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A persistência do preconceito no contexto da religião

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 106-112)

3.2 Conteúdos das representações sociais da religiosidade para as PVHA

3.2.4 Classe 4 – As vivências do Preconceito e da Solidariedade: A PVHA no

3.2.4.1 A persistência do preconceito no contexto da religião

Conviver com o HIV/Aids possui uma representação que está sofrendo uma mudança, notadamente visível pelas atribuições ambíguas deste grupo a respeito desta condição. Se, para uns, o campo representacional da Aids é composto por sentimentos e atitudes negativos,

para a outra, sua representação se ancora em um estado de doença crônica. Desta forma, conversar sobre a condição de soropositividade denota algo bastante difícil para este grupo, pois relata-se que o preconceito está presente em todos os âmbitos relacionais dos indivíduos e sob vários aspectos. Há, ainda, bastante preconceito no meio religioso, em que a abordagem deste tema é considerada um tabu. Infere-se, ainda, que, na magnitude deste problema, alguns optam por se definirem como adeptos de nenhuma religião, revelando este distanciamento como forma de proteção para o próprio bem-estar espiritual.

infelizmente existe um preconceito na religião com relação à aids mas não só na minha religião eu acho que isso em qualquer religião mesmo fora de religião às pessoas tem esse olhar crítico em relação a AIDS

Id 146, mulher, espírita

É demonstrada preconceito isso realmente ainda existe não por mim mas eu já vi Id 121, homem, sem relig

ião

A constatação da existência do preconceito no seio da religião apresenta-se como um aspecto que pode influenciar o cotidiano da pessoa que vive com HIV/Aids. O espaço onde deveria ser o lar espiritual, lugar de apoio para o enfrentamento da vida e de solidariedade social, caracteriza-se por ter os mesmos julgamentos enfrentados no ambiente externo. Este fato talvez tenha correlação com a dimensão imagética deste grupo para a Aids como algo difícil a ser enfrentado, ancorado em um ser o qual se luta, mas não é possível vê-lo. As dificuldades do tratamento também são relatadas, como a necessidade de adaptação em seu cotidiano e o acobertamento do próprio diagnóstico.

aids para mim é um inimigo invisível viver com aids é difícil porque você tem que se adaptar a uma vida diferente e também em relação ao convívio com as pessoas você tem que guardar isso. Id 150, homem, católico

A expressão inimigo invisível apresenta um sentido importante de uma certa impotência em combatê-lo, já que não é, de forma frequente e indubitável, atingi-lo. Este inimigo altera o fluxo normal e rotineiro da vida, inclusive no ato da convivência com os demais. Descobrir-se como soropositivo trouxe algumas mudanças de atitudes e conceitos a partir deste diagnóstico.

é essa coisa de como você acha que elas veem como você pensa não sei porque eu via de uma forma depois que a gente está a gente vê de outra forma

Id 136, homem, católico

Para os sujeitos sociais deste estudo, o preconceito é predominante na sociedade em geral. Há a percepção de julgamentos presentes nos meios religiosos através de comportamentos e atitudes negativos advindas dos membros da própria religião, onde permeia o medo de se contaminar, a desconfiança e a crítica de como obteve o vírus associada à possibilidade de julgamento de promiscuidade sexual. Todo este processo caracteriza-se por ser ancorado nos primórdios da epidemia do HIV, que relacionava estes fatores a certos grupos populacionais, considerados, à época, como sendo de risco.

as pessoas da religião ainda tem muito preconceito com a aids elas veem a pessoa com aids meio torto tem medo é isso comigo já aconteceu várias vezes da pessoa ficar com medo de pegar

Id 148, mulher, católica

as pessoas veem a situação da aids com preconceito então o preconceito é porque é promiscuo se for mulher é porque saiu com vários homens quando na verdade não é nada disso

Id 151, homem, sem religião

O grupo social estudado considera que acreditar em algo transcendente é importante para o ser humano. Na medida em que há a inserção de uma doença, até então, incurável na vida de um indivíduo, acreditar que as coisas são possíveis, ainda que objetivamente não sejam, ter esta esperança favorece o convívio com a síndrome. Embora, a representação da Aids para os sujeitos seja reconhecida como uma doença qualquer, no senso comum a representação dela ainda não é vista desta forma, existindo muita discriminação acerca desta condição de saúde.

