• Nenhum resultado encontrado

A latino-americanização do pensamento internacional

Capítulo 8 O choque de realismo: o pensamento internacionalista

4.4. A latino-americanização do pensamento internacional

Em “Raízes da Imaginação Política Brasileira” (1970), Wanderley Guilherme dos Santo buscava entender a dinâmica bipolar que marcava o pensamento político brasileiro no contexto do golpe militar de 1964. De um lado, os partidários da ruptura institucional, com suas razões diversas (movimento comunismo, corrupção, desordem e ineficiência administrativa).

De outro, os seus opositores, atrelando a quebra da legalidade a um projeto das elites oligárquicas de manutenção do status quo, de interrupção da modernização industrial e da inserção internacional autônoma. Para Santos, essa dicotomia era produto de uma cultura política que provia lentes ideológicas ou paradigmas históricos e culturais apara a análise dos fenômenos políticos. Assim, tirando o foco da questão da cientificidade, o estudo do pensamento social e político era necessário para compreender a formação de categorias culturais que impactam os processos políticos na História do Brasil (LYNCH, 2013b: 20-22).

As perseguições que se seguiram ao golpe de 31 de março de 1964 atingiram acadêmicos, intelectuais, estudantes, sindicalistas e militantes defensores de ideias nacionalistas, comunistas, socialistas e liberais. A ligação mais próxima de Fernando Henrique Cardoso com o governo João Goulart era o chefe da Casa Civil da Presidência da República, o antropólogo Darcy Ribeiro, de quem era amigo. Fernando Henrique Cardoso não apoiava os rumos de radicalização do governo João Goulart, porém entrou em conflito com acadêmicos mais conservadores em sua atuação no Conselho Universitário da USP (GOERZTEL, 1999:

44). No clima de radicalização política de abril de 1964, a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) foi a única instituição da Universidade de São Paulo (USP) que não divulgou um manifesto de apoio ao movimento cívico-militar que visava derrubar o governo João Goulart (LEONI, 1997: 108). Cardoso tinha conhecimento, através dos contatos de seu pai, de que um golpe militar estava sendo discutido entre os militares, embora não conhecesse detalhes específicos. O general e ex-deputado Leônidas Cardoso apoiou Jango até a queda e opôs-se ao golpe militar até a sua morte, em 1965. Cardoso foi procurado pela polícia e teve ordem de prisão decretada. Escondeu-se por alguns por alguns dias em residências de amigos e continuou a escrever a tese de cátedra sobre os empresários latino-americanos e o desenvolvimento (LEONI, 1997: 111-113).

188 Em 17 de abril de 1964, Fernando Henrique deixou o país rumo ao autoexílio. Em Buenos Aires, foi recebido pelo sociólogo argentino Torcuato Francisco Nicolás Di Tella (1929-2016) e pelo colega Nuno Fidelino de Figueiredo, professor da USP que trabalhava na CEPAL. Figueiredo transmitiu-lhe o convite do sociólogo espanhol José Medina Echeverria (1902-1977) para trabalhar em Santiago. Cardoso havia redigido um trabalho para Echeverria com uma abordagem weberiana sobre o papel dos empresários latino-americanos, “El empresario industrial en América Latina: Brasil”, publicado em 1963 (GOERTZEL, 1999: 46).

Aceitou a proposta de trabalho no Chile e desembarcou em Santiago em maio de 1964 (LEONI, 1997: 114). Algumas semanas depois, a esposa Ruth Cardoso e os filhos se mudaram para o Chile. O país era uma referência de estabilidade política, econômica e institucional na América Latina, com uma próspera classe média, universidades com peso na vida social. Santiago era uma cidade com enorme efervescência cultural e acadêmica, uma das mais cosmopolitas da América Latina.

A concentração de organizações internacionais, a presença de instituições acadêmicas e, principalmente, o ambiente político democrático atraíram grande número de refugiados políticos. Além de ser a sede da Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), outras organizações internacionais, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), possuíam escritórios regionais na capital chilena. Santiago do Chile abrigava também a Faculdade Latino- Americana de Ciências Sociais (FLACSO) e o Instituto Latino-Americano de Planejamento Econômico e Social (ILPES), importantes escolas formadoras de pensamento econômico, político, social. O Instituto Latino-Americano de Planejamento Econômico e Social (ILPES) era uma organização que reunia sociólogos e cientistas políticos, gozando de independência em relação à CEPAL. Seu objetivo era “formar especialistas em desenvolvimento econômico para os governos latino-americanos” (FURTADO, 1991: 27). Nessa direção, os pesquisadores do ILPES dispunham de acesso fácil a todo o material de pesquisa disponibilizado pela CEPAL, sem constrangimentos burocráticos. Celso Furtado ajudou na organização do centro, em 1961, e foi membro do seu conselho de direção. Afastado da CEPAL em 1963 por limite de idade, Raúl Prebisch permaneceu vinculado ao ILPES na condição de pesquisador.69

Fernando Henrique Cardoso viveu no Chile em um momento em que a CEPAL gozava de enorme prestígio como organização internacional e como centro produtor de um pensamento

69 O fundador da CEPAL encontrava-se em Genebra, presidindo os trabalhos da primeira Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), órgão da Assembleia Geral das Nações Unidas destinado à promoção de discussões, pesquisas, análises e deliberações acerca do desenvolvimento em escala global.

