Dialogando com a literatura sobre movimentos sociais trazida no início do capítulo, podemos tecer algumas considerações. No que diz respeito às demandas de mães de vítimas da
104 Original em espanhol: “a) las investigaciones orientadas a temáticas consagradas como son las violaciones a los derechos humanos en contextos dictatoriales, la movilización de asociaciones de familiares de víctimas, las empresas de patrimonialización del pasado en forma de museos, memoriales y sitios de memoria y los dispositivos de justicia transicional; y b) las investigaciones orientadas a las llamadas “víctimas de la democracia” cuya existencia objetiva se funda en condiciones otras que la suspensión del Estado de Derecho y que tienden a ocupar un lugar de menor notoriedad en la “jerarquía de la desdicha” en tanto no reúnen habitualmente las credenciales adecuadas” (VECCHIOLI; MARTINELLI, 2017, p. 8).
violência do Estado nos dias atuais, encontramos, por um lado, exigências inscritas no campo dos direitos sociais tradicionais, caraterísticas dos movimentos sociais do final de 1970 a início de 1980, com destaque ao direito à vida com reivindicações básicas para a sobrevivência, ressaltando o recorte de classe dessas mulheres, em sua maioria pobre e moradora de favela ou periferia. Muitas relatam a dificuldade material que tiveram (ou ainda têm) para se manter e criar seus filhos, bem como a ausência de políticas sociais onde residem. Em uma palestra uma mãe argumenta que se antes a luta era para que seus filhos estudassem, hoje as mães lutam tão somente para que eles fiquem vivos. Ana Paula também afirma que sua luta é pela vida, ou seja, essas mães demandam sobretudo a vida desses jovens negros que estão sendo assassinados, reivindicam que parem de matá-los. Argumentam que são seres humanos que deram vida a outros seres humanos, exigindo respeito pelas suas vidas. Por outro lado, também lutam pelo reconhecimento de seu luto como socialmente relevante bem como pela memória e limpeza moral de seus filhos assassinados, para que jovens negros de favela não sejam tratados como bandidos e para que mães negras de favela não sejam tratadas como “fábricas de marginal”, exigindo respeito para si e sua família e, como extensão, para todos os moradores de favela que são discriminados. Combinam destarte demandas universalistas com pautas multiculturalistas, igualdade e diferença, questões objetivas e intersubjetivas, de âmbito econômico e cultural.
Nesse sentido Fraser argumenta que grupos vulneráveis à discriminação de gênero e raça combinam simultaneamente eixos de injustiça tanto cultural/simbólico quanto socioeconômico. As categorias gênero e raça são paradigmáticas do que Fraser chama de comunidades bivalentes, que se diferenciam:
(…) em virtude tanto da estrutura econômico política como da estrutura da avaliação cultural da sociedade. Por conseguinte, quando são marginalizadas podem sofrer injustiças que se remetem simultaneamente tanto à economia política como à cultura.
Em resumo, as comunidades bivalentes podem ser vítimas tanto de uma distribuição socioeconômica desvantajosa como de um reconhecimento cultural inadequado, de forma que nenhuma dessas injustiças é uma consequência direta da outra, mas que ambas são fundamentais e equivalentes quanto às suas causas. Neste caso nem as soluções redistributivas por si mesmas, nem as soluções de reconhecimento separadas serão suficientes: as comunidades bivalentes precisam de ambas (FRASER, 1995, p.
12ss, tradução livre).105
105 Original em espanhol: “(…) en virtud tanto de la estructura económico-política como de la estructura de valoración cultural de la sociedad. Por consiguiente, cuando son marginadas pueden sufrir injusticias que se remiten simultáneamente tanto a la economía política como a la cultura. En resumen, las comunidades bivalentes pueden ser víctimas tanto de una distribución socio- económica desventajosa como de un reconocimiento cultural inadecuado, de forma que ninguna de estas injusticias es una consecuencia directa de la otra, sino que ambas son fundamentales y equivalentes en cuanto a sus causas. En este caso, ni las soluciones redistributivas por sí mismas, ni las soluciones de reconocimiento por separado serán suficientes: las comunidades bivalentes precisan de ambas”
(FRASER, 1995, p. 12ss).
No que se refere à questão de gênero, temos a exploração gerada pela estrutura econômico política baseada na divisão sexual de trabalho produtivo pago e trabalho reprodutivo não pago, bem como na divisão dentro do próprio trabalho assalariado entre ocupações profissionais melhores remuneradas. Soma-se a isso a depreciação cultural associada ao androcentrismo e ao sexismo, valorizando aspectos ligados ao masculino e depreciando aspectos ligados ao feminino, expressa em variadas formas de ofensas como representações estereotipadas que objetificam as mulheres nos meios de comunicação, agressões sexuais, violência doméstica, entre outras violências (FRASER, 1995). Esses dois aspectos da injustiça de gênero se reforçam dialeticamente:
(…) na medida em que as normas culturais sexistas e androcêntricas estão institucionalizadas no Estado e na economia, do mesmo modo que as desvantagens econômicas que sofrem as mulheres restringem sua “voz”, impedindo sua participação em pé de igualdade na criação da cultura, nas esferas públicas e na vida cotidiana (FRASER, 1995, p. 14).106
No que se refere à raça, as injustiças econômicas e culturais advindas do legado histórico da colonização e da escravidão também se reforçam mutuamente “já que as normas culturais racistas e eurocêntricas estão institucionalizadas no Estado e na economia, enquanto que a desigualdade econômica que sofrem as pessoas de cor restringe a sua ‘voz’” (FRASER, 1995, p. 16, tradução livre).107 Raça, por um lado, estrutura a divisão social do trabalho no capitalismo entre ocupações mal pagas e desprestigiadas, muitas vezes vinculadas ao mercado informal, realizadas por pessoas negras; e trabalhos oficiais, bem pagos e valorizados realizados predominantemente por pessoas brancas (FRASER, 1995). Já pelo lado cultural o racismo está associado ao eurocentrismo, valorizando aspectos ligados à branquitude e depreciando características ligadas a pessoas negras, sendo expresso mediante ofensas que representam pessoas de cor de forma estereotipada nos meios de comunicação sobre sua tendência à criminalidade, à preguiça, ao primitivismo, entre outras imagens pejorativas (FRASER, 1995).
