2.1 Colonialidade e Decolonialidade
2.1.3 A Perspectiva decolonial negra
Há um equívoco quando se trata de uma perspectiva decolonial negra, pois se acredita dizer respeito a algum tipo de sectarismo, partidarismo e particularismos étnico. É sabido que
“o sentido superintegrado da particularidade cultural e étnica é muito popular hoje, os negros não o monopolizam. Ele mascara a arbitrariedade de suas próprias opções políticas na linguagem moralmente carregada do absolutismo étnico.” (GILROY, 2012, p.85). No entanto, a perspectiva decolonial negra anda na contramão desses supostos absolutismos, que mais tem relações com eurocentrismo e etnocentrismo do que com as reivindicações políticas e culturais negra na diáspora.
Reconhecer a existência e a relevância de uma perspectiva decolonial negra é reconhecer a simetria e interlocução contínua entre o racismo e a colonialidade e seus efeitos.
Sendo assim, essa perspectiva implica em considerar três fatores substanciais, são eles: a vital contribuição dos autores, pensadores e teóricos da tradição do pensamento negro e do Atlântico Negro para o surgimento desse conceito; a dimensão epistêmica do racismo que tem marginalizado autores, pensadores e produção de conhecimento afro-brasileira e afrodiásporica, deixando suas obras de fora do cânone acadêmico tradicional; são os discentes e poucos docentes negros no ensino superior que têm tomado a dianteira dos debates, embates e negociações entorno da perspectiva decolonial no ensino superior.
Há vários exemplos de uma perspectiva negra decolonial brasileira ao longo da história da educação. O desafio é interpretá-lo dentro dessa nova chave teórica e nessa linha de argumentação. Porém, se atentarmos bem para o que as ações educacionais negras já desencadearam e para as mudanças que essas trouxeram para o pensamento educacional, para os currículos, para o conhecimento e para o campo das políticas públicas e educacionais, acreditamos ser possível, compreendê-las como estratégias de descolonização (GOMES, 2018, p.235).
Sustentado nesse apontamento de Gomes (2018), fica entendido que o primeiro fator que sustenta a perspectiva decolonial negra é o fato de “reconhecemos as contribuições de
inúmeros intelectuais e pesquisadores negros e negras brasileiros também como intervenções político-acadêmicas decoloniais” (BERNADINO-COSTA; GROSFOGUEL, 2016, p.20) e entender que “sem utilizar precisamente o termo colonialidade, já era possível encontrarmos a ideia que gira entorno desse conceito em toda tradição do pensamento negro” (BERNADINO- COSTA; GROSFOGUEL, 2016, p.17). Ou seja, Lélia Gonzalez, Bell Hooks, Guerreiro Ramos, Frantz Fanon, Milton Santos, Aimé Césaire, André Rebouças e W.E. B. Du Bois, em suas obras e teorias, já contribuíam para descolonização, seja na política, seja do próprio sujeito ou em quase todos os casos do sistema de ensino, currículos e das disciplinas encontrada na escola e universidade.
O segundo aspecto da perspectiva decolonial negra diz respeito a uma das dimensões da Colonialidade do Saber no campo universitário, a exclusão e marginalização dos autores acima mencionados do cânone acadêmico. A “colonialidade do saber é muito visível nas universidades, nas instituições de ensino superior, de modo geral em todo universo acadêmico e no mercado editorial latino-americano, basilarmente no mercado editorial brasileiro”
(CARVALHO, 2018, p.30). Há na realidade uma “política do esquecimento” (FIGUEIREDO;
GROSFOGUEL, 2016), “mecanismo pelo qual apagamos da memória das novas gerações a contribuição acadêmica de autores negros” (FIGUEIREDO; GROSFOGUEL, 2016, p.36).
A colonialidade do saber o racismo epistêmico tem sido uma constante nas universidades e nos conhecimentos produzidos por elas: “tudo isso se engloba dentro do que se denomina racismo epistêmico conforme autores como Grosfoguel (2007), Maldonado- Torres (2008), Nogueira (2011)” (GONÇALVES, 2019, p.36).
