De acordo com informações extraídas do Projeto de Trabalho Técnico Social, elaborado em 2012 pelo Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio de Janeiro (ITERJ), o prédio foi construído entre 1941 e 1942 e, hoje, abriga 42 famílias, 112 pessoas no total. Desses 61 são mulheres e 51 homens, dos quais 41 são menores de idades (13 deles na faixa de zero a quatro anos, 14 de cinco a doze anos e 14 de treze a dezessete anos). A maioria dos chefes de família são mulheres (36 ao todo), com faixa etária entre 26 e 55 anos e baixa escolaridade (80% possuem somente ensino fundamental).
As famílias possuem renda de 0 a 3 salários mínimos (SM), sendo a renda média familiar de 1 SM o que os enquadraria, segundo os critérios do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) adotados pelo Brasil, no limite da linha de pobreza. Decorrente de diversos fatores, mas principalmente da baixa escolaridade, seus empregos são em setores precarizados do mercado de trabalho, como comércio
76 A intenção de realizar o desmembramento se deu pela impossibilidade de uso comercial dos espaços previstos no projeto de geração de renda (Restaurante e Casa de Samba Mariana Crioula e Salão de Beleza) caso a obra seja realizada através do programa MCVM-E, que diferente do FNHIS não permite espaços de geração de renda, mesmo que previstos dentro do Projeto de Trabalho Técnico Social (PTTS) para sustentabilidade da comunidade. A proposta para reforma do espaço desmembrado seria de buscar recursos através de parcerias com outras entidades ou editais públicos.
ambulante, serviços domésticos e construção civil, sendo que metade dos chefes de família encontravam-se desempregados no período do censo do PTTS.
O prédio com 10 pavimentos, total de 3.485 m2, é formado por salas inicialmente projetadas para escritórios e salas de reuniões. Cada andar possui de seis a oito salas e em cada uma habita uma família, com exceção do térreo e do primeiro andar que são espaços destinados para uso coletivo77. No último andar existem dois salões e uma varanda descoberta voltada para a Rua Alcindo Guanabara, lado esse não utilizado devido a uma grande infiltração existente na sala.
O espaço ocupado foi minimamente adaptado, de forma improvisada, para atender as necessidades básicas dos moradores, como água, luz e esgoto. Os espaços foram divididos funcionalmente a partir da organização pressuposta na Carta de Princípios.
Fachada da Rua Evaristo da Veiga e Alcindo Guanabara, 2013.
Fonte: Acervo da Ocupação Manuel Congo.
77 Diferenciarei ao longo do texto três tipos de espaço: individualizado (espaço de moradia do “núcleo familiar”, reconhecido pelos moradores como “casa”), comum (espaços de circulação) e coletivo (espaços de uso compartilhado como banheiro e lavanderia e aqueles destinados à realização de atividades, como assembleia e eventos)
Figura 8 - Mapa de localização da Ocupação Manuel Congo.
Fonte: Google Maps, 2014.
Figura 9 - Modelo de planta do térreo da ocupação.
Fonte: Núcleo de Assessoria, Planejamento e Pesquisa, adaptadas pelo Autor, 2014.
Figura 10 - Modelo do 1º piso antes do início da obra.
Fonte: Núcleo de Assessoria, Planejamento e Pesquisa, adaptadas pelo Autor, 2014.
Figura 11 - Modelo de planta de andar padrão piso antes do início da obra.
Fonte: Núcleo de Assessoria, Planejamento e Pesquisa, adaptadas pelo Autor, 2014.
A portaria do prédio é organizada em sistema de escala, das cinco horas da manhã até a uma da madrugada, e todo morador, maior de 18 anos e em condições de saúde, deve disponibilizar três horas semanais para seu cuidado, ficando as chaves, nesse tempo, sob sua responsabilidade. O portão de ferro gradeado é revestido com uma tábua de madeira a fim de impedir a visão pela parte externa, trancado com uma tramela e um cadeado. É na portaria onde fica a caixa de correspondência, uma caixa de papelão embrulhada em papel de presente. Ao lado, o mural de recados de cortiça e a pequena bancada do porteiro, onde ficam dispostos publicações de parceiros, tais como o jornal Brasil de Fato, a revista Vírus Planetária e panfletos do Comitê Popular da Copa. A portaria desenvolve um importante papel de lugar para encontros diários com bate papos e troca de informações, ainda que muitos passem rapidamente por ela, ganhando os corredores e escadas.
