Capítulo 8 O choque de realismo: o pensamento internacionalista
1.1. O pensamento internacionalista da elite imperial
A narrativa de que os diplomatas foram demiurgos da formação do território, da estruturação do Estado, da construção da unidade nacional, da promoção do desenvolvimento econômico e da projeção da identidade pacífica do Brasil no cenário internacional é das mais poderosas ideias-força da história do pensamento internacionalista brasileiro (GOES FILHO, 1999; DANESE, 2009; ALMEIDA, 2013; BELÉM LOPES, 2016; RICUPERO, 2017). Por um longo período, as elites brasileiras pensaram o Brasil como um “país sem povo”, ideia que remonta à colonização e perpassa os processos de independência e de construção do Estado, no século XIX.3 Em “Formação do pensamento político brasileiro” (2006), Francisco Weffort sustenta que o Brasil foi forjado por meio de uma sucessão de “projetos, diagnósticos, às vezes meros devaneios que, por algum motivo, assumiram significação geral”. Assim, como em outros países iberoamericanos, "o ideal precedeu o material; o signo, as coisas; o traçado
3 Em um contexto histórico de debate acerca da dissociação entre política e religião, na Renascença, Nicolau Maquiavel (1469-1527) conceituou o Estado como um ente político permanente e autônomo, independente da pessoa do monarca (SKINNER, 1996).
47 geométrico do plano, as nossas cidades e a vontade política de explorar, o sistema produtivo"
(WEFFORT, 2011).4
A construção do mapa do Brasil, argumenta Ricupero (2017), foi o resultado de um esforço de produção de conhecimento histórico e geográfico aplicado a um objetivo diplomático: o de dilatar as fronteiras além dos limites fixados no Tratado de Tordesilhas, incorporando vastas terras ao território nacional. Dessa forma, a “formação do território e a expansão que o conduziram aos limites atuais já se encontravam praticamente concluídas e mais ou menos aceitas, embora não de modo definitivo, antes do fim do regime colonial”
(RICUPERO, 2017: 37). Para Ricupero, “obra coletiva por excelência, nela se combinaram ao longo de vários séculos, de um lado, homens de ação – bandeirantes, missionários, militares, exploradores -, de outro, diplomatas de vocação intelectual que dirigiam a preparação dos argumentos cartográficos e criaram as razões e doutrinas jurídicas para fundamentar a negociação” (RICUPERO, 2017: 38). Na perspectiva de Synesio Sampaio Goes Filho, em sua obra “Navegantes, Bandeirantes e Diplomatas” (2001), a
formação das fronteiras brasileiras no período colonial pode ser imaginada como um diálogo entre bandeirantes e diplomatas. Um ocupava o território que, na prática, não tinha dono; o outro legalizava a penetração através de um acordo. Ambos serviam o Estado. O diplomata é seu típico representante; se a ação do bandeirante não foi sempre de inspiração estatal – foram motivos econômicos privados a mola mestra da maioria das excursões – o fato é que teve consequência territorial” (GOES FILHO, 1999: 310).
Diplomatas como Alexandre de Gusmão (negociador do Tratado de Madri, de 1750, ainda durante a colonização), Duarte da Ponte Ribeiro (responsável pelas tratativas lindeiras com as repúblicas sul-americanas durante o século XIX) e José Maria da Silva Paranhos, o Barão do Rio Branco (o pacificador as últimas pendências territoriais com os vizinhos) - foram
“servidores do Estado que, com seu conhecimento profundo das questões de fronteira, com sua avaliação correta das relações de força muito contribuíram para que, nos sertões da história, fossem encontrados os bons caminhos” (GOES FILHO, 1999: 315). Assim, argumenta Ricupero, “com a ajuda de outros diplomatas, estadistas, pensadores, edificou-se aos poucos
4 De acordo com Weffort (2011), o pensamento político brasileiro nasceu do embate entre o frágil Renascimento português e o medievalismo ibérico, no século XV, que se prolongou, pelo menos, até o século XVIII. Tendo em vista o atraso de Portugal na absorção das ideias modernizantes europeias, a ressonância do debate entre a secularização da política e as tradições medievais religiosas também aportou tardiamente no Brasil.
