busca de um sentido histórico no movimento secundarista” em que resgatam e registram a história desta iniciativa como também exploram características estruturais do movimento estudantil secundarista que são atuais para se pensar a luta contra a “reorganização” e seus desdobramentos posteriores.
No artigo os estudantes ressaltam que o ritmo imposto pelo ciclo de três anos atrapalha a formação de organizações estudantis duradouras. Nesse sentido, parece que o movimento secundarista está sempre (re)começando, já que torna-se difícil para os mais velhos passarem suas experiências aos mais novos, o que faz com que os estudantes continuem a cometer os mesmos erros das gerações anteriores.
A mobilização da Poligremia se deu em torno da organização de um festival de curtas-
metragens feitos pelos próprios alunos. Com o seu fim ocorreu um vazio em termos de
objetivos práticos e concretos, somente preenchido no começo de 2011 pela luta contra o aumento da tarifa de ônibus lançada pelo Movimento Passe Livre de São Paulo (MPL-SP).
Foram feitas manifestações descentralizadas nos bairros das escolas e suas formas de ação remetem ao movimento dos estudantes em 2015, como o uso do jogral (que também faz parte do repertório do MPL) e os trancamentos de ruas e avenidas. Foram realizadas também exibições de um documentário sobre o movimento no Chile (A rebelião pinguina) como forma de evocar “[...]‘experiências práticas [...] numa tentativa de provocar mobilização’, ação que retornou em 2015 quando este filme foi divulgado na fase das manifestações de rua da luta contra a “reorganização”, a fim de demonstrar para os estudantes a eficácia histórica da tática de ocupação”. (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 63).
A Poligremia tinha se proposto desde o início a tarefa de auxiliar na criação de grêmios, e a assessoria mais significativa foi junto a um grupo pró-grêmio formado por alunas do Vieira.
Como a mobilização de 2009 que derrubou a diretora não conseguiu formar um grêmio, esta experiência foi se perdendo nos dois anos seguintes. Um professor de sociologia que apoiava a criação do grêmio tinha proximidade com o MPL-SP e fez a ponte com integrantes da Poligremia. Assim, foi possível também as alunas de 2011 conhecerem um ex-aluno da turma de 2009, que compartilhou com uma nova geração a experiência da luta anterior. Foi a rede de contatos e a sociabilidade em torno do MPL-SP que permitiu o encontro das duas experiências que resultaram na fundação do coletivo O Mal Educado. A participação na mobilização pró-grêmio em 2011 no Vieira levou os ex-membros da Poligremia a uma reflexão crucial sobre os obstáculos à organização estudantil nas escolas do estado, como a “burocratização da relação entre o grêmio e a escola, personalização e perseguição individual”. Mais do que uma “cartilha pré-fabricada com um passo-a-passo abstrato”, seria necessária
“a conexão com outras experiências de mesmo sentido, do presente e do passado”.
(CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 63).
Ainda segundo o artigo, a Poligremia não deveria ter ido buscar fora da experiência dos grêmios um sentido para sua identidade, uma vez que o vácuo de identidade foi em parte preenchido pela luta contra o aumento da tarifa. Assim, com a angústia de que sua experiência não se perdesse e sob o desafio de dar continuidade às suas práticas que se reuniram, no primeiro semestre de 2012, aquele ex-aluno do Vieira se une a remanescentes do Poligremia e outros jovens que haviam participado de uma experiência autogestionária do grêmio da ETESP e deram início ao coletivo O Mal Educado. Como primeira ação criaram um jornal homônimo que tinha por objetivo seguir o diagnóstico traçado pelo artigo “A experiência da Poligremia...” e, assim, impedir que o ciclo do Ensino Médio, estruturalmente restritivo para a luta dos estudantes, apagasse a sua história, suas experiências e vivências.
Registrar a memória das lutas passadas possibilitaria uma troca de experiências tendo em vista o fortalecimento do movimento no presente e no futuro.
