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Fluxograma 1 Consequências da violência na saúde das mulheres

2.2 O marco legal - o longo percurso do reconhecimento do Estado perante a

2.2.1 Lei Maria da Penha

Todo esse sofrimento era passado entre quatro paredes, pois perante estranhos, ele se portava como uma pessoa educada, cortês e comedida. Minha família talvez tivesse tido algum indício do que acontecia, mas eu procurava não revelar esse fardo, para não agravar ainda mais a situação (FERNANDES, 2012, p. 27, grifo nosso).

A citação acima foi retirada do livro “Sobrevivi - posso contar”, de Maria da Penha Maia Fernandes69, a mulher que simbolizou a luta contra a violência perpetrada às mulheres.

Graças a sua luta de quase 20 anos por justiça, que mobilizou diferentes movimentos ao expor ainda mais70 um fato que permanecia no silêncio do âmbito doméstico, a morosidade da justiça brasileira para julgar casos como estes e suas penas brandas aos agressores. No dia 7 de agosto de 2006, o então presidente Luís Inácio da Silva, sancionou a Lei 11.340/2006, que ficou conhecida como “Lei Maria da Penha”71 (LMP).

Art. 1o Esta Lei cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar (BRASIL, 2006).

Foi preciso que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (CIDH/OEA) responsabilizasse o Brasil em 2001 pela violação dos direitos humanos sofridos por Maria da Penha e, evidenciasse que seu caso “não era uma situação isolada, mas um caso emblemático, de padrão sistemático de violação e impunidade no país, revelando o viés de discriminação e violência contra as mulheres do sistema de

69 Ela e suas filhas viveram por anos em situação de violência pelo então marido de Maria, Marco Antonio (colombiano, economista e professor universitário). Por duas vezes ele tentou assassiná-la; na primeira tentativa, simulou um assalto a residência, disparando-lhe dois tiros nas costas enquanto dormia, deixando-a paraplégica.

Na segunda, tentou eletrocutá-la no banho. Apesar de todas as evidências das violências perpetradas por ele, somente a seis meses dos crimes prescreverem, ele foi preso, ou seja, quase duas décadas depois (FERNANDES, 2012).

70 Como vimos, os movimentos feminista e de mulheres a partir dos anos 1970 já denunciavam as violências sofridas pelas mulheres (MEDEIROS, 2016).

71 Conforme o relatório bianual do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (UNIFEM), esta lei é considerada a terceira melhor do mundo no combate à violência contra as mulheres, ficando apenas atrás das legislações espanhola e chilena. Disponível em: <http://www.spm.gov.br/area-

imprensa/ultimas_noticias/2009/04/not_rel_glo_do_unifem_apo_lei_mar_pen_ent_tre_mai_ava_mun>. Acesso em: 30 abr. 2018.

justiça, bem como a violação do Estado do dever de prevenir a violência doméstica contra as mulheres” (FERNANDES, 2012, p. 219).

Conforme a análise do Relatório Nacional do período de 1985 a 2002, no ano de 2003, o órgão das Nações Unidas, CEDAW, parabenizou alguns avanços do Estado Brasileiro, porém fez várias recomendações72, inclusive que para que fosse criada uma legislação específica, voltada à violência doméstica:

112. Sem deixar de reconhecer os esforços realizados para fazer frente à violência contra a mulher, entre eles a implantação de Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM) e as Casas Abrigo para mulheres, o Comitê expressa preocupação pela persistente violência contra mulheres e meninas, a violência doméstica e a violência sexual, a indulgência com que são punidos os autores desses atos de violência e a ausência de uma lei concreta sobre a violência doméstica. O Comitê também expressa preocupação pelo fato de que a violência contra a mulher, incluídas a violência doméstica e a violência sexual, não são abordadas em grau suficiente devido à falta de informação e de dados.

113. O Comitê recomenda ao Estado-Parte adotar todas as medidas necessárias para combater a violência contra a mulher, de conformidade com a recomendação geral 19 do Comitê de prevenir a violência, punir os agressores e prestar serviços às vítimas. O Comitê recomenda que o Estado parte adote sem demora uma lei sobre a violência doméstica e tome medidas práticas para acompanhar de perto e supervisionar a aplicação de uma lei desse tipo e avaliar sua eficácia. O Comitê solicita ao Estado-Parte que proporcione informações gerais e dados sobre a violência contra a mulher em seu próximo informe periódico (BRASIL, 2003, p. 7).