48 uma ideia de país satisfeito com seu status territorial, em paz com os vizinhos, confiante no Direito, nas soluções negociadas, empenhado em ver-se reconhecido como força construtiva de moderação e equilíbrio a serviço da criação de um sistema internacional mais democrático e igualitário, mais equilibrado e pacífico” (RICUPERO, 2017: 32).
Historiadores-diplomatas como Ricupero e Goes Filho buscam inserir os diplomatas no centro do processo histórico brasileiro. O mesmo argumento é desenvolvido por Sérgio Danese em “A escola da liderança: ensaios sobre a política externa e a inserção internacional do Brasil” (2009), na qual sustenta que a presença de “uma verdadeira escola da diplomacia portuguesa, marcada pela habilidade, sutileza, sendo de oportunidade (e de oportunismo), pragmatismo e prudência”, teriam ajudado o fortalecer o papel dos diplomatas na tarefa de pensar o Brasil como nação (DANESE, 2009: 30). Em virtude da influência central do Estado no processo de formação “disso que se identifica com certa facilidade como nação brasileira, ou povo brasileiro”, é que se permite afirmar que a diplomacia, ao ajudar a superpor Estado e nação, teve um papel decisivo na gênese da nacionalidade brasileira (DANESE, 2009: 30). De acordo com Danese, os diplomatas atuam na defesa dos interesses do Estado e da Nação desde as primeiras décadas do Brasil independente. A eles coube não apenas desempenhar as clássicas funções de state-building, mas igualmente múltiplas tarefas de nation-building, de que é exemplo o patriarca da Independência e primeiro chanceler brasileiro, José Bonifácio de Andrada e Silva: (i) criação de uma cultura e de uma identidade nacionais identificadas com a realidade geográfica, histórica, étnica, social e cultural do país (Francisco Adolfo de Varnhagen, Brasílio Itiberê); (ii) o aperfeiçoamento das estruturas políticas, numa sucessão de experimentações constitucionais e arranjos institucionais (José Bonifácio, Visconde do Uruguai, Visconde do Rio Branco); (iii) a modernização das estruturas sociais, dadas as pressões externas e internas para o fim do tráfico e a abolição do escravismo (Visconde do Uruguai e Joaquim Nabuco); (iv) o desenvolvimento econômico, elevado à condição de
“consenso supraideológico, suprapartidário e suprarregional” na escala de prioridades da elite brasileira (San Tiago Dantas) (DANESE, 2009: 43 e 44).
Como se percebe, na narrativa itamaratiana, os diplomatas são figuras centrais na constituição das bases fundadoras do país: o território, o Estado e a nação. A tarefa da construção de um Estado nacional se iniciou com a transferência da Corte de D. João VI (1767- 1826) para o Rio de Janeiro. A separação política de Portugal acelerou a construção de um aparato administrativo capaz de dominar o amplo território, dadas as ameaças de rebeliões e de movimentos separatistas. Por um lado, o surgimento do Brasil como Estado soberano e ator
49 internacional autônomo se deu com o processo de Independência. Por outro, o seu acabamento como unidade territorial, política, administrativa, econômica e social levaria mais de um século para efetivar-se (ALMEIDA, 2013: 26). Durante a maior parte do século XIX, o pensamento político produzido pelas elites brasileiras correspondia às aspirações elementares de um país recém independente em busca de modelos de organização social, moral, política, jurídica e institucional. A importação de obras da cultura erudita francesa e inglesa por membros da elite intelectual e religiosa ajudou a disseminar as ideias e os valores liberais na sociedade colonial.
Essa importação de ideias e instituições europeias da França e Inglaterra teve continuidade nos séculos XIX e XX, mesclando-se com as tradições iberistas (WEFFORT, 2011).
