Contudo, esta síndrome é compreendida por grupos neopentecostais como sendo fruto da ação de demônios os quais se alojam no corpo do sofredor e que só podem ser expulsos através de orações e outras práticas (RABELO, 1993). A compreensão da aids por grupos neopentecostais favorece a discriminação moral, principalmente por ser uma doença sexualmente transmissível e, neste grupo, as relações íntimas só serem permitidas no âmbito matrimonial, em uma relação heterossexual e efetivada entre os membros da comunidade religiosa (FERREIRA; FAVORETO; GUIMARÃES, 2012).
Entre as religiões, é possível que se observem o desenvolvimento de comportamentos positivos e negativos em relação ao enfrentamento religioso em saúde. Desta forma, características positivas levam a um suporte espiritual, ao perdão e à participação religiosos, bem como a outros comportamentos positivos; contudo, as características negativas designam o descontentamento religioso, presença de conflitos interpessoais com os outros membros religiosos e dúvidas sobre o poder de Deus nesta questão (FERREIRA; FAVORETO;
GUIMARÃES, 2012).
A importância da religiosidade também evidenciou um aumento da autonomia e suporte social dos indivíduos, como demonstra o estudo de Faria e Seidl (2006), assim como possibilita um maior otimismo, autoestima, satisfação e redução de uso de bebidas alcoólicas em pacientes soropositivos ativos na religião (COTTON et al., 2006). Constatou-se, também, que os níveis de religiosidade mostraram uma relação positiva com o tratamento farmacológico. Embora, a desordem e a desestruturação sejam muito presentes no enfrentamento ao HIV, as pessoas que vivem com HIV/Aids, através da religião, conseguem ressignificar a vida e organizar a desordem ocasionada pela síndrome (PINHO, 2010).
Nessa obra, Moscovici inaugura os estudos do campo das representações sociais e concebe a recepção de uma teoria científica, a psicanálise, por leigos e seu poder de criar a realidade social. Segundo ele, do mesmo modo como alguém pensa sobre um conjunto de ideias formando o conhecimento científico, pode também pensar um conjunto de ideias para formar o senso comum. Desde então, os estudos das representações sociais enfocam o pensamento social de grupos humanos, envolvendo a difusão dos saberes, a relação pensamento/comunicação e a criação do senso comum (LEMOS; COSTA; LIMA, 2013).
A Teoria das Representações Sociais (TRS) operacionaliza um conceito para trabalhar a dinâmica e a diversidade do pensamento social, definindo a existência de duas formas diferentes de conhecer e comunicar na nossa sociedade: a consensual e a científica. Estas são guiadas por objetivos diferentes, possuem ainda formas que são móveis e cada uma gera seu próprio universo, tendo propósitos diversos. O universo consensual seria aquele que se constitui principalmente na conversação informal, na vida cotidiana, enquanto o universo reificado se cristaliza no espaço científico, com seus cânones de linguagem e sua hierarquia interna. Ambas, portanto, apesar de terem propósitos diferentes, são eficazes e indispensáveis para a vida em sociedade (ARRUDA, 2002).
As representações sociais constroem-se mais na esfera consensual do que na científica, embora as duas esferas não sejam totalmente estanques. Se antes o saber popular era considerado inconsistente (tanto o iluminismo quanto o marxismo vão pensar sobre isto, acreditando que a superação do erro e da ignorância se dava pela via do pensamento científico), atualmente não mais. Ao questionar a racionalidade científica, insurgiram-se contra a ideia de que as pessoas comuns pensam irracionalmente, afirmando que são os intelectuais que não pensam racionalmente, já que produziram teorias do racismo e o nazismo (MOSCOVICI; MARKOVA, 1998 apud ARRUDA,2002).
Para Jodelet (2001), a representação social caracteriza-se por uma forma de conhecimento elaborada e partilhada no âmbito social, através de um objetivo prático que contribui para a construção de uma realidade comum a este conjunto. As representações sociais abordam fenômenos que se observam diretamente ou que são reconstruídos por um trabalho científico e a observação destas constitui-se de algo natural em várias ocasiões, pois circulam nos discursos, são trazidas pelas palavras e veiculadas em mensagens e imagens midiáticas cristalizadas em condutas e em organizações materiais e espaciais.
Algumas abordagens complementares à Teoria das Representações Sociais têm surgido e, com isso, proporcionando maior precisão e preenchendo lacunas que haviam na construção inicial da grande Teoria.
A teoria das representações sociais tem sido discutida e utilizada por diversos pesquisadores de distintas áreas de conhecimento no Brasil. Tem sido estudada, de forma geral, em três abordagens teóricas complementares: a abordagem processual, liderada por Denise Jodelet, em Paris e mais fiel à teoria original; a abordagem estrutural, que tem como principais representantes Jean-Claude Abric e Claude Flament,, em Aix-em-Provence, a qual enfatiza a dimensão cognitivo-estrutural das representações e resultou na teoria do núcleo central; e uma terceira abordagem, denominada relacional, liderada por Willem Doise, em Genebra, a qual procurou articulá-la com uma perspectiva mais sociológica. Nesta terceira abordagem, apreende as posições individuais no campo representacional e a respectiva ancoragem na dinâmica societal (SÁ, 1998; LEMOS; COSTA; LIMA, 2013).
A abordagem dinâmica ou processual, difundida por Jodelet em 1989 (2003), pressupõe que as representações sociais são uma modalidade de conhecimento prático, as quais orientam a comunicação e a compreensão do contexto social, material e ideativo em que vivemos. Sendo assim, formas de conhecimento que se manifestam como elementos cognitivos (imagens, conceitos, categorias, teorias), mas que não se reduzem aos elementos cognitivos. As representações são socialmente elaboradas e compartilhadas, contribuindo para a construção de uma realidade comum, que favorece a comunicação.
