Fluxograma 1 Consequências da violência na saúde das mulheres
1.1 Gênero: a complexidade da questão
1.1.1 Joan Scott e o marco dos estudos de gênero
Em pleno ano de 2018, o forte debate que envolveu as categorias “sexo” e “gênero”
até meados dos anos 1980, ainda se mostra presente e também é motivo de incompreensão.
Tais categorias possuíam uma dualidade, na qual “sexo” referia-se ao sexo biológico e a segunda ao aspecto cultural. No entanto, a primeira pessoa a ir além desta concepção limitada foi a historiadora norte-americana Joan Wallach Scott20 com o seu artigo “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, originalmente publicado em 1986.
A discussão de gênero no Brasil difundiu-se a partir dos primeiros anos da década de 1990 com a tradução desse artigo de Joan Scott. Vinculada a corrente de pensamento pós- estruturalista21 seu artigo promoveu ainda mais os debates acerca da temática de gênero, inclusive servindo como base das grandes estudiosas do meio, como Heleith Saffioti e Judith Butler. Ao longo do artigo, Scott (1990) evidencia que o termo gênero é uma categoria em disputa entre diferentes correntes e por isto não existe uma única definição; sendo assim, a autora a apresenta como se fosse um prisma, revelando suas diversas faces. Ademais, considera como “causa perdida” o aprisionamento a definições, pois as mesmas poderiam levar a frequentes equívocos em torno dos termos gênero e sexo, por exemplo.
Entendemos que a autora demarca seu ponto de vista ainda no título, pois se o gênero é uma categoria útil, pressupõe-se que há setores da sociedade que o reivindicam. Além disso, o termo deve ser analisado dentro de um contexto, levando em conta sua historicidade.
Conforme a autora, um desafio teórico está exposto, que
exige não somente a relação entre experiências masculinas e femininas no passado, mas também o laço entre a história do passado e as práticas históricas atuais. Como o gênero funciona nas relações sociais humanas? Como o gênero dá um sentido à organização e à percepção do conhecimento histórico? As respostas dependem do gênero como categoria de análise (SCOTT, 1990, p. 6-7).
Segundo a autora, as feministas norte-americanas utilizaram o termo gênero para poder ampliar o campo de estudos ao que se referia aos estudos femininos, pois a elas preocupava o fato de isolar o sexo oposto das análises, haja vista o caráter relacional de ambos. Para elas, as desigualdades entre homens e mulheres eram uma construção social e por
20 Professora emérita da Escola de Ciências Sociais, do Instituto de Estudos Avançados de Princeton, nos Estados Unidos da América (EUA). Disponível em: <https://www.ias.edu/scholars/scott>. Acesso em: 3 mar.
2018.
21 “Para os pós estruturalistas, ‘linguagem’ não designa somente as palavras, mas os sistemas de significação –as ordens simbólicas- que precedem o domínio da palavra propriamente dita, da leitura e da escrita” (SCOTT, 1990, p. 11).
isso se mostravam contrárias ao determinismo biológico, o qual veladamente era representado pelas expressões “sexo ou ‘diferença sexual” (SCOTT, 1990, p. 5).
Para Scott (1990, p. 6), “As pesquisadoras feministas que tinham uma visão política mais global”, defendiam que o estudo das mulheres implicaria novos assuntos e uma releitura dos materiais científicos até então produzidos e, frequentemente utilizavam-se das categorias de classe, raça e gênero.
Contrapondo-se a isto, Scott (1990) considera uma “ladainha” utilizar estas categorias para escrever “uma nova história” (ibidem, p. 6), pois não existe semelhança entre os termos.
A categoria “classe” estava relacionada ao marxismo, enquanto as outras não.
Diferentemente de Scott (1990), Mirla Cisne (2015) afirma que é a classe social que divide as mulheres no sistema capitalista, no qual as da classe dominante terão experiências diferenciadas quando comparadas às mulheres da classe dominada. Segundo ela,
O grande equívoco está em acentuar a ênfase nas diferenças, apenas como construções culturais, não se analisando, em uma perspectiva de totalidade, que tais expressões têm marcas de classe, ao denotarem claros interesses da burguesia em perpetuar subordinações e explorações que a favoreça, seja em força de trabalho precarizada, seja na responsabilização das mulheres pela reprodução social (CISNE, 2015, p. 96).
