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Movimentos sociais no Brasil: um breve panorama dos

Em obra clássica sobre teoria dos movimentos sociais no Brasil, Gohn (1997) traça um panorama geral dos estudos sobre movimentos urbanos no Brasil de meados de 1970 a 1990, destacando o arcabouço teórico-metodológico predominante em cada fase. Assim, a autora mostra que no final da década de 70 ao início dos anos 80 as análises dos movimentos sociais populares urbanos tinham o viés majoritariamente marxista de corrente franco-espanhola de Castells, Borja, Lojkine e Preteceille. As demandas desses movimentos sociais giravam em torno de bens e serviços básicos, inscrevendo-se no campo dos direitos sociais tradicionais:

“direito à vida com reivindicações de alimento, abrigo e outras condições básicas para a sobrevivência elementar do ser humano”. Muitos desses movimentos vinculavam-se à Teologia da Libertação86 e se diferenciavam do modelo clássico das sociedades de amigos de bairros ou associações de moradores. A estratégia política calcava-se na autonomia, com influência do socialismo libertário e do anarquismo, buscando distanciamento tanto do Estado autoritário quanto das “práticas populistas e clientelistas presentes nas associações de moradores, nos sindicatos e nas relações políticas em geral” (GOHN, 1997, p. 283). Nesse período, então, a

“relação dos movimentos com o Estado era vista em termos de antagonismo e oposição”

(GOHN, 1997, p. 283).

Já na década de 80 ganham maior expressão os novos movimentos sociais com pautas identitárias como os movimentos negros, indígenas, de mulheres, de estudantes, ecológicos, etc, cuja ordem de demanda volta-se para os “direitos sociais modernos, que apelavam para a

86 A Teologia da Libertação é uma corrente teológica cristã nascida na América Latina no final dos anos 60 com grande influência marxista, criticando a “teologia tradicional para quem os pobres deviam ser objeto da caridade e não agentes de sua própria libertação” (CAMURÇA, 2013, p. 1). Ver mais em CAMURÇA, 2013.

igualdade e a liberdade, em termos das relações de raça, gênero e sexo” (GOHN, 1997, p. 284), não mais priorizando a demanda por bens e serviços básicos à sobrevivência como os movimentos populares da década anterior. O interesse de pesquisa então desloca-se do “estudo das determinações estruturais da economia sobre as ações coletivas em andamento” (GOHN, 1997, p. 280) para priorizar o estudo das identidades coletivas dos movimentos, com influências teóricas de Melucci, Foucault, Habermas, Gattari, Castoriadis, Cohn-Bendict, Touraine, entre outros. Dessa forma, o “denominador comum nas análises dos novos movimentos sociais no Brasil foi a abordagem culturalista, em contraposição à marxista presente com mais força na análise dos movimentos populares” (GOHN, 1997, p. 285).

Nessa direção, Alonso analisa que autores dessa geração como Habermas, Melucci e Touraine, a despeito da particularidade de suas teorias:

(…) confluem para o mesmo postulado central, o da especificidade dos movimentos sociais da segunda metade do século XX. Para todos, uma mudança macrossocial teria gerado uma nova forma de dominação, eminentemente cultural (por meio da tecnologia e da ciência) e borrado as distinções entre público e privado, acarretando mudanças nas subjetividades e uma nova zona de conflito. As reivindicações teriam se deslocado dos itens redistributivos, do mundo do trabalho, para a vida cotidiana, demandando a democratização de suas estruturas e afirmando novas identidades e valores. (...) Os movimentos de classe dariam lugar, assim, a novos movimentos expressivos, simbólicos, identitários, caso do feminismo, do pacifismo, do ambientalismo, do movimento estudantil (ALONSO, 2009, p. 67).

Desses autores, Melucci foi quem se deteve teoricamente na construção da identidade coletiva dos movimentos: “a identidade coletiva é uma definição interativa e compartilhada produzida por numerosos indivíduos e relativa às orientações da ação e ao campo de oportunidades e constrangimentos no qual a ação acontece” (MELUCCI, 1988, p. 342). Assim, o processo de construção de uma identidade coletiva, considerado pelo autor como um fim em si mesmo, seria parte essencial da atividade desses movimentos sociais. Na análise de Alonso, essa teoria busca incluir três dimensões da ação coletiva: “a identidade coletiva seria produzida a partir da definição de um ‘framework cognitivo’ acerca dos fins, meios e campo da ação; da ativação prática de relações entre atores (interação, comunicação, influência, negociação, tomada de decisão); e do investimento emocional que os leva a se reconhecerem como membros de um grupo” (ALONSO, 2009, p. 66ss). Vale ressaltar aqui o papel que as emoções desempenham nessa teoria como motivação para o engajamento político, e não como fator desmobilizador.