A primeira edição do jornal reuniu algumas experiências de luta: a derrubada da diretora do Vieira (2009); o envolvimento da Poligremia com atos contra o aumento da tarifa (2011), um grupo de estudos feministas de uma escola municipal (2011); a experiência de autogestão da Etesp (2010); e o boicote ao Saresp (organizado desde 2009) – sendo que esta ultima ação se repetiria em 2015, agora inserida no contexto da luta contra a “reorganização”. (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 64- 65)
Em 2013 alguns participantes saíram. O coletivo permaneceu a maior parte do ano dedicado à pauta dos transportes públicos se juntando ao MPL-SP. Somente no fim do ano é que se volta à pauta da educação com a publicação da cartilha “Como ocupar um colégio?”; a atuação junto a EE Antonio Manoel Alves de Lima (Jardim são Luís, Zona Sul de São Paulo);
e a organização de um encontro de grêmios autônomos da Zona Sul.
A ideia de traduzir, adaptar e publicar a cartilha veio do fato de que um dos participantes do coletivo tinha ido ao Chile em 2011 para acompanhar o movimento dos estudantes secundaristas para conhecê-lo de perto, como explica outro integrante do coletivo:
Foi um negócio, assim, fortuito. Meio que... um dia vai acontece ocupação de escolas no Brasil e a gente precisa... se a gente traduzir isso vai ajudar bastante a gente. [...] Era uma ideia: “Vamo deixar mo gatilho...”. Um dia os estudantes vão usar isso daí. [...] Foi um negócio despretensioso: traduzimos, deixamos lá, quando a gente viu que dava pra usar...” (O MAL EDUCADO – ENTREVISTA – 23/01/16 apud CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 65-66)
O coletivo tentou apresentar a cartilha em outras ocasiões anteriores ao movimento contra a “reorganização” em 2015, mas sem sucesso.
Em 2014 foram realizados seis Encontros de Estudantes, voltando a pauta do coletivo a ser a educação pública – alguns temas destes encontros foram “educação popular” e
“educação libertária e anticapitalista” – mesmo que a questão dos transportes ainda permeasse os debates.
Já em 2015 o coletivo esvazia-se contando com apenas cinco integrantes. Contudo, foram os próprios estudantes que demonstraram espontaneamente vitalidade, autonomia e disposição para lutar, ao se aliarem à greve dos professores da rede estadual e organizarem atos em seu apoio. O trabalho do coletivo neste período foi comparecer nestes atos, pegar contatos e registrar as manifestações e os trancamentos de rua. Uma militante do coletivo, estudante secundarista, explora como foram estas manifestações dos alunos:
O processo da greve foi muito louco. De repente a greve tava começando e tal, e aí nisso vários relatos de vários atos regionais sw estudantes, vários... Tem até uma foto que foi icônica pra mim. Os estudantes estavam na sala de aula e viraram as costas para o professor substituto que fuou a greve. [...] e eles assim: “Não, a gente não vai ter aula”. [...] [Tudo] puxado pelos próprios estudantes. Então foi um momento em que, o que a gente tinha, essa nossa ideia de atuação pra aquele momento, não era de explodir uma revolta. A gente queria conseguir os contatos,
fazer formação política pra essas pessoas, mas aí acabou que O Mal Educado ficou um pouco sem perna por causa desse processo. [...] A ideia da greve era de repente fazer funcionar processos futuros que pudessem fazer com que estudantes participassem das mobilizações. A gente nem faz ideia de que ia acontece reorganização até então. Então foi um momento em que a gente conseguiu muitos contatos, e esses contatos foram super úteis depois [...] e tals, tinha grupos de estudantes no WhatsApp e etc. [...] Então acho que a greve, assim, foi fundamental, se não tivesse acontecido antes, se antes os estudantes não tivessem... não se a greve não tivesse acontecido antes, se antes os estudantes não tivessem... não se a greve não tivesse acontecido, mas se os estudantes essa postura diante da greve, assim, de mobilização e etc. E no fim das contas foram os mesmos estudantes, né, que participaram desses processos, lá na [EE] São Paulo, enfim, e em outras escolas.
(CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 70).
Para ela, esta “postura diferente” seria consequência do impacto de Junho de 2013:
Então, essa é uma análise minha, eu acho que depois de 2013, essas coisas ficam muito mais fortes [...]. As pessoas se apropriaram de como fazer um ato, do porquê de fazer um ato, da facilidade de fazer um ato, travar uma rua... não é difícil. As pessoas veem no ato o tempo inteiro e isso fica no imaginário né? Isso se trabalha enquanto uma tática, às vezes ela é aprimorada, à vezes ela funciona, à vezes não. É uma questão de uma tática que se aprimorou e ficou aí como ferramenta pra ser utilizada pelas pessoas. Que as pessoas aprenderam, como usar um martelo, então vamos usar! Martelo de fazer ato. [...]”. (CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, 2016, p. 70-71)
A efervescência estudantil também é tratada pelo artigo “Escolas em luta em São Paulo:
pode a greve escapar do roteiro?” publicado no site Passa Palavra como resultado das manifestações de 2013. Entretanto, o impacto do corte de verbas no cotidiano escolar também é levado em conta: fechamento de turmas e períodos letivos, superlotação das classes, falta de recursos básicos como papel higiênico e água etc.
