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Um movimento sui generis

No documento Diego Medeiros A escola d@s alun@s (páginas 104-107)

Maria Tereza Gohn (2000) enfatiza que existem dois “modelos” clássicos para se analisar os movimentos sociais: o culturalista e o classista. Mas ela defende uma terceira posição

que destaca a importância da cultura na construção da identidade de um movimento social, mas concebe os movimentos segundo um cenário pontuado por lutas, conflitos e contradições, cuja origem está nos problemas da sociedade dividida em classes, conflitos e contradições, cuja origem está nos problemas da sociedade dividida em classes, com interesses, visões, valores, ideologias e projetos de vida diferenciados. com interesses, visões, valores, ideologias e projetos de vida diferenciados. Entendemos que a análise sobre os movimentos sociais não pode ser separada da análise de classe social, mas também não podemos resumir os movimentos a algo determinado pelas classes. (GOHN, 2000, p. 11).

A seguir, Gohn estabelece algumas diferenças necessárias para definir movimento social. Em primeiro lugar, não basta ser um mero grupo de interesses para ser um movimento social: há de haver identidade relacionada a alguma causa. “Mas eles têm uma realidade anterior à aglutinação de seus interesses. Eles têm uma história de experiências culturais”.

(GOHN, 2000, p. 12)

Uma segunda diferença deve ser feita quanto ao uso ampliado da expressão ao se designar a ação histórica de grupos sociais, tais corno o movimento da classe trabalhadora. Aqui se trata de urna categoria da dialética, a de movimento, em oposição à estática. É a ação da classe em movimento e não um movimento específico da classe. Esta diferença possibilita demarcar dois sentidos para o termo movimento: um ampliado e geral, o outro restrito e específico. (GOHN, 2000, p.

12).

Em terceiro lugar, o movimento não se resume a uma ação coletiva, apesar das ações serem instrumentos dos movimentos sociais. “Um protesto (pacífico ou não), uma rebelião, uma invasão, uma luta armada, são modos de estruturação de ações coletivas; poderão ser estratégias de ação de um movimento social, mas sozinhos não são movimento social”.

(GOHN, 2000, p.12). E por fim, as ações coletivas dos movimentos acontecem em espaços

não institucionalizados, nem na esfera pública e nem na esfera privada.

Dito isso, a autora define assim movimento social:

[...] são ações coletivas de caráter sociopolítico, construídas por atores sociais pertencentes a diferentes classes e camadas sociais. Eles politizam suas demandas e criam um campo político de força social na sociedade civil. Suas ações estruturam- se a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em situações de conflitos, litígios e disputas. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva ao movimento, a partir de interesses em comum. Esta identidade decorre da força do princípio da solidariedade e é construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo. (GOHN, 2000, p. 13).

O movimento estudantil tem sido objeto de variados estudos que buscam apreender tanto as suas especificidades quanto os seus nexos com outras formas de organização da ação política. Para Bringel (2009), o movimento estudantil é um movimento social assim como o movimento de mulheres, camponeses, indígenas, etc. Contudo, ao assumir tal perspectiva deve-se atentar, avisa o autor, para três implicações que podem gerar confusão. Em primeiro lugar, a diferença entre ação coletiva e movimento estudantil: é comum que interpretes apontem como sendo movimento estudantil qualquer ação feita por estudantes; tais ações podem ou não fazer parte do movimento estudantil. Em segundo lugar, a diferença entre movimento estudantil e organização estudantil: só será movimento estudantil aquele conjunto de ações que não forem organizadas por instituições ou entidades. E em terceiro lugar, a diferença entre movimento estudantil em singular e movimentos estudantis no plural: quando se fala de “movimento” em singular não se deve ocultar a existência de diferentes movimentos estudantis, em plural, e as tensões que há entre eles.

Pelo que foi dito, já se vê que os movimentos estudantis são de difícil definição e caracterização. Feuer (1969

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apud BRINGEL, 2009), em obra clássica sobre o tema, destaca a característica peculiar do movimento estudantil: enquanto a maior parte das lutas sociais estão permeadas pela questão de classe, às lutas dos estudantes subjaz outro tipo de conflito, o geracional.

Compara assim o status esporádico e transitório do estudante na universidade com a trajetória mais estável ou contínua dos operários nas fábricas (algo menos nítido na atualidade com a incessante flexibilidade e precariedade dos mercados laborais), introduzindo categorias de análises distintas para compreender ambos os casos.