Ali também instalaram uma televisão, e alguns moradores levam computadores portáteis ou videogames que conectam junto a ela. O controle de entrada e saída de visitas é feito em um livro onde também registram as “ocorrências”: como a falta do responsável pela portaria no horário previsto em escala, trocas e recados. Há cerca de um ano instalaram na portaria duas câmeras de vigilância, uma externa na fachada do prédio e outra interna no primeiro piso. O motivo devido a um conflito interno com um jovem de 23 anos, filho de uma moradora, que continuamente se recusava a cumprir as regras e a deixar o prédio. Ele tinha sido expulso pela coordenação e havia ameaçado revidar apoiado por pessoas envolvidas com o tráfico de drogas. A câmera foi instalada como forma de proteção, influenciando no controle interno, e é percebida pelos moradores como benéfica.
O corredor da portaria dá acesso também ao prisma central do prédio, que é mantido fechado por um portão de grade, devido a sua ocupação pela cozinha do restaurante Cazuela. Na sua frente fica uma lixeira laranja, onde os moradores depositam as sacolas de lixo. A iluminação interna é boa, mas fraca se comparada com a luz ambiente da rua, principalmente no extenso corredor de entrada coberto de mármore vermelho. Uma das paredes de entrada tem um telefone público azul sem funcionamento.
O edifício tem duas entradas, uma pela Rua Alcindo Guanabara nº 20 (portaria) e outra pela Rua Evaristo de Veiga nº 17, normalmente fechada, que da acesso ao salão do prédio. No projeto de requalificação, o salão será transformado em um centro cultural autogerido pelos próprios moradores, administrado através da cooperativa.
Nele, a proposta é de funcionar um restaurante de comidas típicas durante o dia, e uma casa de samba à noite, agregando o conhecimento regional dos diversos moradores.
Esse salão serve hoje de espaço para atividades diversas, principalmente as festas78, seminários e encontros do MNLM. Atualmente o espaço é pouco utilizado para atividades do coletivo porque nele foi instalado o canteiro de obra da empresa contratada Rivan que, mesmo com o contrato cancelado, ainda não retirou todos os materiais.
78 Festas abertas ao público costumam ocorrer em frente à ocupação, na Rua Alcindo Guanabara, o que tem proporcionado uma convivência positiva com a vizinhança, antes negativa.
Atividades diversas realizadas no interior do salão, 2008 a 2013.
O elevador está desativado desde o início da ocupação por falta de manutenção durante os tempos sem uso, o que gera uma maior circulação e encontros nos corredores e escadas. Os corredores são espaços de trânsito e encontros efêmeros entre os adultos.
Contudo, são como áreas de lazer das crianças que fazem deles extensões da própria casa.
Elevador sem uso, 2013
Cada andar possui originalmente quatro banheiros, dois em cada coluna, porém um único banheiro está em funcionamento. A estrutura hidráulica foi refeita de forma improvisada na coluna da Rua Evaristo da Veiga, funcionando um banheiro com pia, vaso e chuveiro e um tanque no corredor para lavar louças, com saída de água para instalação de máquinas de lavar roupa. A rede hidráulica da coluna da Rua Alcindo Guanabara manteve-se inoperante devido a obstrução causada pelo restaurante Cazuela.
O banheiro, o tanque e a máquina de lavar roupa são equipamentos de uso coletivo, e cabe aos moradores de cada andar a responsabilidade pela sua limpeza e manutenção. A máquina de lavar é usada por meio de escalas, um dia para cada morador, e o uso do banheiro para o banho é organizado de forma “espontânea”, pela convivência e o conhecimento do horário de trabalho de cada um, com limite médio de cinco minutos no chuveiro, a fim de evitar atrasos em compromissos cotidianos.
Pias e máquinas de lavar roupa partilhadas localizadas na coluna da Rua Evaristo da Veiga, 2013
Banheiros de uso coletivo, 2013
O primeiro andar foi dividido em três partes destinadas às atividades coletivas:
- Espaço para assembleia e reuniões diversas, usado também por movimentos sociais e grupos organizados parceiros, devido sua localização no centro da cidade;
Fonte: Acervo da Ocupação Manuel Congo.
- Espaço Criarte Mariana Crioula79, organizado por cinco jovens militantes universitários do MNLM80, educadores populares, termo pelo qual se reconhecem, e chamados pelas crianças de “tios” aos quais demonstram grande afeto. Realizam atividades culturais aos sábados e reforço escolar para crianças e adolescentes moradores da ocupação uma vez na semana;
79 Espaço que inicialmente ocupava uma área mais ampla, local onde hoje está instalado o escritório do projeto, que em processo de finalização será local de trabalho da administração da cooperativa, da secretaria do MNLM e do corpo técnico de arquitetos que vem tentando se formar para apoiar as atividades de obra.
