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Elegibilidade, inelegibilidade e registrabilidade

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 80-95)

O processo eleitoral tem como escopo precípuo viabilizar o exercício da democracia representativa. Tem como palco a Justiça Eleitoral e como ápice a diplomação dos eleitos. No Brasil, a possibilidade de atuar como candidato, eleger- se e ser diplomado é balizada por normas constitucionais e infraconstitucionais, nas quais o estado de elegibilidade e inelegibilidade, assim como as condições de registrabilidade estão previstas. O presente trabalho discorrerá, a seguir, de forma objetiva, sobre esses três conceitos.

A conceituação de elegibilidade encerra as concepções de capacidade eleitoral e cidadania passivas. Ela versa sobre o estado político-eleitoral do cidadão, configurando um direito público subjetivo que retrata a sua aptidão para ser

111 BRASIL. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. DR nº 0601275–57/DF, rel. Min. Maria Claudia Bucchianeri, PSESS de 03 out. 2022.

112 TSE. “A defesa da democracia é inegociável”, afirma Moraes na abertura do Ano Judiciário de 2023. Site Tribunal Superior Eleitoral, 01 fev. 2023, 22h38. Disponível em:

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Fevereiro/201ca-defesa-da-democracia-e-

inegociavel201d-afirma-moraes-na-abertura-do-ano-judiciario-de-2023. Acessado em: 01 fev. 2023.

candidato em um processo eleitoral, o que implica em registrar a sua candidatura e em receber votos validamente e, uma vez eleito por votação, estar qualificado à ocupação do correlato cargo público e ao exercício do respectivo mandato. Cumpre destacar que a capacidade eleitoral ativa, ou seja, a aptidão para votar, existe de forma dissociada da passiva.

A Constituição Federal em seu artigo 14, parágrafo 3°, estabelece as condições de elegibilidade que são requisitos sem os quais não é possível ao indivíduo ter o seu registro como candidato deferido pela Justiça Eleitoral, bem como ter computados como válidos eventuais votos destinados à sua candidatura. São elas: a nacionalidade brasileira; o pleno exercício dos direitos políticos; o alistamento eleitoral; o domicílio eleitoral na circunscrição; a filiação partidária; a idade mínima de trinta e cinco anos para Presidente e Vice-Presidente da República e Senador, trinta anos para Governador e Vice-Governador de Estado e do Distrito Federal, vinte e um anos para Deputado Federal, Deputado Estadual ou Distrital, Prefeito, Vice-Prefeito e juiz de paz e dezoito anos para Vereador.

A Magna Carta, no artigo 14, parágrafo 4°, contempla a necessidade do candidato ser alfabetizado para ser elegível. Inobstante utilizar o termo inelegível em relação aos analfabetos, o dispositivo constitucional apresenta uma condição implícita de elegibilidade e não de inelegibilidade propriamente dita, a despeito da similaridade dos efeitos produzidos. Esse entendimento é compartilhado por Rodrigo López Zilio, Antônio Carlos Mendes e Carlos Mário Velloso - Walter Agra113. No que tange ao delineamento das circunstâncias de elegibilidade, uma lei federal poderá regulamentá-lo, conforme previsão contida no artigo 22, inciso I da Carta Política, sendo vedada, contudo, a criação de condições de elegibilidade pelo legislador ordinário.

A nacionalidade, primeira condição de elegibilidade, traduz-se no elo entre o indivíduo e o Estado do qual é nacional, um vínculo político-jurídico concedido pelo Estado Soberano aos integrantes do povo. A Carta de Direitos da ONU (1948) introduziu a nacionalidade no âmago dos direitos humanos, alçando-a a importante garantia que somente pode ser restringida ou retirada com contenção e controle. O artigo 15 dispõe que todo indivíduo tem direito a uma nacionalidade e que ninguém

113 ZILIO, Roberto López. Direito Eleitoral. 6ª. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2018, p. 170.

pode ser arbitrariamente privado desta, assim como do direito de alterar de nacionalidade.

