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1.2 O Estado nas margens

1.2.1 A favela como “margem do Estado”

Em diálogo com a teoria do Estado nas margens de Das e Poole, Leite sustenta que a

“territorialização da violência nas favelas – ou, em outros termos, a construção social das favelas como o território da violência na cidade – constitui o principal dispositivo de produção das favelas (e de seus moradores) como ‘margens do Estado’” (LEITE, 2012, p. 375). Segundo a autora:

Constituídas na percepção social como “margens” da cidade, enquanto território da violência e de uma sociabilidade avessa às normas e valores dominantes, as favelas são habitadas por uma população identificada por esta designação que a encompassa e que essencializa uma diferença desta em relação ao restante da população da cidade, bem como de seu local de moradia em relação aos bairros, que encontra expressão nas políticas de segurança pública ali praticadas (LEITE, 2012. p. 376).

de tipos de poder encarnados en la figura del policía o el patrón local. Como el homo sacer, estas figuras gozan de cierta inmunidad jurídica precisamente porque están configuradas como existiendo por fuera o con anterioridad a la ley” (DAS; POOLE, 2004, p. 29).

44 Original em espanhol: “(...) hombres cuyas habilidades para representar al estado, o hacer cumplir sus leyes, están basadas en el reconocimiento de la impunidad de los mismos para moverse entre la apelación a la ley y las prácticas extrajudiciales, que son claramente representadas como permaneciendo por fuera, o con anterioridad, al estado. (…) Tales figuras de autoridad local representan simultáneamente formas de poder privado altamente personalizadas y la supuesta autoridad neutral e impersonal del estado. Es precisamente por el hecho de que actúan como representantes del estado que pueden atravesar —y aquí lo turbio— la aparentemente clara separación entre formas de imposición y castigo legales y extralegales. (…) En este sentido, son el secreto público a partir del cual las personas representan la ley, la burocracia y la violencia, son las que juntas constituyen el movimiento del estado por detrás del reino de lo mítico, para unirse en la realidad de la vida cotidiana” (DAS; POOLE, 2004, p. 29ss).

Em “Um século de favela” Zaluar e Alvito enfatizam que “apesar do que se afirma com frequência na literatura sobre favela, esta já começa a ser percebida como um ‘problema’

praticamente no momento em que surge” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 10), resgatando documentos oficiais desde 1900 que retratam como as autoridades públicas viam essas localidades desde então. Dessa forma, “surgiram as imagens que fizeram da favela o lugar da carência, da falta, do vazio a ser preenchido pelos sentimentos humanitários, do perigo a ser erradicado pelas estratégias políticas que fizeram do favelado um bode expiatório dos problemas da cidade, o ‘outro’, distinto do morador civilizado” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p.

7). Cria-se assim um esquema dualista de conceber a cidade entre favela X asfalto, o qual remonta à dualidade brasileira usada em diferentes contextos “para expressar a superioridade de uma região, estado, cidade ou parte da cidade sobre outras regiões, estados, cidades ou partes da cidade” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 15). Destarte a favela é vista como “um espelho invertido na construção de uma identidade urbana civilizada”, assim como o mundo tradicional das regiões Norte e Nordeste do Brasil era contrastado ao mundo urbano do Sul e Sudeste.

Ao longo de um século de existência então a favela “foi representada com um dos fantasmas prediletos do imaginário urbano: como foco de doenças, gerador de mortais epidemias; como sítio por excelência de malandros e ociosos, negros inimigos do trabalho duro e honesto; como amontoado promíscuo de populações sem moral” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 17). Na década de 1980, no entanto, com a expansão do tráfico de drogas na cidade, o discurso sobre a favela mudou, sendo representada sobretudo como “covil de bandidos, zona franca do crime, hábitat natural das ‘classes perigosas’” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 18). Com isso autores querem enfatizar que “a despeito de diferentes roupagens, sempre de acordo com um contexto histórico específico, o favelado foi um fantasma, um outro construído de acordo com o tipo de identidade de cidadão urbano que estava sendo elaborada, presidida pelo higienismo, pelo desenvolvimentismo ou, mais recentemente pelas relações autorreguláveis do mercado e pela globalização” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 18).