Conforme a autora, a única forma da emancipação feminina é através da superação do capitalismo, visto que é também devido às contradições entre as classes que afloram as desigualdades e opressões. Por isto sua crítica às análises pós-estruturalistas, pois não relacionar o gênero com as determinações as quais Scott (1990) chamou de “ladainha”, a partir da “contradição entre capital e trabalho” (CISNE, 2015, p. 98), não oferece um exame pormenorizado das
contradições desta sociedade e o foco das desigualdades. Assim, criticam a linearidade do gênero, mas a reproduzem ao não analisar os complexos sociais na dimensão da totalidade.
Além disso, essas análises acabam retrocedendo nos estudos de gênero ao não abordar aspectos materialistas da história, enfocando os símbolos, as representações, caindo no irracionalismo ao limitar-se no subjetivismo, sem a mínima mediação com as determinações objetivas da sociedade (CISNE, 2015, p.
98).
Reconhecemos que a perspectiva teórica explicitada por Cisne (2015) auxilia o adensamento do debate de uma forma mais ampla e superadora dos nexos que limitam a emancipação humana. Desta forma, fazemos uma opção pelo marxismo - sem desconsiderar as contribuições dadas pelas correntes pós-estruturalistas, tendo em vista que as desigualdades e as contradições de classe também se expressam na violência contra as mulheres de forma muito determinante.
Para Saffioti (2015), é importante entender o “nó” que se forma pelas categorias integrantes da estrutura social, tais quais as classes, o gênero e a “raça/etnicidade”, pois existe
“uma potenciação de contradições” (ibidem, p. 83) que é ressaltada quando se analisa este conjunto; resultado este que difere quando cada categoria é avaliada à parte.
Dependendo das condições históricas vivenciadas, uma destas faces estará proeminente, enquanto as demais, ainda que vivas, colocam-se à sombra da primeira. Em outras circunstâncias, será uma outra faceta dominante. Esta mobilidade do sujeito múltiplo acompanha a instabilidade dos processos sociais, sempre em ebulição (SAFFIOTI, 2015, p. 83).
O importante é analisar estas contradições na condição de fundidas ou enoveladas ou enlaçadas em um nó. Não se trata da figura de um nó górdio nem apertado, mas do nó frouxo, deixando mobilidade para cada uma de suas componentes (Saffioti, 1998). Não que cada uma destas contradições atue livre e isoladamente. No nó, elas passam a apresentar uma dinâmica especial, própria do nó. Ou seja, a dinâmica de cada uma condiciona-se à nova realidade, presidida por uma lógica contraditória (Saffioti, 1988). (SAFFIOTI, 2015, p. 133).
É importante destacar que Scott (1990) ressalta alguns usos descritivos do termo gênero, em sua maioria por historiadoras (es), porém, afirma que estes possuem limitações, pois tendem generalizar ou fornecer explicações simplificadoras que “destroem não somente a complexidade do sentido que propõe a história, como disciplina, da causalidade social, mas também o engajamento feminista na elaboração de análises que levem à transformação” (p.
7). Os principais usos destacados pela a autora são: como alternativa para a designar
“mulheres”, haja vista que possui uma “conotação mais objetiva e neutra” (ibidem, p. 7), afastando-se, de certa forma, “da política (pretensamente ruidosa) do feminismo” (ibidem, p.
7), sendo uma estratégia para validar academicamente a produção dos estudos feministas na década de 1980. O outro ponto apresentado é que o gênero pode referir-se tanto para mulheres quanto para homens -vide seu aspecto relacional, e também aponta as “relações sociais entre os sexos”22 (ibidem, p. 7) as quais evidenciam que o gênero é uma construção social e não um determinante biológico que limita a participação de homens e mulheres na sociedade.
Concordando com este último ponto, Saffioti (2015) defende que o uso do termo gênero foi fortemente utilizado com o objetivo de recusar o essencialismo biológico. Para esta autora, apesar de Simone de Beauvoir não ter utilizado tal termo, suas publicações apontavam também essa recusa de que a anatomia humana era capaz de definir as atribuições de homens e mulheres.
22 No prefácio da segunda edição do livro “Gênero, Divisão Sexual do Trabalho e Serviço Social” de Mirla Cisne, a autora ressalta a substituição do “conceito de gênero pela categoria relações sociais de sexo” (CISNE, 2015, p. 17).