No âmbito da Justiça Eleitoral, a comprovação da nacionalidade é empreendida no momento do alistamento eleitoral. Na hipótese de candidatura, por ocasião do procedimento judicial de apresentação do registro, todos os dados constantes do assentamento do eleitor, então candidato, são importados para o correlato processo. O artigo 12 da Constituição Federal prevê a existência de brasileiros natos e naturalizados, respectivamente nos incisos I e II. A regra constitucional é no sentido de não haver distinção entre as duas espécies de nacionais, salvo as constitucionalmente previstas (CF, art. 12, § 2° ). Dessa forma, o brasileiro naturalizado é elegível, com exceção para as hipóteses em que a própria Lei Maior exige a ocupação do respectivo cargo por brasileiro nato.

Aos portugueses com residência permanente no Brasil e existindo reciprocidade em benefício dos brasileiros, são atribuídos os direitos imanentes aos nacionais, inclusive a capacidade eleitoral passiva (CF, art. 12, § 1°). As reservas previstas na Constituição Federal brasileira, que excepciona para brasileiros natos privativamente os cargos de Presidente e Vice-Presidente da República (CF, art. 12,

§ 3º), aplicam tanto aos brasileiros naturalizados como aos portugueses contemplados pelo benefício acima anunciado. Acresça-se que o artigo 51, § 4°, da Resolução TSE n° 21.538/2003 prevê que a outorga a brasileiros do gozo dos direitos políticos em Portugal, efetivamente comunicada ao Tribunal Superior Eleitoral, implicará na suspensão desses mesmos direitos no Brasil.

Acresça-se que o artigo 11, § 3°, da Resolução TSE n° 23.659/2021114 prevê que a aquisição do gozo de direitos políticos por brasileiro em Portugal não enseja a suspensão de direitos políticos ou o cancelamento da inscrição eleitoral e não obstaculiza o alistamento eleitoral ou outras operações do Cadastro Eleitoral. O pleno exercício dos direitos políticos, segunda condição de elegibilidade, está relacionado com a capacidade ativa e passiva eleitoral e se perfaz com o cumprimento de todas as obrigações cidadãs, político e eleitorais impostas pelo ordenamento jurídico.

114 BRASIL. Resolução nº 23.659, de 26 de outubro de 2021. DJE-TSE n° 204, de 5/11/2021, p. 1- 37. Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/compilada/res/2021/resolucao-no-23-659-de-26- de-outubro-de-2021. Acessado em: 03 jan. 2023.

Por ocasião do alistamento eleitoral, essa situação do indivíduo é verificada para fins de deferimento, ou não, da inscrição eleitoral. Posteriormente, eventuais causas de perda ou suspensão dos direitos políticos, uma vez recebidas pela Justiça Eleitoral, acarretam o afastamento da capacidade ativa e passiva do eleitor, que passa a ter a respectiva situação apontada em seus assentamentos. Na eventualidade desse eleitor apresentar pedido de registro de candidatura à Justiça Eleitoral, o sistema informará a situação de suspensão ou perda de direitos políticos ao órgão judicial perante o qual o respectivo processo tramita.

O artigo 15 da Constituição Federal prevê os casos de perda ou de suspensão dos direitos políticos que impactam diretamente na situação eleitoral do eleitor e consequentemente em sua capacidade eleitoral ativa e passiva. O inciso I refere-se à perda, por cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado e os demais incisos, II, III e V que contemplam a incapacidade civil absoluta, a condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos e a improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º, relacionam-se com a suspensão dos direitos políticos. O inciso IV, a recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII, divide a doutrina. Parte defende tratar-se de suspensão de direitos políticos115, e outros de perda, uma vez que o eventual restabelecimento do direito político demanda um agir do interessado, não ocorrendo de forma automática116.