Assim, dentro deste contexto, em 2006, foi sancionada a LMP, que protege a vida de todas as mulheres, independente de sua idade, religião classe, orientação sexual entre outros fatores. Inclusive, para o desembargador João Ziraldo Maia, da 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e para a defensora pública Leticia Oliveira Furtado, esta garantia de proteção serve para todas que se identifiquem como mulheres, ainda que seu sexo biológico seja/tenha sido o masculino (RODAS, 2017).

No artigo 5º, é exposto quais situações são julgadas dentro da LMP:

I - no âmbito da unidade doméstica, compreendida como o espaço de convívio permanente de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas;

II - no âmbito da família, compreendida como a comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

III - em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação.

Parágrafo único. As relações pessoais enunciadas neste artigo independem de orientação sexual (BRASIL, 2006).

72 Disponível em: <www.spm.gov.br/.../recomendacoes-cedaw-traduzido-e-revisado-26-12-03.doc>. Acesso em:

1 maio 2018.

Deste modo, entendemos a importância da extensão da compreensão de família, haja vista que o agressor pode ser alguém próximo, que não necessariamente possua laços sanguíneos. Além disso, estabelecer um local físico onde esta violência ocorre, auxilia na interpretação de quem acredita que pode ser respaldada por esta lei no espaço público tendo sido vítima de algum desconhecido.

Ressaltamos também o artigo 7º que diz respeito as violências que a LPM abrange;

principalmente por incluir a violência psicológica, tão nefasta quanto as violências física e sexual (cabe observar que muitas vezes a violência física engloba a sexual). Por esta ser

“invisível”, as pessoas tendem a não compreendê-la em sua totalidade e fazem julgamentos negativos, o que piora ainda mais a situação da mulher vitimada. Fazendo com que ela se sinta mais envergonhada, logo, cada vez mais reclusa. Por isso a importância extrema de uma escuta -e ações- de qualidade por parte dos profissionais que lidam com a questão73, pois dificilmente ela sairá desta situação sozinha.

Art. 7o São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras:

I - a violência física, entendida como qualquer conduta que ofenda sua integridade ou saúde corporal;

II - a violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação;

III - a violência sexual, entendida como qualquer conduta que a constranja a presenciar, a manter ou a participar de relação sexual não desejada, mediante intimidação, ameaça, coação ou uso da força; que a induza a comercializar ou a utilizar, de qualquer modo, a sua sexualidade, que a impeça de usar qualquer método contraceptivo ou que a force ao matrimônio, à gravidez, ao aborto ou à prostituição, mediante coação, chantagem, suborno ou manipulação; ou que limite ou anule o exercício de seus direitos sexuais e reprodutivos;

IV - a violência patrimonial, entendida como qualquer conduta que configure retenção, subtração, destruição parcial ou total de seus objetos, instrumentos de trabalho, documentos pessoais, bens, valores e direitos ou recursos econômicos, incluindo os destinados a satisfazer suas necessidades;

V - a violência moral, entendida como qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria (BRASIL, 2006).

Em relação aos artigos 10, 11 e 12, que dizem respeito ao modo como deve proceder o atendimento pela autoridade policial, chamamos a atenção de que frequentemente escutamos relatos de que alguns policiais, quando atendem as mulheres que procuram a DEAM para formalizarem a denúncia, revelam todo o seu preconceito e as desestimulam a fazer o boletim

73 O art. 8º apresenta melhor esta questão, inclusive no inciso VII, que se refere a “capacitação permanente [...]

quanto às questões de gênero e de raça ou etnia” dos profissionais. Este fator é de grande importância, pois aprimora a compreensão da totalidade da violência e suas interseções.

de ocorrência, pois carregam consigo a ideia de que as mesmas retomarão o relacionamento em pouco tempo e, dificilmente a violência psicológica é considerada.

Exemplificando este aspecto, trazemos à luz com mais detalhes o estudo de Barbara Soares (2002), que é antropóloga e relatou sua experiência74 como subsecretária adjunta na Secretaria de Estado de Segurança Pública, na gestão do governador Anthony Garotinho, em 1998.

