O ano é 2011. Chego à Unidade Escolar para mais uma visita de rotina. Preciso falar com alguém da direção, mas estão todos ocupados. A secretária, atordoada, diz que a escola está com duas supervisões. Fico surpresa com a possibilidade de ter outra/o Inspetora/or na escola e procuro saber quem é. Sou informada de que a GIDE está na escola e que a direção não poderia me atender no momento. Minha primeira reação foi ficar indignada, para não dizer outra coisa... Como assim não podem parar para atender a inspeção? Depois me dei conta de que nessas horas, a inspetora que havia em mim se manifestava.
Nesse jogo de poder, em que a hierarquia é valorizada, cada um deveria ficar no seu lugar... Preciso trabalhar! Tenho formulários importantes para preencher! Nossa! Como esse jogo é difícil...
Difícil de escapar...
Diário de Campo, 2017
Não se tratava do lugar em que cada um era colocado ou a possibilidade de ter outra figura mais importante presente na escola. Também não se tratava de quem tinha mais poder, pois muitas/os inspetoras/es passaram a questionar que alguns formulários da GIDE eram até parecidos com os da Inspeção. Que relação era aquela?
É importante destacar que não compreendo o poder como um lugar.
Concordando com filósofo Michel Foucault, o poder não é uma essência ou uma posse, mas pode ser entendido como uma relação, uma prática, ou seja, como algo que se exerce. Machado (1979), nos ajuda nessa compreensão:
Rigorosamente falando, o poder não existe; existem sim práticas ou relações de poder. O que significa dizer que o poder é algo que se exerce, que se se efetua, que funciona. E que funciona como uma maquinaria, como uma máquina social que não está situada em um lugar privilegiado ou exclusivo, mas se dissemina por toda a estrutura social. Não é um objeto, uma coisa, mas uma relação [...] Não é um lugar, que se ocupa, nem um objeto, que se possui. Ele se exerce, se disputa. E não é uma relação unívoca, unilateral;
nessa disputa ou se ganha ou se perde. (grifo do autor, p. XIV e XV)
Esse destaque é importante, pois contempla um dos fios de análise desta pesquisa, pois, muitas vezes caímos na armadilha de entender o poder como algo exclusivamente do Estado, essencialmente negativo ou como uma posse, isto é como se pudesse ser detido por uns e não por outros. A grande questão passa pela compreensão das maneiras como o poder se exerce, da especificidade das relações de poder. Desse modo, o poder pode ser entendido em uma perspectiva de relações microfísicas, capilares e que se distribuem por todo o corpo social.
A especificidade das relações de poder pode ser entendida a partir da noção de governo, em que o exercício do poder consiste em “conduzir condutas”, conforme já apresentado no Capítulo 1. Nesse sentido, o exercício do poder é um conjunto de ações sobre ações possíveis, ou seja,
[...] ele opera sobre o campo de possibilidades em que se inscreve o comportamento de sujeitos ativos; ele inclina, desvia, facilita ou dificulta, amplia ou limita, torna mais ou menos provável; no limite, coage ou impede absolutamente, mas é sempre de um modo a agir sobre um ou vários sujeitos ativos, e o quanto eles agem ou são suscetíveis de agir (FOUCAULT, 2010c, p. 288)
Sob essa perspectiva, volto ao questionamento sobre os efeitos das relações que afloraram naquela visita. Impactada pelos conflitos de hierarquia, dos lugares marcados e das tarefas a serem desempenhadas, me vi individualizando a problemática em questão.
Depois de muito tempo de espera, já finalizando a minha visita, a diretora aparece para assinar o Termo de Visita. Ela pede mil desculpas, justificando que a escola estava uma loucura com a GIDE! Nesse momento eu já estava menos indignada, menos inconformada com a espera, mas estava cansada depois de um longo dia de conferências de documentos. Faço apenas as perguntas que precisam ser preenchidas para o Termo de Visita e saio da escola com a sensação de sufocamento. (Diário de Campo, 2017)
A burocracia é sufocante! Talvez por isso não tenha analisado, em um primeiro momento, as implicações daquela nova figura, ou melhor, daquela nova agente na escola. Naquele momento eu me sentia perdendo espaço, desconfiando de uma nova fiscalização que poderia ganhar contornos inesperados. Dias depois, conversando com outras inspetoras, descubro que, de fato, os questionários que estávamos preenchendo eram praticamente idênticos. Algumas estavam exaltadas, pois, achavam um absurdo serem colocadas em segundo plano, isto é, receberem menos atenção nas visitas.
