45 propriedades (6,7% do total). A principal origem da alimentação dos animais era o próprio estabelecimento rural. Com esse fim, os produtores de leite do Vale do Taquari cultivavam áreas de pastagem, milho para silagem e pasto de corte. Cerca de 66.228 hectares eram cultivados para fins de alimentação animal.
Aproximadamente um terço dos produtores utilizava ração animal comercial para a suplementação alimentar do rebanho. Em se tratando do tipo de ordenha, ainda predominava a manual (60% dos respondentes). A ordenha mecânica com sistema de balde em pé foi citada por 25,4% dos participantes. Geladeiras e imersão em tarros ainda eram amplamente utilizadas como formas de refrigeração da matéria-prima. As características de ordenha e de refrigeração denotam que existia uma defasagem tecnológica significativa no sistema local de produção de leite. A idade dos produtores foi destacada como principal limitante ao investimento em melhorias no processo produtivo (UNIVATES, 2003).
Ainda segundo o estudo da Univates, o principal destino da matéria-prima comercializada era a agroindústria (98,0%), persistindo a comercialização direta com o consumidor (2,0%). Uma parcela significativa dos produtores transformava parte da matéria-prima nas propriedades. Em 2002, aproximadamente 57.000 litros de leite eram diariamente destinados à industrialização própria, volume equivalente a 11,2% da produção diária dos participantes da pesquisa. O principal item derivado dessa produção era o queijo, comercializado principalmente na região do Vale do Taquari.
46 produzir leite suficiente para atender à demanda das empresas de laticínios instaladas na região [...]. Faz-se necessário a coleta de aproximadamente 1.500.000 litros de leite por dia de outras regiões”.
Tabela 9
Número de empregos e de estabelecimentos na indústria de laticínios no Vale do Taquari — 2013
MUNICÍPIOS
PREPARAÇÃO DO LEITE
FABRICAÇÃO DE LATICÍNIOS
FABRICAÇÃO DE SORVETES E OUTROS
GELADOS COMESTÍVEIS
TOTAL Empregos Estabele-
cimentos Empregos Estabele-
cimentos Empregos Estabele-
cimentos Empregos Estabele- cimentos
Anta Gorda ... 0 0 62 1 0 0 62 1
Arroio do Meio ... 0 0 158 1 1 1 159 2
Bom Retiro do Sul ... 0 0 0 0 0 1 0 1
Doutor Ricardo ... 0 0 140 1 1 1 141 2
Encantado ... 0 0 0 0 89 4 89 4
Estrela ... 355 2 0 0 16 3 371 5
Fazenda Vilanova ... 0 0 177 2 0 0 177 2
Imigrante ... 0 0 56 1 0 0 56 1
Lajeado ... 0 0 0 0 43 4 43 4
Marques de Souza ... 0 0 11 2 0 0 11 2
Muçum ... 0 0 0 0 1 1 1 1
Paverama ... 0 0 106 1 0 0 106 1
Putinga ... 0 0 19 1 0 1 19 2
Roca Sales ... 0 0 0 0 1 1 1 1
Teutônia ... 0 0 975 3 3 2 978 5
TOTAL ... 355 2 1.704 13 155 19 2.214 34
FONTE DOS DADOS BRUTOS: Brasil (2014).
A maior parte dos empregos está concentrada na atividade de fabricação de laticínios (77,0%), seguida pela da preparação do leite (16,0%). Os Municípios com maior participação são Teutônia e Estrela, que, juntos, respondem por três quintos do emprego da indústria de derivados do leite do Vale do Taquari.
No período recente, o emprego formal da indústria de laticínios na região cresceu sustentadamente até 2011 e menos intensamente desde então (Figura 9). Entre 2006 e 2013, o emprego cresceu em todas as atividades, com destaque para a fabricação de laticínios (+585 empregos). Esse quadro está em conformidade com o referido por Schmitt e Alievi (2013), que identificaram um expressivo crescimento da capacidade produtiva das empresas nos segmentos de captação (340,3%), beneficiamento (233,0%) e derivados do leite (493,4%) entre 2007 e 2011. Assim, percebe-se um duplo movimento em termos de investimentos: (a) em resposta ao avanço da produção de leite da região e do seu entorno, as empresas aportaram recursos para aumentar sua capacidade de captação e beneficiamento; (b) visando aumentar sua participação em linhas de produtos de maior valor agregado — mirando maiores margens de rentabilidade —, as empresas ampliaram seus investimentos para a produção de derivados lácteos.