Cabe dizer que nesse período havia entre os pesquisadores uma disputa sobre o significado dos novos movimentos sociais em termos do que expressavam: “construção de

identidades (uma das abordagens do paradigma europeu) ou meras estratégias políticas para obtenção de bens, baseadas em lógicas racionais que consideram custos e benefícios (paradigma norte-americano)” (GOHN, 1997, p. 285). No Brasil e na América Latina, no entanto, esse dilema não foi colocado, tendo em vista a hegemonia do paradigma europeu (orientado para a identidade) entre nós (GOHN, 1997; ALONSO, 2009).

Representativa do paradigma norte-americano, a Teoria de Mobilização de Recursos (TMR) tem como expoentes McCarthy e Zald e busca explicar as mobilizações coletivas a partir de cálculos racionais e estratégicos entre custos e benefícios, enfocando a dimensão micro organizacional. Comparando movimentos sociais a empresas, gera antipatia na esquerda e tem pouca expressão no Brasil e na América Latina (ALONSO, 2009).

Também constituída nos Estados Unidos, a Teoria do Processo Político (TPP) tem como expoentes Charles Tilly, Sidney Tarrow e Doug McAdam, e coloca como prioridade na análise da ação política a “estrutura de incentivos e/ou constrangimentos políticos, que delimita as possibilidades de escolha dos agentes entre cursos de ação” (ALONSO, 2009, p. 55ss). Tilly ganha destaque nessa linha a partir de sua sociologia política histórica que, mesmo privilegiando o ambiente macropolítico, concede à cultura um papel importante através do conceito histórico-cultural de repertório, o qual ficou bastante conhecido na área de estudos de movimentos sociais. Segundo o autor repertório refere-se a “um conjunto limitado de rotinas que são aprendidas, compartilhadas e postas em ação por meio de um processo relativamente deliberado de escolha (TILLY, 1995, p. 26)”. Destarte, “os agentes, em meio ao processo de luta, escolheriam dentre as maneiras convencionalizadas de interação presentes no repertório aquelas mais adequadas à expressão de seus propósitos” (ALONSO, 2009, p. 59). Sua teoria, no entanto, não teve grande ressonância na América Latina.

Ao longo da década de 1980 e culminando na década de 90 ocorre uma inflexão nos estudos sobre movimentos sociais no Brasil, os quais passam “da fase do otimismo para a perplexidade e, depois, para a descrença” (GOHN, 1997, p. 286). Gohn destaca os fatores que contribuíram para esse processo:

(…) alterações nas políticas públicas e na composição dos agentes e atores que participam de sua implementação, gestão e avaliação; o consenso, a generalização, e o posterior destaque das chamadas práticas participativas em diferentes setores da vida social; o crescimento enorme do associativismo institucional, particularmente nas entidades e órgãos públicos, os quais cresceram muito em termos numéricos ao longo dos anos 80, absorvendo grande parte da parcela dos desempregados do setor produtivo privado; o surgimento de grandes centrais sindicais; o aparecimento de entidades aglutinadoras dos movimentos sociais populares, especialmente no setor da moradia; e, fundamentalmente, o surgimento e o crescimento, ou a expansão, da

forma que viria a ser quase que uma substituta dos movimentos sociais nos anos 90:

as ONGs – Organizações Não governamentais (GOHN, 1997, p. 286).

Com a ascensão do Partido dos Trabalhadores ao poder executivo de várias localidades as posturas políticas foram redefinidas, priorizando-se não mais a autonomia dos movimentos, mas sobretudo a profissionalização e capacitação técnica do quadro de ativistas que agora participava diretamente das políticas públicas. Nesse novo cenário, a relação dos movimentos com o Estado não se baseava mais em termos de antagonismo, como na década de 70; o Estado, ao contrário, era visto como importante interlocutor, com o qual os movimentos dialogavam e negociavam. Nos anos 90, então, há um declínio nos estudos sobre movimentos sociais que dão lugar a pesquisas sobre democracia participativa e deliberativa, bem como sobre redes de ONGs, com influência teórica de Habermas, Claus Offe, Melucci, Adam Przeworske e Arato.

