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Iluminação do problema com o retorno ao conceito de objeto em suas dimensões

CONFERENCISTAS

6. Iluminação do problema com o retorno ao conceito de objeto em suas dimensões

O que isso tem a ver com o problema? Tem relação com o conceito de objeto, para religar suas três diferentes acepções. Precisamos fazer essa síntese.

Comecemos com o objeto na acepção de vazio – das Ding: a experiência pri- mária de satisfação cria esse mecanismo de busca de repetição da imagem lembrança do primeiro objeto, estando no campo do Outro, uma imagem deste primeiro outro ou o “primeiro exterior”, estranho ao sujeito. Essa bus- ca de repetição de uma imagem lembrança (ou objeto a), ganhando o traço qualitativo de uma psique que funciona como um aparelho linguístico, atua no patamar de uma tentativa de encontrar representantes palavra aptos a se colocar no lugar da imagem lembrança (Freud) ou de encontrar signos objeto que sejam adequados para ocupar o lugar do objeto a, (objeto vazio) [Lacan]. Esse é o mecanismo de surgimento dos desejos, ligando a pulsão e a satisfação aos seus objetos, acepção de Objekt, que lança pontas para cima, na região consciente.

O fetichismo da mercadoria em Marx: uma análise a partir dos conceitos de pulsão e de objeto em Freud e Lacan 114

A sensação de reencontro e reconhecimento (para lembrar Rabinovich) se fazem na captura de conteúdos da rede de significantes no patamar do obje- to, seja como representação palavra e representação objeto (Freud) ou como significante (Lacan). Portanto, o objeto em sua acepção de vazio cria uma situação de aparente reencontro e reconhecimento da imagem lembrança de satisfação primeira, em representações que se lhe substituem. Aqui, realidade e ficção se superpõem tecendo o cenário psíquico (Rabinovich).

Voltando ao ponto, o objeto vazio cria a presença das sínteses responsáveis pelo objeto na sua acepção kantiana, como Objekt, síntese de representa- ções determinada pelos mecanismos da linguagem. Em Lacan, explorando a natureza da linguagem, essa busca de repetição se ativa pelo mecanismo linguístico de sobreposição (metáfora) ou de contiguidade (metonímia), que gera a trama significante, que repete a circularidade da bordadura do das Ding, instaurando as gravitações das representações inconscientes.

Resta ainda tentar realizar a ligação com os objetos do mundo. Aqui existe um hiato irracional (para falar como os neokantianos) análogo ao “da coisa em si”, pois (seja em Freud seja em Lacan), não se opera uma ligação dire- ta entre as representações e os objetos do mundo externo (naquele sentido de Gegenstand, o objeto do mundo, o que está aí, o que se oferece à per- cepção), havendo, entre ambos, um hiato, um novo espaço vazio. Objetos representação se ligam a outras representações; representações palavras se ligam a outras representações. Entre Freud e Lacan está Saussure e sua colocação de que a língua não é constituída fundamentalmente por nomes dados às coisas. O signo é uma união de significante e significado, que esta- belece uma ligação indireta com o objeto coisa do mundo externo, mediada pela representação, como num corte que se abre para “um espaço próprio”, expressão empregada por Foucault (2007) para pensar o corte da represen- tação. As representações contêm índices da exterioridade do objeto coisa, mas o seu caráter significante não remete diretamente a esta exterioridade e sim a uma relação entre uma representação e outra representação.

No entanto, sustentamos: esta representação (mesmo que inconsciente) con- diciona a captura do aspecto significativo dos próprios objetos do mundo, do

Lucas Cid Gigante e Priscila Cristina da Silva Cid Gigante 115

fato de que estes são forjados também segundo uma dimensão significante, são portadores de signos e de imagens, como tal são fabricados e como tal são objetos que se oferecem à percepção.

Vejamos sob outro ângulo: os signos e imagens que revestem os objetos do mundo (Gegenstand) e que configuram por assim dizer a sua estética, não são determinantes em relação ao mecanismo de sua apropriação pelo sujei- to, porque não determinam como os objetos de representação (Objekt) são forjados, porque estes, por sua vez, emergem dos objetos do desejo. Ora, os objetos vinculados ao desejo estão inscritos na história do sujeito, de como a pulsão se transformou em seus representantes.

Neste particular, ninguém é dono da linguagem, pois, em primeiro lugar, a rede de signos ou representações que orienta a apropriação que o sujeito faz dos objetos do mundo não depende somente dele, a mesma linguagem é par- te do revestimento destes artefatos, estando em sua aparência; além disso, o sujeito, para recuperar a raiz latina do termo, é assujeitado e, nesse caso, assujeitado em relação a não controlar o mecanismo que liga as pulsões aos desejos3. Em segundo lugar, a aparência do objeto do mundo, fabricada se- gundo uma estética, não determina sua apropriação, porque não controla a síntese de representações que o sujeito elabora (inconscientes) na dimensão do Objekt.

Este comando da linguagem se divide entre a orientação da estética do objeto do mundo (os signos e imagens de que é revestido) e a mobilização signifi- cativa da linguagem pelo aparato desejante do sujeito, o qual ele tampouco controla, pois é um processo de captura oriundo do inconsciente, como ca- deia de significantes nas hiâncias de seus investimentos.

3. Vemos isso em Haug (1999), porém cometendo o equívoco de deixar o sujeito sempre na completa heteronomia, lançando toda a atividade e comando de linguagem à estética da mercadoria. Gera com isso uma imagem de manipulação oriunda da publicidade, que captura as insatisfações do sujeito e as lança na mercadoria, como se esta prometesse sua satisfação, sempre trazendo a insatisfação ao fim. A insistência na própria ideia de insatisfação é um equívoco, como o faz Baudrillard (1995). Muito mais interessante para considerar o problema da manipulação seria considera-la como fornecedora de materializações mercantis como espaços de satisfação parcial da pulsão, sempre reativados, de forma incessante, no entanto.

O fetichismo da mercadoria em Marx: uma análise a partir dos conceitos de pulsão e de objeto em Freud e Lacan 116

Se ninguém controla a linguagem, podemos recapitular a gênese do pro- cesso, o seu disparo. Ele se encontra nos deslizamentos significativos que forjam um espaço autônomo, situado entre o inconsciente e o consciente do sujeito, um espaço preenchido pelas vicissitudes e destinos da pulsão. Os objetos do mundo são empréstimos, com o fim de criar formas de descarga materializáveis. Talvez por isso, a metáfora (que sobrepõe) e a metonímia (que desliza de um significante a outro por contiguidade) são extraídas por Lacan da lista bem maior de regras da linguística para expressar o fun- cionamento do desejo. Isto porque são mais adequados ao mecanismo de captura significativa da pulsão por seus representantes psíquicos na orde- nação afetiva e significativa do Objekt. Quando o Objekt se liga aos objetos do mundo, o faz pelo inconsciente, que captura a tessitura sígnica da aparência desses objetos e a submete aos seus critérios, contidos na bordadura de sua teia significante. Uma forma de incorporação da mercadoria pelo sujeito se acende, como valor de uso para ele, como significado para ele, o que é ab- solutamente único, traçado em sua história (em sua constituição enquanto sujeito no campo do desejo). A mercadoria pode ser considerada, ao mesmo tempo, como Gegenstand, como Objekt e também como substituto de Ding. É o momento de retornar ao objeto marxiano.