Dessa forma, Zaluar e Alvito apontam que atualmente a favela enfrenta novos problemas

“em face do terror imposto tanto pela polícia, em repressão ao tráfico, quanto pelos próprios traficantes” (ZALUAR; ALVITO, 2006, p. 24). Em livro lançado em 2017, Zaluar discorre sobre os problemas advindos do proibicionismo e da política de guerra às drogas:

A política da guerra às drogas, iniciada no final dos anos 1970, coincidindo com o aumento da violência em quase todo o continente americano, criou mais uma vez o cenário da proibição de uma mercadoria desejada por muitas pessoas. Apesar dessa proibição e das políticas repressivas ao uso e ao comércio das drogas consideradas

ilegais, formas de violência altamente letal irromperam em quase todos os países da América Latina, formando novas configurações político-econômicas, estas vinculadas por sua vez ao crescimento das máfias e das redes do crime-negócio. Entre as drogas ilegais que se transformaram por causa da proibição em um mercado muito lucrativo, a cocaína, produzida e distribuída neste continente, criou um estilo de tráfico violento, seja por conta da maior repressão financiada pelos Estados Unidos, seja pelo desapreço à lei e ao Estado democrático de direito que marcou a história colonial e também a recente da América Latina (ZALUAR, 2017, p. 19).

Zaluar argumenta que esse estilo de tráfico violento “não floresce em qualquer área da cidade, nem em qualquer cidade, nem em qualquer país” (ZALUAR, 2017, p. 18). Nessa direção, Menezes argumenta que com o aumento dos confrontos armados decorrente da expansão do tráfico de drogas houve uma superposição do “problema da segurança” com o

“problema das favelas” (MENEZES, 2015). Assim, as favelas passaram a ser tematizadas principalmente através da “linguagem da violência urbana” e a partir de 1990, especialmente, o conflito social no Rio de Janeiro passou a ser representado como uma guerra (LEITE, 2012), retratada sobretudo em operações policiais em favelas, onde medidas excepcionais de guerra são admitidas a despeito de direitos democráticos (LEITE, 2012).

Menezes lembra que confrontos e mortes violentas em operações policiais em favelas foram inclusive estimulados pelo poder público através de um encargo especial criado em 1995 pelo então secretário de segurança do Estado do Rio de Janeiro, o general Nilton Cerqueira, em que “os policiais militares e civis do Estado do Rio de Janeiro que praticassem atos considerados de bravura pelo comando da corporação – que resultavam, recorrentemente, na morte de supostos criminosos – foram premiados com a chamada ‘gratificação faroeste’”

(MENEZES, 2015, p. 23, nota de rodapé), a qual foi extinta apenas nos anos 2000. Nesse sentido, Leite argumenta que:

(…) as elevadas taxas de homicídio e de “autos de resistência” nos territórios de maioria negra, as políticas de remoção e de despejo de sua população, os altos índices de encarceramento de negros pobres, a precariedade das políticas públicas de habitação, saúde e educação para o conjunto da população negra e desrespeito a suas tradições culturais e religiosas não são sucessivos produtos do acaso ou do mau funcionamento do Estado, mas traduzem o racismo institucional que opera no Brasil bem ao largo de qualquer perspectiva de integração social e urbana desses segmentos populacionais pela via da cidadania (LEITE, 2012).

Dessa forma, a autora destaca que no Brasil “as desigualdades sociais se somam e são elevadas pelas desigualdades raciais”, argumentando que pessoas negras:

(…) sofrem não só a discriminação racial devida ao preconceito racial e operada no plano privado, mas também e sobretudo o racismo institucional, que inspira as políticas estatais que lhes são dirigidas e se materializa nelas. Trata-se de discriminação racial praticada pelo Estado ao atuar de forma diferenciada em relação

a esses segmentos populacionais, introduzindo em nossas cidades e em nossa sociedade, pela via das políticas públicas, “um corte entre o que deve viver e o que deve morrer”, a faxina étnica (2012).

Esse fenômeno, no entanto, não é exclusividade do Brasil, como coloca Wacquant:

Favela no Brasil, poblacione no Chile, villa miseria na Argentina, cantegril no Uruguai, rancho na Venezuela, banlieue na França, gueto nos Estados Unidos: as sociedades da América Latina, da Europa e dos Estados Unidos dispõem todas de um termo específico para denominar essas comunidades estigmatizadas, situadas na base do sistema hierárquico de regiões que compõem uma metrópole, nas quais os párias urbanos residem e onde os problemas sociais se congregam e infeccionam, atraindo a atenção desigual e desmedidamente negativa da mídia, dos políticos e dos dirigentes do Estado (WACQUANT, 2001, p. 7).

