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A intensificação e complexificação do trabalho docente

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 150-153)

3.6 Possíveis alterações no trabalho docente com a implementação do plano

3.6.1 A intensificação e complexificação do trabalho docente

É importante resgatar que o trabalho docente, tal como o conhecemos, deriva da forma como se organiza o trabalho no capitalismo. Existe uma avaliação de que o trabalho do professor se caracteriza hoje pela intensificação e complexificação do próprio trabalho (MAROY, 2006). O professor, mão de obra deste sistema, vê aumentar suas tarefas com grande acúmulo de funções que antes eram estranhas ao exercício da docência. Através da necessidade de uma adequação às novas tecnologias, em que o profissional docente submete–

se excessivamente, a fim de garantir, através de novas tarefas, o cumprimento integral das metas pré–estabelecidas pelo governo, antes já apontadas nas reformas gerenciais.

Com a implementação do Plano de Metas observamos a intensificação e complexidade do trabalho docente. Não se trata apenas de aumento de tempo de trabalho, mas também da ampliação das tarefas que os professores são chamados a desempenhar, em função das

mudanças ocorridas na escola a partir da implementação de reformas educacionais com visíveis impactos no cotidiano do trabalho em sala de aula. Este debate não é fácil, pois não se trata de negar os avanços que a tecnologia passa a garantir. O problema é que o uso das TICs não pressupõe o abandono das técnicas rudimentares, fazendo com que o professor acumule tarefas – como no caso do sistema Conexão, em que o professor, além de incluir as notas, frequências e conteúdos no sistema, é obrigado a manter as mesmas anotações de seus diários de classe, configurando a dupla função. Isso sem contar com a necessidade que terá de aprender competências para além do domínio de conhecimentos e habilidades inerentes à sua função – como, no caso citado, o conhecimento de programas de computador.

Este processo, denominado de auto intensificação do trabalho docente (OLIVEIRA, 2007), decorre do aumento das funções e atividades docentes, advindos das novas formas de organização do trabalho nas unidades escolares impostas pelas reformas, e que vêm demonstrando a crescente precarização do trabalho docente.

O trabalho do professor tem se modificado em termos do conteúdo e da autonomia profissional, em função da avaliação dos sistemas escolares e da política de responsabilização (MAROY, 2006). Para esse autor, a centralização do currículo, a instauração de mecanismos de quase-mercado e a avaliação externa dos estabelecimentos e dos professores afetam tanto os modos de regulação do sistema como o funcionamento das escolas e do trabalho docente. (LELIS, 2009).

Nas entrevistas que realizamos, uma das professoras enfatiza o quanto o aumento de funções vem sobrecarregando e alterando a sua relação com o trabalho docente a partir do Plano de metas:

Muito tempo para lançar a nota no Conexão, horas a mais de trabalho lançando notas e muita cobrança da direção que chega a telefonar em qualquer dia ou horário cobrando o lançamento das notas, além dos e-mails. Além do que o lançamento no (sistema) conexão é precário e demanda muitas horas. Este ano estará muito pior pois temos turmas com cinquenta nome na chamada e mais de quarenta frequentando. E o sistema é lento e apresenta problemas. Ex. nas horas de enviar/salvar os lançamentos, as notas apagam! (Professora S)

Quando a mesma professora responde à indagação sobre alteração da sua rotina de trabalho, a partir da implementação do Plano de Metas, fica evidente a relação de responsabilização e culpa, num processo de subjetivação que, associado à intensificação, atinge as emoções e resulta também num processo de intensificação, revelando o nexo entre as reformas e a auto intensificação do trabalho docente. Seu depoimento reforça como as

novas demandas nos modos de gestão do governo do seu trabalho escolar, estimulam uma nova moral, impondo, por sua vez, uma nova identidade docente:

Sim. Minha rotina mudou principalmente com o lançamento das notas, é muito estressante. Perdemos o sono com medo de não conseguir lançar nossas notas. E sermos citados e ridicularizados nos conselhos de classe, como exemplo daqueles que prejudicaram a “nota” da escola e causadores do prejuízo do não recebimento da bonificação por desempenho. (Professora S)