Assim, houve um deslocamento de teorias dos movimentos sociais para teorias da sociedade civil.

Nos anos 2000 novas problemáticas são colocadas: por um lado, a categoria território é ressignificada e se torna central para agregar ações coletivas e explicar mobilizações localizadas (GOHN, 2011); por outro, há uma “mudança de escala do ativismo, de nacional a global (...) e temas que atravessam fronteiras e se dirigem, muitas vezes, a instituições multilaterais ou a uma opinião pública transnacional” (ALONSO, 2009, p. 74). Nessa direção, Castells argumenta que “a comunicação em rede transcende fronteiras, a sociedade em rede é global, é baseada em redes globais” (CASTELLS, 2005, p. 18). No novo milênio, então, o conceito de rede é o protagonista.

Segundo Castells, estamos passando por um processo multidimensional de transformação estrutural das sociedades “associado à emergência de um novo paradigma tecnológico, baseado nas tecnologias de comunicação e informação, que começaram a tomar forma nos anos 60 e que se difundiram de forma desigual por todo o mundo” (CASTELLS, 2005, p. 17). Dessa forma, teríamos sociedades em transição e sociedades onde as relações em rede já estariam consolidadas, estando o Brasil ainda em processo de transição, segundo o autor.

A organização social em rede ao longo de períodos históricos mostrou vantagens e desvantagens:

Por um lado, são as formas de organização mais flexíveis e adaptáveis, seguindo de um modo muito eficiente o caminho evolutivo dos esquemas sociais humanos. Por outro lado, muitas vezes não conseguiram maximizar e coordenar os recursos necessários para um trabalho ou projeto que fosse para além de um determinado tamanho e complexidade de organização necessária para a concretização de uma tarefa. Assim, em termos históricos, as redes eram algo do domínio da vida privada,

enquanto o mundo da produção, do poder e da guerra estava ocupado por organizações grandes e verticais, como os estados, as igrejas, os exércitos e as empresas que conseguiam dominar vastos polos de recursos com um objectivo definido por uma autoridade central (CASTELLS, 2005, p. 17ss).

Hodiernamente, no entanto, a organização social se dá em redes específicas, a saber, as redes de tecnologias digitais, as quais conseguem superar seus limites históricos sendo flexíveis e adaptáveis devido à descentralização de sua performance e coordenando essa descentralização com o poder de partilhar a tomada de decisões (CASTELLS, 2005). De forma simplificada, então, a sociedade em rede é uma “estrutura social baseada em redes operadas por tecnologias de comunicação e informação fundamentadas na microeletrônica e em redes digitais de computadores que geram, processam e distribuem informação a partir de conhecimento acumulado nos nós dessas redes” (CASTELLS, 2005, p. 20). Dessa forma o autor mostra como essa transformação modifica substancialmente as relações de poder, destacando o aparecimento do que ele chama de uma nova forma de funcionamento dos Estados:

Como a sociedade em rede é global, o Estado da sociedade em rede não pode funcionar única ou primeiramente no contexto nacional. Está comprometido num processo de governação global mas sem um governo global. (…) uma vez que a governação global de algum tipo é uma necessidade funcional, os estados-nação estão a encontrar formas de fazer a gestão conjunta do processo global que afeta a maior parte dos assuntos relacionados com a prática governativa. Para o fazer, aumentaram a partilha de soberania enquanto continuam a agitar orgulhosamente as suas bandeiras. Formam redes de estados-nação sendo a mais significativa, e integrada, a União Europeia. Mas existem por todo o mundo uma série de associações entre estados, mais ou menos integradas nas suas instituições e nas suas práticas, que estruturam processos específicos de governação transnacional. Para além do mais, os estados-nação comprometeram-se em instituições formais e informais, internacionais e supranacionais que, realmente, governam o mundo. Não só as Nações Unidas, e várias alianças militares, mas também o Fundo Monetário Internacional e a sua agência auxiliar, o Banco Mundial (...) Assim, o sistema atual de governação no nosso mundo não é centrado em torno do estado-nação, apesar de os estados não irem desaparecer de todo. A governação é realizada numa rede, de instituições políticas que partilham a soberania em vários graus, que se reconfigura a si própria numa geometria geopolítica variável. Denominei isto como conceito de Estado em rede.

