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Afinal de contas, o que é a GIDE?

do Rio de Janeiro, a SEEDUC-RJ criou grupos de trabalho para dar suporte aos gestores educacionais e sua equipe pedagógica. [...] desde o início do programa em 2011, a Secretaria passou a disseminar os propósitos do seu planejamento para todas as escolas da rede, através da atuação dos Integrantes do Grupo de Trabalho (IGT). Dessa forma, pode-se inferir a existência de um modelo padrão no planejamento das escolas, objetivando o alcance de metas propostas pelo programa. Diante das metas propostas para cada unidade escolar, os servidores ficaram responsáveis por levar e orientar cada etapa do programa da GIDE. (SEUFETELLI, 2015, p. 41 e 42)

Mais do que divulgar, a/o AAGE cumpre um papel de vigiar e corrigir virtualidades. Talvez por isso eu tenha ficado tão incomodada durante a visita em que fui “deixada de lado”, pois, de certo modo, quem desempenhava esse papel nas escolas era eu.

Entretanto, havia uma diferença crucial e, pelo fato de ainda não conhecer alguns detalhes do programa que estava sendo inaugurado, os conflitos me levaram a um incômodo quando me deparei com a Dona Gide na escola. A diferença crucial e básica que distingue a/o AAGE e a/o Inspetora/or tem a ver menos com a forma como a função é desempenhada do que com o objetivo da ação.

Enquanto a ação da/o Inspetora/or se dá na forma de prevenção no que diz respeito aos aspectos da legalidade do processo educativo (PEREIRA, 2014), a ação da Dona Gide é garantir que o modelo de gestão integrada seja desenvolvido nas escolas. Ou seja, a função da/o AAGE é garantir que a GIDE funcione.

Inspeção Escolar. Só se falava sobre o novo programa nas escolas, mas nós, inspetores, ficávamos nas especulações.

Em 2012 participei do encontro “Formação GIDE para Inspeção Escolar”, uma capacitação para as/os Inspetoras/es conhecerem a proposta da GIDE. Entretanto a reunião se resumiu em uma longa apresentação de slides que não faziam muito sentido. Assim, resolvi procurar por conta própria algumas informações no site da Secretaria. Por sorte, se assim posso dizer, salvei todas as informações encontradas, já que no ano de 2018 todas as informações foram tiradas do site. Aliás, em 2019 o próprio site da Secretaria ficou por alguns meses indisponível.

Já ingressada no doutorado, continuei procurando materiais que me dessem um suporte teórico para analisar minhas questões. Foi quando encontrei as dissertações do Programa de Pós-graduação Profissional em Gestão e Avaliação Pública da Universidade Federal de Juiz de Fora.

Ao analisar essas dissertações, encontrei duas referências básicas que explicam todo o sistema da GIDE. São dois livros, que podem ser considerados manuais, pois detalham passo a passo como desenvolver o programa. Os livros também disponibilizam todos os modelos de formulários propostos para a implantação do programa.

Preciso destacar duas surpresas que tive ao analisar o material: a primeira foi o preço, nada acessível, ou seja, um material que não seria facilmente comprado por professores; a segunda foi o fato de serem exaustivos. Me senti como se estivesse lendo um daqueles manuais de móveis que parecem impossíveis de montar!

Eu realmente cogitava a possibilidade de encontrar referenciais teóricos que embasassem as propostas, mas não foi o que encontrei. Talvez tenha sido ingenuidade, ou, talvez tenha sido a ansiedade de aprofundar meu referencial teórico para a pesquisa.

Outro fato interessante é que tanto a linguagem dos livros como a linguagem das dissertações são bem parecidas, ou seja, os termos técnicos são priorizados.

Contudo esse caminho foi importante, pois, os materiais se complementaram, me ajudando a compreender um pouco melhor a produção dos discursos gerencialistas que vem se destacando na área educacional.