O racismo epistêmico possui inúmeras nuances. Por um lado, excluiu autores e povos afro-brasileiros e afrodiásporicos dos currículos, do cânone, da bibliografia básica dos cursos superiores e de outro, negam a contribuição do Atlântico Negro e da tradição do pensamento negro para democracia, cultura e perspectiva crítica moderna. Nem mesmo os intelectuais decoloniais estão eximidos desse racismo epistêmico, pois como aponta Bernadino-Costa (2018):
Embora a escravização da população negra seja tão relevante quanto a servidão da população indígena na constituição da colonialidade do poder, do ser e do conhecimento – conforme podemos observar nos vários escritos de Quijano, Mignolo e Dussel –, suas teorizações se centram mais nas experiências dos povos indígenas das Américas. É claro que podemos encontrar menções a autores negros e às experiências de resistência e reexistência nos supracitados autores decoloniais, contudo elas são menos influentes se as compararmos com o diálogo estabelecido com os chamados povos originários (BERNARDINO-COSTA, 2018, p.126).
O destaque ao racismo epistêmico também encontrado na teoria crítica decolonial não se dá por uma questão de oposição aos saberes e contribuição dos povos indígenas, mas sim
pela negação de outros elementos relevantes para construção do pensamento decolonial. Há duas coisas importantes a serem ressaltadas: a questão das relações de poder que existe no campo universitário e nas produções intelectuais da América latina que mantém esse grupo distante, e a desonestidade epistêmica, cometida por muitos autores que negam que suas teorias partem das trocas e rotas do Atlântico Negro.
São essas questões que excluem e marginaliza tanto os intelectuais afrodiásporicos e afro-brasileiros, como também os povos africanos dos currículos dos cursos de História, formação de professores e Ciências Sociais. Pouco ou nada se aprendem dos povos Bantus, Xhosa, Malês, Yourubanos, Axante e suas contribuições.
Por fim, esse segundo aspecto da perspectiva decolonial negra revela ainda que “o privilégio epistêmico e a inferioridade epistêmica são dois lados da mesma moeda”
(GROSFOGUEL, 2016, p.27). Por outras vias esse segundo aspecto se alimenta diretamente do terceiro ponto da perspectiva decolonial negra, o número reduzido de discente e docente negros.
É com essa negação e marginalização que o eixo “Educação superior, diversidade cultural e Interculturalidade” contido nos documentos da III Conferência de Córdoba (2018) contribui para romper. As metas e recomendações direcionadas aos governos e universidades latino-americanos reconhecem que o ensino superior no continente deu passos importantes durante a primeira década do século XXI com a criação de políticas para inclusão e acesso das populações indígenas e afrodiásporicas. Todavia, no caso brasileiro, especificamente em
“decorrência dos projetos de ações afirmativas em curso nas universidades públicas do país desde o início desse milênio, depara-se com a possibilidade de incorporar a experiência negra” (BERNARDINO-COSTA; GROSFOGUEL, 2016, p.20).
Essas metas e recomendações encontradas nos documentos finais da III Conferência Regional de Educação Superior de Córdoba (2018) que apontam para emergência de incluir saberes, cosmovisões e modos de produzir conhecimentos inferiorizados pela colonialidade do saber e o racismo epistêmico, se dá devido a um fenômeno que vem ocorrendo em algumas universidades da América Latina e principalmente no Brasil, o que na verdade é “uma das consequências da inserção de políticas de ação afirmativa com foco na inclusão da população negra é o desocultamento do racismo presente na sociedade brasileira, que se apresenta nas notícias que se multiplicam corriqueiramente” (GONÇALVES, 2019, p.41).
As políticas de ações afirmativas provocaram mudanças no âmago do campo universitário, ou melhor, estão provocando. “Os estudantes cotistas negros e indígenas, agora em muito maior número, demandam o estudo das suas tradições humanísticas”
(CARVALHO, 2018, p.93). Os estudantes pertencentes a esses grupos têm questionado os currículos e suas próprias formações, tem questionado os legados da colonialidade e ausência de intelectuais negros nas ementas e currículos e o reduzido número de docentes negros. Com isso tem revelado, como já foi colocado acima, a relação entre o racismo epistêmico e o privilégio acadêmico e epistêmico dos docentes brancos:
A implementação recente de um sistema de cotas para estudantes negros no ensino superior é um fenômeno que rompe radicalmente com a lógica de funcionamento do mundo acadêmico brasileiro desde a sua origem no início do século passado. Por um lado, as cotas estão provocando um reposicionamento concreto das relações raciais no nosso meio acadêmico, começando pelo universo discente da graduação, porém com potencial para estender-se à pós-graduação, ao corpo docente e aos pesquisadores. Por outro lado, a polêmica gerada entorno das cotas coloca questões teóricas e epistemológicas sobre a legitimidade e o estatuto de verdade das interpretações das relações raciais no Brasil formuladas no interior desse universo acadêmico profundamente desigual do ponto de vista racial. Proponho, então, esboçar uma reflexão sobre as relações raciais no Brasil pós-cotas que tome em consideração a condição racial dos teóricos e as experiências de interação racial que suscitaram (ou não) as teorias que produziram (CARVALHO, 2006, p. 89).