A perda e a suspensão distinguem-se pelo critério temporal. A primeira é por prazo indeterminado, quiçá definitivo, demandando a reaquisição dos direitos políticos subtraídos pelo cidadão em procedimento normativo próprio. A segunda é por prazo determinado, sendo reconstituído o direito político, tão logo restabelecida a situação originária ou decorrido o correlato lapso temporal. A incapacidade civil absoluta dos menores de 16 anos prevista no artigo 3° do Código Civil117 não impacta diretamente à suspensão dos direitos políticos, visto que somente os que completarem 16 anos até a data do pleito eleitoral podem se alistar como eleitores na Justiça Eleitoral. Lado outro, somente a interdição decretada em sentença judicial

115 COSTA, Adriano Soares da. Instituições de Direito Eleitoral. 5ª. ed. Belo Horizonte: Editora Del Rey, 2022, p. 113.

116 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 9ª. ed. São Paulo: Jurídico Atlas, 2001, p. 24.

117 BRASIL. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil). Diário Oficial da União - Seção 1 - 11/1/2002, p. 1. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406compilada.htm. Acessado em: 03 jan. 2023.

transitada em julgado, ensejadora da incapacidade civil absoluta do interditado, uma vez comunicada à Justiça Eleitoral, impõe a suspensão dos direitos políticos.

A condenação criminal por crime doloso, culposo ou preterdoloso, ou por contravenção118, transitada em julgado, com a imposição alternativa ou cumulativa de pena privativa de liberdade, restritiva de direito ou multa igualmente suspende os direitos políticos do cidadão enquanto durarem os efeitos da condenação, não sendo necessária qualquer menção expressa nesse sentido no decisum, por se tratar de efeito automático da condenação. A condenação criminal deve ser informada à Justiça Eleitoral que providenciará a anotação em seus registros. Uma vez cumprida ou extinta a pena, ocorrerá o restabelecimento dos direitos políticos, independentemente de reparação de danos ou de sua prova, nos termos da Súmula 09 do Tribunal Superior Eleitoral.

O Código Penal119, artigo 96, define as medidas de segurança. As sentenças que as impõem são absolutórias impróprias e não condenatórias criminais, estampando, todavia, natureza condenatória, uma vez que atribuem ao indivíduo uma sanção penal. O Tribunal Superior Eleitoral decidiu no sentido de que a imposição de medida de segurança acarreta a suspensão de direitos políticos.

Haveria, nessas circunstâncias, uma ostensível lacuna constitucional, que deveria ser preenchida pelo Judiciário por meio da interpretação compreensiva do artigo 15, incisos II e III da Constituição Federal. (Resolução TSE n° 22.193 – Rel. Min.

Peçanha Martins – j. 11.04.2006).

Conforme já asseverado, a suspensão de direitos políticos é uma medida excepcional consubstanciada tão somente nas hipóteses expressamente previstas na Constituição Federal. Dessa forma, a interpretação concedida pelo Tribunal Superior Eleitoral não parece a mais adequada. Lado outro, o artigo 92, inciso I do Código Penal, estabelece como efeito da condenação a perda de cargo, de função

118 Código Penal artigos 18, incisos I e II, e 19. Decreto-Lei n°. 3.668, de 03 de outubro de 1941, respectivamente.

BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). Publicado no Diário Oficial da União - Seção 1 - 31/12/1940, p. 23911. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm. Acessado em: 03 jan. 2023.

BRASIL. Decreto-lei nº 3.668, de 03 de outubro de 1941. Publicado no Diário Oficial da União -

Seção 1 - 13/10/1941, p.19696. Disponível em:

https://www.lexml.gov.br/urn/urn:lex:br:federal:decreto.lei:1941-10-03;3688. Acessado em: 03 jan.

2023.

119 BRASIL. Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). Publicado no Diário Oficial da União - Seção 1 - 31/12/1940, p. 23911. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado.htm. Acessado em: 03 jan. 2023.

pública ou de mandado eletivo nas hipóteses previstas nas alíneas a e b, repercussão que deve constar expressamente do decisum, caso o magistrado julgue nesse sentido. Esse efeito não se confunde com a suspensão de direitos políticos, que ocorre de forma automática como consequência da condenação criminal.

