Como um país capitalista periférico e dependente, o Brasil estava submetido a influências profundas da crise, pois como a economia brasileira se baseava num modelo de financiamento externo, sofria todo o impacto das mudanças econômicas ocorridas nos países economicamente centrais. A década de 1980 foi denominada por aqui como a “década perdida”, tamanhas as dificuldades que nossa economia enfrentou. Era o fim do período militar, e os governantes civis induzidos pelas elites econômicas e submetidos a influências advindas dos países imperialistas, tanto nas relações políticas e econômicas diretas, como indiretamente, por meio dos diversos órgãos e agências internacionais, como Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), Fundo Monetário Internacional (FMI), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros, enfrentavam a conjuntura buscando saídas através de suas orientações. Dentre essas orientações, destacam–
se as relacionadas à desregulamentação da economia – em especial no que diz respeito à abertura comercial ao mercado mundial e às formas de contratação do trabalho e de definição de direitos associados a essa contratação –, bem como ao desmonte ou recomposição do Estado por meio de privatizações, terceirizações e redimensionamento de políticas públicas, especialmente as políticas sociais.
Filgueiras apresenta uma divisão do processo de implantação e evolução do projeto neoliberal em três fases distintas:
Uma fase inicial, bastante turbulenta, de ruptura [...] e implantação das primeiras ações concretas de natureza neoliberal (Governo Collor); uma fase de ampliação e consolidação da nova ordem econômico-social neoliberal (primeiro governo Fernando Henrique Cardoso - FHC); e, por último, uma fase de aperfeiçoamento e ajuste do novo modelo, na qual amplia-se e consolida-se a hegemonia do capital financeiro no interior do bloco dominante (segundo governo FHC e Governo Lula).
(FILGUEIRAS, 2006, p. 186).
Apesar de trabalharmos com a análise de Filgueiras (2006), é importante lembrar que essa periodização nos auxilia dando suporte a nossas considerações, mas que não há linha reta na construção das relações socioeconômicas estabelecidas com a realidade, que costuma ser muito mais dinâmica. Dito isto, gostaríamos de apresentar a tese de Miranda (2011), intitulada As lutas dos trabalhadores da educação: do novo sindicalismo à ruptura com a CUT, na qual podemos verificar que o processo de expansão do ideário neoliberal já se fazia presente em relação à postura do então prefeito Saturnino Braga quanto aos problemas financeiros que a cidade enfrentava.42
No início da década de 1990, o bloco dominante e sua fração hegemônica dão base ao governo presidencial de Fernando Collor de Mello (1990 a 1992) que, de acordo com Filgueiras, dá início à “Era Liberal” no Brasil. Fazem parte desta fração:
o capital financeiro internacional – expresso na movimentação dos fundos de pensão, dos fundos mútuos de investimentos e dos grandes bancos dos países desenvolvidos-;os grandes grupos econômico-financeiros nacionais que conseguiram sobreviver, até aqui, ao processo de globalização, em função de sua capacidade competitiva ou através da associação (subordinada) com capitais estrangeiros; e o capital produtivo multinacional (associado ou não ao capital nacional) Todos eles tendo aumentado suas respectivas influências no bloco dominante. As demais frações do bloco dominante, situadas numa posição subordinada, são os grandes grupos econômicos, não financeirizados organicamente, e os grandes e médios capitais que tem uma maior especialização no processo de acumulação: agronegócio, indústria, comércio ou serviços, estando voltados para o mercado externo e/ou interno. (FILGUEIRAS, 2006, p. 183-4).
42 “Em julho, Saturnino desfiliara-se do PDT por divergência com a bancada dos vereadores do PDT da Câmara Municipal. Para o prefeito, a crise financeira pela qual o município passava deveria ser combatida com reformas na administração, com o aumento dos impostos municipais e cortes nos gastos públicos, bem como pela aproximação do empresariado. Dessa forma, anunciava com certa antecipação a tônica do discurso neoliberal que predominaria na década seguinte. Ao final de seu mandato, em setembro de 1988, Saturnino retornou ao PSB, após tentativa fracassada de aproximação do Partido dos Trabalhadores. Durante a sua administração rede municipal tinha cerca de 1000 escolas, além das creches e municipalizou 55 CIEPs”
(MIRANDA, 2011, p. 95).
