• Nenhum resultado encontrado

O movimento estudantil no Brasil

No documento Diego Medeiros A escola d@s alun@s (páginas 117-120)

O início da coletividade das ações estudantis remonta a segunda fase do período imperial quando foram criadas as primeiras sociedade acadêmica que tiveram um papel importante no desenvolvimento político das iniciativas discentes. Mas somente com o Golpe de 1930 que os estudantes passaram a se organizar em entidades com maior peso como Juventude Comunista, Juventude Integralista, Federação Vermelha dos Estudantes e a União Democrática Estudantil. Essas organizações aceleraram e aumentaram o desejo pela criação de uma única entidade que representasse os estudantes e a luta por outra sociedade. Com isso, em 1937 foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE) e assim as formas de envolvimento estudantil em debates e decisões passaram a ser consideradas parte dos movimentos sociais, tornando-se um dos movimentos sociais de maior expressão do país.

Inicialmente a relação da entidade com o Estado Novo era de proximidade. Contudo, com o acirramento da Segunda Guerra Mundial os estudantes saíram à ruas contra o nazifascismo, se afastando assim do governo. Após o Estado Novo, a entidade estudantil passou a refletir as disputas que nasceram com o final da Segunda Guerra Mundial. A ideologia dos socialistas era evidenciada nas campanhas realizadas pela UNE neste período, tais como: O pronunciamento contra o fechamento do PCB (Partido Comunista Brasileiro) e a campanha pela criação da Petrobrás intitulada “O petróleo é nosso!”.

Até 1949 a UNE teve uma orientação de esquerda. Porém, a ala da direita passou a se organizar dentro do movimento estudantil formando a CAD (Coligação Acadêmica Democrática). No ano seguinte, essa ala venceu as eleições com apoio da presidência da república, que preferia uma UNE que não fosse de encontro às decisões de seu governo. Essa gestão permaneceu no poder até 1955 quando a esquerda voltou ao poder

Em meio a essas manifestações foi criada em 1948 a União Nacional dos Estudantes Secundaristas (UNES) que no ano seguinte mudaria de nome passando a se chamar União Brasileira do Estudantes Secundaristas (UBES).

A primeira grande luta da entidade após a sua fundação foi o contra o aumento das taxas

escolares, em 1950, que provocou uma greve geral no Rio de Janeiro e em São Paulo. Em

1956 os secundaristas pararam o Rio de Janeiro, então capital federal, com a célebre Revolta

dos Bondes, na luta contra o aumento da tarifa e por mais acesso e qualidade no transporte

público.

Na década de 60, a articulação da UNE tornou o movimento estudantil bastante visível no cenário político brasileiro. Seu principal ponto de manifesto era a necessidade de uma reforma universitária. Essa reforma propunha, dentre outras coisas, o aumento da autonomia dos universitários nas decisões dentro dos campus das universidades brasileiras, a contestação ao caráter antidemocrático do acesso ao ensino superior e à formação individualista dada aos profissionais que saiam das faculdades.

A partir de 1964 as mobilizações estudantis no Brasil foram conduzidas num campo político extremamente polarizado entre o Estado militar e a oposição estudantil.

Entre a promoção do crescimento das forças produtivas a partir de uma

“modernização conservadora” e o incremento da repressão, o 1968 estudantil brasileiro esteve marcado por importantes lutas, conectadas com outras lutas sociais, como as sindicais, e outras manifestações culturais pós-1964, que seriam silenciadas de forma radical com o AI-5. A morte de Edson Luis no dia 28 de março, a greve geral do dia seguinte, a “Passeata dos Cem Mil” do dia 26 de junho ou a repressão ao Congresso da UNE, realizado em Ibiúna, foram os principais marcos de um ciclo de lutas que seria seguido por um período de clandestinidade e exílio, em que a repressão e o arbítrio seriam a tônica dominante. (BRINGEL, 2009, p. 108-109)

Dez anos após o Golpe de 1964 reabriu-se uma estrutura de oportunidades políticas mais favoráveis à rearticulação dos movimentos sociais, entre os quais os estudantis, com as políticas de liberalização e “distensão” promovidas por Geisel. Na década de 1980 o movimento estudantil esteve ligado a mobilizações como o “Movimento pela Anistia” e as

“Diretas Já”, além de participar da Assembléia Constiuinte propondo cinco emendas – mesmo que apenas uma tenha conseguido mais de 100 mil assinaturas.

