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4.1 Retratos

4.1.3 Sueli

Joana lhe trouxe uma ficha para cadastro. Foi assim que ela participou de cinco reuniões no centro da cidade, no SEPE, organizadas por Rosa e Robson que apresentavam o movimento, o surgimento, seus objetivos e o tempo necessário para organização da ocupação. A princípio Roberto não participava das reuniões, depois do que viu naquela primeira ocupação tinha receio, mas em conversas com Joana e conhecendo o movimento organizado ele vem a participar:

Ele veio a primeira vez (durante a ocupação do Cine Vitória) e se apaixonou, e me abandonou em Costa Barros (após seu retorno temporário depois do 1º despejo) e ficou aqui todo tempo, é mole? Mas ele não veio em reunião não, veio só para ocupar mesmo. (Tânia, dezembro 2013).

Tânia acreditava que a ocupação era garantida e tudo ocorreria bem, e desta vez seria vitoriosa. Para ocupar ela veio com a filha, o marido e também a sobrinha Natália, na época com cerca de 15 anos, que trouxe do Maranhão para morar com eles. Outras pessoas conhecidas, que ela havia indicado, desistiram no meio do processo e não chegaram a ocupar. Avaliando todo o processo Tânia se considera vitoriosa.

A mãe, que nunca veio ao Rio, trabalhava no açude como lavadeira de roupa, de onde a família tirava o sustento. O pai, falecido há oito anos, trabalhava como pedreiro, mas devido a problemas com alcoolismo pouco contribuía em casa. Lembra com pesar que não via o pai há nove anos quando da data de sua morte, o mesmo havia procurado por seu endereço, mas a mãe negara dar e proibira os parentes de fornecê-lo.

Ela trabalhou como empregada na casa de uma professora, mas sem remuneração em dinheiro, ganhava roupas, calçado e outros materiais. Veio para o Rio de Janeiro com 15 anos em busca de oportunidade, pois no Piauí a vida era muito difícil, e na casa da tia viu pela televisão o Rio de Janeiro como um lugar muito lindo. O sonho era arrumar um emprego melhor e até mandar dinheiro para a mãe. Veio com uma amiga sem avisar a ninguém, mas como Sueli era menor de idade e não poderia entrar no ônibus sem o responsável, vieram de carona.

No trajeto, que levou quinze dias, passaram dificuldades e sufocos pensando que não conseguiriam chegar ao destino. Não conhecia ninguém no Rio de Janeiro, e foi quando conheceu um lado que não vira na televisão, viver na favela convivendo próximo aos “bandidos”, um susto. Primeiro ficou na casa da amiga de sua companheira de viagem, mas teve que sair pois a dona disse não a queria lá. Na rua ligou para a mãe e disse que havia feito uma “besteira”: “mãe eu vim para o Rio de Janeiro com a Valnice, mas na casa que ela está eles não me querem”. A mãe, desesperada, conseguiu o endereço de um irmão que morava no Rio e Sueli nem mesmo sabia.

O tio estava doente e a tia acabara de ter um filho, ficaram gratos com sua vinda, diziam que parecia ter caído do céu. Sueli foi trabalhar no bar do tio, na favela do Caju, e ajudava sua tia. Ela considera que aprendeu muito a trabalhar, mas quando dizia que queria estudar o tio a desanimava porque ele tinha tudo isso, casa e comércio, sem precisar de estudos.

Morou em vários lugares no Caju, e chegou a mudar-se para o Parque União na casa de outro tio. Quatro anos depois se casou e foi morar em um cômodo cedido pela sogra, onde nasceu a filha Natália. Após dois anos de casada se divorciou e voltou a morar de aluguel. Conheceu então Naldinho, morador do Caju, com que passou a morar junto e com ele teve o filho Marcos. Cerca de um ano depois viajam para Teresina, onde alugam uma casa e trabalham durante dois anos com a produção de chinelos, do tipo

“rasteirinha, que possibilitava a família certo conforto. Mas Naldinho tinha dois filhos pequenos no Rio de Janeiro e toda sua família, e decidem que o melhor é voltar. No Rio de Janeiro, sem casa para morar, a cunhada de Naldinho apresenta para Sueli o

coordenador municipal do MNLM, Robson, que na época era responsável por alguns terrenos para “doação no Caju. Ao entrar em contato, Robson diz que os terrenos já estavam todos ocupados, mas havia as reuniões para uma ocupação.