Em sua obra “O Brasil entre a América e a Europa: o Império e o interamericanismo (do Congresso do Panamá à Conferência de Washington” (2004), o diplomata e historiador Luiz Cláudio Villafañe Santos afirma que a identidade nacional brasileira, durante o Império, foi construída com base na ideia de alteridade em relação à América hispânica e de aproximação com a Europa. Enquanto para as nações lindeiras a ideia do “outro” era a Europa, para o Império eram as repúblicas caudilhescas sul-americanas. Ou seja, apesar de “escravista, atrasado e distante”, o Rio de Janeiro “via-se como distinto e superior a seus vizinhos, os quais entendia como anárquicos e instáveis” (SANTOS, 2004: 134-35).
Monarquia que se via representante da civilização europeia em um continente de anarquia política, o Brasil buscou direcionar a sua inserção internacional pelos mesmos princípios que balizavam as nações europeias. Na condição de Estado periférico de um sistema internacional engendrado pelas potências europeias no século XIX e baseado no equilíbrio de poder, entretanto, o Brasil não tinha condições de contrapor-se à ordem mundial (LAFER, 2007:
68). Enquanto no campo da cultura procurava-se importar a sofisticação francesa - de que é exemplo a vinda de arquitetos, pintores e escultores na Missão Artística Francesa (1816), nos momentos que antecederam a Independência - as instituições políticas nacionais emulavam o sistema parlamentarista, o bipartidarismo britânico e a diplomacia das cortes europeias (ALMEIDA, 2013: 30). No entanto, as dificuldades do Estado brasileiro em apropriar-se da ideia de nação, que se entrechocava com as bases de sua própria legitimidade (o sistema escravocrata), ajuda a explicar o imenso esforço para se criar uma identidade internacional para o país.
A construção de um pensamento internacional brasileiro no século XIX é indissociável da ação dos intelectuais que atuaram na diplomacia e na construção das instituições do Estado nacional. A monarquia brasileira buscava projetar no mundo como um entreposto da civilização
50 europeia nas Américas. Embora não houvesse consenso quanto à forma ideal de organização do Estado, a elite brasileira buscava construir a ordem e a unidade territorial como elementos legitimadores do Estado imperial e da autoridade do imperador: “O Brasil foi criado Império, dando ressonância à ideia do grande Império português, espalhado pelos quatro cantos do mundo. O imperador tornou-se o centro dessa identidade, referência do novo patriotismo que propunha e o símbolo da unidade brasileira” (SANTOS, 2004: 137).
Em entrevista realizada em abril de 2019, Rubens Ricupero afirmou que “desde a origem da diplomacia brasileira, o papel da inteligência foi central e decisivo”. Ricupero que
“já no Império, a Secretaria de Negócios Estrangeiros era, para usar para usar uma linguagem moderna, uma organização voltada para a produção de conhecimento”. Além de aspectos operacionais e de representação, cabe a ela produzir conhecimento “direcionado, de caráter prático, não o conhecimento do tipo acadêmico, científico, da verdade pela verdade”. Segundo Ricupero, “a prova disso é que em todo curso da nossa história, os grandes chanceleres que nós tivemos e que marcaram a produção do pensamento da política externa eram também grandes intelectuais”. José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o primeiro ministro das Relações Exteriores do Brasil, segundo Ricupero “era uma figura original, porque entre os próceres da independência, ele é o único talvez, das Américas, que não era nem militar e nem bacharel em Direito”. Os temas da abolição da escravidão e da representação política moveram as preocupações de José Bonifácio como homem de Estado. Embora a sua visão de mundo se baseasse em sua experiência europeia, advogava que o Brasil tomasse um rumo próprio:
O brasileiro que possui uma terra virgem debaixo de um céu amigo recebeu das mãos da benigna Natureza todo o físico da felicidade, e só deve procurar formá-lo em bases morais de uma boa Constituição que perpetue nossos bons costumes. Devemos ser os chineses do novo mundo, sem escravidão política e sem mornos. Amemos pois nossos usos e costumes, ainda que a Europa se ria de nós (ANDRADA E SILVA, 1812 apud WEFFORT, 2011: 165).
