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3 – OCUPAR PARA MORAR

AP1 a taxa chega a 13%, cerca de 15 mil domicílios vagos, 6,3% do número total do município56 (BIASOTTO, 2009).

Rosa (50 anos, curso universitário em direito interrompido, coordenadora nacional do MNLM) coordenava um projeto de extensão da faculdade Evandro Lins e Silva (hoje IBMEC) em uma escola pública na favela do Caju e conheceu os moradores, Robson (40 anos, produtor cultural), e sua mãe Elza (60 anos, educadora cultural). Mãe e filho, junto ao movimento social, iniciaram na própria casa as reuniões de mobilização, constituindo o primeiro grupo cadastrado para a futura ocupação. Por meio desse projeto de extensão Rosa conhece os estudantes de direito hoje advogados: Mara (25 anos, hoje coordenadora estadual do MNLM), Suelen (25 anos), Renato (30 anos) e Mariana (43 anos, hoje coordenadora estadual do MNLM e moradora da ocupação Manuel Congo). Tais estudantes passam a apoiar as mobilizações do movimento e Mariana dá início à mobilização no Cantagalo, apresentando Joana57 (41 anos, formada em psicologia) para Rosa, que começa a fazer a mobilização em Anchieta. O critério para compor o grupo era possuir renda de 0 a 3 salários mínimos58 e não possuir imóvel registrado em seu nome.

Da mobilização realizada pelas lideranças do MNLM organizaram-se três núcleos permanentes (Favela do Cantagalo/Pavão Pavãozinho/Leme, Favela São Sebastião no bairro do Caju e um complexo de ocupações em Anchieta). O Movimento organiza sua chamada “demanda” (a soma dos núcleos familiares, entendendo esses como indivíduos solteiros ou casais e seus filhos dependentes, que participam das atividades na luta por uma moradia), a partir do cadastramento dos participantes nas reuniões, priorizando o cadastro em nome das mulheres. As primeiras reuniões do coletivo aconteciam no centro da cidade, a cada 15 dias na sede do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do RJ (SEPE)59 ou nas escadarias da Câmara Municipal dos Vereadores. As despesas do café e de transporte daqueles que não podiam pagar eram custeadas com

56 “É importante lembrar que a contagem do IBGE corresponde aos domicílios particulares permanentes

— casas, apartamentos ou cômodos destinados à moradia — que estavam vagos no momento da pesquisa.

Inclui, portanto, apartamentos vagos em prédios inteiramente ou parcialmente vazios, além de casas e cômodos residenciais desocupados. Por isso este número não contempla unidades comerciais vazias, antigos hotéis ou galpões abandonados (tipos de imóveis que podem ser transformados em habitação social a partir de reforma).” (BIASOTTO, 2009, p 15 ).

57 Liderança do bairro de Anchieta, que teve experiências com organização de grandes ocupações de terra no inicio dos anos 1980

58 Demanda trabalhada pelo movimento devido a grande concentração do déficit habitacional nesta faixa, correspondendo a 89,6% do déficit habitacional brasileiro e 88,9% do déficit estadual do Rio de Janeiro (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2011).

59 Local onde já realizavam as reuniões da coordenação estadual do MNLM.

recursos advindos dos próprios coordenadores, e das festas realizadas nas comunidades para arrecadação. A dificuldade de transporte causou um esvaziamento dos encontros, que chegou a contar com 220 pessoas. Optaram então pela descentralização em reuniões semanais nos três núcleos, atendendo às famílias que não tinham condições de locomoção e facilitando o contato entre a comunidade; e uma reunião mensal, com menor poder de mobilização, no centro da cidade.

A consolidação dos três núcleos com cerca de 120 famílias, consideradas como a

“base”60 do MNLM, tem origem nas redes de atuação dessas lideranças. Articuladas em torno do MNLM as lideranças conseguiram, nesses três territórios, mobilizar suas reuniões com apoio de organizações comunitárias locais. No relato de vários moradores é possível perceber que a tessitura do coletivo pelo “boca a boca” se deu quase em sua totalidade pela mobilização de mulheres mães de família. Como dito, as principais mobilizadoras61 foram Rosa, Mariana, Joana e Elza (acompanhada de seu filho Robson), que constroem uma rede inicial na qual outros serão incorporados: como Eneida (Anchieta) que é convidada por Antonia (Anchieta), que fora convidada por Carina (Anchieta), que chegou a convite de Joana (Anchieta), que foi apresentada à Rosa (coordenação MNLM) por Mariana (Cantagalo) que conhecera Joana através de Elisabete (Anchieta) mãe de Tais (Anchieta) e avó de Marcelo e Isabela; ou Clementina e a filha Marcia (Baixada Fluminense) convidadas por Fátima (Babilônia/Leme) que fora convidada por Virginia, (Babilônia/Leme) convidada por Dete (Cantagalo), que por sua vez foi convidada por Mariana. Com exceção de Rosa (de origem católica e formada dentro das CEB’s), as mulheres acima são evangélicas, ainda que de igrejas e correntes diferentes. Fator esse importante para a aproximação e definição do perfil da comunidade.