eu não tenho a mínima ideia de como as pessoas da minha religião veem a aids porque eu não me abro com ninguém porque eu não confio em ninguém

Id 138, homem, católico

as pessoas da minha religião veem a pessoa com aids com preconceito tanto que as pessoas nem falam nem tem coragem de falar que tem continua sendo com preconceito não adianta é muito forte

Id 147, mulher, católica

a fé é fundamental na vida do ser humano hoje em dia as pessoas estão vendo a aids como uma doença qualquer existe discriminação porque desde o tempo de cristo já havia discriminação e realmente

Id 152, mulher, católica

Quando há uma vivência acerca do preconceito dentro das instituições religiosas, estas atitudes de se resguardar quanto ao próprio diagnóstico e manter certo distanciamento das doutrinas são fortalecidas. Dentro deste contexto das dificuldades do tratamento, a desinformação dos grupos de convívio e o preconceito enraizado no senso comum são questões que se apresentam. Os sujeitos demonstram uma atitude de proteção psíquica frente

a isto, demonstrados por sentimentos negativos de receio, medo e desconfiança em compartilhar o diagnóstico para os membros de sua religião.

nunca perguntei para as pessoas da minha religião como elas veem a aids nunca quis me aprofundar nesses lugares até porque eu conheço outras pessoas mas tanto nas religiões como fora das religiões ainda é um grande tabu

Id 121, homem, sem religião

as pessoas ainda têm muito preconceito não adianta você falar que não por isso que eu falo tem muita gente que nem sabe você fala a pessoa passa a te ver de maneira diferente

Id 147, mulher, católica

Torna-se algo bastante importante para os sujeitos o esconder o diagnóstico, pois entende-se que o conhecimento de sua condição de saúde refletiria em sua vida profissional, além do que, para a maioria dos entrevistados, há muito preconceito ainda na sociedade em geral.

tem muita gente que você tem convívio mas não pode saber ainda mais na área profissional você tem que se esconder muito de uma sociedade que é despreparada para isso ou que é muito discriminatória

Id 150, homem, católico

Revela-se haver muito preconceito ainda em lugares onde há certa expectativa de acolhimento e não julgamento, como nos elementos que constituem uma possível rede de apoio, família e igrejas, independente da doutrina religiosa. Alguns entrevistados demonstram nunca terem recebido preconceito verbal. Contudo, algumas situações mostram que o preconceito ainda existe, mesmo que veladamente, como nas situações em que as pessoas tem o comportamento de se afastarem. Para outros, claramente, o preconceito tem como agentes de objetivação pessoas próximas no convívio social, inclusive familiar.

eles acabam ajudando não deixam a gente solto as pessoas da minha religião veem a aids com muito preconceito ainda. Ainda existe eu acho que as pessoas ainda estão cruas para entender a verdade a realidade da vida ainda

Id 123, homem, espírita

na igreja é a mesma coisa a sua opinião tem pessoas que acolhem e tem pessoas que consideram que a culpa é sua eu sempre joguei bola tinha um colega meu que sabia e saía de perto

Id 125, homem, evangélico

fora isso eu não sei eu graças a deus nunca sofri o preconceito sofri por parte do meu primo meu primo sabe de mim mas eu senti que ele se afastou um pouco

Id 128, homem, evangélico

Em contrapartida, estes atos discriminatórios não são específicos de nenhuma doutrina religiosa, mas percebe-se que isto seja inerente ao fator humano devido à desinformação dos

membros religiosos acerca do HIV/Aids. Mas, apesar de haver a discriminação nos espaços religiosos, alguns entrevistados identificam o fundamental apoio de sua família neste convívio com a síndrome.

as pessoas da minha religião têm restrição em relação a aids com muito pouco conhecimento e com certeza com uma discriminação muito grande eu tive um suporte familiar ótimo mas muitas pessoas não têm esse suporte

Id 150, homem, católico

Em algumas situações, os membros da própria doutrina revelam certo cuidado presente nas relações no contexto da Igreja, ainda que seja difícil todo o contexto da síndrome em sua manifestação biológica, psicológica e social. Este apoio e preocupação promove a melhoria do bem-estar espiritual, mesmo com as dificuldades do tratamento. Desta forma, o fortalecimento para continuar a conviver com o HIV pode ser proveniente de espaços onde se busque a conexão com o sagrado, dentro da própria religião.

