1 O DISCÍPULO DE JESUS E A AÇÃO EVANGELIZADORA
1.6 A ação evangelizadora do discípulo de Jesus
1.6.3 O amor e a ação evangelizadora do discípulo
Para Jean-Luc Marion, a filosofia silencia sobre o amor porque não há muitas palavras para se dizer sobre ele, nem conceitos para pensá-lo303. Diferentemente da filosofia, a teologia cristã contempla o amor com bastante ênfase. O Novo Testamento se expressa de modo abundante sobre o amor. Na teologia atual, o Papa Bento XVI define o amor como agape e, na Encíclica Deus Caritas est, o relaciona diretamente à diakonia, o serviço ao próximo: “a prática da caridade é um ato da Igreja [...], faz parte da essência da sua missão originária” (DCE 32). E continua: “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever:
ideologia é originada em três momentos fundamentais. Primeiro, ela aparece como um conjunto sistemático de ideias de uma certa classe social. Segundo, ela se populariza pelo senso comum. Terceiro, ela se sedimenta e se interioriza como senso comum, mesmo que contrarie os interesses das outras classes (cf. CHAUI, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 108-109).
300 BOFF, Jesus Cristo libertador, 1985, p. 118; 176.
301 Cf. RATZINGER, Joseph. Fé e futuro. Petrópolis: Vozes, 1971, p. 22.
302 COMBLIN, Vocação para a liberdade, 1998, p. 238.
303 Cf. MARION, Jean-Luc. Le phénoméne érotique: six méditations. Paris: Bernard Grasset, 2003, p. 9.
no anúncio da Palavra de Deus [...], celebração dos Sacramentos, serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (DCE 25). O pontífice entende, pois, que viver a agape é missão eclesial. A nosso ver, o amor precisa estar em todas as ações eclesiais, pois compreende o fundamento da manifestação do Reino de Deus. Assim, o amor como agape não é uma espécie de atividade assistencial ou um mero sentimento subjetivo; é o serviço concreto ao próximo, deve ser vivido por todos, pois é um imperativo dos evangelhos. Na Carta aos Gálatas, o amor manifesta a vivacidade da fé: “Pois em Cristo Jesus, nem a circuncisão tem valor, nem a incircuncisão, mas apenas a fé agindo pela caridade” (Gl 5, 6). Amar do modo cristão não consiste em fazer discursos sobre o amor nem em gostar da pessoa, mas sim em servir o outro (cf. Jo 15, 13).
Para o nosso autor, as atitudes de Jesus expressas pelos evangelhos definem que o amor são os atos vividos desde a fé304. Esses atos manifestam o Reino de Deus. A leitura da Carta aos Gálatas fez Comblin observar que o amor é uma das obras do Espírito Santo (Gl 5, 22)305. Desse modo, agir com amor, servindo o próximo, somente é possível na força do Espírito, pois agir com e em nome do amor é agir pelo Espírito. Por outro lado, se o Espírito é liberdade, onde houver ação pelo amor há liberdade (cf. 2Cor 3, 17). Amar é servir e libertar- se. Ao mesmo tempo, promover libertação é amar e servir, pois o discípulo que age com amor serve com liberdade, auxiliando na libertação do interlocutor pelo serviço realizado.
1.6.3.1 O amor
A Conferência dos Religiosos do Brasil observa que, na “visão joanina, [o amor] é seguimento radical de Jesus. É força dinâmica e experiência fundante, geradora de vida e de novos relacionamentos”306. Comblin também entende o amor como “agape” e acredita que ele
304 Cf. COMBLIN, José. Os Fundamentos Teológicos da Vida Religiosa. In: Revista Eclesiástica Brasileira, t.
29, fasc. 2, 1969, p. 352.
305 Cf. idem, O tempo da ação, 1982, p. 38.
306 CRB. O sonho do povo de Deus: as comunidades e os movimentos apocalípticos: Coleção Tua Palavra é vida 7. São Paulo: Loyola, 1996, p. 212.