José Bonifácio simbolizava os compromissos liberais do processo de Independência, marcado pelas contradições de uma sociedade escravocrata e conservadora. Na visão de Raymundo Faoro, os dois principais partidos políticos brasileiros do século XIX, o Partido Liberal e o Partido Conservador, tinham origem em facções guiadas pela “afinidade psicológica, pela identidade de opiniões e pela coincidência de interesses” no processo de emancipação política brasileira (FAORO, 2010: p. 56-59). Para Weffort, “seu pensamento
51 deixou o registro, brilhante sempre, às vezes melancólico, dos dramas da formação social do país, contribuindo para tornar seu nome emblemático de toda uma época” (Weffort, 2011:
159). Rubens Ricupero afirma que a figura de José Bonifácio, embora tenha permanecido pouco tempo à frente da diplomacia brasileira, impactou o pensamento político brasileiro como um todo: “ele tinha o primeiro projeto de país, o primeiro sonho de Brasil que os brasileiros sonharam da independência para cá, que era um país que fosse na base do trabalho livre”
(RICUPERO, 2019). Sua visão de política externa, prossegue Ricúpero, se baseava na ideia de que o Brasil não deveria fazer concessões a Portugal e à Inglaterra para a obtenção do seu reconhecimento como Estado independente, “porque a própria força das coisas se incumbiria de obrigar o reconhecimento”.
Vê-se muito que os primeiros embates que o Brasil tem depois do reconhecimento da Independência, é reconquistar o mínimo de autonomia que se tinha cedido por causa desses tratados desiguais com a Inglaterra. E isso não era uma questão puramente teórica, porque os tratados com a Inglaterra que vinham dos primeiros de 1810 e foram depois renovados, haviam concedido aos ingleses uma tarifa de 15 por cento sobre todos os produtos. Com a Independência, isso foi estendido com a cláusula na nação mais favorecida aos outros grandes países. Com isso, o tesouro ficou amarrado porque, naquele tempo, a grande fonte do tesouro era o imposto sobre importação (RICÚPERO, 2019).
Já o primeiro imperador brasileiro, Dom Pedro I (1798-1834), simbolizava as contradições de um jovem país nascido na esteira do liberalismo europeu, mas que se constituía como unidade política enquanto monarquia hereditária, com uma sociedade conservadora e uma economia baseada na escravidão e no latifúndio (FAORO, 2010: 362). A realização de concessões a Portugal e à Inglaterra, por parte de Pedro I, para a obtenção do reconhecimento, visava objetivos pessoais e dinásticos, como a garantia dos direitos aos Tronos brasileiro e português para a Casa de Bragança. Na perspectiva de Rubens Ricupero, enquanto os países de colonização hispânica dispensaram a necessidade de reconhecimento da Espanha, “que aliás nunca veio”, ou foi feita “só lá pelos fins do século”, Pedro I buscou o reconhecimento português via mediação inglesa, única potência capaz de influenciar Portugal. Ao contrário do pensamento de José Bonifácio de Andrada e Silva – “que era a visão mais intelectual”, mais politicamente “lúcida” e representante do “interesse do Brasil, não do monarca” – Dom Pedro I fez concessões aos ingleses (acordos comerciais com preferências tarifárias, imunidades de jurisdição para os súditos ingleses e um tratado de extinção do tráfico de escravos). Portugal,
52 por sua vez, teve metade da sua dívida externa assumida pelo Brasil, entre outras concessões (RICUPERO, 2019).
