A presente dissertação propõe uma alteração da lei eleitoral, com a previsão de uma nova dinâmica para os planos de governo dos candidatos a Prefeito, sem, contudo, apresentar qualquer punição para eventual descumprimento da norma e dos procedimentos apresentados. A proposta é no sentido de que uma futura sanção advirá do voto empreendido nas eleições. Acredita-se que a nova estrutura apresentada operará como indutora de comportamentos positivos por parte dos eleitores, candidatos e prefeitos. No caso dos eleitos, poderá haver reflexo em sua conduta nos futuros mandatos.
Na ciência do direito, o instituto da sanção está associado à fiabilidade e à coercitividade das normas jurídicas. Na filosofia do Direito, renomados jusfilósofos debruçaram-se sobre o tema e sobre a correlação e a interferência da sanção no próprio Direito, na sociedade e no Estado. Hans Kelsen insere a norma jurídica no mundo do dever-ser. Essa diretriz apresenta um juízo hipotético de determinado
169 EJE. Eixo Cidadania. Site EaD EJE, 2022. Disponível em:
https://eadeje.tse.jus.br/course/view.php?id=149. Acessado em: 30 jul. 2022.
comportamento. Caso esse comando normativo não seja atendido, implicará na aplicação da correlata sanção.
Lado outro, o pensador afirma que podem existir normas desvinculadas de qualquer espécie de consequência em decorrência da sua inobservância.
Igualmente é possível que a norma estatua uma determinada conduta humana associada a uma vantagem, ou associando a conduta oposta a uma desvantagem.
O princípio retributivo entrelaça um comportamento a um prêmio ou a um castigo, ambos inseridos no conceito de sanção170.
Norberto Bobbio observa que a norma expressa o que deve ser feito e não o que necessariamente é feito, relacionando política com o direito. Dessa forma, não será incomum uma eventual infração da diretriz. A sanção é o instrumento que retira ou diminui as consequências prejudiciais da transgressão, e a distinção entre as normas estaria na natureza da correlata sanção.
O autor discorre que o ordenamento ao qual a norma pertence apontará a sanção cabível e relata a existência de três espécies de sanção: a moral, que é interior e somente pode ser sentida por aqueles que tenham dignidade; a social, que é externa, não institucionalizada, bem como valorada e aplicada pelo respectivo grupo social e a jurídica, que é externa, institucionalizada e regulamentada quanto à mensuração e à aplicação. O filósofo relata que no ordenamento jurídico há normas despidas de sanção, há outras associadas a meios de coação e há as que existem vinculadas a condicionamentos psicológicos.
Na hipótese da coação e da penalização, temos a sanção negativa, na qual se impõe um mal para a conduta socialmente indesejada. No outro lado da situação, está a sanção positiva, que oferece o bem para a conduta socialmente adequada, com o objetivo de valorizar comportamentos congruentes. Bobbio posiciona-se como um entusiasta da sanção positiva, dando ênfase ao tema por acreditar que a maioria dos juristas não lhe confere a devida importância171.
O Ministro Eros Grau, ao tratar das espécies de intervenção econômica, aborda a indução. Diz o autor que, nessa hipótese, a legislação abre uma possibilidade de escolha ao agente em seguir ou não o disposto na norma indutora,
170 KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. 6ª. ed. Trad. de João Baptista Machado. São Paulo:
Martins Fontes, 1998, p. 29-30.
171 BOBBIO, Norberto. Teoria Geral da Política: a filosofia política e as lições dos clássicos.
Organizado por Michelangelo Bovero. Tradução de Daniela Beccaccia Versiani. Rio de Janeiro:
Elsevier, 2000, p 232-265.
sem qualquer previsão de sanção punitiva para a sua não aderência. Há, portanto, a prevalência do elemento volitivo, com benefícios usufruídos em decorrência da adesão. Adentra-se, então, o universo do direito premial172.
A sanção é um importante elemento da norma jurídica. No direito brasileiro, é frequente a utilização de formas opressivas de cumprimento das leis, não se prestigiando formatos mais comedidos e menos onerosos, que naturalmente tendam a conduzir o cidadão a se ajustar ao sistema jurídico.