Najjar, reportando–se a Hargreaves, já apontava, em sua tese de doutorado, esse processo como decorrência da implantação do Nova Escola na rede:“uma escalada, impelida burocraticamente, de pressões, expectativas e controles relativamente àquilo que os professores fazem (e deveriam fazer) no interior da escola” (HARGREAVES, 1998, apud NAJJAR, 2004, p. 102). Assim, o próprio Najjar discute que:

essa intensificação do trabalho, além de levar a uma situação de grande estresse, influencia diretamente na possibilidade desse profissional realizar bem suas atividades, fazendo com que, muitas vezes, a preocupação seja mais a de cumprir o que tem de ser feito do que fazê-lo com qualidade. Além do mais, esse processo faz com que as chances do professor participar de processos de formação continuada – ou mesmo de lerem algum livro ou jornal – diminuam. (NAJJAR, 2004, p. 102).

O autor desenvolve um debate ainda sobre a questão da intensificação do trabalho docente, em relação à percepção do tempo da escola, buscando mostrar que essa intensificação é distinta, conforme as posições e funções assumidas por cada profissional.

Professor é policrônico (isto é, possuidor de características tais como: tratar várias coisas ao mesmo tempo, completar transações, orientação para pessoas e relações, dentre outras); o tempo da administração é monocrônico (cujas características são:

tratar uma coisa de cada vez, cumprir prazos, orientação para a calendarização e procedimentos, etc.). (NAJJAR, 2004, p. 102).

A divisão de responsabilidades e das tarefas entre os profissionais da escola, a jornada, o horário, os tempos e espaços para a execução do trabalho, os recursos materiais disponíveis e os procedimentos pedagógicos, as avaliações, a remuneração, admissão e administração das carreiras docentes, o quantitativo de profissionais e de alunos na escola e nas salas de aula, as questões relativas a segurança do espaço escolar e ainda de relacionamento entre os profissionais, estudantes e comunidade, enfim, uma série de elementos acabam contribuindo também para este processo de intensificação do trabalho docente, como podemos observar em algumas falas de nossas entrevistas, respondendo à pergunta do que havia mudado com o Plano de Metas.

Os professores vivem estressados pra cumprirem as exigências. No dia da aplicação do SAERJ vários professores que faltaram durante o mês, são requisitados para comparecerem ao colégio fora de seu dia de trabalho e aplicarem o SAERJ.

(Professora S.)

Salas superlotadas, principalmente no turno da manhã e tarde. Fechamento de turmas no turno da noite. Falta de inspetores nos andares, a contento, para atender a demanda de alunos. Falta de funcionários de apoio. (Professora V)

Teve mudança no currículo, o que acho que atrapalhou muito foi a mudança do livro didático, antes era volume único, agora é seriado. Como houve alteração do conteúdo no currículo único, fica difícil, pois com o livro único facilitava, agora é difícil, pois o conteúdo do primeiro ano está no livro do segundo e por aí vai. Tenho que ficar me desdobrando para trocar os livros e pegar emprestado com as turmas.

(Professor A)

É um corre-corre danado, pois como a escola fica numa área onde a questão da segurança pública é complicado, para a gente garantir a execução do programa, é difícil, pois quando não temos acesso à escola por questões da segurança, a gente fica prejudicado, pois tem que suspender a aula e fica faltando tempo para dar o conteúdo. (Professor F)

Como trabalho com turmas da noite é um sufoco, pois faltam muito quando não abandonam por causa do trabalho, aí, a turma vai minguando...aí vem a secretaria e manda fechar a turma. Isso se repete umas duas ou três vezes no ano. Temos um problema de evasão que não é culpa nossa, e aí? Fazer o quê? O aluno comigo apareceu na escola já ganha ponto, é uma forma que encontro de tentar incentivar para ele não abandonar. (Professor M)

Verificamos, assim, que o Plano de Metas conduz à individualização das relações e da organização do trabalho dos professores. O que importa não é o trabalho coletivo, mas a sua performance, que, avaliada, irá incidir sobre as remunerações sob a forma de bônus ou prêmios diferenciados, tornando evidente os processos de individualização, complexificando as suas relações de trabalho.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 150-153)