Esse ponto vincula-se diretamente com terceiro ponto que deve ser tomado em consideração da perspectiva decolonial negra. São esses novos sujeitos, estudantes negros e o pequeno quantitativo de docentes negros, que tem provocado mudanças no âmago do campo universitário, com vista a contribuir para um ensino superior democrático. O aumento desse grupo tem provocado mudanças nesse espaço, são esses agentes que tem tensionado e negociado com as verdades construídas nesse espaço, o aumento de discentes, mestres e doutores negros, ainda que menor do que o de brancos tem alterado as relações de poder no interior das universidades42, ou seja, tem reivindicado uma perspectiva decolonial que questiona as hierarquias entre posições e conhecimento inerente ao campo que possibilitam o privilégio.
O aumento da população dos estudantes e o crescimento correlato da população dos professores têm modificado profundamente as relações de força no interior do campo universitário e no interior de cada faculdade, principalmente as relações entre os “graus” e entre as disciplinas, também elas desigualmente atingidas pelas transformações das relações hierárquicas; isso a despeito de todas as ações objetivamente orquestradas (sem ser intencionalmente preparadas) pelas quais os professores tentaram assegurar a defesa do corpo (BOURDIEU, 2017, p.58).
Não se pode deixar de atentar para o relevante fato que “o campo universitário reproduz na sua estrutura o campo do poder cuja ação própria de seleção e de inculcação contribui para reproduzir a estrutura” (BOURDIEU, 2017, p.70). Com isso, o que a perspectiva negra decolonial, a partir das ações afirmativas que gerou o aumento de estudantes negros, tem provocado vai além de meros questionamentos. Como relata Oliveira
42 Esses pontos serão melhor apresentados no terceiro capítulo da dissertação, onde serão abordados algumas possíveis experiências decoloniais exitosas e os debates em torno das ações afirmativas.
(2019): “a chegada da juventude negra às universidades, proporcionada pela aplicação das políticas de ações afirmativas, acarretou uma nova configuração no ensino superior [...]
trazem consigo um repertório de discursos e narrativas” (OLIVEIRA, 2019, p.23). Narrativas essas próprias da “experiência vivida do negro” Fanon (2008).
Os docentes negros mesmo em desvantagens numéricas mediante aos docentes brancos, tem conseguido mudanças fulcrais para democracia no ensino superior. Uma dessas pode ser exemplificada nos Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros (NEAB’s) e nos Coletivos de estudantes negros espalhados em diversas universidades federais e estaduais. Tanto os NEAB’s, quanto esses coletivos foram potencializados após as políticas de inclusão e acesso para população afro-brasileira e representam uma conquista importante nas reivindicações históricas desse grupo no campo da educação. Além disso, estes têm sido instrumentos fulcrais nas disputas que ocorrem no campo universitário.
A criação dessas instâncias se deve ao reconhecimento do racismo epistêmico que não somente despreza e invisibiliza o conhecimento produzido pelos intelectuais negros e negras brasileiros e estrangeiros, como também apresenta uma leitura atenuante do racismo e das desigualdades raciais, sobretudo no Brasil. É uma forma de colocar em evidência autoras e autores negros e sua produção, possibilitando que os seus estudos e reflexões possam fazer parte dos currículos da graduação e da pós- graduação [...] (GOMES, 2018, p. 240).
Por fim, é indispensável à compreensão dessa perspectiva decolonial negra, tendo em vista que ela situa docentes e discentes “negras e negros como sujeitos e seus movimentos de emancipação como produtores de conhecimentos válidos que não somente podem tensionar o cânone, mas também o indagam e trazem outras perspectivas” (GOMES, 2018, p.235). Em outras palavras, elas revelam a colonialidade do saber e o racismo epistêmico incrustado no ensino superior brasileiro e a emergência por uma perspectiva decolonial na inclusão e acesso para democratizar esse segmento. Contudo, “como o campo social tomado no seu conjunto, o campo universitário é o lugar de uma luta das classificações” (BOURDIEU, 2017, p.40), logo, também de uma luta de saberes e da “verdade” que se produz. Para entender melhor esses conflitos e embates cabe descrever, a seguir, o histórico de funcionamento desse esse campo no Brasil.