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A formação do discípulo e a teologia para o leigo

No documento Gelson Luiz Milkuszka (páginas 77-80)

1 O DISCÍPULO DE JESUS E A AÇÃO EVANGELIZADORA

1.5 A formação do discípulo missionário pela ação

1.5.2 A formação do discípulo e a teologia para o leigo

215 Cf. COMBLIN, O homem renovado, 1991, p. 20.

216 Cf. RAHNER, Curso fundamental da fé, 2008, p. 464.

217 Referimo-nos à “Ação Católica Especializada”, fundada por J. Cardjin na Bélgica, em 1922 e oficializada em 1925, que estimulou muito a ação dos cristãos na primeira metade do século XX. Para Brighenti, essa versão franco-belga trouxe a consciência da necessidade de o cristão agir e inserir-se na história como uma presença crítica em todos os espaços e evidenciou a ação da Igreja sobre o mundo. Contudo, esta inserção acontece ainda aos moldes da cristandade, ou seja, de cima para baixo (cf. BRIGHENTI, Agenor. A Ação Católica e o novo lugar na Igreja e na sociedade. In: http://ordosocialis.de/pdf/Brig henti/A Acao Catolica e Sociedade.pdf> Acesso em 30 abr. 2015, p. 1-10.

218 Cf. COMBLIN, O Espírito Santo e a tradição de Jesus, 2012, p. 43.

A Conferência de Aparecida observa que uma evangelização fraca, sem ardor e sem novos métodos promove uma formação inconveniente para o cristianismo (cf. DAp 100d). Por outro lado, uma formação sem liberdade e sem espiritualidade promove uma ação fraca e pouco evangelizadora. Evangelização e formação são dimensão correlatas. Arrazoando uma formação integral voltada para a ação, como pede a Conferência de Medellín e de Aparecida (cf. Med 3, 10d; DAp 279), nosso autor se remete ao papel ativo de todos na Igreja, utilizando o princípio da totalidade dos ministérios. Para tanto, na década de 1960, ele propõe uma teologia “para” o laicato, tentando valorizar a totalidade dos ministérios pela superação da teologia “do” laicato, sistematizada pelo teólogo dominicano Yves Congar219. Contudo, diferente de Congar, ele busca auxiliar o leigo a agir e sugere uma formação teológica fácil de ser entendida. Seu objetivo é superar a reflexão de Congar, por considerar que este elaborou uma extensão da eclesiologia, que trata apenas do lugar do leigo na Igreja e da sua participação nas funções sacerdotais ou eclesiais. Em sua perspectiva, Congar não valorizou a totalidade dos ministérios e a sua importância na ação missionária eclesial, intensificando assim a separação entre os ministérios oficialmente reconhecidos pelas autoridades eclesiais e os ministérios dos leigos220. Certamente, pois Congar apegou-se à definição do leigo, mas não se preocupou em ajudá-lo a agir missionariamente. O historiador Giuseppe Alberigo comenta que a teologia “do” laicato de Congar reforçou a divisão entre o clero e o leigo, observando que o Concílio Vaticano II refletiu sobre esse assunto no capítulo IV da Lumen Gentium e no Decreto Apostolicam Actuositatem, que trata do apostolado dos leigos. De modo mais crítico que Comblin, Alberigo observa que a reflexão de Congar resultou numa ideologia, e não numa teologia221. No entanto, em seu livro: Ministères e Communion éclesiale, Congar afirma afirma que “a dupla decisiva não é a do ‘sacerdócio – laicato’, que eu tinha utilizado em Os Leigos na Igreja, mas antes a de ‘ministérios ou serviços – comunidade’”222. Assim, Congar se reconcilia com a comunitariedade, vendo que uma comunidade, animada pelo Espírito Santo, é enriquecida de dons ministeriais de todos os batizados, reconhecendo que os ministérios agem na comunidade em sua totalidade. Portanto, ele opta pelo “binômio”:

ministérios e comunidade. Ao se reconciliar com os ministérios da comunidade, Congar

219 Referimo-nos a Yves Congar e sua grandiosa obra Jalons pour une théologie du laïcat, publicada em 1954 na Europa e traduzida em português pela Herder: CONGAR, Yves M. J. Os leigos na Igreja: escalões para uma teologia do laicato. São Paulo: Herder, 1966.

220 Cf. COMBLIN, Teologia da ação, 1967, p. 126.

221 Cf. ALBERIGO, O povo de Deus na experiência de fé, 1984, p. 47.

222 CONGAR, Yves. Ministères et communion ecclesiéale. Paris: Les Éditions du Cerf, 1971, p. 17.

desfaz a ideia da teologia “do” laicato, que separa os ministérios do clero e do leigo, como fez a “teoria dos dois gêneros”. Com isso, Congar busca mostrar que o cristão precisa agir na Igreja223. De uma separação redutiva a partir de funções ou valores, Congar se equipara à reflexão do nosso autor, dizendo que todos os ministérios são iguais na ação missionária, em razão de aconteceram na força do Espírito Santo. Para tanto, Comblin destaca o cunho ortopráxico da ação do leigo224, e não desmerece a ação missionária de nenhum ministério225.