Para Scott (1990) é necessário dar atenção aos sistemas simbólicos para compreender como a questão de gênero é representada nas sociedades, seja
para articular as regras de relações sociais ou para construir o sentido da experiência.
Sem o sentido não há experiência; sem processo de significação não há sentido (o que não quer dizer que a linguagem é tudo, mas que uma teoria que não a leve em consideração não saberá perceber os poderosos papéis que os símbolos, as metáforas, e os conceitos jogam na definição da personalidade e da história humanas” (p. 11-12).
Além disso, assim como Saffioti (2015), Scott (1990) rejeita o binarismo de gênero e defende que:
Devemos encontrar os meios (mesmo incompletos) para submeter sem cessar nossas categorias à crítica, nossas análises à auto-crítica. O que significa analisar dentro de seu contexto a maneira pela qual opera toda oposição binária, derrubando e deslocando sua construção hierárquica, em lugar de aceitá-la como real, como evidente por si ou como sendo da natureza das coisas. Num certo sentido, as feministas não têm feito senão isto através dos anos. A história do pensamento feminista é uma história da recusa da construção hierárquica entre masculino e feminino, em seus contextos específicos; é uma tentativa de reverter ou deslocar seus funcionamentos (SCOTT, 1990, p. 13).
A autora afirma que somente no final do século XX começaram a surgir os questionamentos a respeito do gênero como categoria a ser analisada. Sendo assim, entendemos que historicamente não estava colocado para Karl Marx, falecido em 1883, alvo de críticas por não ter dado tamanha atenção a questão de gênero23.
Para Scott (1990, p. 14), “as feministas não somente começaram a encontrar uma voz teórica própria; elas também encontraram aliados científicos e políticos. É dentro deste espaço que nós devemos articular o gênero como uma categoria de análise”. A autora sugere
examinar atentamente nossos métodos de análise [...]. Ao invés de pesquisar as origens únicas, devemos conceber os processos de tal modo ligados entre eles que não poderiam estar separados. É evidente que nós escolhemos problemas concretos para estudar e que estes problemas constituem os começos, ou recortes de processos complexos. Mas são os processos que é necessário sem cessar ter em mente.
Devemos nos perguntar mais seguidamente como as coisas se passaram para descobrir por que elas se passaram (SCOTT, 1990, p. 14).
A definição de gênero para Scott (1990) está dividida em duas partes principais e dentro delas existem outras, que apesar de terem uma vinculação, devem ser analisadas de formas distintas.
23 Souza e Veloso (2015) dissertam sobre o aporte de Engels a este tema, utilizando-se como base seu livro “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”.
O núcleo essencial da definição repousa sobre a relação fundamental entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos, e o gênero é um primeiro modo de dar significado às relações de poder (SCOTT, 1990, p. 14).
A primeira parte é dividida em quatro componentes: “primeiro, os símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas (e com frequência contraditórias) - Eva e Maria como símbolo da mulher, por exemplo [...]. Em segundo lugar, os conceitos normativos” (p. 14) presentes nas ideologias religiosas, políticas, científicas que defendem os limites do que é masculino e feminino, como se fossem um consenso. O terceiro elemento é analisar cuidadosamente a origem da reprodução da noção acerca da representação fixa e binária do gênero. “Este tipo de análise deve incluir uma noção de política bem como uma referência às instituições e à organização social” (p. 15). Por fim, o último componente é a “identidade subjetiva”. Para Scott (1990), a investigação de como são criadas as identidades de gênero e relacionar os resultados encontrados “com toda uma série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente situadas” (p. 15) deveria constar dentre as preocupações das historiadoras feministas.
Na segunda parte a autora defende a ideia de que “o gênero é uma primeira maneira de dar significado às relações de poder [...] é então um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1990, p. 16).
A obra de Scott (1990) ofereceu valiosas contribuições aos estudos de gênero, especialmente ao sistematizar as principais concepções teóricas até então difundidas e por oferecer mais uma análise à categoria, acreditando que são “as relações de poder que definem como os sexos devem manter suas interações” (DE TILIO, 2016, p. 134) e não somente a diferença sexual. Contudo, existem mediações necessárias a esse debate conforme ainda veremos neste capítulo.