representações, uma vez que elas serão distintas apenas se o núcleo central tiver composição significativamente diferente (SÁ, 1998).
Destaca-se que o núcleo central pode assumir duas dimensões. uma dimensão
funcional e outra dimensão normativa. A dimensão funcional apresenta-se com a finalidade de operar tarefas, desta forma, os elementos do núcleo central se constituem como os mais importantes para a realização destas. Já a dimensão normativa relaciona-se com todas as situações onde intervêm diretamente dimensões sócio-afetivas, sociais ou ideológicas. Assim, o centro da representação estaria repleto de normas, estereótipos, ou atitudes fortemente marcadas (SÁ, 2002). Para Abric (2000), em torno do núcleo central organizam-se os elementos periféricos, em que seus componentes mais acessíveis, mais vivos e mais concretos.
O núcleo central possui como propriedade constituir-se do elemento, ou dos elementos, o mais estável da representação, o qual permite a continuidade desta em contextos móveis e evolutivos. Portanto, é através da identificação do núcleo central que pode haver o estudo comparativo das representações. No entanto, para que as representações sejam diferentes, elas devem ser organizadas em torno de dois núcleos centrais diferentes. A simples identificação do conteúdo de uma representação não basta pra o seu reconhecimento e especificação. A organização deste conteúdo é essencial, pois duas representações definidas por um mesmo conteúdo podem ser radicalmente diferentes, caso a organização destes elementos (sua centralidade) seja diferente (ABRIC, 2000).
Alguns autores contemporâneos acreditam que a religiosidade independe de uma religião, sendo a expressão de conexão ao divino.
A partir de suas raízes semânticas, a religiosidade provém do verbo religare ou do verbo relegere. No primeiro e mais comumente difundido, a religiosidade significa se religar ou se conectar novamente ao divino, visto que através das histórias religiosas, o homem perdeu esta conexão por meio de ações negativas. Já o segundo verbo refere-se à reverência para o divino, destinado ao ser supremo ou executar uma ação, um ritual com minúcias de detalhes (MESLIN, 1992; SMITH, 2006).
Concernente à enfermagem, percebe-se que, no decorrer da história desta profissão, há um entrelaçamento da sua criação com a vocação religiosa, desde a idade antiga. Esta profissão surgiu da assistência de cuidado ao próximo, no período em que o processo de saúde-doença estaria vinculado à observação das leis divinas (PAIXÃO, 1979). Dentro das diversas formas de espiritualidade e religiosidade há em seus dogmas um adendo referente ao cuidado em saúde. Ele se manifesta na forma de mitos, rituais, percepções religiosas ou até mesmo através dos sentimentos. Além da instalação da doença ser identificada como o desequilíbrio do organismo, para as lacunas que a ciência não consegue explicar, os dogmas religiosos seriam a tentativa de responder a estas questões.
Mas como as religiões de matriz cristã percebem a saúde? Com base neste estudo onde foram identificados que todos os participantes pertenciam a alguma vertente do cristianismo, e para aqueles que não tinham nenhuma religião a crença no divino, há nas religiões um encontro de sentidos com referência aos mitos, ou de alguma forma um aprendizado com as histórias religiosas do passado. No caso das religiões afro-brasileiras, ocorre o ensinamento das histórias dos orixás. Desta forma, o orixá Omulu, simbolizaria o processo de saúde- doença, e a esperança de quem já se encontra desacreditado nesta situação, seguida do processo de cura.
Com relação à religião católica, percebe-se a influência de anjos e dos santos bem como da lembrança de suas histórias de vida, com sofrimento e abnegação, tendo o ápice na manifestação de seus milagres post mortem. Sendo uma religião de quantitativo majoritário no Brasil, ocorre uma proximidade entre os fiéis e estas histórias de vida, tendo em vista o grande número da população brasileira na classe social média a baixa desta religião. Assim, uma das faces da Virgem Maria, a mãe de Jesus, seria Nossa Senhora da Saúde, que concede bênçãos aos enfermos, juntamente com São Rafael Arcanjo, ao qual é atribuído todos os tipos de cura: física, psíquica e espiritual.