Não é o resultado das mudanças tecnológicas, mas a resposta à contradição estrutural entre o sistema global e o Estado nacional. (…) A transição de um estado-nação para um estado em rede é um processo organizacional e político lançado pela transformação da gestão política, representação e dominação nas condições da sociedade em rede (CASTELLS, 2005, p. 25ss).

Nessa direção, Scherer-Warren (2006) mostra que na sociedade em rede os movimentos sociais “percebem cada vez mais a necessidade de se articularem com outros grupos com a mesma identidade social ou política, a fim de ganhar visibilidade, produzir impacto na esfera pública e obter conquistas para a cidadania” (2006, p. 113). A autora aponta que houve assim um deslocamento da valorização política das organizações de base para a valorização política

das “articulações, intercâmbios e formação de redes temáticas e organizacionais” (SCHERER- WARREN, 2013, p. 188). Dessa forma, a “sociedade civil organizada do novo milênio tende a ser uma sociedade de redes organizacionais, de redes inter organizacionais e de redes de movimentos” (SCHERER-WARREN, 2006, p. 127), as quais possibilitam a articulação entre ações locais, nacionais e transnacionais. A rede de movimento social,87 então, pressupõe “a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum, os quais definem os atores ou situações sistêmicas antagônicas que devem ser combatidas e transformadas” (SCHERER-WARREN, 2006, p. 113). Na atualidade se caracterizam pela heterogeneidade de atores coletivos que se articulam em torno de unidades de referências normativas, podendo ser temáticas em comum ou uma uma plataforma de luta política mais ampla, compreendendo vários níveis de organização.

Interessante notar que em 1989 Melucci já falava em “redes de movimento ou de áreas de movimento: isto é, uma rede de grupos partilhando uma cultura de movimento e uma identidade coletiva (MELUCCI, 1989, p. 60), incluindo “não apenas as organizações 'formais', mas também a rede de relações 'informais' que conectam grupos de indivíduos e grupos a uma área de participantes mais ampla” (MELUCCI, 1989, p. 60). O autor chama atenção para o que ele denomina de rede submersa que, “embora composta de pequenos grupos separados, é um sistema de troca (pessoas e informações circulando ao longo da rede, algumas agências, como rádios livres locais, livrarias, revistas que fornecem uma determinada unidade)” (MELUCCI, 1989, p. 61). Essas redes, segundo ele, têm como características: permitir uma associação múltipla, desenvolver uma militância parcial e de curta duração e requerer um envolvimento pessoal e solidariedade afetiva como condição de participação (MELUCCI, 1989).

Melucci atenta-se ainda para um modelo bipolar em que os dois polos, latência e visibilidade, têm funções diferentes mas estão reciprocamente correlacionados: enquanto a latência permite que “as pessoas experimentem diretamente novos modelos culturais – uma mudança no sistema de significados” (MELUCCI, 1989, p. 61), criando novos códigos culturais, mostrando que outro modelo é possível e fornecendo recursos de solidariedade que permitem a visibilidade, a visibilidade “reforça as redes submersas. Fornece energia para

87 Scherer-Warren (2005b, p.35) distingue entre coletivos em rede e redes de movimentos sociais. Segundo a autora, coletivo em rede se refere a conexões numa primeira instância comunicacional, instrumentalizada através de redes técnicas, de vários atores ou organizações, que procuram difundir informações, apoios solidários ou inclusive estabelecer estratégias de ação conjuntas. Por sua vez, as redes de movimentos sociais seriam redes sociais complexas, que transcendem organizações empiricamente delimitadas, e que conectam – de forma simbólica e com laços de solidariedade – sujeitos individuais e atores coletivos, cujas identidades se constroem num processo dialógico (BRINGEL; FALERO, 2008, p. 278).

renovar a solidariedade, facilita a criação de novos grupos e o recrutamento de novos militantes atraídos pela mobilização pública que então flui na rede submersa” (MELUCCI, 1989, p. 62).