No caso do treinamento de policiais, por exemplo, a missão era clara e espinhosa.

Sonhávamos mudar a forma como o(a)s policiais tratavam (e tratam) as mulheres, substituindo a indiferença, o desrespeito e a descortesia habituais por uma atenção profissional e solidária. Parecia simples, mas não era. Nesse caso, para alterar as práticas fazia-se necessário interferir no plano das concepções e enfrentar pelo menos o mais resistente dos obstáculos ao bom atendimento: o preconceito.

Diante das turmas de policiais a quem me cabia apresentar a problemática da violência contra mulheres, era preciso optar por uma interpretação. Só havia, nesse caso, um caminho possível: enfatizar a ideia da vitimização feminina para convencê-los de que as mulheres não apanham porque gostam, não são estupradas por terem instigado o estuprador e não permanecem por meses ou anos com seus agressores por ignorância ou por serem desavergonhadas.

Embora absurdas, estas são ainda as ideias que orientam a atuação de muitos agentes de polícia, mesmo nas delegacias da mulher onde, supostamente, se deveria oferecer um tratamento mais respeitoso às vítimas (idem, 2002, p. 42, grifos nossos).

Por muitas vezes as mulheres que sofrem a violência demoram para realizarem a denúncia haja vista sua ligação emocional e/ou financeira com o agressor, a falta de apoio da família, o medo e a vergonha (CAMPINHA; MEDEIROS, 2017, p. 252). Em relação aos dois últimos aspectos, frisamos que o medo de represálias e/ou de morrer pelas mãos do companheiro ou ex-companheiro é um medo real, pois os -poucos- dados oficiais e as várias matérias veiculadas pela mídia os apontam como os principais assassinos. Não raro, o agressor isola e humilha a vítima, de forma que ela se sinta envergonhada e fragilizada demais para pedir ajuda ou mesmo por temer as reações negativas de pessoas próximas, como as famosas frases: “está com ele porque gosta de apanhar” e “não tem vergonha na cara, porque se tivesse, não estaria com ele”.

Em relação ao exposto, faz-se necessário explicar o ciclo da violência doméstica75. Ele é formado por três fases: a primeira é caracterizada pelo acúmulo da tensão, no qual o homem fica cada vez mais irritado por pequenos motivos e sua companheira tensa, tentando amenizar suas atitudes, de forma que ele não se sinta incomodado. “Eu vivia em função de

74 SOARES, B. A Antropologia no executivo: limites e perspectivas. In: Corrêa, Mariza et alii Gênero &

Cidadania. Campinas-SP, Pagu/Núcleo de Estudos de Gênero -Unicamp, 2002. Disponível em:

<https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2017/02/ArtigoBarbaraPAGU.pdf>. Acesso em: 28 abr.

2018.

75 O Instituto Maria da Penha fornece mais detalhes a respeito do ciclo da violência. Disponível em:

<https://www.relogiosdaviolencia.com.br/ciclo-da-violencia>. Acesso em: 30 abr. 2018. Para enriquecer a explicação, julgamos melhor ilustrar com exemplos retirados do livro de Maria da Penha.

evitar que as coisas piorassem, sempre na mesma luta para controlar as crianças a fim de que não o irritassem” (FERNANDES, 2012, p. 29).

A segunda é a fase da explosão, na qual o agressor externaliza toda a sua raiva, ofendendo-a verbalmente, moralmente e, por muitas vezes, agredindo-a fisicamente.

“Atormentavam-me as agressões em forma de chutes no pé da cama, ou solavancos, quando em meio a ‘conversas’ [...]eu cochilava por força do efeito dos medicamentos e ele despertava-me, dizendo: ‘Só porque eu cheguei você inventou de dormir’” (FERNANDES, 2012, p. 52).

Por fim, a fase da “lua de mel”, na qual o agressor mostra-se arrependido por suas atitudes, pede desculpas, promete que vai mudar, faz de tudo para agradar e assim, a mulher resolve dar-lhe uma nova chance. Entretanto, esta fase é passageira e logo o relacionamento voltará à primeira fase.