Ao mesmo tempo, eu pensava: não é só isso! Tem mais coisa aí... Não que houvesse um mascaramento ou falseamento das coisas, mas a configuração que ia se formando na Secretaria produzia efeitos que, naquele momento, talvez sobreimplicada, não conseguia analisar.
Minha prática profissional não é das mais fáceis. Além do peso da função, que está ligada à fiscalização e a representar o governo do estado, as relações de trabalho também são muito dolorosas, chegando a me causar adoecimento.
Como escapar dos efeitos da sobreimplicação, que vão além da sobrecarga de trabalho ou dos níveis de estresse? Coimbra; Nascimento (2004), apontam potentes reflexões sobre o conceito de sobreimplicação, pensado na relação instituído/instituinte. Nesse sentido, a sobreimplicação pode ser pensada nos seus aspectos históricos, múltiplos e paradoxais.
A estratégia de pensar a sobreimplicação como uma construção histórica, onde todas estas questões estão presentes e possíveis de serem mudadas, afirma uma proposta que aposta também nas linhas de fuga, na possibilidade de experimentar, transformando a nós e ao mundo. (COIMBRA;
NASCIMENTO, 2004, [s. p.])
Essa perspectiva, bem como a de análise de implicação também me ajudaram a dar outras formas ao meu modo de pesquisar, (des)alinhando o tom da minha escrita, proporcionando outras formas de análises, tentando sempre escapar dos limites que foram tentando se impor durante todo o processo.
Embora as mudanças promovidas pelo Programa de Educação estivessem sendo amplamente divulgadas, o fato de me deparar com alguém que representava
essa nova versão de gestão indicava novos arranjos que afetavam diretamente o cotidiano das escolas.
Novos lugares iam sendo demarcados, produzindo novos campos de disputas que não poderiam ser analisados somente em uma perspectiva hierárquica. O questionamento mais recorrente entre as/os inspetoras/es se referia justamente a essas novas posições: “é um absurdo elas fazerem praticamente o mesmo serviço que a inspeção faz e ganharem gratificação, quando, na verdade, quem tem o poder do carimbo é a inspeção!” (DIÁRIO DE CAMPO).
As funções seriam, de fato, as mesmas? Por ser Inspetora, minhas análises partiram dessa perspectiva, tentar entender a diferença entre mim e a Dona Gide.
Entretanto essa perspectiva limitava algumas análises. Não queria marcar uma posição nessa disputa. Muito menos estabelecer argumentos que poderiam definir quem desempenhava melhor sua função ou qual seria mais necessária.
As queixas que ouvia foram produzindo efeitos em mim, mas eu precisava compreender um pouco melhor a velha novidade, considerando outros aspectos para aprofundar minhas análises.
“Dona GIDE” é um apelido que circulou nas escolas para se referir à Agente de Acompanhamento de Gestão Escolar (AAGE). Mas ela não era uma figura totalmente inédita no cotidiano das escolas. No período de 2008 a 2010 tivemos a atuação dos
“Orientadores de Gestão”, que tinham como objetivo orientar e acompanhar os gestores em relação às ações previstas nos planos de ação das unidades escolares (SEUFETELLI, 2015).
Posteriormente, por meio da Resolução n.º 4646 de 22 de novembro de 2010, foi instituído um Grupo de Trabalho Temporário e o acompanhamento das ações em prol do Planejamento Estratégico da secretaria passou a ser responsabilidade dos Integrantes do Grupo de Trabalho (IGTs), que já atuavam na perspectiva do programa Gestão Integrada da Escola, ou seja, o programa já estava sendo disseminado antes mesmo de sua implantação oficial.
A partir da Lei n.º 6.479/2013, a função passou a ser denominada “Agente de Acompanhamento de Gestão Escolar”, da qual são atribuições:
ANEXO III
ATRIBUIÇÕES DA FUNÇÃO GRATIFICADA DE AGENTE DE ACOMPANHAMENTO DA GESTÃO ESCOLAR
• Criar um clima de cooperação entre as pessoas levando as escolas a interagir na busca de metas e resultados.
• Realizar treinamento dos envolvidos para que possam executar as ações propostas nos planos de ação pedagógico e ambiental.
• Dar suporte à metodologia, realizando atividades de apoio, sistematizando as atividades.
