CONFERENCISTAS
6. A segunda antinomia da democracia
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a uma vontade de globalização da democracia, mas que é ao mesmo tempo alienada por uma deslocação global do exercício efectivo do poder político por instituições e actores económico-financeiros globais que se furtam ao escrutínio democrático.
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vista normativo, não é precisamente esse o coração da concepção de justiça de um Nozick?5
Obviamente, do outro lado, uma espécie de rancor da igualdade material, levado ao extremo, combate, com discricionariedade, qualquer diferencia- ção que pudesse vir a ter lugar, comprimindo assim até à anulação qualquer salvaguarda da isonomia e da igualdade formal.
A segunda antinomia da democracia pode enunciar-se assim:
A democracia deve garantir uma justa igualdade formal (tese) ou, diversa- mente, deve garantir uma justa igualdade material (antítese)
Levada às últimas consequências, a tese pode conduzir às maiores desigual- dades e, contudo, justificar-se com o argumento de que seria uma falta para com a igualdade inicial proporcionar-se meios de justiça social redistribu- tivos, seja por via fiscal, seja por via de políticas de Estado social. Este é o argumento central dos libertários de direita e dos minarquistas, para quem os impostos são por princípio uma cobrança injusta. Por seu turno, a antíte- se, se levada às últimas consequências pode conduzir ao totalitarismo que tudo controla na vidas das pessoas, desde os méritos, as vocações, a sorte.
Tese e antítese correspondem, na verdade, na sua forma extrema, a duas formas de igualismo. Por vezes é com palavras quase iguais que conse- guimos exprimir as maiores oposições. É o caso do “igualitarismo” e do
“igualismo”. A primeira não é nova e exprime uma condição imprescindível para a generalização da dignidade numa sociedade. Promove a igualdade de direitos (isonomia), mas também de oportunidades efectivas, pois a lei ser igual para todos não chega para assegurar que cada um poderá realizar o seu projecto de vida e singularizar-se tanto quanto qualquer outro. Persegue a igualdade como um meio, para que se garanta a cada novo cidadão, e à sua
5. A concepção de justiça de Nozick assenta em três princípios:
1. Princípio da justiça na transferência: o que quer que seja justamente adquirido pode ser livremente transferido.
2. Princípio da aquisição inicial justa: descrição de como as pessoas chegam a possuir as coisas que podem transferir de acordo com o princípio anterior.
3. Princípio da rectificação das injustiças: como repor a justiça quando se verifica a posse de bens injustamente adquiridos ou transferidos.
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nascença, um direito igual, mesmo que aproximadamente igual, à liberdade de ser como bem entende.
No lugar da igualdade como condição de possibilidade que é promovida pelo igualitarismo, o O igualismo formal de feição neoliberal absolutiza a igualda- de formal, tornada então uma restrição que inibe por todos os meios ao seu alcance quaisquer formas de discriminação positiva (por exemplo, políticas de apoio ao desenvolvimento do interior), de acção afirmativa (por exem- plo, políticas de quotas, para corrigir desigualdade de género no acesso ao exercício de cargos públicos, ou exclusões de grupos étnicos), de políticas de redistribuição e de pré-distribuição (que introduzam uma contenção na desigualdade de rendimento).
O igualismo formal comprime e anula não só o igualitarismo, mas o propósi- to que anima aquele como o próprio princípio da igualdade formal. Onde as políticas igualitárias, junto com o princípio da igualdade formal, procuram alargar horizontes de possibilidades, o igualismo formal tenta comprimir e mesmo eliminar as diferenças na sociedade. Nisto não se distinguindo do igualismo material que caracterizou o socialismo real vivido historicamen- te no Leste europeu e que, levado ao extremo, não só comprime e anula o princípio da igualdade formal, depressa tomado por um discricionarismo totalitário, como o próprio propósito da igualdade material de alargar o ho- rizonte de possibilidades.
Em ambos os desequilíbrios, o uso da palavra igualdade serviu mais à con- dição restritiva do que à condição de possibilidade. A igualdade do igualismo não só não é um transcendental capacitante, mas uma transcendência que nunca chega a ser alcançada porque, no igualismo material, novas formas de desigualdade material surgem no “aparelho”, no “partido” e na corrup- ção. E porque no igualismo formal, novas formas de desigualdade formal surgem na legislação feita à medida de interesses económicos e, em todo o caso, apertadamente vigiada num quadro de cumplicidade, quando não promiscuidade, nas relações entre poder político e poder financeiro.
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Igualitarismo e isonomia não poderiam estar mais nos antípodas dos igua- lismos. Facilmente se concebe ser-se tão empenhado opositor do igualismo como defensor do igualitarismo ou da isonomia. Porque o que estes fazem juntos pela maior liberdade para todos aquele faz pela opressão.
O programa do igualismo mais recente, ainda que leve o epíteto de neo- liberal e se estime como nas antípodas dos socialismos totalitários, é tão profundamente iliberal como foram estes. Iliberal na sua obsessão de levar uma mesma ordem económica, mas também de consumo, de gostos e pre- ferências a todas as partes habitadas do planeta. E ainda na austeritária apologia de uma igual precariedade para todos, sem zonas de conforto, sem direitos adquiridos, todos confinados à sua igual e exposta individualida- de, que não é mais do que uma atomização vulnerabilizadora. Todos assim iguais, não importa se vulneráveis ou invulneráveis, se pobres ou ricos — isso há-de ser culpa sua, das suas escolhas, ou das dos seus pais, que lhes deixaram, ou não, herança.
Esta iliberalidade intrusiva do igualismo que passou o milénio é uma ten- dência global que contamina muitos registos, revelando familiaridades de que não se suspeitaria à partida com movimentos e agendas muito diferen- tes. Um exemplo é o do crescente anti-islamismo, que também se serve do igualismo para proscrever, ao igualar as expressões de diferença a expres- sões de radicalização.
O historiador Tony Judt, a pensar no século XX, explicava que “O pecado intelectual do século foi o de fazermos juízos de valor sobre o destino dos outros, em nome do futuro desses outros como nós o vemos, um futuro no qual não temos de investir, mas sobre o qual reivindicamos conhecimento perfeito e exclusivo.”6
O século mudou mas o pecado intelectual parece, agora já bem dentro do século XXI, continuar a ser o mesmo.
6. JUDT & SNYDER, 2013.
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