O autor fala então de uma marginalidade urbana ou de “marginais da cidade” que independentemente do país são tratados como exóticos, improdutivos e brutais, receptores apenas do braço direito do Estado. Dessa forma há de fato:

(...) “zonas de guerra” domésticas que abrigam uma população alienígena despida das proteções e privilégios normais da lei. (…) com batalhas armadas e manobras, espionagem e execuções blindadas, controle de fronteiras e contagem de corpos, extensos “efeitos colaterais” e a vil demonização do “inimigo” pela mídia e as autoridades” (WACQUANT, 2007, p. 216).

No que segue, partindo de diferentes margens do Estado, buscamos ver quais os sentidos atribuídos às suas práticas na vida cotidiana de mães de vítimas da violência institucional. Qual o braço do Estado que mais se apresenta para essas mulheres? A partir da etnografia multissituada, acompanhei eventos públicos e privados, institucionais e não-institucionais, abertos e reservados. Participei de atos de protesto, audiências públicas, palestras, grupos focais, cursos de capacitação e entrevistas individuais.

1.3 Infância para quem? O Estado como sistema socioeducativo

Numa noite de maio de 2015 acompanhei Mônica em um debate no teatro da Universidade Federal Fluminense (UFF) em que ela havia sido convidada a participar.

Intitulado “Infância para quem? Desigualdade social e penalização da vida”, o debate tinha como objetivo debater a redução da maioridade penal no Brasil e questões relativas à violência e à proteção na infância. No palco estavam presentes uma professora universitária, uma

pesquisadora pós-doutoranda da área, um delegado da Polícia Civil e Mônica, mãe de vítima de violência institucional e ativista política. Mônica é a última a falar e faz uma fala forte e contundente sobre a infância “de filho de mulher preta”:

Infância de filho de mulher preta não tem, esse não tem mais infância. (...) A partir do momento que essa mulher engravida, que ela pare essa criança, essa criança já é estigmatizada, essa mulher já é cobrada, essa mulher já é praticamente vigiada todo tempo. A preocupação dessa mulher é tá sempre ocupando esse menino com alguma coisa. (...) Eles têm que tá sempre ocupado, porque eles desocupados significa que vão ser pegos a qualquer momento. Quer dizer, não é uma preocupação normal de uma mãe com um filho, no sentido só de você criar, dar amor e cuidar, e sim uma preocupação de perdê-lo, de a qualquer momento esse menino pode ser encarcerado, a qualquer momento esse menino pode vir a morrer, já começa assim, então que infância é essa? Infância que eu saiba é quando você tem tempo pra curtir, pra brincar, pra ir pro parque, pra passear, mas isso não existe pra filho de mulher preta. Que passear? Primeiro que essa mulher ela passeia aonde? Que ela trabalha mais que outra coisa, não existe passeio. E segundo que esse menino não pode andar solto, porque pode a qualquer momento estar cometendo um ato infracional.

Mônica desabafa ainda que quando vê uma mulher negra moradora de favela grávida já fica preocupada com o destino dessa mãe e da criança que vai nascer: “será que vai completar a maioridade?”, se pergunta. Relata ainda como essa mãe além de ser responsabilizada é culpabilizada:

Porque quando um adolescente autor de ato infracional vai cumprir medida desestrutura toda uma família, óbvio que desestrutura mais essa mãe, porque é a mãe sempre que está na linha de frente, é a mãe sempre que tá ali, carregando tudo e sendo apontada, é você que é culpada, é você que é ruim, foi você que não deu educação direito, por isso você tem um filho ladrão (...) Sempre a culpa é da mãe. Ninguém nunca quer parar pra pensar por que esse menino se tornou um adolescente autor de ato infracional. Será que sempre ele teve tudo? E quando eu digo tudo não é só no nível material não. Tudo é tudo, tudo que engloba se criar uma criança pra ela se tornar um adolescente e um homem. Ele tem todos os seus direitos adquiridos? Não, ele tem todos os seus direitos violados. Tudo sempre pra ele faltou, e pra essa mulher também.