80 Sendo três deles já graduados, atuando como professores da rede pública de ensino.
- Espaço do escritório é a sede da Associação de Apoio a Moradia, braço institucional do MNLM RJ, através do qual desenvolvem o projeto de geração de renda
“Estação Cinelândia”. O espaço é subdividido em três: sala com computadores para trabalhos cotidianos, banheiro, pequena cozinha e sala para reuniões com a pequena biblioteca81. O espaço do escritório é usado cotidianamente pelos que compõem a equipe de trabalho do projeto, por membros da equipe de arquitetura que vem se formando e por coordenadores do MNLM, assim como pelos filhos pequenos de moradores que trabalham no projeto, encontrando dificuldade em mantê-los em outro local, mais recentemente habituando-se a permanecerem no espaço voltado para educação infantil. Os moradores que não trabalham diretamente no projeto dificilmente fazem uso do escritório, alguns raras vezes aparecem solicitando permissão para uso de computador.
81 A biblioteca inicialmente era parte do Espaço Criarte, localizado antes na sala do atual escritório.
Recentemente para liberar espaço para instalação da equipe de arquitetura os livros foram depositados na sala atual do Espaço Criate, espaço considerado insuficiente pelos educadores para tal, sendo então os livros, por ser considerados pela coordenação como antigos, vendidos à uma empresa de reciclagem.
Mais do que o espaço do escritório, a ocupação em si é considerada a sede do Movimento Nacional de Luta por Moradia do Rio de Janeiro, na qual residem a maioria dos coordenadores do movimento e suas principais lideranças, como Rosa (coordenadora nacional), Mariana (coordenadora estadual e suplente da nacional) e Jairo (coordenador estadual), idealizadores da ocupação.
Os moradores se organizam através da Coordenação Local (presente na Carta de Princípios como Comitê Democrático de Gestão Local), formado atualmente por cinco residentes eleitos em assembleia e responsáveis por coordenar a organização do espaço (portaria, escalas de limpeza, mutirões, finanças), gerir os conflitos internos, acompanhar junto com outras coordenações (municipal e estadual) o andamento do processo de reforma e distribuir as informações. As comissões previamente pensadas, como mostradas acima, funcionaram no período inicial da ocupação, algumas permanecendo durante cerca de três anos. Hoje a ideia que permanece é a de funcionamento de uma coordenação, porém dissociada de comissões ampliadas, cabendo a um coordenador a responsabilidade por organizar a portaria, a outro de organizar a infraestrutura e uma coordenadora por cuidar das finanças. Em caso de necessidades esses se esforçam em mobilizar grupos para mutirões, como de limpeza.
O espaço para debater os problemas, dar informes e organizar as atividades do coletivo são as assembleias mensais, realizadas no primeiro andar na última sexta-feira de cada mês às 22h. As assembleias são pautadas pela coordenação local com orientação de outras instâncias, como a coordenação estadual, e aberta para colocações de todos os moradores. Em casos de emergência convocam assembleias extraordinárias.
Durante o período de obra as assembleias voltaram a ser semanais, ocorrendo todas as sextas-feiras às 22h.
As despesas para manutenção do prédio, como compra de sacos de lixos e conserto da bomba d’água, são custeadas por um fundo de contribuições das famílias, que recolhe mensalmente R$ 20,00 de cada núcleo, espécie de taxa de condomínio. A gestão desse fundo é de responsabilidade de uma coordenadora local, eleita em assembleia, que deve apresentar o balanço da situação mensalmente. Os valores dos gastos com água e energia, hoje, são pagos pelo ITERJ.
Com a regularização fundiária os custos com a moradia tendem a subir. Após a obra de reforma será instituído o condomínio, passando os moradores a arcarem com o pagamento de água, luz, impostos e portaria. A proposta do MNLM é a de que esses futuros gastos sejam quitados através de um fundo da cooperativa que está em desenvolvimento. A cooperativa “Liga Urbana” (registrada com o nome “Autogestão Urbana: trabalho & moradia”) foi aberta à participação de todos os moradores, tendo como critério para nela ingressar a participação no curso básico de cooperativismo, custeado com recursos do Projeto Estação Cinelândia. Na sua fundação 31 moradores se associaram. Em 2013, duas moradoras foram remuneradas pelo fundo inicial da cooperativa para cuidar da portaria, das 5 horas até às 19 horas. O horário de 19 horas
até a 1 hora foi mantido no modelo anterior através de uma escala de moradores não vinculados à cooperativa.