Sueli até então não sabia o que era um movimento social urbano, só o MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra). Começou a frequentar as reuniões do núcleo para organização da ocupação Manuel Congo. Diz que ao ler a Carta de Princípios não acreditou que aquilo realmente pudesse existir, lhe parecia “surreal”, como a organização da portaria, escola para crianças dentro do prédio... Mas a vontade de sair do aluguel era maior.

Ocupa o Cine Vitória com Naldinho, que havia conseguido emprego há dois meses em uma lavanderia, e foi demitido devido às faltas ao trabalho, pois os três primeiros dias da ocupação ficou estabelecido que ninguém sairia do prédio devido ao risco da polícia querer entrar. Junto levou os dois filhos, Marcos (2) e Natália (5), que precisou ser levada por Sueli ao hospital Souza Aguiar devido a poeira ter “atacadoa sua bronquite. De conhecidos participou também a cunhada Noely, que ajudava a distrair as crianças com pintura, e uma sobrinha.

O despejo somado à demissão levou o marido a desistir de uma nova ocupação.

De volta ao Caju com os filhos, Sueli contrariando o marido continuou acompanhando o grupo indo até a ocupação Quilombo das Guerreiras onde eles estavam abrigados. Com a nova ocupação permanece no local até o segundo mês, quando diz em assembleia que caso não seja liberado o uso dos outros andares retornaria para o Caju. A coordenação com receio das possíveis ordens de despejo mantém a presença dos ocupantes nos dois primeiros andares, e Sueli volta para o Caju, lembra que Rosa (coordenadora nacional) pedia para ela ficar, pois precisavam suportar mais um tempo a restrição.

No Caju aluga um espaço maior em uma área conhecida como Chatuba, e uma semana depois uma moradora da ocupação vem lhe dar o recado de que os coordenadores querem uma conversa com ela avisando que talvez agora possam levar seus pertences. Ela vai até a ocupação e é recebida por Rosa, “ahh você voltou! Seu espaço esta guardado sua doida!. Vai então morar no sexto andar e traz seus pertences.

Ao recontar a história se emociona, lembrando da primeira vez que entrou na sua nova morada.

Sobre as diferenças de morar no Rio de Janeiro e sua cidade natal, diz que o que mais lhe faz falta é a família e a simplicidade do lugar:

O jeito das pessoas serem é completamente diferente do que é aqui. Lá a gente não vê o povo com maldade, aqui às vezes a gente sente que tem que matar um leão por dia para sobreviver nesse meio todo, e lá não. Eu sinto falta da simplicidade, do jeito das pessoas, da minha mãe. Eu já me acostumei com esse jeito daqui, porque quando eu consigo ir lá passear minha mãe fala da vida pra todo mundo e eu digo: “mãe a senhora fala da vida da senhora pra todo mundo assim!”. E ela: “mas minha filha e o que tem as pessoas saberem da minha vida? Não tem nada não Sueli, as pessoas têm que saber mesmo! E é assim, um vai ajudando o outro, porque tem que saber do problema do outro pra poder ajudar.”. E aqui a gente pode até falar mas não é no mesmo sentido, do mesmo jeito que as pessoas se dão, como irmão de verdade. Sinto falta do açude, porque fui criada lá dentro né, vendo minha mãe lavar roupa, entrava pra pegar peixe, com minhas amigas tomando banho. É um espaço legal lá, em época de festejo, eu guardo muita lembrança... Minhas amigas que moravam lá, a maioria não mora mais lá, moram em São Paulo, porque também não tiveram oportunidade de ficar lá, cidade pequena que não tem... Hoje em dia a gente chega lá e parece até capital, mas naquela época parecia um povoado. [...] A maioria quando completa 17 anos vai tudo pra São Paulo, vai cortar cana, porque tem uma renda melhor todo mês, então assim a maioria quando completa 17 anos não fica em Beneditino. (Sueli, dezembro de 2013).