Em outro evento público Mônica também destaca o contexto social em que seu filho entrou para a criminalidade:

Eles não nasceram com uma arma na mão (...) isso é um processo de todo esse apartheid, de toda essa discriminação (…) eu pari uma criança que se tornou um jovem e que as oportunidades de vida dele foram muito poucas e o que ofereceram pra ele foi a criminalidade. A forma dele poder comprar o que ele queria e o que eu não podia dar era participando do crime (…) meu filho foi um adolescente autor de ato infracional, no qual o próprio Estado foi o que produziu meu filho autor de ato infracional e depois veio a assassinar (...) A família se torna desestruturada quando a polícia bota a mão: ou o apreende ou o assassina.

Outra mãe, em entrevista individual realizada em sua casa no ano de 2015 numa favela da zona sul do Rio de Janeiro, argumenta que o Estado sempre esteve ausente em sua vida, desde a maternidade até a hora da morte do seu filho, ressaltando que “nenhuma mãe gera um filho pra ser bandido, nenhuma mãe gera um filho pra ser discriminado, pra ser maltratado”.

Desde criança seu filho tinha o sonho de conhecer o pai que morava nos Estados Unidos e ela conta que sempre procurou o serviço público tanto para tentar localizar o pai de seu filho quanto para conseguir acompanhamento psicológico para ele, sem nunca obter retorno. Para acumular dinheiro a fim de poder viajar e realizar seu sonho, então, aos 12 anos o jovem começa a roubar e aos 13 anos é internado no sistema socioeducativo.

Na literatura sobre a construção social do “menor” fica evidente que a infância nunca foi estendida a todos: há “menores” e há “crianças”. Vianna (1999) mostra que a emergência do

“menor” como problema social surgiu entre os anos 1910 e 1920, quando a polícia, partindo de uma perspectiva governamental higienista, detinha jovens que viviam nas ruas e classificava- os como delinquentes em potencial ou futuros criminosos, consolidando, assim, a imagem do

“menor”. Dessa forma, esses jovens eram destituídos de sua infância e tratados pelo Estado com repressão e encarceramento. Adorno, por sua vez, mostra que os jovens são transformados em “menores” ao “inscreverem sua história ao lado da história das agências de controle da ordem pública” (ADORNO, 1993, p. 193), sendo resultado “tanto da maneira pela qual o Estado realiza suas funções repressivas, quanto das relações e vínculos que estes adolescentes estabelecem com a polícia, a Justiça e o sistema socioeducativo” (NERI, 2008, p. 4).

Em termos de legislação específica para crianças e adolescentes, o Código de Menores de 1927 foi o pioneiro, popularizando a categoria “menor” e tornando-a “classificatória da infância pobre” (ALVIM; VALLADARES, 1988, p. 6). Destarte, o Código de Menores acabou se tornando um Código Criminal, pois criminalizou as crianças pretas e pobres no Brasil (NERI, 2009, p. 39). Somente em 1990 o Código é substituído pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), através da Lei Federal 8.069/1990, e o “menor” passa a ser tratado legalmente como “jovem em conflito com a lei”. O Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE) é então criado em 1993, constituindo-se no órgão do Poder Executivo do Estado do Rio de Janeiro responsável pela execução das medidas socioeducativas aplicadas pelo Poder Judiciário aos jovens em conflito com a lei.

Atualmente vinculado à Secretaria de Estado de Educação, o DEGASE hoje possui as seguintes unidades para cumprimento de medidas socioeducativas de internação: Centro de Socioeducação Dom Bosco (antigo Instituto Padre Severino), Centro de Socioeducação Ilha do

Governador, Centro de Socioeducação Gelso de Carvalho Amaral (CENSE-GCA), Centro de Socioeducação Professor Antonio Carlos Gomes da Costa, Escola João Luiz Alves (EJLA) (todos na Ilha do Governador); Educandário Santo Expedito (ESE) em Bangu, Centro de Atendimento Intensivo Belford Roxo (CAI-Baixada), Centro de Socioeducação Irmã Asunción de La Gándara Ustara na cidade de Volta Redonda e uma unidade específica para internação provisória, o Centro de Socioeducação Professora Marlene Henrique Alves na cidade de Campos dos Goytacazes. Além disso, totalizam em 16 as unidades para medidas de semiliberdade, os chamados Centros de Recursos Integrados de Atendimento ao Adolescente (Criaad). Cabe ressaltar que todas as unidades de internação estão hoje com problema de superlotação.