Nessa direção, Bringel e Falero (2008) mostram que na América Latina dos anos 1990 emergem “redes de movimentos sociais com as seguintes características: articulação de atores e movimentos sociais e culturais, pluralismo organizacional e ideológico, atuação nos campos cultural e político e um marcado traço transnacional (SCHERER-WARREN, 2005a, p. 119 apud BRINGEL, 2006, p. 277). Ressaltam ainda que nos últimos tempos vem ocorrendo um processo de expansão da política:

(…) por um lado, a proliferação de intercâmbios políticos de baixo, ou seja, a exploração da arena política para além do marco institucional-partidista, abrindo espaços, identidades e formas de ação coletiva que se desenvolvem dentro da chamada sociedade civil, à margem, mas de modo suplementar à política tradicional. E, por outro lado, a irrupção da política de fora, no âmbito supranacional, transgredindo as fronteiras nacionais e rompendo com a territorialidade da política no Estado-nação (ARDITI, 2005; BRINGEL; ECHART; LÓPEZ, 2008 apud BRINGEL; FALERO, 2006, p. 269).

No que diz respeito à relação dos movimentos sociais com o Estado nesse novo contexto de redes, os autores mostram que o Estado-nação tanto não é mais visto “como marco referencial para a política dos movimentos sociais, como se atenua a tensão fundamental entre Estado e movimento social, a partir do momento no que o primeiro deixa de ser visto como o único locus relevante da contenda política, num processo de identificação de novos interlocutores e inimigos frontais, relações de poder e dominação” (BRINGEL; FALERO, 2006, p. 285). Scherer-Warren destaca outra tensão no movimento social “entre participar com e através do Estado para a formulação e a implementação de políticas públicas ou em ser um agente de pressão autônoma da sociedade civil” (SCHERER-WARREN, 2006, p. 114).

Gohn (2011) aponta também que neste novo milênio as pesquisas sobre movimentos sociais no Brasil voltaram à cena com uma atenção especial à questão teórica. A autora dá destaque às teorias focadas no eixo da justiça social que abordam questões de redistribuição e reconhecimento. No livro de referência “Redistribución o reconocimiento? un debate político- filosófico” (2006) Fraser e Honneth aprofundam essa discussão tendo como premissa subjacente que “uma compreensão suficiente da justiça deve englobar, pelo menos, dois conjuntos de questões, as que se projetam na época fordista como lutas por redistribuição e as que frequentemente se projetam hoje em dia como lutas por reconhecimento” (FRASER;

HONNETH, 2006, p. 14, tradução livre). Abordando essas questões a partir da filosofia moral, da teoria social e da análise política, os autores buscam conectar esses três níveis disciplinares

a fim de construir uma teoria crítica da sociedade capitalista. No nível da filosofia moral o debate gira em torno do monismo normativo de reconhecimento versus o dualismo normativo de redistribuição e reconhecimento; no nível da teoria social discute-se sobre a estrutura da sociedade capitalista e a relação entre economia e cultura; já no nível da análise política o foco está na “relação entre igualdade e diferença, entre as lutas econômicas e a política de identidade, entre a democracia social e o multiculturalismo” (FRASER; HONNETH, 2006, p. 15).

Enquanto Honneth concebe “o reconhecimento como a categoria moral fundamental, suprema, considerando a distribuição como derivada” (FRASER; HONNETH, 2006, p. 14), Fraser nega que a distribuição seja apenas uma derivação do reconhecimento, propondo “uma análise de ‘perspectiva dualista’ que considera as duas categorias como dimensões co- fundamentais e irredutíveis da justiça” (FRASER; HONNETH, 2006, p. 14), sustentando que a desigualdade de classe está entrelaçada à hierarquia de status. Dessa forma, para Fraser o conceito de justiça deve ser bidimensional, abrangendo questões das teorias de justiça distributivas e das teorias do reconhecimento, teorizando “má distribuição e reconhecimento equivocado mediante um modelo normativo comum, sem reduzir qualquer uma das duas faces em função da outra” (FRASER, 2002, p. 66). Tal modelo normativo está centrado no princípio de paridade de participação, o que significa que “a justiça requer acordos sociais que permitam que todos os (adultos) membros da sociedade interajam uns com os outros como pares

(FRASER, 2002, p. 66, grifo da autora). Para tanto, há duas condições: uma é objetiva, referindo-se à distribuição de recursos materiais que assegure “independência e ‘voz’ aos participantes” (FRASER, 2002, p. 67); a outra é intersubjetiva e “requer dos modelos institucionalizados de valores culturais que expressem o mesmo respeito a todos os participantes e assegurem oportunidades iguais para se alcançar estima social” (FRASER, 2002, p. 67).