Para Sueli, ainda que muitos moradores da ocupação sejam do Nordeste, as relações que constroem na capital fluminense não são as mesmas, como ela diz:

Quando a gente chega aqui na cidade grande, por exemplo eu e Eliana, por mais que saibamos que viemos do mesmo lugar a gente não tem aquela mesma amizade, aquela mesma coisa. É como se ela viesse aqui também para matar um leão por dia para sobreviver, mesma coisa sou eu. Então o que a gente sente falta era do que era de verdade, porque pra ser na falsidade a gente convive na falsidade com o mundo, não é a mesma coisa. Lá não, a gente convive na simplicidade, do jeito da pessoa falar, do jeito da pessoa ser, é uma realidade completamente diferente da forma como a gente vive aqui.

Aqui é assim, pelo menos no que eu vivo, no que eu sinto, lá ninguém fica olhando pra você na forma de você falar, na forma de você agir, lá é uma simplicidade que você é assim e pronto, você é ser humano você tem seus defeitos e suas qualidades, por mais que tenha defeito porque ninguém é santo. Aqui não, aqui você está conversando com uma amiga, se você fala uma palavra errada a sua amiga até para deixar claro que sabe mais que você ela vai falar, “não, não é isso, é aquilo”. Às vezes até com o mesmo significado da palavra, mas claro para dizer que sabe mais vai colocar outra palavra, entendeu. Lá é “eu sou isso e pronto” e eu não perdi isso em mim, graças a Deus. Se tem uma coisa que eu tenho orgulho de mim até hoje, porque eu tenho amigas que foram embora para São Paulo, que moram aqui no Rio, “ah porque eu moro na cidade grande, porque arrumei um emprego melhor, eu sou melhor”. Uma coisa eu sempre digo para mim, se for pegar e eu ter que melhorar para deixar de ser eu, eu não quero, e esse meu jeito de ser eu não quero perder.

Henrique: e você acha que fazem isso por quê?

Sueli: porque querem ser melhores que os outros mesmo, não é nem por “ah eu tenho que ensinar porque eu gosto de fulano, vou ensinar porque eu gosto da Sueli”, a pessoa pode até nem perceber que faz isso nessa maldade toda assim, mas faz. Eu sei muito bem definir quando a pessoa quer mesmo ajudar ou quando quer tirar proveito da situação. (Sueli, dezembro de 2013).

Sueli também trouxe o irmão que ficou pouco tempo, e se mudou para São Paulo, e uma irmã (Claudia, 20 anos) que casou-se com um morador da ocupação, com

ele teve um filho e hoje moram juntos na ocupação, na “casa” com a mãe do rapaz. Seu sonho seria poder um dia ter toda a família perto novamente, mas considera impossível.

Ela busca “vencer na vida” para poder dar a mãe uma “vida melhor, uma vida tranquila”

diferente do que viveu no Piauí quando a mãe queria dar a eles algo, mas não podia por falta de condições. Se realiza ao ter saído do aluguel, e não vê a hora de a obra estar pronta e os filhos maiores para, assim, viajar e deixa-los em segurança em casa, ter a possibilidade de viver como querer. Recentemente voltou a estudar cursando o supletivo, prestou a prova do ENEM quase alcançando pontuação suficiente para dar por concluído o segundo grau, o qual prevê concluir até o final do ano, seu próximo passo agora é entrar em uma universidade:

Mas vendo o jeito que está hoje (a ocupação), a importância de a gente ter conseguido ficar aqui até hoje, de a gente estar nessa fase de obra, de saber que os apartamentos vão estar todos prontos, eu vejo que eu venci né, porque tenho meus parentes aqui. Mas se hoje eu tenho uma casa própria, e não dependi deles para ter, e não dependi de ter dinheiro para ter, e tudo o que eu tenho foi pela luta, pela luta que eu me coloquei, pela necessidade que a gente tinha, que eu não queria passar a vida toda pagando aluguel, e eu não via outra maneira de sair do aluguel a não ser participando dessa luta, mas assim por dentro de tudo isso é um sentimento de vitória, pelo menos de que eu tenho algo para os meus filhos, um futuro melhor em um lugar bom para eles, foi bom, fico feliz com minhas benções. (Sueli, dezembro de 2013).

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 110-115)