Se durante os primeiros anos de Independência o imperador centralizava as prerrogativas na condução da política externa, a partir da Regência houve maior participação do parlamento no debate sobre as ideias internacionalistas, nas negociações comerciais e na ratificação de acordos internacionais, demanda de ambos os grupos políticos (RICUPERO, 2017: 152). Os partidos Liberal e Conservador só se afirmariam no espectro político do Brasil do século XIX como portadores de uma ideologia e de um projeto de país após a Abdicação de Dom Pedro I (1831) e o início da Regência (1831-1840), um “ensaio republicano”, no dizer de Raymundo Faoro (2010). Os liberais, de um lado, buscavam uma inspiração em ideias cosmopolitas, universalistas e moralistas. Seu programa, cujas linhas centrais estavam expostas no Ato Adicional (1834), defendia uma agenda de descentralização política e de fortalecimento da representação parlamentar, além da supressão do Conselho de Estado. Os conservadores, de outro, se embasavam numa leitura realista e pragmática dos fatos, orientados pela prudência, moderação e experiência. Seu programa, numa direção contrária, propunha a centralização e o reestabelecimento da autoridade do imperador. Encarnado na Lei de Interpretação do Ato Adicional (1840), que restaurou o Conselho de Estado e o Poder Moderador, suas diretrizes foram resumidas por Joaquim José Rodrigues Torres (1802 – 1872), o Visconde de Itaboraí: “o imperador impera, governa e administra” (FAORO, 2010: 363).
Em sua obra “O Tempo Saquarema” (2004), Ilmar Rohloff de Mattos afirma que a elite do Partido Conservador (saquaremas) atuou para neutralizar forças políticas e sociais progressistas que pudessem ameaçar o projeto centralizador, hierarquizante, agrário e escravista, moldando a construção do Estado nacional. Rubens Ricupero afirma, em entrevista para a pesquisa, que o projeto nacional autonomista, igualitarista e democratizante de José Bonifácio de Andrada e Silva foi derrotado pelo programa “latifundiário e escravocrata” de Bernardo Pereira de Vasconcelos (1795-1850).5 A liderança política e intelectual de Vasconcelos seria central na consolidação de um pensamento político e internacionalista no Segundo Reinado (1840-1889). Partidário do liberalismo no início da Regência, distanciou-se das posições dos liberais e progressistas dos "avançados" e dos "exaltados". Num movimento
5 Diante da acusação de traição à causa liberal, pronunciou seu célebre discurso: "Fui liberal; então a liberdade era nova no país, estava nas aspirações de todos, mas não nas leis, não nas ideias práticas; o poder era tudo;
fui liberal” (Weffort, 2011: 170).
53 que ficou conhecido como “Regresso Conservador”, o político mineiro defendeu um governo forte e centralizado, capaz de evitar a fragmentação nacional (WEFFORT, 2011: 167-69).
Sob o trono de Dom Pedro II, o pensamento conservador de Bernardo Pereira de Vasconcelos teria como continuadores Joaquim José Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraí), Paulino José de Souza (Visconde do Uruguai), Honório Hermeto Carneiro Leão (Marquês do Paraná), Luís Alves de Lima e Silva (Duque de Caxias) e José Maria da Silva Paranhos (Visconde do Rio Branco). Com estabilidade política, as instituições políticas nacionais (Trono, Conselho de Estado, Gabinete de Ministros, Parlamento) poderiam levar adiante o projeto de
“construção da ordem” por parte da elite agrária cafeicultora, conforme atesta José Murilo de Carvalho:
a decisão de fazer a independência com a monarquia representativa, de manter unida a ex-colônia, de evitar o predomínio militar, de centralizar as rendas públicas, foi uma opção política entre outras na época. Se em alguns pontos não havia muita liberdade de escolha, como na questão da escravidão ou do livre comércio, esses constrangimentos não determinavam os formatos políticos nem garantiam o êxito ou fracasso na organização do poder, isto é, não havia nada de necessário em relação a várias decisões políticas importantes que foram tomadas, embora algumas pudessem ser mais viáveis que outras (CARVALHO, 2003: 19).