Desde o primeiro ato centralizado na capital contra a reorganização, no doa 06/10, O Mal Educado se fez presente, com seus panfletos, conversando com os alunos de diferentes escolas e pegando seus contatos. Além disso, compartilham na sua página no Facebook notícias, relatos e fotos de protestos por todo o estado. No dia do segundo ato, dia 09/10, o Facebook e o blog do coletivo é hackeado e eles perdem grande parte de seu material.
Somente no ato do dia 20/10 eles passam a distribuir uma versão impressa da cartilha. E, aos poucos, o coletivo, de quase extinto, passa a ganhar proeminência na luta dos secundaristas.
O nome “O Mal Educado” acaba ficando com uma fronteia fluida entre o núcleo mais duro de integrantes e ex-integrantes históricos do coletivo e novas pessoas, provenientes de outros coletivos e movimentos com uma cultura política similar. É o que vários dos militantes passaram a chamar de uma “Frente”. Os grupos que participaram do decorrer de outubro desta Frente d’O Mal Educado foram (em ordem alfabética): Comitê de Luta Direta Contra a Opressão Política e Social; Grupo Autônomo Secundaristas (G.A.S.); Intersindical ( Instrumento de Luta e Organização da Classe Trabalhadora); Luta do Transporte do Extremo Sul;
Movimento Passe Livre (MPL); Passa Palavra; Rede 51; São Miguel em Luta;
estudantes secundaristas e militantes não organizados em nenhum coletivo.
(CAMPOS; MEDEIROS; RIBEIRO, p. 73-74)
Com o avanço da política de “reorganização” e Frente lidera uma virada tática do movimento ao promover encontros regionais e divulgar a tática da ocupação através da cartilha e da exibição do documentário A rebelião dos pinguins, sobre a luta dos secundaristas chilenos. Os resultados destas assembleias foram díspares com a organização preparatória para algumas ocupações, mas em outras não. A estratégia contou ainda com o lançamento do hit “Escola de luta” pelo “MC Foice e Martelo”:
FOICE: “Salve, salve Martelo!”
MARTELO: “E, aí, Foice, firme mano?”
FOICE: “Firme não né, tio! Cê é loko, o Alckmin aí fudendo com os estudantes, mano!”
MARTELO: “Cê é loko, eu ouvi dizer, né mano, vai fechar uma á de escola. O cara fecha escola e abre cela, não tô nem entendendo, tio! Mas é isso, eu ouvi dizer que os estudante tá tudo organizado, né não?”
“O Estado veio quente Nóis já tá fervendo (x2)
Quer desafiar Não tô entendendo Mexeu com estudante Vocês vão sair perdendo
(por quê?)
O Fernão é Escola de Luta Andronico é Escola de Luta Ana Rosa é Escola de Luta Fica preparado
Que se fecha Nóis ocupa
(vai, vai)
Antonio Viana é Escola de Luta Salim Maluf é Escola de Luta Fica preparado
Que se fecha Nóis ocupa”
FOICE: “Estudante tudo zica, mano, só na luta autônoma organizada, nóis tem que incentivar essa porra, tio?”
MARTELO: “É isso, tio, é nóis por nóis, né mano? Porque ta fudendo pro nosso lado, se nóis não se organizar, mano, cê é loko tio. Mas é isso, o recado é esse né não? Pra cada escola que ele fechar nóis vai ocupar é duas, tio”
FOICE: “Cê é loko, não podemos deixar os companheiros pra trás não mano. Cê é loko, nenhuma escola a menos.”
MARTELO: “É isso, tio, nenhuma escola a menos, carrralho!”
(MC FOICE E MARTELO – YOUTUBE – 27/10/15 apud CAMPOS, MEDEIROS E RIBEIRO, 2016, p. 77-78)