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Justiça Eleitoral brasileira

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 69-80)

Antes de 1932, as eleições no Brasil eram restritas e não democráticas. A regência do processo eleitoral era governamental, isto é, ao Poder executivo era outorgada a prerrogativa de monitorar, de supervisionar e de tomar as decisões sobre o processo eleitoral. A votação nesse modelo de governança era marcada por fraudes e por corrupção. As campanhas eram financiadas por elites locais e os escrutínios supervisionados por autoridades governamentais. De modo geral, o processo eleitoral era tido como uma forma de perpetuar o poder político das classes mais abastadas, e não como instrumento vinculado à expressão popular.

Sobre o tema, Souza Neto e Sarmento explicam que

[...] era generalizada a fraude eleitoral em todos os níveis, tornando praticamente impossível a eleição de candidatos não oficiais. Cabia ao Poder Legislativo a realização de eleições, apuração dos votos e diplomação dos eleitos, o que dava margem a inúmeros desvios. [...] A opacidade do processo de homologação permitia que, independentemente do número de votos recebidos por um candidato, fosse ele barrado, não tendo a sua eleição reconhecida.89

Nesse conturbado cenário político, eclodiu a Revolução de 1930, que culminou no golpe de Estado e na instauração de um governo provisório liderado por Getúlio Vargas. O desenho institucional de governança eleitoral é significativamente modificado, transferindo-se o processo eleitoral ao Poder Judiciário como forma de controle e de moralização das eleições do país.

Como consequência, é criada a Justiça Eleitoral, ainda no governo provisório, por meio do Decreto nº 21.076/3290, com funções contenciosas e administrativas, destacando-se, entre outras, dirigir e fiscalizar o alistamento eleitoral, preparar os processos de eleição, realizar o processo e julgamento dos crimes eleitorais, conceder habeas corpus em matéria eleitoral e fixar normas uniformes para a aplicação das leis e regulamentos eleitorais.

89 SOUZA NETO, Cláudio Pereira de; SARMENTO, Daniel. Direito Constitucional: teoria, história e métodos de trabalho. 2. ed., 7. reimpr. Belo Horizonte: Fórum, 2014, p. 114-115.

90 BRASIL. Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Decreta o Código Eleitoral. Rio de Janeiro, RJ. Diário Oficial da União, 1932.

A primeira eleição conduzida pela Justiça Eleitoral ocorreu em três de maio de 1933, para a Assembleia Constituinte que se encarregaria de elaborar a Constituição de 1934. Na exposição virtual intitulada “Eleição de 1933: o limiar da Justiça Eleitoral”91, disponível no sítio do TSE na internet, o min. Luís Roberto Barroso assim discorreu sobre esse evento de grande importância histórica:

Quarta-feira, 3 de maio de 1933. Nessa data, foi realizada a primeira eleição organizada pela Justiça Eleitoral, ramo especializado do Poder Judiciário criado com a função de administrar os pleitos eleitorais em todos os seus níveis, do alistamento à apuração. O sufrágio, pela primeira vez na história nacional, ocorria sem os perigos do voto a descoberto. De maneira inédita, as mulheres participaram da eleição votando e sendo votadas. §

Infelizmente, esse foi um dos poucos pleitos realizados sob a égide da Justiça Eleitoral em sua breve primeira fase (1932-1937). Apesar da importante inclusão feminina, fato é que menos de 4% da população total votou em 1933. Também há registro de fraudes eleitorais, embora, pela primeira vez, sem a cumplicidade do Estado. §

Ainda assim, a primeira eleição realizada pela recém-criada Justiça Eleitoral foi um marco na história do país. Não foi perfeita, insuscetível de críticas e aperfeiçoamentos, mas abriu espaço para criação de um novo padrão de confiabilidade.

Portanto, a Justiça Eleitoral surgiu, na história democrática deste país, como uma resposta aos abusos, às ilegalidades, às fraudes e à corrupção que, num arranjo orquestrado pelos notórios autocratas e oligarcas patrimonialistas, assenhoravam-se da vontade popular manifestada nas urnas. Servindo como bastião decisivo contra essas tendências e representando um modelo de salvaguarda da incipiente democracia instalada no Brasil, com a Constituição de 1934, a Justiça Eleitoral ganhou assento constitucional (arts. 82 e 83), na qualidade de ramo especializado do Poder Judiciário92.