Passados alguns dias recebi um cartão, no qual, entre outras coisas, estava escrito:

“Meu amor, foi como acordar de um pesadelo e entrar noutro pior… você desabafou e me acordou… eu fui muito besta, eu sei agora o quanto errei… se for necessário que eu entre em entendimentos com seus pais e irmãos eu o faço. Você é boa, eu sei… então Deus me perdoe, pois o único culpado da tua situação sou eu. Marco Antônio. Rio, 10 de novembro de 1983 (FERNANDES, 2012, p. 91).

Acreditamos que este ciclo também favorece em grande escala que as mulheres nesta situação permaneçam com seus agressores, pois estão atreladas a esta dinâmica violenta, na qual frequentemente, só se percebem em situação de violência quando ela manifesta-se fisicamente.

Outro ponto que vale uma observação, é o artigo 16 da LPM, o qual expõe que “só será admitida a renúncia à representação perante ao juiz, em audiência especialmente designada com tal finalidade [...]”. Consideramos que seja principalmente para identificar se a vítima não está sendo coagida pelo acusado a retirar a denúncia. Ademais, isto também pode acontecer pelo desejo próprio da mulher, especialmente se ela estiver vivenciando a “lua de mel”, uma das fases do ciclo da violência.

As autoras Campinha e Medeiros (2017, p. 245) explanam o processo democrático percorrido até a criação da Lei Maria da Penha e afirmam que ela representou um “marco histórico”, pois foi fruto de uma combinação exitosa entre os “movimentos de mulheres e feministas brasileiro e os Poderes Executivo e Legislativo”. Ademais,

esta nova legislação trouxe “uma maior penalização do agressor, o que até então não ocorria quando na vigência da Lei nº 9.099/1995, pela qual os casos de violência contra a mulher eram considerados crimes de menor potencial ofensivo, sem que nenhuma medida protetiva fosse oferecida à vítima e a pena principal impetrada ao agressor se reduzia ao pagamento de cestas básicas” (CAMPINHA; MEDEIROS, 2017, p. 245).

Aparecida Suelaine Carneiro, socióloga e coordenadora Geledés Instituto da Mulher Negra, também acredita que a LMP foi uma grande vitória, pois “demonstra sua capacidade de ação política e de tensionar as estruturas sociais, a partir da crítica das relações de gênero, que se inscrevem no campo do imaginário e nas estruturas institucionais” (CARNEIRO, 2017, não paginado).

O estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) no mês de março de 2015, Avaliando a Efetividade da Lei Maria da Penha76, teve como objetivo evidenciar que existe uma ausência de estudos específicos voltados para esta questão, e por isto, o esforço de realizar este tipo de pesquisa.

Foram citados alguns pontos significativos, como por exemplo, o impacto da LPM no comportamento dos que cometem e recebem a violência:

i) aumento do custo da pena para o agressor; ii) aumento do empoderamento e das condições de segurança para que a vítima pudesse denunciar; e iii) aperfeiçoamento dos mecanismos jurisdicionais, possibilitando ao sistema de justiça criminal que atendesse de forma mais efetiva os casos envolvendo violência doméstica. A conjunção dos dois últimos elementos seguiu no sentido de aumentar a probabilidade de condenação. Os três elementos somados fizeram aumentar o custo esperado da punição, com potenciais efeitos para dissuadir a violência doméstica (IPEA, 2015, p. 32).

Todavia, o estudo reconhece o “limite territorial” da LMP, pois mesmo sendo uma legislação de caráter federal, a mesma não consegue ser colocada em prática de forma eficiente dependendo da localidade, pois não existe uma homogeneidade dos serviços oferecidos, como as DEAMs, casas-abrigo.

Entretanto, conforme as pesquisas realizadas, foi comprovado que a LPM “gerou efeitos estatisticamente significativos para fazer diminuir os homicídios de mulheres associados à questão de gênero” (IPEA, 2015, p. 34). Esta comprovação representa uma grande mudança pois como o texto salientou, ainda vivemos em uma sociedade dominada pela “ideologia patriarcal, que até outro dia admitia que a mulher fosse morta em legítima defesa da honra” (ibidem, p. 35).

Abaixo, apresentamos o quadro comparativo das mudanças propiciadas por esta legislação tão importante e ao mesmo tempo infelizmente necessária, divulgada pela Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados (2010)77:

76 “Em face da indisponibilidade de dados sobre violência não letal contra a mulher, construímos nossa avaliação empírica sobre a efetividade da LMP com base na análise de homicídios e de homicídios perpetrados dentro das residências, que mais se aproximam do fenômeno da violência doméstica” (IPEA, 2015, p. 33).