47 Figura 9
Evolução do número de empregos nas atividades da indústria de laticínios do Vale do Taquari — 2006-13
355 1.704
155 2.214
0 500 1.000 1.500 2.000 2.500
2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013
Preparação do leite Fabricação de laticínios Fabricação de sorvetes [...] Total FONTE DOS DADOS BRUTOS: Brasil (2014).
Entre 2006 e 2013, o número de estabelecimentos na indústria de laticínios da região manteve-se praticamente o mesmo — passou de 33 para 34 —, porém, em se tratando do porte, o perfil foi significativamente alterado. Os estabelecimentos de médio porte cresceram (de 3 para 7) e os de pequeno porte diminuíram (de 29 para 26). De fato, o aumento do emprego em estabelecimentos de médio porte foi expressivo, passando de 346 para 1.199. Esse aparente crescimento do porte das empresas possivelmente esteja associado à maior quantidade de leite produzida nas propriedades rurais.
O porte dos estabelecimentos também variou de acordo com as atividades da indústria de laticínios.
Todos os dezenove estabelecimentos da atividade de fabricação de sorvetes e outros gelados comestíveis, pelo critério do emprego, foram classificados na faixa das empresas de micro ou pequeno porte.
Aparentemente, as empresas dedicadas a essa atividade têm seu raio de ação restrito à região do Vale do Taquari e seu entorno.
A fabricação de laticínios, por sua vez, é a atividade com os estabelecimentos de maior porte. No Município de Teutônia, está situado o único estabelecimento de grande porte dessa atividade na região.
Trata-se da unidade da BRF, destinada à fabricação de leite condensado, manteiga, aromatizados, leite em pó, leite UHT e outros. Cinco estabelecimentos da mesma atividade são de médio porte e estão situados nos Municípios de Teutônia (Cooperativa Languiru), Paverama (Inovare-Pavlat), Fazenda Vilanova (LBR), Doutor Ricardo (Quinta do Vale) e Arroio do Meio (Cosuel-Dália).33 Outros sete estabelecimentos da atividade na região são de micro ou pequeno porte.
Já a preparação do leite foi declarada como atividade principal de dois estabelecimentos da região, ambos de porte médio e situados no Município de Estrela. Provavelmente, essas informações correspondam
33 A identificação das empresas e de sua classificação segundo o porte é uma aproximação realizada a partir do cruzamento das informações do Sindilat-RS, da RAIS-MTE e do Cadastro Industrial do Rio Grande do Sul.
48 às unidades industriais das empresas VRS34/Santa Rita Laticínios e Tangará Foods35, que, embora possam ter-se autoclassificado na atividade de preparação do leite, também produzem itens derivados da atividade de fabricação de laticínios. A Promilk é outra empresa situada em Estrela que também poderia ser classificada na atividade de preparação de leite. As principiais empresas da indústria de laticínios com atuação na região são listadas no Quadro 5.
Quadro 5
Empresas da indústria de laticínios do Vale do Taquari
EMPRESA MUNICÍPIO PRODUTOS MARCA INFORMAÇÕES ADICIONAIS
Bona Vita Progresso Queijos Bona Vita
BRF Teutônia
Leite condensado, manteiga, aromatizados, leite em pó, UHT e especiais
Batavo e Elegê
Adquirida pelo grupo Lactalis.
Operação aprovada pelo CADE em abril de 2015.
Cooperativa
Languiru Teutônia
Leite pasteurizado, leite UHT, queijos, doces de leite, requeijões, bebidas lácteas, natas, leite em pó, achocolatados
Mimi, Languiru, Fruitness, Efetive, Chocolan
O reingresso da Languiru no setor de lácteos ocorreu em 2005.
Cosuel Arroio do Meio Creme de leite, leite UHT, leite em pó,
bebida láctea Dália
Cotrilac Anta Gorda Queijos, ricota, nata e bebidas lácteas Latsul e Bella
Estância
Hollmann Imigrante Queijos, bebida láctea, creme de leite,
leite UHT Hollmann Envolvida na Operação Leite
Compensado.