Como se pode observar, desde a década de 1930 o modelo de governança eleitoral adotado no Brasil não se encontra vinculado ao Poder Executivo nem ao Legislativo, e sim ao Poder Judiciário de forma independente. Essa engenharia institucional manteve-se ao longo dos anos seguintes, mesmo após a extinção da Justiça Eleitoral em 1937 e posterior ressurgimento em 1945, a demonstrar que, no tocante à tutela e ao fortalecimento da democracia, o afastamento do processo

91 TSE. Exposição eleição de 1933: o limiar da Justiça Eleitoral. Site Tribunal Superior Eleitoral, s./d. Disponível em: https://www.tse.jus.br/o-tse/cultura-e-historia/exposicao-eleicoes-de-1933.

Acessado em: 29 jan. 2023.

92 Art. 63 - São órgãos do Poder Judiciário: a) a Corte Suprema; b) os Juízes e Tribunais federais; c) os Juízes e Tribunais militares e d) os Juízes e Tribunais eleitorais.

eleitoral do aparato da classe política afigurou-se como a melhor opção, dadas as mazelas históricas.

Em linhas gerais, governança eleitoral é o conjunto de normas, de procedimentos e de instituições que regulam a realização de eleições democráticas, com o objetivo de assegurar a transparência, a imparcialidade e a credibilidade do processo eleitoral. Os professores Mozaffar e Schedler (2002, p. 7), em reconhecido artigo divulgado na International Political Science Review93 sobre governança eleitoral, assim a definiram:

Governança eleitoral é um abrangente número de atividades que cria e mantém o vasto arcabouço institucional no qual se realizam o voto e a competição eleitoral. Opera em três diferentes níveis: formulação das regras [rule making], aplicação das regras [rule application] e adjudicação das regras [rule adjudication].94

Nessa perspectiva, o modelo de governança eleitoral pode ser operado em três planos distintos: a formulação, a aplicação e a adjudicação das regras eleitorais.

A formulação das regras (rule making) compreende todos os agentes com competência legislativa em matéria eleitoral, desde a definição do sistema eleitoral, das normas para o registro de candidaturas, das inelegibilidades, da propaganda eleitoral, da apuração etc. No cenário pátrio, legislar sobre direito eleitoral é competência formal da União — Legislativo e Executivo — e, no plano infraconstitucional regulamentar, a Justiça Eleitoral tem competência para fixar normas uniformes para a aplicação das leis, expedindo instruções que entender necessárias95.

Disso decorre o poder normativo conferido à Justiça Eleitoral, prerrogativa existente desde sua criação, em 1932, quando materializou, entre as atribuições do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a possibilidade de fixar normas uniformes para a aplicação das leis e regulamentos eleitorais, expedindo instruções que entenda

93 MOZAFFAR, Shaheen; SCHEDLER, Andreas. The Comparative Study of Electoral Governance:

Introduction. International Political Science Review / Revue Internationale de Science Politique, vol. 23, n. 1, 2002, p. 5–27. JSTOR. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/1601408. Acessado em: 31 jan. 2023.

94 “Electoral governance is the wider set of activities that creates and maintains the broad institutional framework in which voting and electoral competition take place. It operates on three levels: rule making, rule application, and rule adjudication. Rule making involves designing the basic rules of the electoral game; rule application involves implementing these rules to organize the electoral game; rule adjudication involves resolving disputes arising within the game […].”

95 Art. 22, I, c/c art. 48, caput, Constituição Federal; art. 1º, parágrafo único, da Lei nº 4.737/65 (Código Eleitoral) c/c art. 105 da Lei nº 9.504/97.

necessárias96. O atual esquema normativo mantém a mesma competência de normativização, dispondo que compete ao TSE expedir as instruções necessárias à fiel execução da Lei Eleitoral (art. 1º, parágrafo único; art. 23, IX, ambos do Código Eleitoral97; art. 105 da Lei nº 9.504/97; art. 61 da Lei nº 9.096/95).

