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Fernanda Sofieti Netto Mídia e manufatura do consenso

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Academic year: 2023

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Consequências da violência na saúde das mulheres

Gênero: a complexidade da questão

  • Joan Scott e o marco dos estudos de gênero
  • O conceito de gênero no Brasil: dimensões teóricas e históricas
  • Mirla Cisne: a ênfase na centralidade da identidade de classe

A partir da década de oitenta do século XX, os chamados estudos de género revolucionaram todo o campo conceptual em que se situava a questão do feminismo. Embora Saffioti (2015) defenda que muitas vezes se assume uma hierarquia masculina, pois “o conceito de género não explica necessariamente a desigualdade entre homens e mulheres” (p. 47).

Gráfico 1 – “Média da renda familiar per capita por raça/cor e gênero no Brasil entre 2011 e  2015 (em reais)” (LEÃO et al., 2017, p
Gráfico 1 – “Média da renda familiar per capita por raça/cor e gênero no Brasil entre 2011 e 2015 (em reais)” (LEÃO et al., 2017, p

Divisão social (sexual) do trabalho

44 É importante destacar que para os materialistas franceses as relações sociais de classe, género e “raça” fazem parte das relações de produção, que partilham domínio, exploração e opressão. Portanto, é fundamental “analisar a fundo como o trabalho de um grupo é apropriado por outro, o que nos obriga a retornar às disputas (materiais e ideológicas) das relações sociais” (KERGOAT, 2010, p. 99).

O fenômeno da violência: aportes para o debate

Conforme discutido no capítulo anterior, a questão do género, que apresenta um elevado nível de complexidade, teve que ser trabalhada para compreender as manifestações da violência contra as mulheres. Em 2010, a Assembleia Geral da ONU adoptou o Modelo actualizado de Estratégias e Medidas Práticas para a Eliminação da Violência contra as Mulheres na Prevenção do Crime e na Justiça Penal (16). Com base nas escrituras do capítulo anterior, entendemos que a violência de gênero inclui a violência contra a mulher, que é o objetivo a ser trabalhado nesta seção.

Segundo Saffioti (1999), dentro da violência de gênero, outros tipos de relações também devem ser levados em consideração, além das relações heterossexuais entre homens e mulheres, como as relações homossexuais. Para melhor compreensão, o mesmo estudo (OMS, 2013) criou um fluxograma sobre algumas das consequências da violência cometida por parceiros íntimos na vida de suas vítimas. É, portanto, claro que a violência contra as mulheres viola os direitos humanos básicos e representa um problema de saúde pública global.

O que distingue a violência contra as mulheres é a violência ou a coerção (verbal ou física) que é parcialmente tolerada socialmente porque as vítimas são mulheres. O enquadramento legal – o longo caminho até ao reconhecimento por parte do Estado da questão da violência contra as mulheres.

Mapa  1  –  Porcentagem  regional  da  violência  cometida  pelo  “parceiro  íntimo”,  segundo  a  OMS (2014):
Mapa 1 – Porcentagem regional da violência cometida pelo “parceiro íntimo”, segundo a OMS (2014):

O marco legal - o longo percurso do reconhecimento do Estado perante a

  • Lei Maria da Penha
  • Lei do Feminicídio

Disponível em: . 140 Disponível em: . 153 Disponível em:

165 Disponível em: . Disponível em:. Disponível em: .

Disponível em: . Disponível em: .

Gráfico 2 – Medidas protetivas emitidas pelos tribunais
Gráfico 2 – Medidas protetivas emitidas pelos tribunais

A banalização da violência contra a mulher

  • A naturalização através das músicas

A realidade da violência em dados

Portanto, para este item, tomamos como base o Dossiê Mulher 201899, publicado recentemente (04 de maio) pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), que destaca dados sobre a violência que atingiu as mulheres no estado do Rio de Janeiro em 2017 . Mapa da violência - assassinatos de mulheres (2015), que baseou a sua análise em registos da área da saúde, o Dossiê da Mulher 2018 foi obtido especialmente a partir de registos policiais100 (ISP, 2018). Além disso, no caso da violência sexual103, o machismo ainda é um factor dominante mesmo entre os homens.

Os primeiros morrem mais na esfera pública do que os estrangeiros, e as mulheres são as principais vítimas da violência doméstica. Confirmando este facto, o Dossiê da Mulher 2018 aponta ainda que os principais autores dos homicídios das vítimas foram passageiros ou ex-passageiros, sendo que a principal ferramenta para a prática do acto foi uma arma de fogo. Dessa forma, fica mais uma vez comprovado que as mulheres sofrem violência principalmente por parte de seus familiares e no ambiente doméstico, que deveria ser um local de proteção, mas como mostram os dados, esse ambiente é capaz de promover a invisibilidade da violência.

Além disso, é necessário vincular essa violência não apenas à desigualdade de gênero e de classe, mas também à cor/raça da pele, pois dados oficiais indicam que os negros são as principais vítimas da violência mortal no Brasil. Dito isto, podemos perceber que a complexidade das questões que envolvem o tema da violência contra a mulher é muito grande, e aprofundar todas as conexões com esta questão não caberia nos limites de uma dissertação.