A proposta da cooperativa segue as definições do encontro nacional do Movimento, que aponta para o cooperativismo como um dos seus eixos, na busca de sustentabilidade das ocupações. A cooperativa Liga Urbana é de âmbito estadual, organizando-se também na cidade de Volta Redonda na Ocupação 9 de Novembro. A primeira versão do seu estatuto foi elaborada no primeiro curso de cooperativismo, e a proposta é a da que ela atue em quatro segmentos: gastronomia, cultura, artesanato e construção civil. Sua criação acompanha o ideal de reforma urbana proposto pelo Movimento, que envolve habitação, cultura, trabalho e mobilidade urbana. A participação enquanto cooperado não exige que o indivíduo nela trabalhe, mas que esteja disposto a colaborar na sua construção. Hoje a cooperativa atua em três ocupações: na Manuel Congo com a venda de quentinhas e o serviço de buffet, na ocupação Mariana Crioula com a oficina de serigrafia e na ocupação Nove de Novembro em Volta Redonda, também com serviço de buffet.
Na ocupação Manuel Congo o tema já se colocava nas primeiras reuniões do coletivo, e aparece com o discurso principal de ser uma forma de possibilitar o pagamento das despesas como impostos e condomínio, bem como organizar os moradores para o trabalho, já realizado por muitos de forma individual e informalmente.
As atividades informais tiveram início nos primeiros anos da ocupação, com as festas realizadas no salão Casa de Samba Mariana Crioula, movimentando-se mais em grandes eventos como o carnaval, e a produção das chamadas “quentinhas”. Com a demora do início da obra instalaram a cozinha e um refeitório no segundo andar (antes tinham uma instalação improvisada no espaço da Casa de Samba), passando a atender encomendas diárias pelo telefone, e servindo aos funcionários da empreiteira (através de um contrato mensal) café da manhã e almoço durante o breve período da obra. Hoje, na ocupação, o trabalho da cooperativa envolve diretamente sete moradores, mais quatro remunerados pelo projeto Estação Cinelândia que trabalham na sua consolidação.
Toda essa organização do espaço foi realizada de forma controlada, orientada e mediada pela coordenação, apoiando-se na Carta de Princípios. O espaço de moradia familiar, assim como de toda ocupação, é regido por esses princípios e pela história dessa construção coletiva. Ele é visto pelos moradores como o resultado de um processo: ocupar, limpar, adequar e organizar, viver temporariamente em coletivo sem separações, dividir os espaços, gerir e cuidar do prédio e, mais recentemente, a geração de renda para manutenção do espaço conquistado.
Eis dois exemplos da transformação do espaço – de sala comercial para moradia.
A circulação de ar no interior do prédio é escassa devido a falta de um circuito bem disposto para a sua corrente. No interior das casas as duas janelas para a rua ou para o prisma central facilitam a aeração. Todas elas possuem formas e tamanhos próximos uma das outras, alguns menores são habitadas pelos solteiros.
Em geral, não há intervenções no espaço individualizado82, algo acordado antes da ocupação. As adequações físicas estruturais feitas foram somente as coletivas, diferente de outras ocupações às quais os moradores ladrilham espaços, constroem paredes e até mesmo banheiros no interior da casa, assim como mostrado no filme “E por aqui vou ficando”, de Pedro Simonard, sobre moradores de um cortiço do Rio de Janeiro, ameaçado de despejo. Essas famílias adéquam seus espaços com o passar do tempo, fixando-se nesse local. A coordenadora nacional do Movimento relembra que consideram estar em estágio transitório até o fim da obra de reforma e, por isso, qualquer mudança na estrutura do prédio poderia trazer problemas junto aos órgãos de fiscalização dos projetos, como também criariam distinções internas e poderia individualizar a luta na busca da reforma.
A divisão espacial interna das casas, apesar de disposições diferentes dos cômodos, não deixa de ter o mesmo padrão. Os solteiros normalmente deixam o espaço sem divisões, conjugando as funções do quarto, sala e cozinha. Com divisórias improvisadas, como guarda roupas e cortinas, quase todas as famílias separam o quarto do espaço da sala e cozinha, que ficam conjugados. A maioria dos filhos dorme nas salas em sofás ou colchões, porém alguns dividem o espaço do quarto junto com os pais. Fátima lembra que, inicialmente, muitos moradores iam até a sua casa para ver o formato de divisão por ela desenvolvido, considerada uma referência pela organização do espaço, aparentando maior amplitude.