Inovare-Pavlat Paverama Creme de leite, leite UHT Pavlat
A Pavlat esteve envolvida na Operação Leite Compensado e, em março de 2015, teve pedido de autofalência aceito pela Justiça.
Lac Max Marques de Sousa Queijos, doce de leite, creme de leite e
leite pasteurizado Lacmax
Lativale/Tangará
Foods Estrela Compostos lácteos, leite condensado e
creme de leite
Purelac, Nutricional e Lativale
Em 2011, a Tangará Foods comprou a Laticínios Vale do Taquari (Lativale). O principal objetivo da empresa foi verticalizar a produção.
LBR Fazenda Vilanova Leite UHT e leite em pó Parmalat, Bom
Gosto
Em recuperação judicial. Ativo adquirido pela Lactalis.
Promilk Estrela Leite resfriado -
A empresa paralisou suas atividades em Estrela no mês de agosto de 2014 e está em processo de recuperação judicial. Em junho de 2016 anunciou a abertura de uma planta industrial de queijos no município de Rondinha.
Quinta do Vale Doutor Ricardo Queijos Quinta do Vale
Cooperativa de Laticínios Gloria (Coolag)
Fazenda Vilanova Laticínios -
VRS/Santa Rita
Laticínios Estrela
Leite B, leite C, leite UHT, iogurte, bebida láctea, queijo, doce de leite, nata
Latvida
A VRS esteve envolvida na Operação Leite Compensado.
A Santa Rita Laticínios assumiu a planta industrial em março de 2014, porém, um ano depois, decretou falência, alegando ter sido afetada pela crise do setor.
FONTE: Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado do Rio Grande do Sul (2015).
Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (2014).
Associação das Pequenas Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (2015).
NOTA: Também foram consultados os sites das empresas na internet.
Observa-se que a maior parte dessas empresas dedica-se à transformação da matéria-prima em produtos de maior valor agregado, não se restringindo ao beneficiamento do leite para consumo humano.
34 Em março de 2014, a VRS teve sua planta arrendada para a Santa Rita Laticínios.
35 Em 2011, a Tangará Foods comprou a Lativale.
49 Presume-se que tal situação derive, principalmente, das baixas margens de rentabilidade praticadas no leite pasteurizado. Schmitt e Alievi (2013) realizaram constatação similar quando identificaram os queijos como a principal linha de produtos das empresas da região, seguidos das bebidas lácteas e do leite UHT.
As empresas BRF e LBR eram as únicas com atuação no Vale do Taquari cujas marcas estavam entre as cinco líderes em vendas no Brasil e na Região Sul, no ano de 2013, em diferentes segmentos de laticínios. Segundo dados da Nielsen/Scantrack, publicados na Revista SuperHiper (LÍDERES..., 2014), a LBR destacava-se nas vendas nacionais dos leites longa vida (integrais e magros) da marca Parmalat, ocupando a primeira posição. A marca LBR também aparecia como vice-líder no segmento de cremes de leite. Os leites longa vida dos segmentos magros e integrais da marca Elegê (BRF) eram, respectivamente, segundo e quarto colocados em vendas no Brasil. A marca Elegê ainda posicionava-se em quinto lugar no ranking de vendas de creme de leite no País.36
Em se tratando de estratégia de operação, as empresas listadas no Quadro 5 podem ser divididas em dois grupos. O primeiro grupo, composto por BRF e LBR, conta com empresas de atuação nacional, que ofertam um amplo mix de produtos derivados do leite. Suas plantas industriais na região cumprem um papel específico e determinado nas suas divisões de negócios de laticínios, aproveitando-se da disponibilidade regional de matéria-prima. As demais empresas, que compõem o segundo grupo, são de origem local e suas unidades industriais estão predominantemente situadas na região.37
Além da especialização produtiva, algumas das empresas listadas acima compartilham a experiência de terem passado recentemente — ou ainda estarem passando — por momentos de instabilidade, o que contribuiu para as mudanças na propriedade de seus ativos. Essa característica decorre de fatores estruturais do setor no País (exógenos às empresas), de estratégias de negócios equivocadas ou, ainda, de comportamentos oportunistas de atores locais, que resultaram ser nocivos para a cadeia de produção (endógenos à aglomeração).