Tabela 2 – Violência sexual  Forma de
Tabela 2 – Violência sexual Forma de

A importância do consenso nos processos hegemônicos

Por mais que a mídia tente parecer neutra ao fornecer as informações, é necessário que o destinatário esteja atento, pois as grandes corporações trazem principalmente conceitos e interesses conservadores da classe dominante. Para ilustrar esta resistência, esta dificuldade em romper com este conjunto de ideias de patriarcado, quisemos estudar em particular um aparelho privado de hegemonia, os meios de comunicação, através da imprensa. Alcançar consenso sobre determinadas visões de mundo torna-se o objetivo central das batalhas de ideias, desenvolvidas entre classes, facções de classe, instituições, grupos e organismos representativos de múltiplos interesses dentro da sociedade civil.

Dessa forma, Gramsci acreditava que os grupos dominantes da sociedade alcançavam a hegemonia quando conseguiam dominar as classes subordinadas por meio do consenso, no qual as instituições da sociedade civil, como a escola, a religião, os sindicatos, a mídia, exerciam um papel fundamental na a criação e propagação de ideologias. Vale ressaltar que para Gramsci (2001, p. 21), existem duas esferas na superestrutura, que “respondem, respectivamente, à função de ‘hegemonia’ que o grupo dominante exerce sobre toda a sociedade”, conforme explicado anteriormente . sociedade civil", e a outra esfera, denominada "sociedade ou estado político", que corresponde "àquela do "governo direto" ou comando, que se expressa no estado e governo "legais". A sociedade civil e a sociedade política distinguem-se pelas funções que desempenham na organização da vida quotidiana e, mais especificamente, na reprodução das relações de poder.

Na sociedade civil, as classes procuram ganhar aliados para os seus projetos através de direção e consenso. Vemos, portanto, que nesta arena de luta entre classes, principalmente pela direção da sociedade, a coerção seria uma característica dominante da sociedade política, enquanto na sociedade civil é por consenso que as classes manteriam a hegemonia.

A construção da percepção histórica da mulher

  • A imagem da mulher nas propagandas: exemplo irrefutável

Portanto, fica claro que as mulheres sempre foram vistas – em sua maioria – como seres mais “delicados”, relacionados à vaidade, que desempenham funções menos importantes e, portanto, possuem menos status. 110 “Se considerarmos todas as mulheres (empregadas, desempregadas e inativas), elas dedicam 20,9 horas às tarefas domésticas e aos cuidados pessoais das crianças e dos idosos, incluindo atividades como cuidar dos filhos e levá-los à escola. Abaixo segue a poesia da freira Sor Juana Inés de la Cruz, citada por Karnal (2017), que expõe o machismo e a hipocrisia masculina em relação às mulheres.

111 “Dados da OMS (Organização Mundial da Saúde) publicados em 2016 indicam que a expectativa de vida dos homens no mundo é de 69,1 anos, enquanto as mulheres vivem em média 73,8 anos. Ou seja, ninguém está feliz, você pode ser mais modesto, se não admitir, você é ingrato, e se admitir, você é liviana. Além disso, as mulheres que aparecem em comerciais de beleza ou dirigidos a homens seguem um padrão de beleza que não corresponde à maioria das “mulheres reais” da sociedade.

E na maioria das vezes, as mulheres do atendimento ao cliente precisam ser bonitas para seduzir os clientes. Essa seria uma ótima estratégia se não fosse a frase “Meu cabelo liso traz à tona o que há de melhor em mim...” e a imagem de uma modelo com cabelo liso e chapinha no canto inferior direito, pois destaca a questão racial como se a mulher se sentisse bonita e valorizada, deveria se adequar ao típico padrão de beleza branca dos cabelos lisos, como se outros tipos de cabelos não fossem igualmente bonitos/aceitos.

Figura 2 – Propaganda da cerveja Itaipava
Figura 2 – Propaganda da cerveja Itaipava

Do jornalismo aos canais midiáticos: a pedagogia cotidiana da hegemonia

120 Disponível em: . Portanto, deixou de ser imparcial e investigativo e passou a ser opinativo, transmitindo assim ideais e julgamentos do ponto de vista da classe dominante. Para que esta consolidação ocorra, o Estado tem um papel fundamental, pois serve os interesses da classe dominante.

Antonio Gramsci (1976) em seus estudos já expôs a intenção dos jornais burgueses, que ele chamava de “mercadoria”, de sempre carregarem em seus artigos os ideais da classe dominante, portanto a classe trabalhadora não deveria investir/consumir suas publicações. , pois tinham a função de. 121 Disponível em: . 122 Disponível em: .

Dessa forma, o jornalismo de imprensa de esquerda auxiliaria na compreensão crítica da classe trabalhadora, pois ambas estavam do mesmo lado, sendo esta imprensa representativa da contra-hegemonia. Como já foi dito muitas vezes, ele forma opiniões, é capaz de intervenção política124 e está sempre a favor dos interesses da classe dominante.

O papel das notícias dos jornais na naturalização da violência contra as

133 Para mais detalhes, veja os relatórios: Disponível em: . 149 Disponível em: .

150 Disponível em: . 152 Disponível em: . 160 Disponível em: .

Disponível em: . Disponível em: .

Disponível em: .

Figura 7 – Revista Veja, 2006
Figura 7 – Revista Veja, 2006

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Tabela 1 – Mulheres assassinadas no Brasil entre os anos 1980 e 2013.
Gráfico 1 – “Média da renda familiar per capita por raça/cor e gênero no Brasil entre 2011 e  2015 (em reais)” (LEÃO et al., 2017, p
Mapa  1  –  Porcentagem  regional  da  violência  cometida  pelo  “parceiro  íntimo”,  segundo  a  OMS (2014):
Gráfico 2 – Medidas protetivas emitidas pelos tribunais
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Referências

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