Dentre os improvisos realizados na ocupação está uma rede de internet à cabo que percorre todo o prédio. Ela foi montada e é gerida pelo coordenador estadual Jairo, que auxilia os moradores em caso de problema. Para manutenção e pagamento da assinatura as famílias que fazem uso contribuem com uma taxa mensal de R$ 10,0.
82Apenas um morador abriu alguns furos para circulação do ar no alto da parede lateral que separa o corredor de sua casa.
Os espaços coletivos como sala de assembleias, sala de educação infantil e a Casa de Samba são decorados com mensagens políticas e papeis rabiscados com informações resultantes de encontros de organização ou formação. Já as paredes dos corredores carregam mensagens coladas com orientações, desde regras de conduta, convocações e escalas de atividades, que passam a decorar o espaço. As informações partilham com as mensagens feitas à mão, marcas e riscos das crianças, frases e desenhos, como também a marca dos adultos, com adesivos dispostos nas portas de entrada de cada casa, alguns mais religiosos outros mais políticos. Na parede da escada que da acesso ao primeiro piso foi colado um mural, feito com folhas de papel cartão, misturando texto, frases de luta com fotografias, recontando a história da ocupação, que chama a atenção pela diferença com o restante dos espaços de circulação.
A coordenação tem trabalhado no sentido de conseguir a permanência dos moradores no prédio, mesmo durante o período de obras, tanto pela falta de outro local para permanecerem como pela insegurança de perderem o imóvel, o que levou a um rearranjo recente para liberação de uma coluna para início da obra. Os moradores da coluna da Rua Alcindo Guanabara mudaram-se todos para a coluna da Rua Evaristo da
Veiga, redividindo com tapumes e reduzindo ainda mais o espaço. Com a instalação do escritório e almoxarifado da empresa contratada no espaço de assembleia, as reuniões passaram a ser no segundo andar, uma área partilhada com o refeitório ao lado da cozinha da cooperativa
Figura 12 - Divisão dos espaços após início da obra (hoje interrompida).
Fonte: Núcleo de Assessoria, Planejamento e Pesquisa, adaptadas pelo Autor, 2014.
4 – MORAR, RESISTIR E VIVER
A experiência da ocupação é uma vivência permeada por uma série de possíveis conflitos, individuais e coletivos. No interior do prédio passam a morar 42 famílias, um total de 120 pessoas, orientados por uma Carta de Princípio, coordenadas por um movimento social. Externamente há a pressão da força policial, cujo batalhão fica localizado a uma quadra; do mercado imobiliário, com suas intervenções na área do Corredor Cultural carioca; e do Estado, representado com maior proximidade pelos vizinhos da Câmara Municipal de Vereadores, que tinham como projeto a compra do prédio para sua expansão. Essa ação coletiva, iniciada pela necessidade de suprir uma demanda por moradia coloca aos indivíduos questionamentos à vida cotidiana na prática.
O sujeito, morador de área informal precária, com uma formação cultural permeada pela violência, exploração, dominação, sem possibilidade de acesso a direitos básicos no que compete entre outras coisas a infraestrutura da cidade, se mobiliza a convite de uma liderança dentro de um movimento social já existente. Ao entrar em um prédio abandonado, descumprindo a lei da propriedade privada na disputa pelo seu direito à moradia, torna a ação de ocupar um “evento extraordinário” (SAHLINS, 2004), capaz de levar a reordenações simbólicas, e no extremo, alterando a forma de olhar o mundo e a si mesmo.
De forma breve, para melhor explicar a associação entre evento extraordinário e o ato de ocupar, esboço o conceito de cultura de M. Sahlins. O autor concebe a cultura com uma existência dual (“cultura-tal-como-constituída” e “cultura-tal-como-vivida”), desenvolvendo uma teoria que busca equalizar a relação entre “estrutura” e “prática”. A
“cultura-tal-como-constituída” é uma dimensão abstrata, virtual, do todo cultural que fundamenta a estrutura. Um estado onde os signos são fixados por relações diferenciais com outros signos, e seus significados dispostos em virtude dos seus usos possíveis. A cultura-tal-como-vivida coloca-se na dimensão da ação, onde o signo se substancializa sujeito a inflexões de sentido, conforme o contexto e o interesse do ator e as implicações refratárias do mundo83. O signo que possui um “valor convencional” no plano geral e abstrato (cultura-tal-como-constituída) passa para um “valor intencional” conforme o
83 Como na analogia de F. Saussure entre valor linguístico e valor econômico na qual compara a diferença entre o valor de cinco francos no contexto geral e seu valor particular de uso para um indivíduo, M.
Sahlins concebe o mesmo processo de significação à cultura.