A função normativa da Justiça Eleitoral é corporificada nas Resoluções emanadas da Corte Superior. Tais atos normativos têm o potencial de regular e de estabilizar a aplicação das regras eleitorais nas instâncias inferiores, que, por expressa imposição legal, têm o dever de cumprir e fazer cumprir as decisões e instruções do Tribunal Superior (art. 30, XVI; art. 35, I, do Código Eleitoral), mantendo o arcabouço normativo uniforme em todo território nacional.

Ainda nesse contexto, quadra pontuar a função consultiva da Justiça Eleitoral.

Prevista no rol de competências administrativas dos tribunais eleitorais (art. 23, XII, e 30, VIII, do Código Eleitoral), as consultas98 são instrumentos utilizados por determinadas autoridades públicas e estruturas partidárias com o objetivo de sanar eventuais dúvidas sobre matéria exclusivamente eleitoral — desde que apresentadas em tese99 —, de forma que a resposta a elas pode servir de parâmetro interpretativo na aplicação das normas eleitorais. Registre-se que, iniciado o processo eleitoral, não se conhece de consulta, porquanto seu objeto poderá ser apreciado pela Justiça Eleitoral, em caso concreto100.

Em que pese a consulta não deter índole jurisdicional e, portanto, não configurar estritamente elemento do rule making, fato é que as respostas às consultas servem de orientação às instâncias inferiores como paradigma hermenêutico em possível caso concreto futuro. Obviamente, por não possuir

96 BRASIL. Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932. Decreta o Código Eleitoral. Publicação:

Diário Oficial da União – Seção 1 – 26/2/1932, p. 3385.

97 BRASIL. Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932 (Código Eleitoral). Diário Oficial da

União - Seção 1 - 26/2/1932, p. 3385. Disponível em:

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l4737compilado.htm. Acessado em: 03 jan. 2023.

98 De acordo com o glossário eleitoral, consulta é “Tipo de processo em que o Tribunal Superior Eleitoral e os tribunais regionais eleitorais respondem a questionamentos formulados em tese por pessoas legitimadas sobre matéria eleitoral. (Código Eleitoral, art. 23, XII, e 30, VIII)”. Disponível em:

https://www.tse.jus.br/servicos-eleitorais/glossario/termos-iniciados-com-a-letra-c. Acessado em: 01 fev. 2023.

99 Consulta nº 060042168, Relator(a) Min. Tarcisio Vieira De Carvalho Neto, DJe de 05/02/2020: Nos termos do art. 23, XII, do Código Eleitoral, compete ao Tribunal Superior Eleitoral responder, sobre matéria eleitoral, às consultas que lhe forem feitas em tese por autoridade com jurisdição federal ou órgão nacional de partido político. Logo, a manifestação há de ser passível de aproveitamento sucessivo e despersonalizado, vedado, por via oblíqua, o equacionamento de situações e controvérsias concretamente postas, sob pena de ofensa aos postulados do juiz natural e do devido processo legal.

100 Consulta nº 517-11/DF, Rel. Min. Luciana Lóssio, DJe de 21.8.2014.

caráter vinculativo, podem as autoridades judiciárias eleitorais, diante dos fatos postos a seu exame, decidir de forma contrária à manifestação prolatada na consulta, embora, no plano da realidade, não seja prática comum. Ou seja, as consultas, especialmente do TSE, produzem regras uniformes de padrão decisório que funcionam como verdadeiras normas jurídicas no seio dos órgãos eleitorais.

Nesse diapasão, com razão Vitor Marchetti101 sustenta que a consulta, embora precária sob o enfoque jurídico, ocupa uma posição central no cenário político-brasileiro:

Este instrumento, tão precário do ponto de vista jurídico, acabou ocupando uma posição central no cenário político-partidário brasileiro. Através dele o TSE promoveu (re)interpretações até mesmo do texto constitucional. […]

Através dessa prerrogativa de produzir instruções para o processo eleitoral, o TSE acabou incorporando suas respostas proferidas em tese quando respondeu a consultas. […] A resposta em tese pôde ser transformada em regra a partir de sua incorporação nas instruções eleitorais que edita. Mais do que isso, a resposta que foi transformada em regra eleitoral pôde fundar- se em interpretações do texto constitucional. A nosso ver, tal fato é conseqüência do modelo de governança eleitoral adotado, que tornou possível a nosso OE decidir sobre as regras do jogo competitivo interpretando o texto constitucional.