A religião protestante tem o seu foco muito objetivado na bíblia, a qual representa a palavra de Deus e um instrumento de defesa espiritual, além de ser um objeto de identificação e orgulho entre seus membros. Como um código social que determina o contato com o divino e o esforço daquela pessoa em se apegar a sua palavra. E, na história de Jó, ocorre uma representatividade das pessoas que sofrem em decorrência de suas saúdes debilitadas, no sentido mais amplo de saúde: bem-estar físico, mental, social e espiritual, em que mais uma vez há uma mensagem de superação deste momento.
A religião espírita tem como fundamento de seus estudos, a teoria reencarnacionista a qual associa às escolhas de vidas passadas, ao sofrimento da vida no presente. É caracterizada por seus adeptos como uma filosofia, ciência e religião, que foi elaborada por Allan Kardec, depois de pesquisar explicações para fenômenos sobrenaturais. Desta forma, consegue preencher, com seus dogmas, a explicação da causalidade de doenças ou comorbidades, até então inexplicáveis pela ciência biomédica. Além do tratamento destas, através de seus ritos como o passe espiritual, que seria a imposição de mãos do médium para auxiliar o equilíbrio dos corpos físico e espiritual.
No tocante àqueles que se definem sem religião, os sujeitos deste estudo revelaram que embora não pertencessem a nenhuma vertente havia uma crença latente. Essa crença se revelaria na figura do ser divino, como curador ou benfeitor dos homens; na medicação tendo em vista que através dela poderia ser melhorada a saúde de modo geral; e até mesmo na ciência com a descoberta da cura para a Aids.
Quando se faz referência a uma doença considerada crônica, o cuidador identifica a magnitude desta pertença e a importância de questões que possam auxiliar este enfrentamento, como a religiosidade e espiritualidade. Em um primeiro momento, pode haver uma contratransferência do que se entende por religiosidade e espiritualidade, que supostamente e na visão do cuidador, confortaria àquela pessoa que se descobre com este tipo de enfermidade.
Muitas destas situações são o reflexo da pouca proposição destes conhecimentos nas escolas de nível médio e superior de enfermagem. Em um estudo realizado em 2013 com estudantes de enfermagem, elaborado por Espinha et al., 76% dos sujeitos conseguem identificar a importância da espiritualidade como influência para a saúde, entretanto apenas 10% deles se consideravam preparados para abordagem destes aspectos com os pacientes e 56% apontavam uma formação superior insuficiente para o desenvolvimento desta competência.
Reforçando esta pesquisa, Nascimento et al. (2013) em seu estudo acerca da perspectiva do enfermeiro sobre a espiritualidade e religiosidade demonstraram que os profissionais pesquisados conseguem identificar os conceitos de espiritualidade e religiosidade, assim como sua articulação no cuidado em saúde, contudo nem todos aplicam estes conceitos na prática profissional. Partindo desta reflexão, quais qualificações devem ter os profissionais desta ciência do cuidado para estarem atentos as demandas espirituais de cada individuo? Imprescindivelmente, uma atitude técnica seria a base assim como em todo o cuidado prestado a fim de acolher os indivíduos e reconhecer sinais e sintomas destes, conhecer o paciente, a sua história, os seus valores individuais, fazer uma boa anamnese, verificar os seis sinais vitais: temperatura, frequência cardíaca, frequência respiratória, pulso, dor e estresse.
Uma qualificação espiritual e outra científica que dê suporte para o seu cuidado prestado. Desta maneira, coletar a história espiritual, identificar as necessidades espirituais, ir ao encontro do enfermo de forma acolhedora e respeitosa, saber medir as oportunidades de negociação entre questões religiosas e clínicas, providenciar alguma forma de conforto espiritual para suas demandas, visto que toda forma de religiosidade compreende os sentidos e significados da experiência humana. Através destas qualificações, fundamentando-se na literatura científica que relaciona estas questões à promoção da saúde, ao restabelecimento de quadros clínicos, a melhores chances de enfrentamento de enfermidades tidas como crônicas, além de impactar positivamente nas finanças do sistema de saúde público.