É a partir do contato com o DEGASE que Deize começa sua militância. Ela conta que quando seu filho foi cumprir medida de internação ainda acreditava no sistema. Todavia, ouvindo do filho e de outros jovens relatos de práticas de tortura e maus tratos dentro da unidade de internação, vendo marcas de agressão física no corpo do filho, Deize concluiu que o sistema não ressocializa:

(…) quando ele passou 45 dias naquele inferno eu pude ver que o Sistema Socioeducativo hoje, e no passado, não ressocializa ninguém. Meu filho chorava muito e relatava que os agentes cuspiam na comida, colocavam água, e, quando eles chegavam, no primeiro momento eles perguntavam: “Peito, lata ou costa?”. E, se a pessoa falasse “costa” ou falasse “peito”, levava no rosto da mesma forma, levavam tapas na cara. Eles apanhavam, então tinham visitas que eu chegava no sábado e meu filho estava de casaco e calça de moletom porque estava machucado. Não só ele como outros adolescentes. Então ali eu pude ver as marcas do sistema. Então eu passei a reclamar com o Diretor do DEGASE na época, e, pelo fato de eu reclamar, de ver meu filho machucado quando apanhava, na outra visita ele estava mais machucado ainda.

De chegar ao ponto de eu chegar numa visita e meu filho estar com uma marca de cinco dedos no rosto e o agente dizer pro meu filho: “Vai lá reclamar com a mamãezinha”. Isso pra mim me deixava indignada, porque eu não tinha a quem procurar. (...) Tinham jovens com tímpano estourado de tanto levar “telefone”, outro chorando e falando pra mãe: “Mãe, quando eu sair daqui, eu vou matar quem fez isso comigo”, porque ele já estava surdo de tanto que ele apanhava na orelha. Aquilo era revoltante, eu via os jovens cada vez mais revoltados. Essa fala desse jovem que estava com o tímpano estourado me marcou muito, foi uma coisa que até hoje eu não esqueci, foi no período de 2005. Ele conversando com a mãe dele: “Mãe, eu nunca matei ninguém. Mas, a partir de hoje, eu vou passar a matar”. A mãe dele começou a chorar, eu fui intervir e ele: “Tia, eu estou errado. Eu sei que eu tenho que pagar pelo que eu fiz, mas eles esculacham a gente o tempo todo aqui”. Muitas das vezes eu não queria saber dos problemas lá dentro, eu queria abraçar e beijar meu filho, ter meu filho naquele momento, nas poucas horas que eu tinha e eu queria aproveitar. Não só eu como todas as mães ali, porque era o resto da semana toda que a gente ia passar sem eles. Então, quando meu filho chegou em casa depois de cumprir o tempo no Sistema Socioeducativo, ele me disse que lá eles tinham uma madeira chamada “ECA”, e os agentes diziam que o “ECA” eram eles. Que quem sabia do Estatuto da Criança de do Adolescente eram eles. Que eles batiam e batiam muito. E depois de serem

“batizados” pelo ECA, eles apelidaram outra madeira de “Kelly Key”, foi logo quando a Kelly Key estava no auge naquela época. Eles passavam na galeria dizendo que “a Kelly Key ia cantar”, não deixavam os meninos conversarem, eles já se retraíam com

medo porque já sabiam que alguém iria apanhar, que alguém ia ser torturado. Água no alojamento, muito rato. (...) Cada vez que eu chegava na porta daquela unidade, eu tinha relatos de mães de jovens que morreram ou foram maltratados dentro do sistema.(...) Os adolescentes são penalizados da hora que entram até a hora que saem, porque, na hora que entram, eles têm que ficar nus, ficam de frente e de costas por três vezes e agacham, tem essa humilhação vexatória pra poder pegar a roupa e entrar no Sistema. Lá dentro, depois que eles passam aquele portão de ferro, é como meu filho dizia: “Mãe, depois que fecha esses portões de ferro, só Deus e nós sabemos o que acontece aqui”. (...) Ali eu pude ver que o DEGASE, que hoje eu chamo de “Sócio Tortura”, onde muita das vezes os jovens voltam ao mundo do crime novamente porque as pessoas não acreditam na sua mudança. (...) o interesse deles é marginalizar cada dia mais os jovens, negros e pobres da favela. O interesse deles é manter essa visão de que todo pobre, todo negro, todo favelado é marginal. E, uma vez que um jovem tem um antecedente criminal, passa por esse processo todo. Mas eu tive a oportunidade de um dia uma empresária ler a minha matéria no jornal, o qual o Extra publicou, que dizia “Menor debocha do Sistema e diz que é um Parque de Diversão”.

