CONFERENCISTAS
3. Apontamentos sobre o conceito de objeto em Freud e Lacan
Acompanharemos algumas considerações de Garcia-Roza (1995). A pri- meira consideração é a de que na língua alemã, existem dois termos que designam “objeto”. A primeira de suas definições é Gegenstand, o objeto do mundo, o que está aí, o que se oferece à percepção. A segunda definição é a de Objekt, que designa uma representação complexa, síntese de sensações elementares provenientes das coisas do mundo, numa ressonância kantiana – o objeto é uma síntese de representações, uma ordenação da sensibilidade e do entendimento, por suas categorias. Lacan também associa ao Objekt o termo die Sache como “a coisa, produto da indústria e da ação humana enquanto governada pela linguagem” (Lacan, 2008b, p. 60) que, como tal, também pode ser ligada ao Gegenstand. Desenvolveremos esta segunda de- finição antes de ir para a terceira.
Para tanto, faremos uma nova referência ao trabalho de Garcia-Roza (1995), quando se refere ao trabalho de Freud sobre as afasias, de 1891, onde é desenvolvida a questão da articulação do conjunto de imagens sensoriais com a palavra e, mais especificamente, com a representação palavra (Wortvorstellung). É a palavra que confere às imagens sensoriais dispersas uma unidade e um significado, é ela que transforma as associações de obje- to em representações de objeto (Sacheworstellung). Neste mesmo trabalho, Freud elaborou a ideia de um aparelho de linguagem, no qual a representa- ção deixa de ser concebida como contida nas células nervosas e passa a ser pensada como dependente das associações entre representações objeto e representações palavra.
O objeto existe apenas após a “representação objeto”, não é uma coisa do mundo ofertada à percepção, mas uma síntese de representações. Mais do
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que isso, lembra-nos Garcia-Roza (1995), o objeto de investimento pulsional é uma representação e não um objeto externo no sentido de uma coisa-mundo, por mais que possa estar ligada a este. Sendo assim, a representação objeto se coloca como um conjunto de “associações objeto”, um conjunto de ima- gens visuais, acústicas e táteis. O termo representação objeto não designa o referente ou coisa, mas o seu significado.
O aparato psíquico é entendido como um aparato de “captura e transforma- ção do disperso pulsional” (Garcia-Roza, 1995, p. 251). Uma vez capturado, o quantum pulsional é transformado através da submissão de seus elemen- tos à trama da linguagem. Mais do que estruturante, a linguagem torna a pulsão visível, já que, enquanto tal, uma pulsão jamais pode ser objeto do consciente e do inconsciente, ela não pode ser representada senão pela sua representação.
A pulsão é observada a partir da atuação do aparelho de linguagem, que permite sua presentificação no psiquismo, ao ganhar ordenação temporal, já que, enquanto pura intensidade, em seu início a pulsão é atemporal, como o inconsciente, onde não existe qualquer referência temporal, o que se ex- trai do artigo de Freud, também de 1915, chamado “O inconsciente” (2006b).
Recapitulando o destino da pulsão, temos uma intensidade e um investi- mento invisíveis que se transformam num representante pulsional. Este representante pulsional, por sua vez se divide nas imagens, traços e inves- timentos linguísticos acoplados a afetos, como qualidade e intensidade de descarga.
Assim chegamos à terceira forma de definição do objeto, que é das Ding (Coisa), que se caracteriza como coisa autônoma, ao mesmo tempo não ma- terializada no objeto do mundo externo (Gegenstand) nem na representação objeto e representação palavra que culminam no Objekt. O que caracte- riza o das Ding é o vazio, aquilo que no objeto é um nada: “no nível das Vorstellungen [representações] a Coisa é nada, é ausente, alheia [no sentido de Frende – estranha/estranhamento]” (Lacan, 2008b, p. 80).
O fetichismo da mercadoria em Marx: uma análise a partir dos conceitos de pulsão e de objeto em Freud e Lacan 110
Ding é o que Lacan (2008a), no décimo primeiro Seminário denomina de objeto a. Sua característica principal é a ausência, o furo, permanecendo assim. O objeto a não é o objeto do desejo, mas o objeto causa do desejo, sua função é ser produtor da falta, sendo contornado pela pulsão, jamais atingido. Das Ding implica em “alguma coisa que quer, a pressão, a urgên- cia da vida – Not des Lebens” (Lacan, 2008b, p. 60). Por sua vez, no sétimo Seminário (2008b, p. 79), Lacan assinala que o furo do objeto a demarca as representações palavra e representações objeto que são organizadas na medida do significante enquanto tal, dependendo de suas leis (gravitando, permutando e modulando-se segundo elas).
Lacan se inspirou no trabalho do linguista Roman Jakobson, que relaciona os polos metafórico e metonímico (descritos pela linguística) respectivamen- te com a condensação e o deslocamento, (os mecanismos básicos do sonho segundo a concepção freudiana), fazendo da metáfora e da metonímia não apenas mecanismos do inconsciente, mas o de sua própria formação. Nestes mecanismos, o que ocorre é um efeito de alteração do sentido, uma subs- tituição de significantes, por similaridade (metáfora) ou por contiguidade (metonímia). Trata-se da errância em torno das representações palavra e re- presentações objeto (Freud) ou dos significantes (Lacan), que parte de uma circulação que orbita o objeto a, ou seja, orbita o vazio. Assim, “o Ding é o elemento que é, originalmente, isolado pelo sujeito em sua experiência do Nebenmensch [ao lado ou perto dele] como sendo, por sua natureza, estra- nho, Frende.” (Lacan, 2008b, p. 67).
Trabalhamos o conceito de objeto e como este se liga à pulsão. No entanto, entre a pulsão e o objeto se inserem o desejo e a fantasia, já como aparições de linguagem. Mais ainda, como Lacan ainda coloca no Seminário 7, a es- trutura significante interpõe-se entre a percepção e a consciência, onde o inconsciente intervém (2008b, p. 66). Precisamos dizer algo sobre a gênese desta dinâmica, retornando à Freud.
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4. A experiência primária de satisfação e a alucinação desiderativa no pro-