gera vida porque preza pelo relacionamento de compromisso mútuo nas relações humano- comunitárias307. Assim, o amor “é objeto de um anúncio: é uma realidade nova que faz irrupção neste mundo”. Ainda em Comblin: “O amor é feito de obras. Essas obras somente podem ter como objeto as pessoas humanas, porque são as únicas que podemos atingir com as nossas mãos”. E complementa: “Amar não é dizer, mas fazer [...]. O que vale são os atos práticos”308. O Vaticano II também entende o amor pela ação, quando diz que somos incitados por Cristo a agir com prudência para ajudar outros a se encontrarem na fé (cf. DH 14). Acerca disso, a primeira Carta de João diz: “Amados, amemo-nos uns aos outros, pois o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus” (1Jo 4, 7). Se João afirma a necessidade de amar ou agir com amor, e somente conhece a Deus quem ama, o requisito para se conhecer a Deus é amar, pois o amor é uma ação que provém de Deus e, por isso, a maioria das pessoas que amam servindo o próximo tem uma experiência profunda de Deus, definindo o amor como prática concreta ou serviço ao próximo. O evangelista João reconhece o discípulo de Jesus na prática do amor: “Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros" (Jo 13, 35). Ora, a nosso ver, praticar o amor é viver o Evangelho na prática, ou viver o que Jesus viveu.
Se o amor cristão é fundamentado na prática, ele não pode ser reduzido ao nível dos sentimentos, mas ser definido pelo serviço concreto ao próximo. A isso, nosso autor reage dizendo que o “amor que se dirige ao próximo e faz com que discípulos se amem uns aos outros é o amor do próprio Deus”309. Realizando-se pela interação divino-humano, a agape é vivida pelo ser humano na vida, pois se dá pela relação direta entre Deus e o ser humano. Para Rahner, esse seria o amor absoluto, pois é Deus amando através do ser humano, isto é, o amor
307Comblin explica que a palavra “agape” não tem equivalente satisfatório nos idiomas latinos. A tradução antiga e tradicional foi “caridade”, um sentido estreito e até pejorativo para a linguagem contemporânea.
Outra palavra para traduzi-la foi “amor”, mas seu conteúdo emocional e subjetivo, provindo do pensamento burguês, lhe retira o sentido cristão. Outra tradução ainda seria “solidariedade”, não muito usual. De fato, “agape” significa um laço entre membros da mesma família, do mesmo clã, da mesma comunidade e diz respeito à atitude base do povo de Israel. Pelo agape, pode-se intuir que as pessoas se tratem como irmãos (cf. idem, O Espírito Santo e a libertação, 1987, p. 230). Seu caráter central é a
“solidariedade” e a “fraternidade”. No amor cristão, não há troca, mas sim gratuidade. A comunhão vivida numa comunidade a partir da agape significa a união de dons gratuitos que se cruzam. Assim, uma comunidade cristã que vive a dinâmica da agape é a união de dons que decidem livremente se juntar e viver relações humanas a partir da fé. É a partir dessa perspectiva que se realiza a cultura da comunitariedade.
308 Idem, O caminho, 2004, p. 140, 142, 174.
309 Ibidem, p. 224.
divino agindo no humano para amar o ser humano310. Em si, o amor que interage com o ser humano é o Espírito agindo através do ser humano, fazendo-o a servir o próximo. Amar o próximo, servindo-o, é, portanto, Deus sempre agindo no mundo, como afirmam Comblin e Rahner. Para Moltmann, Deus nos criou por amor porque teve “a capacidade de sair de si mesmo, de transferir-se para o outro ser, de participar do outro ser e de entregar-se por um outro ser”311. O novo Catecismo da Igreja Católica considera que Deus criou o ser humano para fazê-lo participar de sua vida bem-aventurada (cf. CIC 1). Ora, participar da vida de Deus, que é santo, significa que amar pelo serviço é ser santo (cf. Is 6, 3). Desse modo, a santidade se dá na prática de amar que, consequentemente, promove relações de compromisso e sugere a superação do discurso em favor da prática, segundo diz Mateus: “Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos céus, mas sim aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos céus” (Mt 7, 21). Para Comblin, o amor cristão movido pela agape busca servir o ser humano ferido e abandonado, a exemplo da parábola do Bom Samaritano312. Se o amor se traduz pelo serviço, é na relação com o mais necessitado, com aqueles que mais precisam do serviço sem compensação, que ele se traduz mais puramente.
Rahner concebe que a gratuidade e a incondicionalidade do amor com o próximo dá autenticidade à fé313. Desse modo, a vivência desse amor, acontecendo na interação divino- humano, desautoriza uma fé puramente emocional e sentimental, distante do mundo material, pois amar não é viver uma obrigação. É servir o próximo para gerar vida, como afirma Comblin. Com isso, podemos observar que o amor do discípulo é uma disposição altruísta, que permite uma relação de compromisso e de responsabilidade para com o outro, servindo-o de modo livre e sem restrições.