189 econômico e internacional. Segundo Furtado, “a tomada de consciência de que a industrialização da América Latina tropeçava em dificuldades devido à estreiteza dos mercados nacionais levou Prebisch à convicção de que a frente de luta deveria ser ampliada (Furtado, 1991: p. 20). Além de Presbisch, a CEPAL contava com outros economistas de renome, como o brasileiro Celso Furtado e o argentino Aníbal Pinto (1919-1996). Cardoso desembarcou em Santiago dez anos após a elaboração da teoria econômica cepalina e em meio a um avançado processo de industrialização dos países latino-americanos. Em “Os Ares do Mundo” (1991), o terceiro volume das memórias de Celso Furtado, o economista brasileiro relembra que prevalecia, no Chile, o “sentimento de que o que viesse a ocorrer na América Latina dependeria de alguma forma do que ali se discutia” (1991: 19).

Nesse ambiente, Cardoso soube inserir-se em um meio acadêmico e técnico que mesclava Economia e Sociologia, buscando aproveitar-se do clima intelectual para se inserir e se impor (LEONI, 1997: 122). Cardoso aproximou-se de José Medina Echeverria (1902-1977), intelectual espanhol de formação weberiana, que formou uma equipe de trabalho internacional e variada. Cardoso assumiu a cadeira de Sociologia do Desenvolvimento no ILPES e tornou-se diretor-adjunto da sua Divisão Social, acumulando com um cargo equivalente de professor de Sociologia do Desenvolvimento na FLACSO e de professor de Introdução às Ciências Sociais na Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade do Chile. Por meio dos contatos de Echeverria, Cardoso associou-se a importantes pesquisadores da Argentina, Chile, Venezuela, México e Bolívia que pensavam acerca dos problemas latino-americanos e estreitou laços com os dirigentes das principais organizações internacionais.

Os exilados políticos brasileiros também ajudavam a organizar grupos que se dedicaram à ajuda mútua e à reflexão política, permitindo que se mantivessem bem informados e em contato permanente. O fluxo de pessoas vindas do Brasil os abastecia com informações atualizadas sobre a situação interna do país. Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, Paulo Freire, Darcy Ribeiro, Francisco Oliveira, Almino Affonso, Paulo de Tarso Santos, Paulo Alberto Moretzsohn Monteiro de Barros e Samuel Weiner eram alguns dos intelectuais brasileiros que se reuniam, quase sempre às noites, para debater a situação política brasileira. A principal referência da diáspora brasileira em Santiago era o assessor cultural da Embaixada do Brasil, o poeta Thiago de Melo, que residia em uma mansão de propriedade do poeta chileno Pablo Neruda, localizada em área central da metrópole andina. Além de recepcionar os exilados brasileiros, Thiago de Melo os apresentava ao mundo político, diplomático e intelectual chilenos, que formavam uma comunidade pequena e coesa em meados

190 dos anos 1960.70 Essa situação ambígua de exilados políticos serem acolhidos no exterior pelo representante diplomático do mesmo Estado que os perseguia internamente, porém, não durou muito tempo (FURTADO, 1991: p. 20).

Embora os exilados fossem todos indivíduos com convicções políticas de esquerda, divergiam quanto a que caminho tomar em relação à ditadura brasileira. Alguns exilados mais liberais defendiam a resistência por meio da política institucional; outros mais radicais advogavam a luta armada. Apesar da formação e das visões distintas, o que os unia era a sociabilidade brasileira e o desejo de resistência ao autoritarismo, de restauração democrática e de transformação rápida do país (LEONI, 1997: p. 120). Em seu livro de memórias Celso Furtado registra que

Com frequência saíamos para perambular pelas margens do rio Mapocho. Havia sempre novos participantes em nossas reuniões. Alguns vinham para respirar, sufocados pelo clima de repressão criado no Brasil, mas logo se impacientavam e preparavam o regresso. Outros haviam escapado à perseguição e exploravam a possibilidade de encontrar um abrigo. Em verdade, a quase totalidade partia do princípio de que “a coisa em breve melhorará”, viabilizando o regresso. Fernando Henrique Cardoso insistia que era necessário encontrar ou abrir espaços para a luta dentro do Brasil. Alguma forma de intelligentsia independente teria de sobreviver, se desejássemos que o obscurantismo aprofundasse as suas raízes (FURTADO, 1991: 23)