Relativamente ao nível da aplicação das regras (rule application), a administração do processo eleitoral é a pedra de toque. Toda complexidade de atos que envolve o pleito (alistamento de eleitores, registro de partidos, candidatos, preparação e distribuição de urnas, votação etc.) é desenvolvido nessa etapa, a exigir uma sofisticada engrenagem institucional capaz de lidar com as diversas camadas do processo das eleições nas várias instâncias que nele atuam.

Nessa fase, ganha relevo a Justiça Eleitoral, que, por meio de seus órgãos — em especial o Tribunal Superior Eleitoral —, regulamenta os atos preparatórios, o fluxo de votação, a apuração, os procedimentos relacionados à totalização, a diplomação e os procedimentos posteriores ao pleito, enfim, a implementação e o gerenciamento do processo eleitoral são realizados pelas estruturas desse ramo especializado do Poder Judiciário.

Releva observar que a Lei Maior não trata diretamente da atividade de gerenciamento do processo eleitoral (rule application) como atribuição da Justiça Eleitoral, mas tão somente endereça sua organização e sua competência à

101 MARCHETTI, Vitor. Governança eleitoral: o modelo brasileiro de justiça eleitoral. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 51, nº. 4, 2008, pp. 865-893. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/dados/a/NKgmD93BGP9xnSfTXGSb9wG/?lang=pt. Acessado em: 01 fev. 2023.

disciplina de lei complementar102 (art. 121, CF). Contudo, numa análise mais verticalizada de seu conteúdo, é possível dessumir que as funções relativas à administração e à regulamentação das eleições se encontram esparsadas em diversos dispositivos do Ato das Disposições Constitucionais e Transitórias103 (ADCT)104, a demonstrar que esse papel exercido pelas diversas estruturas da Justiça Eleitoral possuem herança constitucional.

No que concerne à adjudicação das regras (rule adjudication), trata-se de um nível que envolve a solução dos litígios entre os atores das disputas eleitorais e ocorre durante todo o iter do processo eleitoral (antes, durante e depois da votação), pois as tensões entre os competidores despontam em quaisquer desses estágios.

Nesse ciclo também se encontram o poder de polícia e a cominação das multas eleitorais aplicadas pelas autoridades competentes.

A arquitetura constitucional da Justiça Eleitoral vem disposta no Título IV (Organização dos Poderes), Capítulo III (Do Poder Judiciário), Seção VI (Dos Tribunais e Juízes Eleitorais) da Constituição Republicana de 1988. Nos termos do art. 118, são órgãos da Justiça Eleitoral o Tribunal Superior Eleitoral, os Tribunais Regionais Eleitorais, os Juízes Eleitorais e as Juntas Eleitorais. Cada uma dessas jurisdições possui competência legal bem definida no âmbito da rule application.

Conforme disposto no art. 121 da Magna Carta, a organização e a competência dos tribunais, dos juízes de direito e das juntas eleitorais têm assento em lei complementar. Desde a edição da Constituição Cidadã (1988), o Congresso Nacional não editou, até o momento da produção deste trabalho, o referido ato legislativo105, de forma que a Lei nº 4.737/65 (Código Eleitoral vigente), no tocante à organização e à competência dos órgãos da Justiça Eleitoral, tem status de Lei Complementar.

102 BRASIL. Lei Complementar nº 64, de 18 de maio de 1990 (Lei das inelegibilidades). Diário Oficial da União de 21/05/1990, 21 de Maio de 1990, p. 9591. Disponível em:

https://legis.senado.leg.br/norma/540769/publicacao/15781851. Acessado em: 03 jan. 2023.

103 BRASIL. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. Diário Oficial da União - Seção 1 - 5/10/1988, p. 27. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm.

Acessado em: 03 jan. 2023.

104 São exemplos do que se afirma: art. 1º, § 2º; art. 5º, § 2º; art. 5º, § 4º; art. 6º, §§ 1º e 2º; art. 13, § 3º, todos do ADCT.

105 Importa dizer que a Câmara dos Deputados iniciou o Projeto de Lei Complementar nº 112/2021, visando à produção do novo Código Eleitoral brasileiro. O PLC nº 112/2021 foi aprovado com alterações no Plenário da Câmara, em quinze de setembro de 2021, e seguiu para a Casa Revisora em 16 de setembro de 2021. Em consulta realizada no dia trinta e um de janeiro de 2023, o referido projeto encontrava-se em tramitação na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado Federal.

