• Nenhum resultado encontrado

Considerações conclusivas

No documento Gelson Luiz Milkuszka (páginas 105-109)

1 O DISCÍPULO DE JESUS E A AÇÃO EVANGELIZADORA

1.7 Considerações conclusivas

amor e gera liberdade, pois a comunhão do Espírito é a interação entre a ação divina e a ação humana319. No entanto, se não houver abertura ao Espírito, não haverá comunhão, pois a pessoa tenderá a defender seus interesses e não os do Evangelho. A Constituição Dogmática Dei Verbum ensina que a Revelação divina objetiva convidar o ser humano à comunhão, e que “esse plano de revelação se concretiza através dos acontecimentos e palavras intimamente conexos entre si...” (DV 2). Com isso, evangelizar é anunciar a Palavra revelada, para que a pessoa se abra ao Espírito e aja pelo amor para gerar a comunhão. Assim, a evangelização consiste em anunciar a Palavra com simplicidade, aguardar a abertura da pessoa ao Espírito e orientar as ações de e para liberdade. Quando tais ações acontecem, elas transluzem o amor desde as relações, promovem a comunhão e suscitam comunidades geridas pela igualdade, fraternidade, solidariedade e liberdade.

este não é um assunto aprofundado em suas obras, talvez por preocupar-se mais com a prática da fé. Agir na força do Espírito sem perscrutar a santidade, pode significar a perda de um elemento central do discipulado, bem exposto pela primeira Carta de Pedro, conclamando todos a serem livres para serem santos e alertando que a liberdade não pode ser relativizada para o mal, mas para o bem (cf. 1Pd 1, 16). A santidade não significa, portanto, sacralizar a pessoa, mas sim viver o processo de responder livremente à proposta feita por Deus através do Evangelho. Por outro lado, a teologia eclesial sempre considerou que o Espírito é santificador. Dois textos do Concílio Vaticano II são chaves para sublinhar isso: “foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes, para que santificasse continuamente a Igreja...” (LG 4). É possível encontrar a mesma ideia nos números 12 e 15 da mesma Constituição. Como o Espírito interage com o ser humano e lhe possibilita agir livremente. Se o Espírito é o santificador, e sua força interage com o ser humano, então a santidade é sinônimo de liberdade, pois “Deus é Espírito e onde está o Espírito há liberdade” (2Cor 3, 17). Dese modo, ser livre é ser santo e ser santo é ser livre desde a fé. Pois tudo é ação do Espírito. Essa condição confronta a secularização e o desencantamento com o mundo, pois a liberdade dá concretude ao sagrado. Para Moltmann, “santo é o que Deus santifica; santo é o que está em consonância com Deus”320. Como vimos, Deus age em conjunto com o ser humano na realidade, deixando-se transparecer nas ações. Logo, crer e viver essa presença divina nas ações possibilita ao discípulo libertar-se, santificando sua vida. Agir desde o Evangelho, na força do Espírito, é agir com liberdade, ou com santidade. No Decreto Presbyterorum Ordinis, a santidade acontece pela ação ministerial, pois todos a alcançam ao desempenharem seu ministério de modo sincero e incansável no Espírito (cf. PO 13). Em suma, santo é o discípulo que age através dos ministérios, fazendo o bem ao próximo com liberdade. Se a ação pelo Espírito suscita a liberdade, então santidade e liberdade são dimensões correlativas e complementares. A Lumen Gentium afirma que a santidade nasce da ação na força do Espírito, pois ela aparece quando o Evangelho é colocado em prática (cf. LG 39). Ora, a ação desde o Evangelho é sempre feita com liberdade, pois se dá na força do Espírito. O Novo Testamento mostra isso quando relata que Jesus chamou seus discípulos para agirem na realidade, a fim de pescar homens, e que a santificação de todos é vontade de Deus (cf. Lc 5, 1-11; 1Ts 4, 3). Portanto, o caminho de ação que o discípulo de Jesus segue é um caminho de santidade, ou de liberdade. Na visão de Moltmann, “santo é tudo aquilo que voltou a ser

320 MOLTMANN, O Espírito da vida, 1999, p. 59.

inteiro, preservado e são”321. Em si, é todo aquele que foi justificado, que se tornou justo pela graça de Deus. Contudo, seguindo a ação evangelizadora, santo é todo aquele se abriu à ação Espírito e age de modo livre. Ser santo é agir com liberdade na força do Espírito e assumir com responsabilidade a ação evangelizadora através dos ministérios.