Desse modo, Feuer define o movimento estudantil como uma coalizão de estudantes inspirada em propósitos que procuram traduzir-se numa ideologia política, e impulsionada por uma rebelião emocional em que estão latentes a desilusão e a rejeição dos valores da velha geração. (BRINGEL, 2009, p. 101)

49 FEUER, L. The conflict of generations. The character and significance of students movements. Nova York/Londres: Basic Books Publishers, 1969.

Albuquerque (1977) chama a atenção para o fato de que o movimento estudantil tradicionalmente é um movimento social sem base social devido à sua origem social e ao fato dos estudantes estarem em mobilidade. Entretanto, afirma o autor, as orientações do movimento estudantil explicam-se em parte pela origem social (as camadas médias urbanas

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) e pelo papel que são chamados a desempenhar na sociedade. Desta forma, não se pode reduzir esse tipo de movimento, pelo menos na América Latina, a um simples movimento de idéias.

Com efeito, mais do que uma base social, o que falta ao movimento estudantil é a possibilidade de definir tal base social de maneira autônoma.

Temos, assim, duas das condições de existência de um movimento social: o movimento estudantil define suas orientações em função da problemática do desenvolvimento da sociedade e reclama sua parte no controle do desenvolvimento social, mas o faz em nome da classe operária, do campesinato, das populações urbanas em geral, e mesmo em nome da “burguesia nacional”. Esse papel de arauto de uma base social de empréstimo provém das origens sociais do meio estudantil. As camadas médias urbanas fornecem o maior contingente de universitários, mas não lhe fornecem o modelo de ator (econômico, social, político) em nome do qual possam estruturar-se reinvindicações em nome próprio. (ALBUQUERQUE, 1977, p.

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Ainda segundo Bringel (2009) o movimento estudantil é um movimento social sui generis. Neste sentido, cabe destacar tanto os elementos comuns aos demais movimentos, como também os rasgos característicos ou específicos. Assim, contém

[...] uma série de elementos mínimos, que também estão presentes nos demais movimentos sociais: definição de reivindicações, demandas e objetivos coletivos;

exposição dessa problemática a interlocutores políticos por meio de diferentes estratégias e repertórios de ações coletivas; mínima organização com certo grau de continuidade no tempo; caráter não institucional; trabalho comum que leva à construção de uma identidade coletiva, mesmo que incipiente. (BRINGEL, 2009, p.7)

Como rasgos específicos, o autor destaca o seguinte:

1) A maioria de suas lutas tem um objetivo específico de curto prazo, pois se trata de uma força social conjuntural. Contudo, isso não impede que existam mobilizações que permaneçam em um horizonte de médio ou longo prazo, dependendo da conjuntura e das forças sociais e políticas existentes; 2) Sua organização é pendular e variável. Não responde a uma forma de organização concreta, contando com diferentes graus de estruturas e organicidade; 3) Sua composição social está constituída principalmente por setores das classes médias, algo contemplado nos movimentos estudantis que estudamos tanto na Europa quanto na América Latina, e que os diferencia dos movimentos “populares”, conformados principalmente por um extrato mais pobre da população; 4) Possuem, com frequência, o que poderia ser identificado como uma “identidade secundária” ou de “baixa intensidade”; 5)

50 De 2010 a 2014 esse quadro parece ter mudado no Brasil já que 2 em cada 3 alunos das universidades federais estão nas classes D e E. Ver FORMENTI, Lígia, PALHARES, Isabela e VIEIRA, Victor. 2 em 3 alunos de universidades federais são das classes D e E. O Estado de S. Paulo. Ago. 2016. Dispovel em:

https://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,2-em-3-alunos-de-universidades-federais-sao-das-classes-d-e- e,10000070529. Acessado em: 19 de julho de 2018.

Converge um amplo espectro ideológico na composição dos movimentos estudantis, que normalmente varia desde a socialdemocracia até a esquerda mais radical, incluindo um amplo leque de “sensibilidades” de esquerda; 6) As demandas podem ter um caráter interno (reivindicações endógenas como residência universitária, restaurantes, discussões sobre o uso do espaço universitário etc.) ou externo (questionamentos que vão além das demandas de grêmio e que procuram incidir em discussões de maior alcance político, como a qualidade do ensino público ou o papel que deveriam desempenhar as universidades nas sociedades contemporâneas). Ainda que não se trate de uma divisão rígida entre ambas as dimensões, a hegemonia das demandas de caráter interno está ligada a um menor papel dos movimentos estudantis como movimentos antissistêmicos. (BRINGEL, 2009, p. 102-104).

No documento Diego Medeiros A escola d@s alun@s (páginas 104-107)