Abro o primeiro livro (Gestão Integrada da Escola), enorme, não somente pela quantidade de páginas, mas pelo formato, na altura e largura de uma folha A4 e penso: nossa, quanto tempo levarei para analisar isso aqui! Folheio diretamente para a primeira seção e me choco com a frase de Steve Jobs destacada em uma única página: “Tudo tem de ser claro, fácil de entender.

Menos é mais. Simplicidade equivale a inteligência [sic], e complexidade, a confusão mental”. Continuando a folhear o livro, percebo que não se tratava de um documento tão simples, ao contrário, parecia extremamente complexo (DIÁRIO DE CAMPO, 2018)

Talvez algum especialista em administração de empresas não tivesse a mesma percepção que tive, já que prevalece uma linguagem bem específica do mundo empresarial. Embora essas questões não sejam novidades na área educacional, ainda me choca ler uma epígrafe de Steve Jobs22 em um livro cujo público-alvo é de educadores.

O segundo livro, (Índice de Formação de Cidadania e Responsabilidade Social para Aplicação na Escola), menor que o primeiro, não tem uma epígrafe com a frase de Steve Jobs ou de outro grande empresário, mas mantém as características de um manual. O livro é acompanhado de um CD que contém um software com todo o material necessário para as escolas trabalharem de acordo com os índices sugeridos.

Esses materiais propõem soluções, objetivando tornar o trabalho das/os gestoras/es mais simples. Se pensarmos em termo de simplicidade, basta comprar o pacote com os ingredientes de sucesso. Mas a complexidade que envolve as relações estabelecidas por esse programa está ligada à produção de discursos sobre a qualidade da educação sob a perspectiva de aspectos e estratégias gerenciais.

Foco em resultados, eis o que a escola precisa! Esta é uma ação necessária, inadiável e prioritária para a área educacional do Brasil. Com os conceitos sobre a missão da escola alinhados, poderemos, então, todos, discutir contramedidas e soluções para a nossa educação. (GODOY, 2009a, p. 11)

[...] posso afirmar que as escolas estão diante de um sistema gerencial avançado, que fala a língua da escola, testado e com um potencial espetacular para melhoria de resultados, no cumprimento efetivo de sua missão, prevista na LDB, de formação de cidadania. Adote-o e faça parte do grupo de escolas que está fazendo a diferença (GODOY, 2009b, p. 13)

Convites sedutores. Propostas que satisfazem às expectativas de uma sociedade que valoriza cada vez mais a competitividade. Escolas que se veem submetidas às regras de rankings que empurram as escolas para uma corrida desenfreada para o tão almejado sucesso escolar.

A GIDE pode ser definida como um sistema de gestão, desenvolvido por consultores, integrando “aspectos estratégicos, políticos e gerenciais inerentes à área

22 Steve Jobs (1955-2011) “foi um empresário norte-americano, fundou a Apple. Criou o "Macintosh", o "iPod", o "iPhone" e o "iPad". A Apple revolucionou a indústria de computadores pessoais, os filmes de animação, o mundo da música e dos telefones celulares” (FRAZÃO, 2018).

educacional, com foco em resultados da atividade fim, processo ensino- aprendizagem” (GODOY; MURICI, 2009, p. 15).

Segundo Gomes (2015), “esse sistema gerencial visa ao desenvolvimento de uma cultura de planejamento, execução, avaliação e correção da política educacional do estado e à gestão eficaz das escolas, com foco nos resultados” (p. 56).

Essas definições compreendem um regime de verdade sobre os padrões de qualidade e de gestão que se encaixam perfeitamente nos moldes neoliberais. São conceitos que atendem a demandas específicas, como a Teoria do Capital Humano e o empreendedorismo.

