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A importância do consenso nos processos hegemônicos

Fluxograma 1 Consequências da violência na saúde das mulheres

3.1 A importância do consenso nos processos hegemônicos

3. MÍDIA E MANUFATURA DO CONSENSO PATRIARCAL

“o leitor não é consumidor, mas cidadão. O jornalismo é serviço público, não espetáculo”. Alberto Dines

A mídia tem um importante poder na criação e divulgação de informações, o que influencia de forma direta a formação de opinião e a legitimação de um consenso. Por mais que os meios de comunicação tentem transparecer neutralidade ao emitir as informações, é necessário que o receptor esteja atento, pois principalmente as grandes corporações trazem concepções conservadoras e de interesse da classe dominante.

Além disso, o fato de algumas notícias contarem com a participação de “especialistas do assunto”, faz com que o leitor/ouvinte se sinta mais confiante em relação as informações recebidas, e talvez isso, diminua seu senso crítico. Algo extremamente grave, haja vista que no Brasil existe o monopólio das informações por algumas poucas e grandes empresas.

Sendo assim, é necessário que haja uma mídia contra-hegemônica que evidencie outras questões para além do que é apresentado, muitas vezes de forma superficial por estas corporações, que tem como principal objetivo o lucro e a adesão de suas ideias. Fonseca (2004, p. 13) deixa isto claro ao afirmar que: “notícia é uma mercadoria, dado o caráter capitalista da esmagadora maioria das sociedades, e de que a democracia liberal permite a liberdade de expressão por meio da propriedade privada dos meios de comunicação”.

Conforme mencionado na introdução deste estudo, optamos por trabalhar com notícias que tenham publicação online, tentando discutir não apenas as suas manchetes -que tem caráter muito mais de espetáculo do que a própria narração-, assim como as imagens que façam alusão ao ocorrido, que despertam o interesse do leitor/consumidor desta mercadoria, que é a notícia, capaz de manufaturar um consenso e/ou reproduzir ideologias preconceituosas que conformam a naturalização, o domínio e a direção no campo em tela, dos homens sobre as mulheres.

ao processo de direção, ou seja, uma classe só é hegemônica quando conduz a(s) outra(s) e o Estado atua tanto na coerção quanto no consenso.

Dentro deste processo de construir a direção, exige-se a produção do consenso, que se realiza também sobre o senso comum, naturalizando-o e fazendo com que os indivíduos tenham uma visão cristalizada dos fatos. Então, nesta direção visamos perceber como as ideias machistas resistem ao tempo, transformando-se em senso comum. Para ilustrar essa resistência, essa dificuldade de romper com este compósito de ideias do patriarcado, quisemos estudar particularmente um aparelho privado de hegemonia, os meios de comunicação, através da imprensa. No entanto, utilizamos como exemplo também outras expressões como algumas propagandas.

Nos tempos de Gramsci não existia a mídia como nos é apresentada, porém, ele já estava preocupado com a função do jornalismo. Inspiradas por ele, neste capítulo colocaremos a centralidade da imprensa escrita, sobretudo dos jornais, que foi ampliado dentro do complexo midiático, pois é importante perceber como surge, constrói-se e perpetua-se o consenso.

Afinal, conforme trabalhado nesta dissertação, as categorias de gênero e violência correspondem a complexos de múltiplas determinações, as quais constantemente estão em voga na mídia, horas apresentando a mulher com estereótipos machistas e em outros momentos retratando casos de violência.

Também observamos que a Lei Maria da Penha, apesar de ter sido um importante avanço, não conseguiu acabar com a violência contra as mulheres, pois a mesma foi historicamente construída, estando culturalmente intrínseca em nossa sociedade. Sendo assim, com o passar dos tempos, entendemos que o senso comum acabou gerando irracionalidades que -por muitas vezes- foram banalizadas, revelando que o adensamento dos consentimentos é cotidiano, está presente nos canais midiáticos, que frequentemente o reforçam, fazendo com que a lei fique praticamente “engessada”.

Para entendermos o consenso é necessário entendermos a hegemonia e desta forma, visando conhecer um pouco mais sobre tais categorias teóricas, e outras que possuem relação, achamos válido trazer para o estudo as análises de Antonio Gramsci, pois para ele o consenso é um dos elementos fundamentais dos processos hegemônicos.

Vale lembrar que suas obras chegaram no Brasil a partir de meados dos anos 1960, porém, com o endurecimento do regime ditatorial, somente dez anos depois aproximadamente, tornou-se “uma das mais bem-sucedidas iniciativas editoriais no campo do

pensamento social em nosso País [...] Gramsci tornou-se um dos pensadores estrangeiros mais influentes na vida cultural brasileira” (GRAMSCI, 1999, p. 38).

Não nos deteremos aos detalhes dos escritos de Gramsci, pois nossa intenção neste estudo ao utilizá-los é apenas para evidenciar que tal autor, cujo exercício do jornalismo se deu ao longo de sua vida, acreditava que os meios de comunicação eram capazes de impor ideologias, criar consensos e assim, manter a hegemonia da “classe dirigente” (dominante), afinal, o poder não se apresentava apenas pela coerção. Era necessário uma direção moral, cultural, intelectual, “preparada por uma classe que lidera a constituição do bloco histórico”106 (MORAES, 2016, p. 16).