Ademais, a condenação criminal transitada em julgado que leva à suspensão de direitos políticos gera, como repercussão, em regra, a perda de eventual mandado eletivo. Entretanto, nessa contextura, o parágrafo 2° do artigo 55 da Constituição Federal estabelece que, em caso de condenação criminal com sentença transitada em julgado para os Deputados e Senadores, a perda do mandato será decidida pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado Federal, por maioria absoluta, mediante provocação da respectiva Mesa ou de partido político representado no Congresso Nacional, assegurada ampla defesa. Existem hoje julgados que entendem pela necessidade dessa submissão à respectiva Casa Legislativa e outros que a consideram dispensável120.

Outro aspecto da condenação criminal transitada em julgado que merece destaque é a duplicidade de efeitos cujas consequências práticas guardam bastante similitude: a suspensão dos direitos políticos e a inelegibilidade. A primeira cessa automaticamente com o cumprimento ou fim da pena, enquanto a segunda se estende até 8 anos após o cumprimento da pena. A recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou a respectiva prestação alternativa, abordada anteriormente, somente afetará os direitos políticos, na hipótese cumulativa de ausência do cumprimento da obrigação e da correlata prestação alternativa fixada em lei. Na ausência de norma regulamentadora dessa prestação opcional, não poderá ser imposto ao cidadão a indisponibilidade de seus direitos políticos em decorrência do imobilismo do Estado121.

No que se refere a perda dos direitos políticos, cumpre salientar que, malgrado somente o parágrafo 1° do artigo 15 da Constituição Cidadã aborde objetivamente a supressão da nacionalidade, por sentença transitada em julgado de cancelamento da naturalização, o artigo 12, parágrafo 4° da Magna Carta também prevê duas hipóteses de perda da nacionalidade. O inciso I trata de cancelamento da naturalização, por sentença judicial, em virtude de atividade nociva ao interesse

120 STF, Pleno - Ação Penal n° 565 – Rel. Min. Carmem Lúcia – j. 08.08.2013, e TSE, Recurso Especial n° 20.012 – j. 19.09.2002 – Redatora designada para o voto, Min. Ellen Gracie, respectivamente.

121 MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional. 9ª. ed. São Paulo: Jurídico Atlas, 2001, p. 245.

nacional. O inciso II contempla a aquisição de outra nacionalidade por naturalização voluntária, excluídos os casos tratados nas alíneas a e b, respectivamente, reconhecimento de nacionalidade originária pela lei estrangeira e imposição de naturalização, pela norma estrangeira, ao brasileiro residente em estado estrangeiro, como condição para permanência em seu território ou para o exercício de direitos civis.

A hipótese do artigo 15, parágrafo 1,° e do inciso I do artigo 12, parágrafo 4°, referem-se exclusivamente a brasileiros naturalizados, e a do inciso II do artigo 12, parágrafo 4°, a brasileiros natos e naturalizados, sendo certo que qualquer dos casos acarreta a perda dos direitos políticos, visto que a ausência da nacionalidade brasileira pretere a participação política no Estado brasileiro. Esse é o entendimento esposado por Celso Ribeiro Bastos e Roberto López Zilio122. O Supremo Tribunal Federal possui decisão de que a perda da nacionalidade brasileira, sua previsão, ampliação, restrição e modificação, somente pode ocorrer nas condições categoricamente previstas na Constituição Federal, haja vista que a condição político-jurídica de nacional brasileiro tem assento constitucional, sendo exceção qualquer restrição que atinja esse direito. (TSE - Pleno Questão de Ordem no Habeas Corpus n° 83.113 - Rel. Min. Celso de Mello - j. 26.03.2003).

Vale destacar que a Magna Carta veda a cassação de direitos políticos. A abolição destes por via unilateral, desprovida do devido processo legal, que é ato característico dos regimes autoritários, não encontra morada em Estados democráticos de direito, como o Brasil. A improbidade administrativa não produz automaticamente, como a condenação criminal transitada em julgado, o efeito da suspensão de direitos políticos. Isso porque o constituinte conferiu ao legislador infraconstitucional a forma e gradação das correlatas sanções. Nessa hipótese, há a necessidade de determinação expressa na decisão transitada em julgado, no sentido de que existe o efeito de suspensão de direitos políticos, assim como o respectivo prazo de duração deve ser assinalado.