São concepções moduladas por relações de forças que naturalizam modos de existência. Nesse sentido, é importante destacar que essas concepções foram produzidas em um contexto de transformações da gestão na área educacional, principalmente a partir da década de 90. Conforme aponta Klaus (2016):

As discussões sobre a Teoria do Capital Humano e o empreendedorismo como valores sociais ganham centralidade principalmente a partir dos anos 1990 no cenário educacional brasileiro e constituem a gestão educacional a partir da lógica da gestão empresarial. A descentralização, a reconfiguração do papel do Estado, a responsabilização dos sujeitos e das instituições pelos seus sucessos e fracassos, o gerencialismo e o empresariamento da educação emergem como “soluções” para os problemas da sociedade contemporânea. (2016, p. 10)

Sob esse viés, a implantação da GIDE em 2011 foi anunciada como peça fundamental para solucionar os problemas da rede estadual do Rio de Janeiro. Um dos recursos utilizados para divulgação do programa foi a disponibilização de cartilhas informativas. Em uma delas, o programa é apresentado como um sistema que se inicia

“com o desenvolvimento do Marco Referencial (o que temos, o que queremos e as diretrizes), chegando à análise de resultados, à correção de rumos e/ou registro das boas práticas” (SECRETARIA DE ESTADO DE EDUCAÇÃO, 2014).

Sendo assim, é um programa que opera na ótica da orientação, da prevenção e da correção, com base no Método Gerencial de Solução de Problemas, comumente representado pela sigla “PDCA”.

A sigla, em inglês, serve para indicar as quatro etapas que compões o método:

P = Plan (planejar); D = Do (executar o plano); C = Check (verificar os resultados); A

= Act (agir corretivamente ou padronizar as boas práticas). Esse método gerencial é muito utilizado em empresas e foi desenvolvido em meio às mudanças acerca da

concepção de qualidade na produção de bens e serviços nas décadas de 30 e 40 (LONGO, 1996).

A utilização desses métodos na área educacional é a operacionalização de estratégias que enquadram “o processo escolar e educacional numa estrutura de pensamento e concepção que impede que se pense a educação de outra forma”

(SILVA, 2010, p. 21). Desse modo, não se trata simplesmente de copiar métodos utilizados em empresas, mas de naturalizar uma lógica.

O programa de gestão adotado pela Secretaria descreve como parte de seu objetivo, apoiar as escolas a cumprirem sua missão de formar cidadãos, em consonância com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n.º 9394/96. Para tanto, usa como base o Índice de Formação da Cidadania e Responsabilidade para aplicação na Escola como indicador das ações que serão executadas pelo programa.

A partir do entendimento de que o desenvolvimento integral do aluno precisa ser mensurado, o Índice de Formação de Cidadania e Responsabilidade Social é utilizado para medir os resultados da escola. Para garantir que todos os aspectos da escola sejam contabilizados, o método divide a escola em dimensões. De acordo com GODOY; CHAVES (2009), essas dimensões formam a Árvore do Índice de Formação de Cidadania e Responsabilidade Social.

A Dimensão Finalística refere-se aos resultados do processo ensino- aprendizagem, portanto, uma dimensão de resultados, que corresponde a 45%

(quarenta e cinco) porcento do cálculo do índice. Esses resultados consideram a avaliação interna (aprovação sem recuperação final, permanência na escola, alunas/os alfabetizadas/os e adequação idade/série) e externa (desempenho na Prova Brasil, aprovação em cursos de nível superior, inserção de alunas/os no mercado de trabalho, aprovação em cursos de nível técnico e desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio).

A Dimensão Processual se refere aos meios a serem trabalhados para que os resultados sejam alcançados. Essa dimensão e se divide em outras duas: a dimensão das condições ambientais, que corresponde a 25% (vinte e cinco) porcento do cálculo e a dimensão das condições de ensino-aprendizagem, isto é, os meios que influenciam os resultados, correspondendo a 30% (trinta por cento) do cálculo.

Esse é um resumo do método que sustenta a GIDE, balizado por dimensões que estruturam e definem o cálculo do Índice de Formação de Cidadania e Responsabilidade Social.

Com isso, várias estratégias de caráter burocrático e de controle minucioso são indicadas sob a argumentação de serem essenciais para a melhoria da qualidade da educação. Mas quais são os efeitos dessa prática?