Introduzir o leigo na ação missionária da Igreja mostra o interesse do nosso autor em valorizar todos os ministérios, para que a prática e o serviço ao povo sejam plurais e diversos, mostrando crer na possibilidade de se despertar o potencial missionário de todos226. Pouco antes de morrer, ele afirmou a precariedade da formação para os leigos na Igreja.

Para os leigos, não há formação cristã depois dessa idade [14 e 15 anos].

Partem na vida levando conhecimentos religiosos de época muito distante deles. A catequese prepara-os para viver no século XVI, mas não no século XXI. [...] Esta situação é aquela que se acha no mundo urbano e em muitas partes da zona rural onde o urbano já penetra227.

No que concerne à formação para a ação dos leigos, ele optou em teologizar desde a ação entre fé e vida nas pequenas comunidades. Basta observar o “Breve Curso de Teologia”, publicado na década de 1980, em quatro volumes, que contém ampla teologia de

223 No entanto, o próprio Congar, em 1971, eclipsou o binômio clero-leigos, adotando o trinômio comunidade- carismas-ministérios. Ele reconheceu que o Concílio não desenvolveu uma teologia da comunidade, mas deu algumas percepções importantes sobre esse assunto, que envolvem os ministérios. Por exemplo, ele comenta que a Constituição Lumen Gentium deu prioridade aos valores da comunidade cristã, deixando a organização eclesial em segundo plano. A ordem dos capítulos dessa Constituição cita o primeiro do povo de Deus (capítulo II) e somente depois da hierarquia (capítulo III). Nesse aspecto, a base eclesial é a comunidade do povo de Deus, colocada antes que a estrutura institucional. Em um segundo momento, aparecem os carismas como elementos importantes para a construção da Igreja e de sua vida, um caminho decisivo para retomar a ação do Espírito Santo na realidade eclesial. Em terceiro lugar, aparecem os ministérios, entendidos como serviços para a ação evangelizadora (cf. CONGAR, Ministères et communion ecclesiéale, 1971, p. 33).

224 David Tracy afirma que “toda ortopráxis implica alguma ortodoxia que orienta, informa e, às vezes, transforma as práticas, assim como toda ortodoxia nasce na ortopráxis e é continuamente renovada e transformada por ela” (TRACY, David. Imaginação analógica: a teologia cristã e a cultura do pluralismo.

São Leopoldo, Unisinos, 2006, p. 67).

225 COMBLIN, O tempo da ação, 1982, p. 311.

226 Segundo Comblin, a Igreja latino-americana da década de 1980 esteve um pouco perdida. As Conferências de Medellín e Puebla buscam prezar pela noção “povo de Deus”, que é uma Igreja dos pobres e de intensa unidade, que não pretende anular as diferenças. Mas, os líderes eclesiásticos dessa época quiseram refazer a cristandade e tentando desmerecer essa noção, buscando apagar uma história de trinta anos (cf. idem, Vocação para a liberdade, 1998, p. 5). Por isso, as obras de Comblin publicadas nesse período, parecem querer resgatar a identidade da Igreja “povo de Deus”, que é a Igreja pobre e dos pobres, bem implementada nas duas referidas Conferências.

227 COMBLIN, O Espírito Santo e a tradição de Jesus, 2012, p. 38.

modo simplificado228. O teólogo belga não desmerece o saber teológico sistematizado, porém faz opção por uma formação teológica simples. Seguindo a mesma ótica do Concílio, entende que a formação evangelizadora se refere diretamente às capacidades e condições de cada pessoa, ou seja, para ser integral deve estar pautada no concreto e no real (cf. AA 29).

Clodovis Boff considera a necessidade de se elaborar uma teologia para a ação cristã, em especial no sentido de relacionar a vida e a fé, onde está o núcleo central da práxis cristã229. A base teológica desse tipo de formação é a coerência entre a vida e a fé dos envolvidos com o Evangelho e, quanto mais próxima da realidade e das ações do povo, mais essa teologia consegue historicizar a Revelação. Essa parece ser a proposta de Comblin ao elaborar a teologia “para” o leigo, buscando uma formação integrada com a realidade pelo diálogo, respeito e crítica às contingências históricas, delimitando etapas e avaliando atitudes. Sem viver tal processo, corre-se o risco de que as ações sejam vazias, mecanizadas e teóricas. Faz- se necessário, pois, que a formação auxilie o discípulo a considerar em sua prática o planejamento da ação.

No documento Gelson Luiz Milkuszka (páginas 77-80)