O alistamento eleitoral, terceira condição de elegibilidade, consiste na apresentação do indivíduo à Justiça Eleitoral para fins de obtenção de sua inscrição e de assentamento eleitoral. Uma vez deferido administrativamente pelo Juízo da

122 BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Granda. Comentários à Constituição do Brasil. 2°.

vol., 3ª. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 2004, arts. 5° a 17º.

ZILIO, Roberto López. Direito Eleitoral. 6ª. ed. Porto Alegre: Verbo Jurídico, 2018, p.175.

Zona Eleitoral o pedido de alistamento, o indivíduo é alçado plenamente ao status de cidadão, tornado-se membro do corpo eleitoral. O domicílio eleitoral na circunscrição é a situação do eleitor estar registrado em uma determinada circunscrição eleitoral.

O artigo 42, parágrafo único do Código Eleitoral, define-o como o lugar de residência ou moradia do requerente e, verificado ter o alistando mais de uma, considerar-se-á domicílio qualquer delas.

O conceito atual de domicílio eleitoral é bastante amplo, não mais se limitando ao disposto no artigo 42, parágrafo único do Código Eleitoral, ou se confundindo com o previsto no artigo 70 do Código Civil, que dispõe que o domicílio da pessoa natural é o lugar onde ela estabelece a sua residência com ânimo definitivo. Nos julgados dos Tribunais Eleitorais, o conceito de domicílio eleitoral é o lugar da residência ou moradia, ou outro lugar em que o eleitor possua algum vínculo específico, que poderá ser familiar, econômico, social, profissional ou político.

Para mais, o artigo 9° da Lei n° 9.504/97 determina que o candidato seja eleitor há no mínimo seis meses na localidade em que pretende concorrer como candidato. No tocante à disputa aos cargos de Prefeito, Vice-Prefeito ou Vereador, o domicílio eleitoral deverá ser no respectivo Município; para o de Governador, Vice- Governador, Senador, Deputado Federal e Estadual, deverá ser em qualquer município no respectivo Estado e para Presidente ou Vice-Presidente da República, em qualquer local do território nacional.

A filiação partidária, prevista nos artigos 16 a 22-A da Lei nº 9.096/95, é a relação jurídica firmada entre o cidadão e o órgão partidário. O estatuto do partido político pode conter regras atinentes à filiação partidária, dentre as quais o prazo de filiação necessário para que o cidadão possa concorrer como candidato, que pode ser superior ao mínimo de seis meses previsto no artigo 9° da Lei n° 9504/97, sendo defesa a sua alteração no ano da eleição (Lei n° 9096/95, art. 20 e § único). O sistema político brasileiro está alicerçado nos partidos políticos, visto que a representação somente pode ocorrer com a vinculação do candidato a uma agremiação partidária.

O artigo 11, § 14 da Lei n° 9.504/97, proíbe expressamente o registro de candidatura avulsa, ainda que o requerente tenha filiação partidária. Cabe salientar que o Pleno do Supremo Tribunal Federal atribuiu repercussão geral à questão da constitucionalidade da candidatura avulsa, por unanimidade, no Agravo em Recurso Extraordinário n° 1.054.490, cujo cerne da fundamentação é a Convenção

Americana de Direitos Humanos (Pacto São José da Costa Rica123) que, em seu artigo 23, alínea b, estabelece o direito político de todos os cidadãos de votar e ser designados em eleições periódicas autênticas, realizadas por sufrágio universal e igual e por voto secreto que garanta a livre expressão da vontade dos eleitores. O Brasil adere a esse sistema e se submete à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Cumpre mencionar que o partido político deve registrar o seu estatuto no Tribunal Superior Eleitoral até seis meses antes do pleito, com o órgão de direção constituído nos termos do estatuto na circunscrição até a data da realização da convenção, conforme previsão contida na Lei n° 9.504/97, artigo 4°. O artigo 16 da Lei n° 9.096/97 determina que somente pode se filiar ao partido o eleitor que estiver no pleno gozo de seus direitos políticos. Na prática, o eleitor precisa igualmente estar alistado perante a Justiça Eleitoral e possuir um número de inscrição válido para que o partido político possa validá-lo como filiado no sistema da Justiça Eleitoral.