Em estudo de Schnorrenberger et al. (2008), já havia sido constatada a baixa profissionalização na gestão e no processo de tomada de decisão na maioria das agroindústrias pesquisadas na região. O trabalho apontou a necessidade de maior investimento em conhecimento e qualificação dos gestores, principalmente nas agroindústrias de menor porte, visando permitir uma análise mais adequada dos cenários, das decisões a serem tomadas e dos investimentos financeiros a serem realizados. Os fatos observados em 2013 e 2014, relatados a seguir, sugerem que, em maior ou menor grau, a situação vigente à época do estudo ainda perdura.
Em setembro de 2014, insatisfeita com as baixas margens da sua divisão de lácteos, a BRF anunciou a venda de suas unidades industriais de laticínios e a cessão das tradicionais marcas Elegê e Batavo para a Parmalat S.p.A., empresa pertencente ao grupo francês Lactalis. As baixas margens de lucro
36 As informações divulgadas pela Revista SuperHiper (LÍDERES..., 2014) sobre a liderança em vendas nas grandes regiões brasileiras, evidenciam que as principais empresas laticinistas concorrem em âmbito nacional, não havendo reserva de mercado para as empresas locais em diversos segmentos. A presença das empresas locais (gaúchas, catarinenses e paranaenses) na Região Sul ocorre mais intensamente nos segmentos de leite longa vida e creme de leite.
37 Em 2011, devido à escassez de matéria-prima na região, a empresa Quinta do Vale decidiu investir na construção de uma nova planta no município catarinense de Itá, situado próximo à fronteira com o Rio Grande do Sul. A Tangará Foods, que recentemente adquiriu a planta industrial da Lativale (Estrela) tem origem em Minas Gerais.
50 são um traço conhecido desse setor e explicam parte do movimento de concentração industrial — principalmente via fusões e aquisições —, em busca de ganhos de escala. No mesmo período em que a BRF deixou o mercado, a LBR, como reflexo das dificuldades financeiras associadas ao seu modelo de negócios e estratégia de crescimento, alienou diversos empreendimentos, dentre os quais, está a unidade produtiva de Fazenda Vilanova. O empreendimento, produtor de leite em pó e UHT, também foi adquirido pela Lactalis.
Para as demais empresas da região que recentemente enfrentaram dificuldades no mercado, as principais fontes de instabilidade são de natureza institucional ou de gestão, por vezes associadas a um presumido comportamento oportunista próprio e/ou de seus fornecedores de matéria-prima. A quinta fase da Operação Leite Compensado, deflagrada em maio de 2014, identificou fraudes na cadeia produtiva de laticínios em oito municípios da região. O Ministério Público denunciou a prática de adição de água e substâncias químicas para mascarar a deterioração do leite originado ou industrializado em Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Encantado, Imigrante, Marques de Souza, Paverama, Teutônia e Travesseiro. As indústrias Inovare-Pavlat (Paverama) e Hollmann (Imigrante) foram os principais alvos das investigações, que apontaram, ainda, o envolvimento de empresas transportadoras na fraude. Em decorrência dos efeitos das denúncias de adulteração do produto, a Inovare-Pavlat deixou o mercado de industrialização do leite. Os prejuízos acumulados impossibilitaram a empresa de continuar operando e de honrar seus compromissos com produtores de leite, fornecedores e funcionários. A opção de seus proprietários foi o arrendamento da planta industrial para a empresa McGriff Foods em julho de 2014.
A VRS, de Estrela, teve destino similar. Na primeira fase da Operação Leite Compensado, deflagrada em 2013, lotes do leite da marca Latvida, comercializados pela empresa, já haviam sido retirados de circulação. No ano seguinte, após novas suspeitas de fraude, a fábrica sofreu intervenção e foi fechada.