Para ele, o conceito de hegemonia representa um avanço político e filosófico, pois

“implica e supõe necessariamente uma unidade intelectual e uma ética adequada a uma concepção do real que superou o senso comum e tornou-se crítica, mesmo que dentro de limites ainda restritos” (GRAMSCI, 1999, p. 104).

Assim, Dênis de Moraes, um dos intérpretes das obras de Gramsci, em parte do seu livro “Crítica da mídia & hegemonia cultural” (2016), consegue resumir em poucas linhas uma das importantes contribuições do marxista italiano:

A construção da hegemonia na contemporaneidade cada vez mais se baseia em disputas ideológicas e culturais que influenciam e condicionam o imaginário social, a opinião pública, os sentidos de compreensão da realidade e as decisões eleitorais.

A conquista do consenso em torno de determinadas visões de mundo torna-se o alvo central das batalhas das ideias, travadas entre classes, frações de classes, instituições, grupos e organismos representativos de múltiplos interesses no interior da sociedade civil. (ibidem, 2016, p. 15, grifo nosso).

Deste modo, Gramsci acreditava que os grupos dominantes na sociedade atingiam a hegemonia quando conseguiam dominar as classes subalternas através do consenso, na qual as instituições da sociedade civil, tais quais a escola, a religião, os sindicatos, os meios de comunicação, exerciam um papel fundamental por criarem e propagarem as ideologias. Estes são os chamados aparelhos privados de hegemonia, em geral, “porta-vozes” da classe dirigente.

Entretanto, tendo como base Gramsci, Moraes (2016) faz uma ressalva ao explicar que a classificação “privados” (em relação a expressão aparelhos privados de hegemonia) pode variar, pois o Estado também pode requerer este consenso. Além disso, cabe ressaltar que ele atuava como um dos mecanismos essenciais para a manutenção da hegemonia e das “forças

106 Moraes (2016, p. 16) explica que o bloco histórico é “(ampla e durável aliança de classes e frações) dirigir moral e culturalmente, e de forma sustentada, o conjunto da sociedade [...] Uma direção político-cultural eficiente depende não somente da força material que o poder confere, como também de estratégias de argumentação e persuasão, ações concatenadas e interpretações convincentes sobre o quadro social”.

de coerção militar e civil à disposição das classes dirigentes tradicionais” (GRAMSCI, 1999, p. 299). Em outros termos:

o Estado é o instrumento para adequar a sociedade civil à estrutura econômica, mas é preciso que o Estado “queira” fazer isto, isto é, que o Estado seja dirigido pelos representantes da modificação ocorrida na estrutura econômica. Esperar que, através da propaganda e da persuasão, a sociedade civil se adapte à nova estrutura (GRAMSCI, 1999, p. 324).

Convém evidenciar que para Gramsci (2001, p. 21), existem duas esferas na superestrutura, que “correspondem, respectivamente, à função de ‘hegemonia’ que o grupo dominante exerce em toda a sociedade”, conforme foi explicitada anteriormente como

“sociedade civil”, e a outra esfera, chamada de “sociedade política ou Estado”, correspondente “àquela de ‘domínio direto’ ou de comando, que se expressa no Estado e no governo ‘jurídico’”. Apesar de serem distintas, elas se completam.

Sociedade civil e sociedade política se diferenciam pelas funções que exercem na organização da vida cotidiana e, mais especificamente, na reprodução das relações de poder. Na sociedade civil, as classes procuram ganhar aliados para seus projetos através da direção e do consenso. Já na sociedade política, as classes impõem uma dominação fundada na coerção. Em somatório, formam o Estado em sentido amplo:

“sociedade política + sociedade civil, isto é, hegemonia revestida de coerção”.

Embora estabeleça distinções estruturais e funcionais entre as duas esferas da superestrutura, Gramsci indica ser possível ocorrer, em determinado momento histórico, a síntese simultânea de hegemonia e dominação, consenso e coerção, direção e ditadura. É o momento da supremacia (MORAES, 2016, p. 18).

Os intelectuais são os “prepostos” do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso

“espontâneo” dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vista social, consenso que nasce “historicamente”

do prestígio (e, portanto, da confiança) obtida pelo grupo dominante por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 2) do aparelho de coerção estatal que assegura “legalmente” a disciplina dos grupos que não “consentem”, nem ativa nem passivamente, mas que é constituído para toda a sociedade na previsão dos momentos de crise no comando e na direção, nos quais desaparece o consenso espontâneo. Esta colocação do problema tem como resultado uma ampliação muito grande do conceito de intelectual, mas só assim se torna possível chegar a uma aproximação concreta à realidade. (GRAMSCI, 2001, p. 21).

Sendo assim, vemos que nesta arena de lutas travadas entre as classes, principalmente pelo direcionamento da sociedade, a coerção seria uma característica preponderante da sociedade política, enquanto na sociedade civil é através do consenso que as classes manteriam a hegemonia. Obviamente muitas coisas mudaram do período de Gramsci até os dias de hoje, inclusive a ampliação das mídias, tendo a internet como o maior expoente.

Ainda neste capítulo falaremos melhor sobre ela, que permitiu uma maior comunicação em tempo real e deu visibilidade a outras questões que nem sempre foram exploradas pela grande mídia, ou seja, é um campo onde atualmente e principalmente a

contra-hegemonia age, contando com a participação de vários setores da sociedade. Como Moraes (2016, p. 22) ressaltou: “A contra-hegemonia institui o contraditório e a tensão no que até então parecia uníssono e estável”.