A sociedade civil fortalecida se organizava e provocava grandes embates como os travados no final da década de 1980, na Assembleia Constituinte, ou em meados da década de 1990, em inúmeras greves que eram deflagradas nesse período. Nesse cenário, de imperiosas lutas, a classe trabalhadora – apoiada em organismos que expressavam, como afirmou Badaró (1998), um “novo sindicalismo”43 – vai à luta mas, sob inúmeros aspectos, sai derrotada, não conseguindo se contrapor ao projeto neoliberal como alternativa para a crise. A Greve Unificada dos trabalhadores em estatais e no serviço público é um exemplo emblemático dessa derrota, onde os petroleiros, últimos a saírem da greve, foram literalmente massacrados44. Miranda (2011) demonstra a importância desta derrota dos trabalhadores para a implementação da reforma do Estado no Brasil, tal qual na greve dos mineiros derrotada por Margareth Thatcher.
Fernando Henrique reprimiu de forma brutal os petroleiros, como exemplo para o conjunto da classe, almejando desestimular futuras greves. De fato, durante a greve, o governo anunciou a demissão de dezenas de petroleiros, mesmo que protegidos legalmente pelo exercício de mandatos sindicais. Fortalecido com a derrota da greve, o governo avançou com o projeto do Ministério da Administração e Reforma do Estado (MARE). (MIRANDA, 2011, p. 274).
Os grandes grupos econômicos nacionais se fortaleceram com a “transnacionalização”
e com a “financeirização”, com base numa “rapinagem” que se aprofunda. Como alertava Francisco de Oliveira:
Restam apenas a “acumulações primitivas”, tais como as privatizações propiciaram:
mas agora com o domínio do capital financeiro, elas são apenas transferências de patrimônio, não são propriamente falando, “acumulação”. O ornitorrinco está condenado a submeter tudo à voragem da financeirização, uma espécie de “buraco negro”. (OLIVEIRA, 2011, p. 150).
43 O termo “novo sindicalismo”, neste caso, designa o segmento sindical que “opunha-se ao ‘velho sindicalismo’
[...], tanto em oposição aos sindicatos controlados do período ditatorial como ao movimento sindical pré-64, genericamente definido como ‘sindicalismo populista”. (MATTOS, 1998, p. 11)
44 “O Tribunal Superior do Trabalho julgou a greve dos petroleiros abusiva e determinou multas de 100 mil reais por dia à Federação Única dos Petroleiros (FUP) e aos sindicatos. Foram demitidos trabalhadores, dentre eles dirigentes sindicais, outros mil trabalhadores foram punidos com suspensões e os salários de maio foram cortados. O movimento resistiu à truculência do governo por 32 dias, inclusive com a ocupação da Refinaria Presidente Bernardes- Cubatão (RPBC). O Exército ocupou as refinarias de Paraná (REPAR), Paulínia (REPLAN), Mauá (RECAP) e São José dos Campos (REVAP). Após o final da greve, os sindicatos e a FUP tiveram suas contas bloqueadas, o repasse das mensalidades retido e os bens penhorados. Cada um dos 20 sindicatos que participaram do movimento recebeu multas de R$ 2,1 milhões. Conforme o texto de avaliação da greve de 1995 da FUP”. (MIRANDA, 2011, p. 274)
No governo de Fernando Henrique Cardoso,45 a Reforma se materializa com o requentado argumento de que o Estado, para ser mais eficiente, precisava transferir para o setor privado a responsabilidade da administração de alguns serviços, o que aconteceu através de diferentes estratégias. Tivemos a privatização, a publicização e a terceirização, modalidades distintas que consolidaram uma forma mais flexível de administração. O Estado passa então a reconstruir e a fortalecer o serviço público numa outra lógica.