A segunda consideração refere-se à importância da reestruturação ministerial da Igreja em relação ao discípulo de Jesus. Para Comblin, os ministérios eclesiais possibilitam à Igreja servir desde o Evangelho de modo solidário, através dos discípulos missionários que agem na força do Espírito. Essa ação estabelece o diálogo com todas as situações e necessidades dos contextos da realidade. Todavia, ela exige a superação da teoria dos dois gêneros, que divide os ministérios entre eficazes e menos eficazes, profanos e sagrados. Sem superar essa condição, a Igreja poderá criar valores ministeriais hierárquicos, desautorizando pensar uma Igreja como comunidade do povo de Deus, edificada por discípulos que vivem e agem de modo livre e igual, sem uniformizar suas diferenças. Nesse ponto, observamos que Comblin deveria ter considerado mais a reestruturação ministerial eclesial, pois disso depende a totalidade da ação da Igreja e de todo o povo de Deus. Para Libanio, uma Igreja inserida no mundo conduz a uma reestruturação ministerial322. Uma Igreja de discípulos cujo horizonte são os carismas do Espírito é, necessariamente, uma Igreja ministerial, reestruturada conforme os carismas que lhe são dados pelo Espírito, a fim de agir melhor nas contingências históricas.

A reestruturação ministerial é importante para dinamizar as ações dos novos ministérios que o Espírito suscita. Sem considerar isso, pode-se impedir a atualização dos ministérios já existentes e deixar de acolher os novos que possam surgir. A reestruturação ministerial incita à mudança de mentalidade em relação a todos os ministérios eclesiais e, ao mesmo tempo, à mentalidade de mudança em relação às novidades que o Espírito quer suscitar na Igreja. Isso desautoriza a classificação de valores entre os ministérios, em especial do ministério ordenado em relação aos outros ministérios. Almeida assinala que os ministérios laicais, ou ministérios não-ordenados, são carismas assumidos na forma de serviço e, mesmo que porventura tenham curta duração, sua importância é vital para a Igreja, pois são dados de acordo com as necessidades da época e do contexto323. A mudança nos ministérios laicais faz-nos entender

321 Ibidem, p. 170.

322 LIBANIO, João Batista. As lógicas da cidade: impacto sobre a fé e sob o impacto da fé. São Paulo: Loyola, 2001, p. 85-86.

323 Cf. ALMEIDA, Antonio. Teologia dos ministérios não-ordenados na América Latina. São Paulo: Loyola, 1989, p. 7.

que a Igreja sempre teve uma postura de reestruturação. No entanto, em relação aos ministérios ordenados, tal reestruturação precisa ser permanente, pois a todo momento o Espírito pode suscitar novos ministérios. Sem essa reestruturação, a ação evangelizadora pode perder força nesses tempos fluidos e de constantes mudanças.

Enfim, a terceira consideração remete-se à reflexão de Comblin sobre a teologia das realidades terrestres. Embora ele utilize a pneumatologia como horizonte teológico, sua reflexão possui um cunho bastante centrado na encarnação divina, mas não contempla a dimensão da kénosis. A nosso ver, o discípulo missionário precisa viver um esvaziamento de si mesmo, a fim de que a força do Espírito aja nele e, desse modo, se comprometa com o processo de libertação na história, proposto pelos evangelhos. Para Charles Caldwell Ryrie, alguns entendem a kénosis como encobrimento da glória que Jesus possuía antes da encarnação, e utilizam alguns textos dos evangelhos em caráter afirmativo: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós...” (Jo 1, 14) e ainda: “E agora glorifica-me, Pai, com a glória que eu tinha junto de ti, antes que o mundo existisse” (Jo 17, 5). Outros sugerem a kénosis como o uso involuntário dos atributos divinos de Jesus, conforme se vê no evangelista João (cf. Jo 1, 48; 2, 24; 16, 30). Ryrie aponta, todavia, que o capítulo dois da Carta aos Filipenses não discute o encobrimento da glória de Jesus, nem tampouco discute a restrição dos atributos divinos324. Esse texto toma a kénosis de Jesus pela condição humana de serviço ao mundo.

Em si, Jesus assume a kénosis para agir com liberdade e servir com gratuidade, sem interesses próprios. A encarnação, a perseverança e a fidelidade até a morte são consequências dessa condição kenótica. Assim sendo, a gratuidade do serviço ministerial exige o esvaziamento do discípulo, uma decisão livre de deixar o Espírito agir através dele. Sem a kénosis, o discípulo poderá resistir a essa força com suas justificativas próprias. Assim, a ação focada no Evangelho tem a força do Espírito e, por isso, é livre, solidária, resulta da kénosis e conduz a ela.

324 Cf. RYRIE, Charles Cadwell. Teologia básica ao alcance de todos. São Paulo: Mundo Cristão, 2003, p. 301.

No documento Gelson Luiz Milkuszka (páginas 105-109)