A VRS entrou em processo de recuperação judicial e arrendou a fábrica em Estrela para a Santa Rita Laticínios.38
Em outubro de 2014, em razão de dificuldades financeiras, a Promilk paralisou seus postos de resfriamento em Estrela. A empresa atuava como elo intermediário na cadeia entre as empresas fabricantes de laticínios e os produtores rurais. Segundo comunicado da empresa, ao longo daquele ano, seu principal cliente (LBR) passou a atrasar pagamentos referentes ao volume de leite entregue. Como se não bastassem as dificuldades de recebimentos de seus créditos, outros fatores negativos, como a Operação Leite Compensado, restringiram o crédito bancário para empresas do setor lácteo. Como consequência desses fatores, o fluxo de caixa da Promilk ficou a descoberto, e a empresa não conseguiu, assim, honrar seus compromissos com fornecedores.
Como se observa, o atual momento para as empresas do setor na região é de dificuldades, o que repercute nas suas relações com os produtores rurais. Parte das empresas de laticínios envolvidas na Operação Leite Compensado, por exemplo, deixaram de operar ou arrendaram suas plantas industriais, deixando passivos entre seus fornecedores. Mesmo as empresas que não foram alvo da operação sentiram
38 Em 2014, lotes de leite das marcas Líder e Parmalat, produzidos pela LBR, também foram retirados do mercado por suspeita de contaminação por formol. Contudo os produtos supostamente contaminados foram originados fora da região do Vale do Taquari.
51 seus reflexos. A Santa Rita Laticínios e a McGriff Foods, que entraram no mercado em um ano de margens excepcionalmente apertadas, enfrentaram dificuldades para remunerar pontualmente seus funcionários e fornecedores de matéria-prima. Em janeiro de 2015, cerca de 50 funcionários da empresa Mcgriff Foods entraram com pedido de demissão indireta na Justiça do Trabalho. No mês seguinte, a Santa Rita Laticínios teve decretada sua falência.
A imagem do leite gaúcho foi abalada pela Operação Leite Compensado, resultando em queda no consumo local e na venda para outros estados.39 Em 2014, a redução na relação consumo/oferta e a fragilidade financeira de um número expressivo de empresas — dentre as quais, destaca-se a LBR — contribuíram para o rebaixamento da remuneração aos produtores gaúchos de leite, que se defrontaram ainda com elevações nos custos de produção. Segundo as estatísticas do Conselho Paritário do Leite do Rio Grande do Sul (Conseleite-RS), entre junho e dezembro de 2014, o preço de referência pago pelo leite- -padrão situou-se abaixo do praticado em 2013.40 A trajetória de queda se manteve até fevereiro, mês em que o preço de referência atingiu R$ 0,74 e voltou a subir (Figura 10).
Figura 10
Preço de referência do leite-padrão ao produtor (R$/litro) — jan./13-abr./15
0,60 0,65 0,70 0,75 0,80 0,85 0,90 0,95
Janeiro Fevereiro Março Abril Maio Junho Julho Agosto Setembro Outubro Novembro Dezembro
2015 2014 2013
FONTE DOS DADOS BRUTOS: Conseleite-RS (2015).
NOTA: 1. Valor para o leite posto na plataforma do laticínio com Fundo de Assistência e Previdência do Trabalhador Rural (Funrural) incluso (preço bruto;
o frete é custo do produtor).
2. Os preços efetivos para 2015 vão até março. A informação de abril é estimativa.
As investigações realizadas no âmbito da Operação Leite Compensado evidenciaram a necessidade de maior fiscalização e transparência no controle de qualidade do produto. A continuidade da figura do transportador autônomo, que opera adquirindo o leite in natura dos produtores para revender às indústrias, passou a ser questionada, visto que a maior parte das fraudes ocorreram nessa etapa da cadeia. Foi
39 Segundo o Presidente do Sindilat-RS, Alexandre Guerra, aproximadamente 60% da produção gaúcha de laticínios são comercializados fora do Estado (SINDILAT..., 2015). Em 2014, o consumo nacional cresceu 2%, enquanto a produção avançou 5%. No Rio Grande do Sul, a produção aumentou ainda mais (7%), o que contribuiu para a queda nos preços. Vale destacar, ainda, que os preços internacionais dos principais produtos lácteos também seguiram trajetória de queda nesse período.