Segundo a Nanda (2015), o domínio 10 de princípios de vida correspondem aos fundamentos que norteiam a conduta, o pensamento e o comportamento humanos. Neste domínio, os diagnósticos se relacionam à dimensão espiritual e religiosa dos indivíduos, dentre eles há: disposição para a religiosidade melhorada; religiosidade prejudicada; risco para a religiosidade prejudicada; sofrimento espiritual e risco de sofrimento espiritual. Para uma melhor compreensão da realização destes diagnósticos, foi elaborado um fluxograma com vistas ao cuidado espiritual em saúde (Quadro 1, a seguir).
Quadro 1 – Fluxograma para o auxílio profissional referente a dimensão religiosa/espiritual – Rio de Janeiro, 2018
Fonte: A autora, 2018.
O que se espera de um cuidado integral dentro de um ambiente que propicia práticas eficientes confronta-se com a maior parte dos ambientes de cuidado em saúde. Estes não sendo abertos a este tipo de investigação, onde nota-se que um simples procedimento técnico é realizado através de desafios impostos pelo caráter administrativo e institucional. Na sociedade contemporânea percebe-se um embate entre as necessidades humanas da nova era e a instalação do capitalismo predatório nos meios de promoção em saúde. Pode-se identificar dentro destas necessidades a realização e busca por um sentido na vida; o bem-estar espiritual;
a consciência do todo; o altruísmo; o cuidado humanizado. Por outro lado, há a massificação do trabalho de enfermagem; o cuidado limitado por horas de trabalho; atendimento de metas através de práticas biomédicas.
Dentro deste contexto há muito pouco espaço para se executar o cuidado da dimensão religiosa/espiritual. Ainda assim, pode-se observar as brechas institucionais, realizar o cuidado com bom senso, possuir justificativas que corroborem com a prática clínica e fundamentar o cuidado também no conhecimento desta dimensão em saúde.
2 PERCURSO METODOLÓGICO
Trata-se de um estudo descritivo com abordagem qualitativa fundamentado nas abordagens processual e estrutural da Teoria das Representações Sociais na perspectiva da Psicologia Social. Conforme referido previamente, a abordagem processual destaca as formas que as representações sociais se vinculam à vida cotidiana. Já a abordagem estrutural propõe que o conteúdo da representação se organiza em um sistema central e periférico, formando um conjunto estruturado (SÁ, 1998).
Segundo Creswell (2010), abordagem qualitativa possibilita a exploração e o entendimento de um problema que seja significativo para os indivíduos ou grupos. Assim, percebe-se que a pesquisa qualitativa descreve os aspectos mais complexos do ser humano, pretendendo compreender atitudes e comportamentos. A abordagem qualitativa importa-se em compreender como agem e pensam os grupos ou indivíduos, para atender as exigências impostas pelos fenômenos estudados, podendo aplicá-la a diferentes dimensões como crenças, costumes, vida cotidiana (JODELET, 2003).
Em contrapartida, a pesquisa quantitativa é um tipo de pesquisa enraizada do positivismo lógico, evidencia o raciocínio dedutivo, técnicas estatísticas e trabalha com fenômenos mensuráveis, a fim de compreender conceitos pontuais (POLIT; BECKER;
HUNGLER, 2004, p. 201). Este tipo de pesquisa centra-se na objetividade, e destaca que a compreensão da realidade pode ser alcançada baseada na análise de dados brutos, através da utilização de instrumentos padronizados e neutros. Como as amostras geralmente são grandes e consideradas representativas da população, os resultados são tomados como se constituíssem um retrato real de toda a população alvo da pesquisa. Utiliza-se da linguagem matemática para descrever as causas dos fenômenos, relações entre variáveis e definir amostras representativas de forma a constituir um retrato real de toda a população alvo da pesquisa (FONSECA, 2002).
É descritivo pois pretende observar, descrever e documentar aspectos de uma determinada realidade (POLIT; BECK; HUNGLER, 2004). Não se preocupa em explicar e nem intervir no mundo real, além de estabelecer correlações entre variáveis e definir sua natureza. Dessa forma, o relato de caso e o estudo de incidências seriam formas deste tipo de pesquisa.