Para os neoliberais, o problema da crise não se encontrava no sistema capitalista, mas no próprio Estado. Logo, tanto no diagnóstico, quanto na estratégia, o Plano de Reforma do Estado, no Brasil, seguiu as determinações do neoliberalismo.
A causa da crise foi o excessivo e distorcido crescimento do Estado desenvolvimentista no Terceiro Mundo, do Estado comunista no segundo Mundo e do Welfaire State no Primeiro Mundo. As potencialidades do mercado na alocação de recursos, na coordenação da economia, tinham sido erroneamente subavaliadas.
O Estado tinha se tornado muito grande, aparentemente muito forte, mas de fato muito fraco, ineficiente e impotente, dominado pela indisciplina fiscal, vítima de grupos especiais de interesse, engajados em práticas privatizadoras do Estado, ou seja, no rent seeking”. (BRESSER-PEREIRA, 1996, p. 16-17).
Para resolver a crise era preciso reformular o Estado, torná-lo um agente desse desenvolvimento:
A reforma do Estado deve ser entendida dentro do contexto da redefinição do papel do Estado, que deixa de ser o responsável direto pelo desenvolvimento econômico e social pela via da produção de bens e serviços, para fortalecer-se na função de promotor e regulador desse desenvolvimento. (BRASIL, 1995, p. 12).
As estratégias utilizadas para tornar o Estado mais eficiente seguiam as orientações da cartilha neoliberal, enfatizando a privatização e a terceirização. Bresser–Pereira defende que só um Estado Social–Liberal, mais eficiente, flexível e competitivo, poderia garantir os direitos sociais. Era como se aquela promessa de um Estado melhor, que ficou empenhada e não realizada, lá atrás, voltasse com uma nova roupagem:
O Estado Social-Liberal, que é social porque mantém suas responsabilidades pela área social, mas é liberal porque acredita no mercado e contrata a realização dos serviços sociais de educação, saúde, cultura e pesquisa científica de organizações
45 Fernando Henrique Cardoso foi ministro da Fazenda no governo de Itamar Franco (1992-1994) que, por sua vez, era vice-presidente na gestão presidencial de Fernando Collor de Melo (1990-1992). Este, apesar de eleito com um discurso no qual estavam presentes diversos pressupostos neoliberais, não aplicou todo o receituário.
Após seu impeachment, coube a Cardoso, como Ministro da Economia (1993-1994) e, em seguida, como presidente eleito pelo voto direto de 1995 a 1998 e de 1999 a 2002, implementar as reformas neoliberais no Estado brasileiro.
públicas não estatais que financia a fundo perdido com orçamento público.
(BRASIL, 1995, p. 14).
Para Silva Jr. e Sguissardi (2001), a Reforma que havia se iniciado com Collor na abertura do comércio, retorna com mais vigor no governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), a partir de 1995, e é “no âmbito dessa reforma que se pode, sob muitos aspectos, situar a estratégia e as ações oficiais da reforma da educação” (SILVA JR.; SGUISSARDI, 2001, p. 27), que segue no governo de Lula da Silva e de Dilma. Afinal, nas próprias palavras de Bresser–Pereira: “Uma reforma desta não é feita em um dia, em um ano, e nem em alguns anos” (BRESSER–PEREIRA, 2002, p. 29).
Na educação, Fernando Henrique adotou as diretrizes da Conferência Mundial da Educação para Todos46, opção que fica explícita no Plano Nacional de Educação (Lei 10.172/01) e vem sendo aplicada desde 1995, tendo também como suporte a Emenda Constitucional n° 14, de 1996, e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, de 1996), dentre outras medidas legislativas que, em diversos aspectos, concorriam para conter a responsabilidade do Estado. Desta forma, a política educacional desenvolvida pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) representou, nesse período, avanços na implementação do plano de ajuste neoliberal na educação, diminuindo ou contendo o tamanho do Estado e redefinindo suas funções em relação aos serviços públicos.