Gize-se que o órgão de cúpula desse ramo especializado do Poder Judiciário brasileiro é o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), denominado também de Tribunal da Democracia106. Com sede no Distrito Federal, o TSE possui composição de sete membros, oriundos de classes híbridas (magistratura e advocacia), por meio de critérios distintos (eleição e nomeação), conforme se verifica do art. 119 da Constituição da República, verbis:

Art. 119. O Tribunal Superior Eleitoral compor-se-á, no mínimo, de sete membros, escolhidos:

I - mediante eleição, pelo voto secreto:

a) três juízes dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal;

b) dois juízes dentre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça;

II - por nomeação do Presidente da República, dois juízes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Supremo Tribunal Federal.

Parágrafo único. O Tribunal Superior Eleitoral elegerá seu Presidente e o Vice-Presidente dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal, e o Corregedor Eleitoral dentre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça.

O TSE é a instância máxima no tocante à administração e à execução do processo eleitoral, o que lhe confere a prerrogativa de decidir sobre a rule application na governança eleitoral brasileira. Ademais, em regra, é o foro terminativo do contencioso eleitoral (rule adjudication). Reforça esse entendimento a própria expressão do § 3º, art. 121 da Constituição Federal, quando afirma serem irrecorríveis as decisões do Tribunal Superior Eleitoral, salvo as que contrariarem a Constituição e as denegatórias de habeas corpus ou mandado de segurança.

Por seu turno, o arranjo dos Tribunais Regionais Eleitorais, órgãos de segunda instância instalados na capital de cada Estado e no Distrito Federal que também participam da administração e da execução do processo eleitoral no âmbito de suas competências, encontra-se disciplinado no art. 120 da Lei Maior, ipsis litteris:

Art. 120. Haverá um Tribunal Regional Eleitoral na Capital de cada Estado e no Distrito Federal.

§ 1º - Os Tribunais Regionais Eleitorais compor-se-ão:

I - mediante eleição, pelo voto secreto:

a) de dois juízes dentre os desembargadores do Tribunal de Justiça;

b) de dois juízes, dentre juízes de direito, escolhidos pelo Tribunal de Justiça;

II - de um juiz do Tribunal Regional Federal com sede na Capital do Estado ou no Distrito Federal, ou, não havendo, de juiz federal, escolhido, em qualquer caso, pelo Tribunal Regional Federal respectivo;

106 BRASIL. Tribunal Superior Eleitoral: o tribunal da democracia. Superior Electoral Court: the court of democracy. 3. ed. bilíngue, atual. e ampl. Brasília: Tribunal Superior Eleitoral, 2020.

III - por nomeação, pelo Presidente da República, de dois juízes dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo Tribunal de Justiça.

§ 2º - O Tribunal Regional Eleitoral elegerá seu Presidente e o Vice- Presidente dentre os desembargadores.

Registre-se a particularidade já destacada na formação das Cortes eleitorais, qual seja, a heterogeneidade de suas composições. Esse traço distintivo existe desde a criação da Justiça Eleitoral em 1932, mantendo-se, nos ordenamentos posteriores (Constituição de 1934, 1946, 1967 e 1988), a mesma interseção com o Judiciário, sobretudo com o Supremo Tribunal Federal.

É de se notar, ainda, que esse modelo concentra nos membros da magistratura as funções diretivas dentro das Cortes — Presidência, Vice-Presidência e Corregedoria —, preservando, ao menos em tese, a centralização das atividades da governança resguardadas de eventuais interferências políticas.

Nessa ordem de ideias, Sadek (1995 apud MARCHETTI, 2008)107 sustenta que a preservação desse desenho institucional possibilitou uma rota mais suave na mudança do regime militar para a democracia, defendendo, inclusive, que a inexistência de uma organização como a Justiça Eleitoral levaria a um caminho mais tortuoso:

A justiça eleitoral desempenhou um papel fundamental no processo de transição. Foi um ator mudo, porém decisivo, como fiador da lisura dos resultados eleitorais. Sem uma instituição dessa natureza, dificilmente haveria confiança na competição, ainda mais levando-se em conta as restrições políticas e legais da época. O caminho para a normalidade democrática teria sido muito mais tortuoso, para dizer o mínimo, sem o respeito aos resultados saídos das urnas (ibidem: 41).