A ideia de responsabilidade na gestão, em geral, é associada no Brasil a algum tipo de sanção punitiva. Contudo, não obstante as inúmeras punições de toda a ordem previstas nas legislações brasileiras, diversas ilegalidades e crimes são perpetrados com frequência até mesmo pelos gestores públicos. Assim sendo, a solução para a mudança de comportamento dos políticos e do povo possivelmente não surgirá de mais uma penalidade prevista em lei.
Apesar da ineficácia do sistema punitivo brasileiro, grande parte dos juristas compreende que a estrutura normativa abarca somente a sanção repressiva cujo objetivo é penalizar afrontas à legislação. Não é comum a previsão de normas cujo escopo seja impulsionar atitudes positivas nem mesmo o instituto da sanção premial é comumente prestigiado no contexto normativo brasileiro.
Lado outro, o direito moderno investiga métodos e estratégias mais acurados para o acatamento da população às normas jurídicas, além dos tradicionais artifícios inibitórios. Hodiernamente, há a incorporação de procedimentos aptos a inspirar uma aderência voluntária dos indivíduos à norma.
Esse modelo, que é cabível em qualquer área do Direito, reduz os custos do Estado com a manutenção de uma estrutura punitiva, viabilizando a destinação desses valores para políticas públicas de interesse social. Ademais, estimula a liberdade e a criação de consciência individual, sem a intervenção estatal direta na pessoa e no patrimônio da população.
Nas democracias contemporâneas, os direitos fundamentais e a dignidade da pessoa humana conferem novo significado para o Direito, adicionando-lhe traços de valor que devem ser agregados a sua estrutura formal e aos seus instrumentos.
Nesse contexto, a migração da sanção negativa para a positiva parece melhor se coadunar com o resguardo desses novos valores paradigmas.
172 GRAU, Eros. A ordem econômica na Constituição de 1988. 13ª. ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 33.
A proposta do presente trabalho é a de que a dinâmica sugerida quanto ao plano de governo incentive condutas políticas desejáveis para a sociedade. É possível igualmente inferir-se que o candidato, futuro Prefeito eleito, que se adequar e aderir ao sistema legal proposto, poderá ser recompensado pelo reconhecimento dos cidadãos que aporão nas urnas o voto decorrente de sua satisfação. Nessa hipótese, teremos uma sanção premial natural.
A adesão ao sistema proposto é uma opção para o candidato eleito que, em um primeiro momento, não é obrigado a cumprir a norma. Porém, o descumprimento pode trazer consequências práticas de descrédito e de ostracismo político, bem como de desempenhos ruins em eleições futuras. A sanção premial, decorrente de uma atuação conforme a norma, seria o reconhecimento e a consagração do mandatário pelos munícipes.
Cumpre destacar que, na seara político-eleitoral, já existem diversas penalidades previstas para os que infringem a legislação vigente. Existem infrações administrativas e pecuniárias previstas para a propaganda irregular e extemporânea, para a ausência ou para a desaprovação de contas partidárias e de campanha, para os abusos de poder econômico, político e dos meios de comunicação, para as condutas vedadas, dentre outros ilícitos cíveis.
No tocante aos crimes eleitorais, há previsão de penas de pagamento de multa, restritivas de direitos e privativas de liberdade. Obviamente, as sanções, em algum nível, produzem os pretendidos efeitos preventivo e repressivo. Entretanto, esse arcabouço punitivo não se mostra suficiente para produzir as mudanças de comportamento nos candidatos, nos eleitores e nos eleitos que a democracia representativa necessita no momento.
Em vista do exposto, acredita-se que a aprovação política da sociedade e as consequências decorrentes dela, inclusive no momento do voto, são prêmios aptos à produção de uma alteração comportamental dos candidatos e dos eleitos para o cargo de Prefeito, no aspecto de estes terem maior compromisso com as suas promessas e planos de governo e com o atendimento das demandas sociais.
Evidentemente, a conquista de uma cultura cívica e a participação social ativa, em favor dos interesses políticos da coletividade, por meio dos procedimentos anteriormente apresentados na presente dissertação, potencializarão as possibilidades da nova norma eleitoral se revelar apta à produção de bons comportamentos.
3.6 O plano de governo alvitrado e o relatório de ponderação de