O movimento estudantil reaparece com força em 1992 compondo o movimento dos caras pintadas, que resultou no impeachment do presidente eleito Fernando Collor de Mello, acusado de corrupção. Contudo, o restante da década foi de apatia geral do movimento estudantil – que ficou limitado a questões internas e ao reporte de algumas questões por meio dos Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs) e demais “instituições estudantis” – ocasionada em grande medida, segundo Bringel (2009), pelas reformas neoliberais na educação.

Em fins da década de 2000 um novo ciclo de lutas se abre para o movimento estudantil:

entre 2007 e 2008 cerca de “[...] 30 universidades públicas de todas as regiões do País

assistiram à ocupação de suas respectivas reitorias pelos estudantes e/ou a protestos e

paralisações de considerável intensidade”. (BRINGEL, 2009, p. 114). Se num primeiro

momento as mobilizações eram respostas a demandas internas das universidades

posteriormente houve uma fator catalisador das lutas: “o lançamento, em 24 de abril de 2007,

do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), que contém cerca de quatro dezenas de

medidas, entre as quais o Decreto n. 6.096 que institui o Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI)”. (BRINGEL, 2009, 115).

As principais críticas ao REUNI eram os seguintes:

escassez ou ausência de diálogo no processo de elaboração (caráter antidemocrático); atentado contra a autonomia universitária (a eventual liberação de recursos estaria condicionada ao atendimento das diretrizes e metas estabelecidas pelo REUNI); ataque contra a democracia interna das instituições (exigência de novas estratégias e cronogramas) e seu caráter público (expansão das possibilidades de introdução do setor privado, especialmente o de cunho mais mercantil, com possíveis reflexos inclusive nas linhas de pesquisa); preocupação com números e metas, e não com a qualidade do ensino; ampliação do acesso à universidade sem o correspondente aumento dos investimentos feitos pelo Estado; REUNI como forma encontrada pelo MEC de viabilizar o projeto de “Universidade Nova” (este argumento foi muito utilizado na ocupação da UFBA, pois o dito projeto foi arquitetado por Naomar Almeida Filho, reitor dessa instituição). (BRINGEL, 2009, p. 116).

É importante destacar que a irradiação dessas ações coletivas não respondeu exclusivamente à convocatória de associações, centrais ou comitês de estudantes previamente constituídos, mas se deve a um processo em que primaram a conformação de novas assembleias mais horizontais e a ausência de uma liderança estudantil marcada, dando lugar inclusive para o questionamento à hierarquização, à burocratização e à centralização da organização estudantil no Brasil, características estas que também se manifestaram nas ocupações das escolas entre 2015 e 2016.

O aluno C.E. Irineu Marinho sinaliza em relação ao movimento secundarista que de

2003 a 2016 houve uma decadência de organização com uma queda brutal no número de

grêmios. Ele afirma que esse processo se deve ao crescimento do individualismo na

sociedade, a pressão para que os estudantes entrem no mercado de trabalho e às organizações

estudantis viciadas.

4 AS OCUPAÇÕES NO RIO DE JANEIRO

Se va enredando, enredando/ Como en el muro la hiedra/ Y va brotando, brotando/ Como el musguito en la piedra/ Como el musguito en la piedra, ay si, si, si

Volver a los diecisiete, Violeta Parra, 1966

No documento Diego Medeiros A escola d@s alun@s (páginas 117-120)