40 O Conseleite-RS reúne representantes da indústria láctea e produtores rurais, para estabelecer, mensalmente, o preço de referência pago ao produtor de leite, segundo o padrão de qualidade. Esse sistema de valoração do produto, baseado em estudo técnico da Universidade Federal de Passo Fundo (UPF), premia, com melhor remuneração, a qualidade oferecida pelos produtores, que recebem da indústria de 10% a 20% a mais no valor. O leite-padrão tem por base a Instrução Normativa Nº 51 do MAPA. O preço de referência está condicionado ao valor que a indústria obtém na negociação com o varejo para os seus produtos.
52 apresentado, inclusive, projeto de lei prevendo que o comércio de leite passe a ser feito diretamente entre produtores e indústrias ou entre cooperativas e indústrias, cabendo a estas últimas a responsabilidade de controlar a qualidade do produto recebido.
No entanto, na contramão das más notícias, foi anunciado, recentemente, um importante investimento para a indústria láctea da região do Vale do Taquari. Em dezembro de 2014, o Grupo Vonpar, líder estadual em importantes segmentos da indústria de alimentos e bebidas, anunciou a transferência para o Município de Arroio do Meio das linhas de produção dos produtos da marca Mu-Mu. Atualmente, os produtos da marca são produzidos na fábrica de Viamão, que deverá ser fechada com o início das atividades em Arroio do Meio. Em Viamão, a Vonpar também industrializava o leite UTH da mesma marca, cuja produção encerrou em fevereiro de 2014, após denúncias relativas à adulteração do produto por fornecedores da matéria-prima (GRUPO..., 2014). Outro investimento anunciado recentemente, porém, de menor monta, foi a instalação da agroindústria de lácteos Rancho Belo, no Município de Travesseiro. Os empresários pretendem informar, no rótulo das embalagens de queijo, que a matéria-prima foi originada em área livre de tuberculose e brucelose bovina (AGROINDÚSTRIA..., 2015).
Vale referir, ainda, que, além dos laticínios anteriormente citados, na região do Vale do Taquari, também funcionam pelo menos mais nove agroindústrias familiares que se utilizam do leite produzido localmente, principalmente para a produção de queijos (Quadro 6). Em 2014, algumas dessas agroindústrias estavam cadastradas no Programa Estadual de Agroindústria Familiar (PEAF), coordenado e operacionalizado pela Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo do Rio Grande do Sul (SDR-RS). As demais fazem parte do APL Agroindústrias Familiares do Vale do Taquari.41
Quadro 6
Agroindústrias familiares especializadas na produção de laticínios no Vale do Taquari — 2013
EMPRESA MUNICÍPIO PRODUTOS
Primo Sole Encantado Queijos temperados
Agroindústria Ouro Branco Encantado Queijos
Estrelat Estrela Leite
Hachmann Imigrante Derivados do leite
Rancho Belo Travesseiro Leite, queijos
IMF Nova Bréscia Laticínios
Angelita F. de Oliveira Nova Bréscia Laticínios
Fiori D'Late Pouso Novo Leite
Deoclides José Batisti Progresso Queijos e leite
Agriborba Taquari Leite
Osmar Schneider Teutônia Queijos
NOTA: Elaborado a partir de Rio Grande do Sul (2013) e Arranjo Produtivo Local Agroindústrias Familiares do Vale do Taquari (2015).
Em resumo, pode-se afirmar que o atual perfil das agroindústrias do leite que operam no Vale do Taquari não difere radicalmente daquele descrito por Schnorrenberger et al. (2008). Num primeiro grupo, estão as empresas de maior porte, fabricantes de uma linha diversificada de produtos. Essas agroindústrias compram o leite de milhares de produtores rurais — situados dentro e fora da região — e até mesmo de
41 No ano de 2013, essa foi uma das propostas selecionadas para participar do Programa de Fortalecimento das Cadeias e Arranjos Produtivos Locais, coordenado pela AGDI. A área de abrangência do potencial arranjo é formada pelos Municípios de Anta Gorda, Arvorezinha, Coqueiro Baixo, Dois Lajeados, Doutor Ricardo, Encantado, Ilópolis, Muçum, Nova Bréscia, Putinga, Relvado, Roca Sales e Vespasiano Corrêa. Fazem parte da proposta um total de 24 agroindústrias, responsáveis por diversos produtos derivados da agricultura familiar. A entidade gestora é a Fundação Alto Taquari de Educação Rural e Cooperativismo (Faterco).