Com efeito, apesar das limitações impostas à Justiça Eleitoral durante o regime militar, sua estrutura institucional foi mantida. Seu papel e sua atuação limitavam-se à organização das eleições para o Congresso Nacional e para os municípios do interior, além de promover adaptações na legislação eleitoral que foram implementadas naquela época.

Essa circunstância permitiu que a instituição pudesse melhor se operacionalizar, densificar sua capacidade institucional e remodelar-se como guarda

107 MARCHETTI, Vitor. Governança eleitoral: o modelo brasileiro de justiça eleitoral. Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro, Vol. 51, nº. 4, 2008, pp. 865-893. Disponível em:

https://www.scielo.br/j/dados/a/NKgmD93BGP9xnSfTXGSb9wG/?lang=pt. Acessado em: 01 fev. 2023.

fiel das regras de procedimento necessárias à ordem democrática que retornaria nas décadas seguintes.

Nesse sentido, Ramos e Sousa108 afirmam que:

O longo período de intervenção militar no processo político eleitoral que vai de 1964 a 1985, caracterizado pela suspensão de eleições diretas para presidente da República e governadores – que passaram a ser escolhidos através de colégios eleitorais restritos, constituídos por membros do Congresso Nacional para o primeiro caso, e pelas Assembleias Legislativas para o segundo – limitou a ação da Justiça Eleitoral à organização dos pleitos para a escolha dos Senadores, deputados federais, deputados estaduais, prefeitos – exceto os das capitais, escolhidos pelo processo indireto – e vereadores. §

Por mais paradoxal que possa parecer, foi durante esse período que a Justiça Eleitoral avançou na sua organização, principalmente no aperfeiçoamento e modernização de seus métodos de trabalho.

Dando continuidade, outro órgão de extrema importância são os juízes eleitorais. São ocupados pelos juízes de direito da respectiva comarca e, portanto, juízes estaduais109, que exercem a jurisdição, pelo período de dois110 anos, em cada uma das zonas eleitorais (art. 32, Código Eleitoral). Nas comarcas com mais de uma vara, caberá ao Tribunal Regional Eleitoral designar o juiz de direito que exercerá as funções de juiz eleitoral.

Compondo a primeira instância da Justiça Eleitoral, os juízes eleitorais também participam da administração e da execução do processo eleitoral, nos limites impostos pela lei (art. 35 do Código Eleitoral; art. 41, § 1º; art. 96, I, da Lei nº 9.504/97).

Ainda há as juntas eleitorais, órgãos efêmeros e que atuam somente na execução do processo eleitoral. São compostas de um juiz de direito, que será o presidente, e de 2 (dois) ou 4 (quatro) cidadãos de notória idoneidade (art. 36 do Código Eleitoral). Os membros das juntas eleitorais são nomeados 60 (sessenta)

108 RAMOS E SOUSA, Edvaldo (coord.) A justiça eleitoral de 1932 ao voto eletrônico. Rio de Janeiro: Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, Infobook, 1996, p. 73.

109 BRASIL. TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL. Petição nº 33275, Acórdão, Relator(a) Min. Gilson Dipp, Publicação: DJE - Diário de Justiça Eletrônico, Tomo 86, Data 09/05/2012, Página 359:

Impossibilidade de juízes federais integrarem a jurisdição eleitoral de primeiro grau.

110 Art. 1º, Resolução nº 21.009, de 5 de março de 2002: A jurisdição em cada uma das zonas eleitorais em que houver mais de uma vara será exercida, pelo período de dois anos, por juiz de direito da respectiva comarca, em efetivo exercício (CE, art. 32).

BRASIL. Resolução n° 21.009, de 5 de março de 2002. Brasília/DF do Tribunal Superior Eleitoral.

Disponível em: https://www.tse.jus.br/legislacao/codigo-eleitoral/normas-editadas-pelo-tse/resolucao- nb0-21.009-de-5-de-marco-de-2002-brasilia-2013-df. Acessado em: 03 jan. 2023.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 69-80)