Dessa forma Fraser destaca que ser mulher e ao mesmo tempo negra acentua esses eixos de injustiça entrecruzados e multi-estratificados. Dessa forma, além da marginalização no que se refere à renda, em que estudos apontam para o fenômeno da feminização e enegrecimento da
106 Original em inglês: “(…) en la medida en que las normas culturales sexistas y androcéntricas están institucionalizadas en el Estado y en la economía, del mismo modo que las desventajas económicas que sufren las mujeres restringen su «voz», impidiendo su participación en pie de igualdad en la creación de la cultura, en las esferas públicas y en la vida cotidiana” (FRASER, 1995, p. 14).
107 Original em espanhol: “ya que las normas culturales racistas y eurocéntricas están institucionalizadas en el Estado y en la economía, mientras que la desigualdad económica que sufre la gente de color restringe su «voz»”
(FRASER, 1995, p. 16).
pobreza (MARCONDES et al, 2013), as mulheres negras que são mães de jovens negros ainda sofrem com o esteriótipo de serem “fábricas de marginal”, “procriadoras de bandidos”, “mães de sementinhas do mal”, sofrendo forte discriminação cultural de raça e gênero ao mesmo tempo. Como bem sintetiza Rocha em sua tese sobre mães negras que perderam filhos assassinados, essas mulheres precisam lutar ao mesmo tempo contra a pobreza, o patriarcado, o racismo e ainda contra as consequências da violência praticada contra seus filhos (ROCHA, 2014).
Nessa direção, Peter Wade trabalha com os complexos emaranhados entre sexualidade, gênero e raça/etnicidade nas ideologias e práticas latino-americanas de mestiçagem argumentando que “a simultaneidade da característica de inclusão e exclusão racial na mestiçagem opera em e através de relações de sexo/gênero” (WADE, 2013, p. 49, tradução livre).108 Citando o trabalho de Caulfield (2000), o autor mostra como durante o governo de Getúlio Vargas houve, por um lado, um discurso oficial de um país misto e democrático em termos raciais e, por outro, uma atmosfera conservadora e patriarcal em relação ao gênero e à sexualidade. Dessa forma:
(…) valores familiares tradicionais, com forte controle masculino, foram promovidos através de legislação sobre casamento, trabalho feminino, assistência familiar, etc.
(CAULFIELD, 2000: 183-194). (...) os homens da classe trabalhadora, que na sociedade brasileira incluíam muitos negros e pardos, foram convidados a participar como membros integrais de uma nação moralmente honesta, baseada em famílias honradas e respeitáveis (...). Havia uma ênfase na inclusão de homens da classe trabalhadora como chefes honoráveis de famílias, em defesa da honra da nação. Isto agiu para construir um consenso de homens entre raças e classes, que testemunharam a “democracia racial” através de uma linguagem de controle sexual/de gênero. (...) Por outro lado, os mesmos valores de honra foram aplicados para pôr em prática as exclusões de raça-classe. Caulfield (2000: capítulo 5) discute os registros judiciais de casos em que homens foram acusados por mulheres ou suas famílias de
“defloramento” - de levar a virgindade de uma jovem através de engano (geralmente uma promessa de casamento). (...) Embora as questões de raça e cor raramente aparecessem explicitamente nos arquivos judiciais, a raça ou a cor do acusador e do acusado eram geralmente anotados. (...) Isto é, quando a vítima era uma mulher de pele escura, os defensores dos homens poderiam ter sucesso apontando a frouxidão moral da mulher ou destacando as diferenças no status social indicado pela cor. As mulheres eram frequentemente consideradas desprovidas de honra por causa de sua raça, reestabelecendo assim a hierarquia racial. Do outro lado da moeda, quanto mais escura a pele de um homem, maior a probabilidade de ser enquadrado ou condenado pelo crime: para a polícia e os tribunais, a negritude indicava também uma moralidade sexual defeituosa para os homens. (...) Em resumo, a ideia de democracia racial poderia ser estabelecida através da ideia de uma fraternidade masculina, baseada no controle masculino da sexualidade e da honra feminina; mas a própria ideia de honra poderia ser aplicada como um mecanismo de exclusão racial e conquista sexual de mulheres não-brancas (WADE, 2013, p. 53ss, tradução livre).109
108 Original em espanhol: “la simultaneidad de la característica de inclusión y exclusión raciales en el mestizaje opera en y a través de las relaciones de sexo/género” (WADE, 2013, p. 49).
109 Original em espanhol: “(…) valores familiares tradicionales, con fuerte control masculino, se promovieron
Nessa direção, Rocha mostra como a imagem social sobre a maternidade negra no Brasil foi moldada por noções racistas onde as mulheres negras eram vistas como “impuras e degeneradas para a sociedade brasileira por causa de sua capacidade de gerar negritude através do nascimento e da maternidade. Elas eram vistas como responsáveis por transmitir práticas e comportamentos culturais” (ROCHA, 2014, p. 90, tradução livre).110 Podemos ver essa imagem negativa sendo resgatada hoje quando se aponta a mulher negra como “mãe de bandido”, acusando-a por negligência e imoralidade.