O paradigma liberal e cosmopolita europeu da segunda metade do século XIX, em suas vertentes política, econômica e cultural, seria reproduzido pela elite diplomática brasileira. As ideias acerca da inserção internacional do país e do modelo de integração, baseado na inserção à ordem capitalista como nação periférica e dependente foram mantidos, em sua essência, até o fim do Império. A ausência de um povo com uma cultura, língua, costumes, heróis, artes, literatura, filosofia, instituições e sujeito da própria história era percebido como uma deficiência do Brasil na construção da nação. Naturalmente, as elites brasileiras do século XIX não ficaram alheias a isto, cultivando a noção de que o progresso humano e a civilização eram contínuos e lineares. Sem povo e sem história, o país também era destituído de “grandes homens” capazes de pensar o país, imaginá-lo em sua grandeza, desenvolver teorias originais à altura dos países cêntricos. Ou seja, era um “deserto de ideias”, um enorme vácuo intelectual (LYNCH, 2013:
743).6
6 “Nessa direção, “o Brasil não podia ter história no sentido universal. Não houvera ainda tempo para que a ação do homem de origem europeia trabalhasse a natureza para transformá-la em cultura. O Brasil ainda não tinha história, mas geografia; ainda não tinha povo, permanecendo tão somente um país (i.e., território). Essa imagem
54 Nesse sentido, Em apoio à iniciativa centralizadora, buscou-se a construção ideológica de um “povo imaginário”, embalado pelo romantismo literário e pela idealização dos indígenas, marginalizando-se a mestiçagem e a escravidão. Na mesma linha, buscou-se a elaboração de um programa oficial de História do Brasil, em sintonia com as instituições políticas e com o projeto disciplinador e hierarquizante do Império, levado à frente pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838). A dicotomia “civilização” x “barbárie” era a principal lente através da qual as elites enxergavam o país.7 A historiografia brasileira se orientava ainda pelos ensinamentos de Karl Friedrich von Martius, em “Como escrever a história do Brasil” (1840) e Francisco Adolfo de Varnhagen, em “História geral do Brasil” (1857), concentrada em personalidades e em acontecimentos (WEFFORT, 2011: 237). O escritor José de Alencar (1829-1877), síntese do pensamento saquarema, reconhecia o índio como expressão da nacionalidade, mas excluía o negro do projeto de mestiçagem. O catolicismo, o iberismo e o indianismo romântico, sustentados por um Estado monárquico, conviveram com uma crescente influência intelectual francesa e inglesa.
O pensamento internacionalista do Partido Conservador era atrelado à necessidade de ordem, pacificação interna, construção das instituições do Estado e consolidação da unidade nacional. A definição das fronteiras nacionais, a busca da hegemonia regional no Prata, a expansão do comércio, a promoção da imigração de mão-de-obra europeia, a preservação da soberania nacional e a negociação das fronteiras com os países vizinhos resumiam a essência da visão diplomática e geopolítica saquarema (WEFFORT, 2011: 301-303). Embora pertencente à Trindade Saquarema - composta por Paulino Soares de Souza (Visconde de Uruguai), Joaquim José Rodrigues Torres (Visconde de Itaboraí) e Eusébio de Queiroz - interessada na manutenção da escravidão, o Visconde do Uruguai tinha uma percepção realista da política externa brasileira. Observava que a abolição do tráfico era inevitável naquele momento histórico pois, do contrário, os ingleses a imporiam pela força das armas, com boicotes dos portos e a humilhação ao Império. Talvez o maior tratadista de Direito Público e de Ciência Política do século XIX, Uruguai era um dos cardeais do pensamento político conservador e de um pensamento internacionalista pragmático no Império. Na visão de
do Brasil como reduzido à condição de natureza e geografia, privado de cultura e excluído da civilização, perpassava os testemunhos dos principais intelectuais da nossa belle époque” (LYNCH, 2013: 742)
7 Literatos como Gonçalves de Magalhães e José de Alencar e instituições como o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), cuja inspiração era o Institut Historique de Paris, buscaram delinear uma visão de Brasil como nação: "o indianismo literário e o ensaísmo historiográfico do IHGB vinham dar acabamento simbólico ao processo de pacificação que a Conciliação empreendia na política institucional" (ALONSO, 57-58 apud Weffort, 2011: 178).