Este tipo de abordagem processual considera que as representações são centradas mais no aspecto constituinte (processo) do que no aspecto constituído (conteúdo) das representações. As produções simbólicas, os significados, a linguagem, o objeto de estudo e suas vinculações sócio-históricas e culturais são o foco desta análise, e destaca como a vida cotidiana se relaciona as representações sociais (SÁ, 1998).
A abordagem relacional foi desenvolvida por Doise, em articulação com a perspectiva sociológica de Pierre Bourdieu, dando ênfase às relações sociais que estão na origem das representações sociais, assim como às condições de produção e circulação (SÁ, 1998, p.74).
Já a abordagem estrutural identifica a estrutura ou o núcleo das representações, bem como elas se organizam e quais os elementos as constituem. Essa abordagem se refere ao conteúdo cognitivo das representações e o concebe como um conjunto estruturado de ideias e valores.
Dessa forma, a Teoria do Núcleo Central, também denominada de Abordagem Estrutural das Representações, foi elaborada por Abric em 1976 (SÁ, 2002). Essa mesma teoria pretende trabalhar a ideia de centralidade na organização de uma representação. Abric (2000, p. 31) afirma que "a organização de uma representação social apresenta uma característica específica, a de ser organizada em torno de um núcleo central, constituindo-se em um ou mais elementos, que dão significado à representação". De maneira que este autor
propõe, então, que a organização das representações sociais se fazem ao redor de um núcleo central, sendo este elemento que fundamenta seu sentido mais essencial.
Assim sendo, o núcleo central caracteriza uma representação conferindo a esta estabilidade e identidade. Consequentemente, é o elemento da representação mais estável e resistente à mudança. É importante ressaltar, então, que qualquer mudança no elemento central da representação resulta na alteração de toda a representação social (ABRIC, 2000;
SÁ, 2002). Logo, o núcleo central possui basicamente duas funções: a geradora e a organizadora. Aquela fornece valor e sentido para os elementos da representação; já a segunda, une e estabiliza os elementos da representação. Contudo, o mesmo autor ainda descreve duas outras funções, quais sejam, a funcional, ou função operatória e prática, e a normativa, que se concretiza através, por exemplo, de uma norma, estereótipo ou atitude.
Dessa forma, o núcleo central concede estabilidade, coerência, continuidade e caráter consensual às representações (ABRIC, 2000).
Abric (2000) considera a existência do sistema periférico ao redor do núcleo central.
Esse sistema permite o entendimento coerente ao fato das representações sociais serem, paradoxalmente, rígidas e flexíveis, estáveis e móveis. De modo que este conecta o sistema central e a realidade cotidiana e concreta. No que se refere aos elementos periféricos, eles são os responsáveis por conceder mobilidade e flexibilidade ao sistema representacional e, assim, regulam e adaptam o sistema central aos constrangimentos e às necessidades cotidianas do indivíduo e/ou grupo.
Sobretudo, os elementos periféricos possuem três funções primordiais, estabelecendo uma relação entre o núcleo central e o objeto da representação. Assim, a função de concretização possibilita que esta relação se torne concreta, compreensível e transmissível;
enquanto que a função de regulação permite a adaptação da representação às evoluções do contexto e a terceira função atua na defesa do núcleo central que, caso seja transformado, provoca uma alteração completa da representação (ABRIC, 2000).
Neste aspecto, é possível encontrar importante aplicabilidade da TRS e de suas complementaridades para os estudos da religiosidade, principalmente no que tange às funções das representações dentro da abordagem estrutural, por ela permitir a identificação dos significados cristalizados da representação da religiosidade, através do núcleo central e de seus elementos periféricos.
A principal contribuição da abordagem estrutural está centrada na organização do conteúdo da representação dividido em um sistema central e em outro periférico, os quais possuem características e funções distintas. Outra contribuição denota a comparação entre
representações, uma vez que elas serão distintas apenas se o núcleo central tiver composição significativamente diferente (SÁ, 1998).
Destaca-se que o núcleo central pode assumir duas dimensões. uma dimensão
funcional e outra dimensão normativa. A dimensão funcional apresenta-se com a finalidade de operar tarefas, desta forma, os elementos do núcleo central se constituem como os mais importantes para a realização destas. Já a dimensão normativa relaciona-se com todas as situações onde intervêm diretamente dimensões sócio-afetivas, sociais ou ideológicas. Assim, o centro da representação estaria repleto de normas, estereótipos, ou atitudes fortemente marcadas (SÁ, 2002). Para Abric (2000), em torno do núcleo central organizam-se os elementos periféricos, em que seus componentes mais acessíveis, mais vivos e mais concretos.
O núcleo central possui como propriedade constituir-se do elemento, ou dos elementos, o mais estável da representação, o qual permite a continuidade desta em contextos móveis e evolutivos. Portanto, é através da identificação do núcleo central que pode haver o estudo comparativo das representações. No entanto, para que as representações sejam diferentes, elas devem ser organizadas em torno de dois núcleos centrais diferentes. A simples identificação do conteúdo de uma representação não basta pra o seu reconhecimento e especificação. A organização deste conteúdo é essencial, pois duas representações definidas por um mesmo conteúdo podem ser radicalmente diferentes, caso a organização destes elementos (sua centralidade) seja diferente (ABRIC, 2000).