60 Composição do Movimento que não ocupa postos de direção.

61 Mobilizadores no sentido de convidar pessoas para compor o coletivo, não podendo esquecer da figura fundamental na organização como Jairo atuante nas reuniões do coletivo. Coordenador do MNLM, dissidente do UNMP, responsável por convidar Rosa para rearticular o Movimento na capital.

Figura 3 - Exemplo da rede de mobilização.

Fonte: O autor, 2014.

As mulheres, mães, constituíram-se assim como as principais personagens desse coletivo. A questão da preocupação dos maridos e familiares com a participação nas reuniões é recorrente na fala dessas mulheres ao relembrarem a história. Para a família a ideia da ocupação remetia a locais de perversidade”, “sujeira”, “ilegalidade”,

“bagunça”.

As reuniões preparatórias seguiram62 uma rotina (inspiradas na metodologia de trabalho das CEB’s, citada na página 22). Inicialmente se busca construir uma aproximação, os novatos se apresentam e os coordenadores do Movimento expõem a proposta de ocupação e relatam suas experiências. Eles criam um espaço de diálogo, com o testemunho de vivências coletivas anteriores, no qual se misturam convencimento (de que a “luta” é possível e necessária) e respeito à organização, com comprometimento e pactuação às regras e princípios, fatores insistentemente colocados como responsáveis pelo sucesso. A necessidade dessa moradia somada as prosas construídas pelas lideranças geravam pouco a pouco uma confiança de que o coletivo buscava fazer algo “diferenciado”, garantido pelas regras e postura firme da coordenação. Com a direção e mediação dos coordenadores uma carta base com os princípios, regras e forma de organização da futura moradia coletiva foi apresentada e discutida. Incentivados pelo exercício proposto em cada reunião, da contraposição dos

62 Não tive a oportunidade de participar das reuniões preparatórias para a Ocupação Manuel Congo, mas acompanhei algumas reuniões para formação de um novo coletivo denominado primeiramente de Solano Trindade, e agora João do Rio, as quais segundo os coordenadores buscam seguir a mesma metodologia dos encontros realizados para construção da Ocupação Manuel Congo.

desejos pessoais à realidade até então vivida, eles vão alterando e incorporando trechos ao texto. Ao final ela é redigida com artigos à semelhança de uma lei (ver Anexo I).

Figura 4 - Estrutura de organização da ocupação conforme a Carta de Princípios

Fonte: O autor, 2014.

O discurso do “direito à moradia” em contraposição a especulação imobiliária é traduzido em termos concretos, pautados em valores religiosos da terra como um “bem comum de todos”, e da ação pensada em termos como “solidariedade, fraternidade, coletividade, dignidade, amor, vida, apoio mútuo”; em oposição à “necessidade, preconceito, violência, egoísmo, injustiça”. Esse discurso-diálogo mobiliza um afeto no coletivo com a constância das reuniões, que associado à necessidade de moradia, geram sentimentos de confiança e dever. Entrar no processo da ocupação passa a ser entendido como entrar em uma “luta”, em uma “batalha” para realização de um objetivo considerado como direito fundamental de todos, mas que não pressupõe a garantia da vitória.

Para fortalecer essa confiança uma ferramenta comum acionada pelo coletivo eram orações, cantos e gritos coletivos com palavras de ordem durante ou ao término das reuniões. O entendimento que se construía para o grupo é de que a ação de ocupar estava de acordo com uma ação justa perante as leis divinas ou universais dos direitos humanos, mesmo que problemática diante da lei dos homens por afrontar a propriedade privada. A agência do enfrentamento acontece nesse processo de se colocar coletivamente em movimento, não pensando aqui no movimento social formal, mas na

condição de agir, se por em movimento para exigir moradia com outros, com características que se aproximam da sua realidade. O afeto gerado desse movimento envolve a construção da confiança no coletivo e em si próprio (nem sempre isenta de dúvidas, mas o suficiente para lançar-se aos riscos), bem como o do dever de fazer cumprir esse seu direito negado, tão trabalhado através do slogan do Movimento

“reforma urbana: na lei ou na marra”.

A legitimidade de ocupar é trabalhada nas reuniões através do sentido do termo

“ocupação”, contrapondo ao termo “invasão”, considerado como pejorativo e utilizado em defesa da “propriedade privada”. “Ocupar” seria dar uso a algo abandonado, que não cumpre sua função, trazer vida a esse espaço, “Invadir” é dominar um espaço já ocupado, que já cumpre com sua função e carrega vida. As conversas em torno desse sentido buscam afastar a lógica de privatização do espaço e seu tratamento enquanto uma possível mercadoria.

Os interesses individuais por ocupar se potencializam nessa construção coletiva e com o decorrer do processo da ocupação influenciam no desenvolvimento de uma sociabilidade cotidiana particular, que gera também novas contradições que abordarei mais a frente.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 52-57)