A perda dos direitos políticos, conforme disposto no artigo 22, inciso II da Lei n° 9.096/97, acarreta o cancelamento da filiação partidária, enquanto a simples suspensão dos direitos políticos não altera a situação de filiado do cidadão. A condição de elegibilidade de prévia filiação partidária apresenta exceção quanto agentes públicos que não podem exercer atividades político-partidárias, tal como os magistrados (CF, art. 95, parágrafo único, III), membros do Ministério Público (CF, art. 128, § 5º, II, e), ministros do Tribunal de Contas da União (CF, art. 73, § 3º) e militares (CF, art. 142, § 3º, V).

Os militares da ativa poderão ser candidatos sem a anterior filiação partidária e os demais agentes públicos acima referidos devem atender à condição de elegibilidade, filiando-se a um partido no respectivo prazo para a desincompatibilização de até seis meses antes do pleito, consoante o disposto na Lei Complementar n° 64/90, arts. 1°, II, a, 8, 14 e j. As idades mínimas fixadas no artigo 14, parágrafo 3° da Magna Carta, encerram um parâmetro biológico. Trata a hipótese de fato jurídico stricto sensu, uma vez que na composição de seu suporte

123 BRASIL. Decreto n° 678, de 6 de novembro de 1992. Promulga a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. Diário Oficial - 09/11/1992, p. 15562. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.htm.

Acessado em: 03 jan. 2023.

fático se inserem apenas fatos da natureza, dissociados do ato e da vontade humana124.

A natureza biológica da condição etária afasta a emancipação da condição de elegibilidade em exame (TSE - Recurso Especial n° 20.059 - Rel. Ministro Henrique Neves j. - 03.09.2002). A admissão da emancipação para fins de preenchimento da idade mínima exigida pelo constituinte, para o exercício do mandado eletivo, poderia servir de chancela para ato jurídico empreendido com o fito de burlar a regra constitucional.

O artigo 11, parágrafo 2° da Lei n° 9.504/97, estabelece que a idade mínima constitucionalmente estabelecida como condição de elegibilidade é verificada tendo por referência a data da posse, salvo quando fixada em dezoito anos, hipótese em que será aferida na data-limite para o pedido de registro.

Acresça-se às condições de elegibilidade anteriormente tratadas a escolha do candidato em convenção partidária e o deferimento de seu pedido de registro de candidatura pela Justiça Eleitoral, conjuntura que somente será alcançada na hipótese de o candidato somar às condições de elegibilidade a ausência de causas de inelegibilidade.

A Constituição Federal, artigos 14, parágrafos 4°, 7° e 9°, assim como a Lei Complementar n° 64/90 são as fontes autorizadas à previsão das causas de inelegibilidade, que são circunstâncias de caráter personalíssimo que retiram a capacidade eleitoral passiva do cidadão por prazo determinado, ou seja, suprimem o direito fundamental de ser votado (ius honorum). O status de inelegível é personalíssimo, não podendo atingir o cidadão que não se encontra inserido nas circunstâncias expressas que ocasionem a inelegibilidade.

Nessa perspectiva, a Lei Maior disciplina que são inelegíveis no Brasil os inalistáveis e os analfabetos, bem como, no território de jurisdição do titular, o cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito, salvo se já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição, assim como todos aqueles inseridos no rol da Lei Complementar n° 64/90.

124 MELLO, Marcos Bernardes de. Teoria do Fato Jurídico. 5ª. ed. São Paulo: Editora Saraiva, 1993. p. 103.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 80-95)