• Orientar o Gestor e a Comunidade escolar na identificação dos problemas da escola, levando-os à definição de metas e elaboração dos planos de ação para melhoria dos resultados.
• Verificar a execução e eficácia das ações propostas nos planos de ação, com vistas ao alcance das metas estabelecidas.
• Orientar a definição de ações corretivas para os desvios identificados, bem como orientar o registro/disseminação das práticas bem sucedidas. (RIO DE JANEIRO, 2013a, p. 05)
Diferente do cargo de Professor Inspetor Escolar, cujo ingresso é mediante concurso público, a função do AAGE é considerada estratégica, portanto, gratificada e desempenhada por servidores selecionados em processo seletivo interno. Nas atribuições descritas, é possível identificar características voltadas para o monitoramento do Programa Gestão Integrada da Escola.
Seguindo uma lógica de meritocracia, as/os servidoras/es nomeadas/os para a função enfrentaram um longo processo seletivo, semelhante aos processos de empresas privadas, conforme descrito pela AAGE entrevistada:
Foi maçante, foram vários, não foi só um dia, foram vários dias, dia inteiro de participação com dinâmicas com todo um processo, parecia um processo de empresa, de empresa mesmo. Participamos com psicólogos, terapia, tipo terapia, porque quando nós passávamos pelas etapas, nós recebíamos a avaliação e diziam se nós iríamos participar da outra e ficávamos todos na expectativa de participar da próxima etapa. Então assim, foi muito legal. Nós participamos em lugares diferentes e aí tínhamos que falar da nossa prática enquanto profissional na área, que eu era inspetora, eu sou inspetora, o que que isso serviria pra minha vida profissional, o quê da minha formação ia servir para o AAGE, até então a gente não sabia, eu não sabia qual seria o trabalho do AAGE, não sabia né. (AAGE I)
O processo seletivo descrito pela AAGE como maçante, porém, legal, não era apenas uma cópia ou reprodução das seleções que acontecem na rede privada. É também uma forma de disseminação de uma forma-empresa (GADELHA, 2018) que exige dos sujeitos um modo de vida nesses moldes.
Isso significa que o processo, além de ser uma forma de peneirar os que seriam considerados mais competentes, era também uma forma de prever até que ponto aqueles servidores estariam dispostos a “vestir a camisa” do time (expressão tão utilizada em ambientes corporativos).
A figura da/o AAGE deveria ser um modelo de inspiração para as escolas, pois, a cada visita para orientação e monitoramento, essas/es servidoras/es divulgavam um modo de trabalho considerado eficiente.
A partir da implementação do programa “Planejamento Estratégico”, envolvendo todas as escolas estaduais situadas nos municípios do Estado
do Rio de Janeiro, a SEEDUC-RJ criou grupos de trabalho para dar suporte aos gestores educacionais e sua equipe pedagógica. [...] desde o início do programa em 2011, a Secretaria passou a disseminar os propósitos do seu planejamento para todas as escolas da rede, através da atuação dos Integrantes do Grupo de Trabalho (IGT). Dessa forma, pode-se inferir a existência de um modelo padrão no planejamento das escolas, objetivando o alcance de metas propostas pelo programa. Diante das metas propostas para cada unidade escolar, os servidores ficaram responsáveis por levar e orientar cada etapa do programa da GIDE. (SEUFETELLI, 2015, p. 41 e 42)
Mais do que divulgar, a/o AAGE cumpre um papel de vigiar e corrigir virtualidades. Talvez por isso eu tenha ficado tão incomodada durante a visita em que fui “deixada de lado”, pois, de certo modo, quem desempenhava esse papel nas escolas era eu.
Entretanto, havia uma diferença crucial e, pelo fato de ainda não conhecer alguns detalhes do programa que estava sendo inaugurado, os conflitos me levaram a um incômodo quando me deparei com a Dona Gide na escola. A diferença crucial e básica que distingue a/o AAGE e a/o Inspetora/or tem a ver menos com a forma como a função é desempenhada do que com o objetivo da ação.
Enquanto a ação da/o Inspetora/or se dá na forma de prevenção no que diz respeito aos aspectos da legalidade do processo educativo (PEREIRA, 2014), a ação da Dona Gide é garantir que o modelo de gestão integrada seja desenvolvido nas escolas. Ou seja, a função da/o AAGE é garantir que a GIDE funcione.