77 Disponível em: <http://adcon.rn.gov.br/ACERVO/spmrn/DOC/DOC000000000076385.PDF>. Acesso em: 9 maio 2018. Acrescenta-se ao quadro a violência moral com a Lei Maria da Penha.

Quadro 3 – Mudanças ocorridas pela LMP

Fonte: Brasil, 2010, p. 34-34.

Na publicação divulgada pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), O poder judiciário na aplicação da Lei Maria da Penha (2017)78, foi explicada a incumbência do Poder Judiciário brasileiro em especializar-se no atendimento às mulheres que se encontram em situação de violência doméstica e familiar (no documento utiliza a palavra “vítimas”), criando órgãos79 voltados diretamente para lidar com esta questão.

Foi verificado um aumento significativo da quantidade de Varas e Juizados Especializados - em 2012 eram 66 e em 2017 a federação contava com 134. Outro dado importante, foi o número de inquéritos policiais registrados em 2016 referentes a violência doméstica e familiar, cujas vítimas foram mulheres. Ao todo foram 290.42380, dos quais a maioria concentrado nos Tribunais de Justiça dos estados de Minas Gerais (MG), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Rio Grande do Sul (RS), igualmente os mesmos que possuem as mais altas quantidades de inquéritos pendentes e arquivados81.

Considerando os três primeiros tribunais mencionados, o documento também ressalta que eles registraram a maior parte de novos casos, dos 334.088 da federação. Tal fato não é por “mero acaso”, haja vista que eles concentram a maior população feminina do Brasil,

78 Os dados apresentados no documento são do ano de 2016.

79 Como os Juizados e as Varas de violência doméstica e familiar contra a mulher, que contam com uma equipe multidisciplinar das áreas jurídica, psicossocial e de saúde.

80 O estudo chama a atenção que este número pode ser ainda maior, pois o TJRN não forneceu seus dados.

81 Os tribunais destes estados são considerados de grande porte. Para esclarecer esta classificação, achamos válido trazer a explicação que está no documento: “em média, os tribunais de grande porte possuem oito Varas ou Juizados Especializados em violência doméstica. Os tribunais de médio porte possuem, em média, seis Varas ou Juizados Especializados nesse assunto e os tribunais de pequeno porte, três Varas” (CNJ, 2010, p. 16).

respectivamente 22% em SP, 10% em MG e 8% no RJ, conforme destacou a publicação, que se utilizou dos dados do IBGE (referentes ao mesmo ano da pesquisa).

Além disso, visando a proteção da mulher e em conformidade com a LMP, os tribunais de quase todo território brasileiro -com exceção do TJAL que não apresentou os dados-, emitiram 195.038 medidas protetivas. Mais uma vez, os tribunais de grande porte foram os que mais se destacaram, conforme o gráfico aponta. Entretanto, proporcionalmente

“à quantidade de mulheres residentes por unidade da Federação, os tribunais que apresentaram as maiores médias a cada mil mulheres residentes foram o TJRS (5,4), o TJMS (5,3), o TJMT (4,8) e o TJDFT (4,3)” (CNJ, 2010, p. 29).

Gráfico 2 – Medidas protetivas emitidas pelos tribunais

Fonte: CNJ, 2010, p. 28.

Deste modo, fica evidente que a LMP trouxe muitos avanços no quesito da proteção da vida das mulheres, no sentido do seu direito de viver uma vida plena e sem violência.

Consideramos que outras importantes legislações82 valem ser ressaltadas aqui, como: a Lei nº 10.778/200383, referente “a notificação compulsória, no território nacional, do caso de violência contra a mulher que for atendida em serviços de saúde públicos ou privados”

(BRASIL, 2003)- os dados coletados servirão para analisar, mesmo que de forma superficial, o perfil da vítima e da violência, auxiliando assim, futuros estudos e políticas públicas- e as

82 Para maiores informações a respeito de outras leis de caráter federal, estadual e municipal, conferir a publicação “Os direitos das mulheres na legislação brasileira pós-constituinte” (CEFEMEA, 2006).

83 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.778.htm>. Acesso em: 10 abr. 2018.