1.6.3.2Evangelizar pelo amor que liberta
310 Cf. RAHNER, Curso fundamental da fé, 2008, p. 349.
311 MOLTMANN, Trindade e o Reino de Deus, 2011, p. 70.
312 Cf. COMBLIN, O caminho, 2005, p. 145.
313 Cf. RAHNER, O desafio de ser cristão, p. 32.
O amor do cristão liberta e pode libertar a pessoa que recebe sua ação porque ele serve de modo gratuito, suscita o respeito e o reconhecimento do outro e gera relações de confiança. A nosso ver, servir o outro é auxiliá-lo a descobrir seus valores e capacidades, possibilitando-lhe agir a partir disso. Para o nosso autor, servir é voltar à simplicidade das origens cristãs, ou seja, amar a partir da fraqueza da cruz, como ensina o apóstolo Paulo. O discípulo de Jesus não pode querer conquistar o mundo, senão servir humildemente para que o mundo seja transformado pelas suas ações livres314. Ora, revogar o poder, segundo Comblin, é sinal de que a pessoa se libertou dos próprios interesses, pois o poder de dominação significa defender seus próprios domínios. Assim, amar é servir, mostrar ao outro a capacidade de ser sujeito de sua história e de buscar seus próprios direitos com liberdade. Marion argumenta que a decisão livre de amar não assegura o ato de amar, mas assegura o fato de amar de modo livre315. Amar livremente em nome do Evangelho confirma a liberdade de amar e, por isso, viver o amor depende somente da decisão livre de amar, tendo o Espírito como força motivadora.
Moltmann acredita que ser livre para amar leva à “comunhão do Espírito”316. Sem dúvida, sendo livre para amar e amando de modo livre pode-se suscitar comunidades cristãs.
Isso condiz com o que pensa Bonhoeffer sobre o fundamento da comunhão cristã ser algo espiritual, visto que se baseia na verdade de Cristo e leva à comunhão317. Estes dois autores consideram então a possibilidade da comunhão pela fé somente pela liberdade do Espírito.
Portanto, a participação livre na vida do outro certifica o encontro e o relacionamento de amor entre iguais e diferentes, pelo Evangelho, que promove a fraternidade e a solidariedade e, consequentemente, a comunhão. Para Leonardo Boff, a comunhão pela fé acontece segundo a força criadora de Deus e suscita na comunidade os mais diversos dons e serviços em prol de todos318. A liberdade, por sua vez, gera a comunhão, a comunhão gera mais liberdade, possibilitando aos carismas e ministérios suscitados pelo Espírito o reconhecimento e a vivência mais efetiva na comunidade. A Carta aos Romanos e a primeira Carta aos Coríntios atestam que os dons do Espírito são para o bem comum e edificam a fraternidade (cf. Rm 12, 3-13; 1Cor 12, 12-30). Em Comblin, a comunhão realizada na força do Espírito acontece pelo
314 Cf. COMBLIN, O Espírito Santo e a tradição de Jesus, 2012, p. 41.
315 Cf. MARION, Le phénoméne érotique, 2003, p. 174.
316 Cf. MOLTMANN, Jürgen. O Espírito da vida: uma pneumatologia integral. Petrópolis: Vozes, 1999, p. 207.
317 Cf. BONHOEFFER, Vida em comunhão, 1997, p. 22.
318 Cf. BOFF, A Santíssima Trindade é a melhor comunidade, 1988, p. 140.
amor e gera liberdade, pois a comunhão do Espírito é a interação entre a ação divina e a ação humana319. No entanto, se não houver abertura ao Espírito, não haverá comunhão, pois a pessoa tenderá a defender seus interesses e não os do Evangelho. A Constituição Dogmática Dei Verbum ensina que a Revelação divina objetiva convidar o ser humano à comunhão, e que “esse plano de revelação se concretiza através dos acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si...” (DV 2). Com isso, evangelizar é anunciar a Palavra revelada, para que a pessoa se abra ao Espírito e aja pelo amor para gerar a comunhão. Assim, a evangelização consiste em anunciar a Palavra com simplicidade, aguardar a abertura da pessoa ao Espírito e orientar as ações de e para liberdade. Quando tais ações acontecem, elas transluzem o amor desde as relações, promovem a comunhão e suscitam comunidades geridas pela igualdade, fraternidade, solidariedade e liberdade.