Isso repercutiu na vida do meu filho na época, e nessa época ele só não sofreu muita repressão porque essa empresária pagou R$30 mil do bolso dela para alguns agentes do Sistema para que ele não fosse maltratado ali dentro. (...) Quando eu ia na visita, diziam que meu filho ia conhecer o “Parque dos Horrores”, ia conhecer o “Trem Fantasma”, o “Castelo da Bruxa”. (...) E quando ele morreu, o que mais me chocou foi quem tinha avisado ao Extra que teve um jovem que morreu dia 1° de janeiro? Era o mesmo jovem de 2005 e eles descobriram que teve uma morte no “Parque de Diversão”. A minha família comprou o jornal e eu tive que reviver aquilo. A imagem dele sendo enterrado não me deixou tão assustada do que a exumação, porque ali eu pude ver todas as torturas que meu filho sofreu. Antes eu vi um relato de jovens dizendo que eles pegavam pau, cadeira, mesa. Bateram no meu filho dando cadeirada, perna de mesa dando na cabeça dele, as perfurações de vassoura que ele teve no corpo.

Tanto que o laudo diz que ele teve cortes contundentes, mas não diz quantos cortes ele teve e de que foi proveniente. Ele teve traumatismo craniano, mas não disse se foi de uma queda ou de pancada. E quando me disse que meu filho morreu de uma queda, eu vomitava pra poder provar que meu filho não morreu de uma queda. No laudo eles não especificam que foi uma queda e nem que foi uma pancada. Mas o do hospital foi bem claro, agressão física. Então o laudo do hospital foi aquilo que eu e minha família vimos, que as causas mortais foram mesmo agressão, o adolescente que tentou ajudar ele na época levou uma pancada e seis pontos na cabeça e teve um momento que ele veio na minha casa e me pediu desculpas por não ter conseguido ajudar meu filho.

Porque no momento que ele viu meu filho passar por tudo aquilo, também bateu medo de lhe acontecer a mesma coisa e ele teve que fingir que estava desmaiado enquanto ele via aquela cena de horror do meu filho sendo morto. Eram seis agentes. Seis. Eles alegam no depoimento deles que tiveram que contê-lo, porque ele era lutador de artes marciais. E o que mais me revoltou foi ele dizer que meu filho tentou escalar um muro de quatro metros, tinha graxa e ele escorregou na pia. O muro tinha graxa e ele caiu.

Agora, calculando a metragem, uma pessoa que tem 1,92 metros de altura, tenta escalar um muro de quatro metros, com apoio da pia, mesmo estando com graxa, dizer que ele teve um traumatismo craniano devido a isso? Um muro de quatro metros pra uma pessoa de 1,92 metros de altura? Os agentes foram indiciados pelo Ministério Público três anos depois, depois de muita luta e sofrimento, e quase que eu não consigo fazer a exumação. Os agentes demoraram três anos para serem indiciados e aquele não tinha sido o único caso porque depois do Andreu teve uma outra morte em novembro, do Cristiano. E no Cristiano disseram que ele tinha tido uma crise convulsiva de epilepsia, então ele batia a cabeça e por isso teve traumatismo craniano.

No mesmo ano. E na história do Cristiano eles foram indiciados mais rápido, enquanto na do meu filho não. (...) Meu filho apanhou muito, as fotos que estão no processo nem parece as mesmas que eu tenho, porque eles fizeram uma foto de péssima qualidade, mas mesmo de péssima qualidade eu pude perceber fratura de ossos na costela dele e eu apontei pro advogado o que era. Onde tinha ossos quebrados eles não tiraram fotos, mas uma acabou saindo e aparecendo o crânio partido, com uma marca de algo pesado no crânio. E foi aí que minha luta começou, não pela morte do Andreu porque ele se foi, passou por essas torturas e nos deixou tristeza, saudade, dor. Mas