e hoje está tão fácil não é fácil é fácil para se cuidar não desejo para ninguém o que eu estou passando até o mostrar de como as pessoas da minha religião veem a pessoa com aids para gente não influencia em nada deles sempre estarem preocupados com a gente

Id 123, homem, espírita

Percebe-se algumas crenças latentes neste grupo, como a questão do conhecimento escasso acerca das IST’s, propiciando reações de pré-julgamentos. Há ainda a ancoragem da aids em uma doença crônica, como a diabetes e menos letal do que o câncer ou mesmo a ancoragem do HIV/Aids como uma situação colocada pelo próprio Deus na vida dos que a possuem. Segundo os atores sociais, como consequência de comportamentos errados no passado, ao menos para os evangélicos.

e a gente fez coisas erradas muitos parceiros muitas coisas a gente colheu essa situação foi deus que colocou essa doença na minha vida é essa visão que as pessoas tem essa visão

Id 122, mulher, evangélica

falta de formação acadêmica mesmo mas temos visto que a diabetes mata muito mais que a aids o câncer mata muito mais que a Aids

Id 143, homem, evangélico

Por fim, a criação da aids seria como um produto de fabricação humana segundo propósitos escusos. No senso comum deste grupo, existe a crença da cura, objetivada por uma

vacina que, para os entrevistados já existe, entretanto, motivos econômicos impedem que esta seja divulgada.

creio que já exista uma vacina que já exista a cura só que ela ainda não foi liberada por muitos motivos mas é isso é o que eu penso da aids

Id 134, mulher, evangélica

hoje eu prefiro acreditar que a aids foi uma doença fabricada feita pelo homem pra dizimar geral sério e também pra vender remédio foi uma maldade mesmo do homem até as epidemias eu prefiro acreditar que foi isso

Id 138, homem, católico

A ancoragem da aids, neste momento, relaciona-se a uma entidade mórbida planejada e fabricada com o objetivo de gerar uma mortalidade em massa, por um lado, e, por outro, com o objetivo de ganhar lucros com a indústria farmacêutica. Percebe-se que, para os que se definem sem religião, há uma visão negativa quanto aos adeptos destas instituições. Para este grupo, há o ponto de vista limitado destes adeptos sobre as PVHA, haja vista a abordagem dos grupos de risco que eram associados à aids no início da epidemia, revelando a visão pejorativa destes no contexto da epidemia do HIV/Aids. Ao mesmo tempo, os sujeitos apresentam representações da aids e as pessoas com aids, com elementos bastante negativos.

por não conhecer não saber do que se trata realmente as pessoas da minha religião veem as pessoas com aids como coitados do tipo assim a coitado é doente e vai morrer daqui a pouco

Id 146, mulher, espírita

as pessoas da religião veem a aids de forma discriminatória rotulando a em que aids somente seria ligado a pessoas homossexuais ou a prostituição quando até mesmo dentro de um casamento na teoria monogâmica um dos parceiros poderiam contrair Id 144, homem, sem religião

Ainda que se reconheça os diversos avanços tecnológicos na terapia e no atendimento às PVHA, deve-se destacar o modo como a morte ainda está arraigada neste pensamento social, na mesma proporção em que a ideia de que a aids está ligada a comportamentos sociais desviantes permanece de maneira forte entre os sujeitos. Morte e sexo é, basicamente, o binômio que caracteriza a representação social da aids para o grupo estudado, em que pese os quase 40 anos de sua existência. Demonstra-se também a reciprocidade do medo nas diversas instâncias da sociedade em geral, onde o que mais impacta nos sujeitos é a expectativa de onde deveria ter o acolhimento para as situações adversas de vida, como nas instituições religiosas, entretanto, acontece o contrário. No momento de adversidade instaurada pelo sorodiagnóstico, os atores sociais do estudo expressam uma melhor possibilidade de

convivência com o diagnóstico e enfrentamento das dificuldades do tratamento, a partir do apoio de uma rede social.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 106-112)