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A Tag como símbolo identitário

No documento Universidade do Estado do Rio De Janeiro (páginas 66-69)

A partir do texto “Sobre a alegoria etnográfica”, de James Clifford, estabeleci um diálogo com o texto “A ilusão biográfica”, de Pierre Bourdieu. Ao mesmo tempo que busco a criação de uma figura alegórica para representar a condição da mulher negra na sociedade, esta figura torna-se múltipla, uma vez que pode referenciar diferentes momentos da vida de várias mulheres, uma biografia multifacetada que, no universo do grafite, recebe a ressignificação do nome através da Tag – assinatura ou apelido escolhido para reconhecimento como grafiteira.

James Clifford fala sobre a autobiografia de Marjorie Shostak31, personificada em Nisa, na qual “...Nisa é uma alegoria feminista ocidental, parte da reinvenção da categoria geral

‘mulher’ entre os anos 1970 e 1980”. Partindo deste conceito de alegoria etnográfica, a pesquisa que desenvolvo busca construir uma alegoria para a mulher negra e periférica atual, que sofreu o apagamento representacional ao longo de sua vida, e encontra na arte urbana, uma possibilidade de ocupação do espaço e reivindicação do seu direito à cidade.

Para dialogar com esta referência, trago uma conversa que tivemos na oficina de grafite sobre as dificuldades em ser negra e não se sentir representada ou aceita:

“Uma das participantes é modelo, ela é negra, usa longas tranças no cabelo e nos relata sobre um concurso de princesa da festa, que acontecia na escola onde estudou quando criança. Ela nunca conseguiu ganhar, embora, segundo ela, fosse a mais bonita. Imediatamente, outra aluna dá um salto da cadeira e fala em tom alto: “Sinhazinha! Eu sempre quis ser e nunca fui escolhida”!

Lembramos juntas das festas juninas nas quais ficamos sem par para a dança porque nenhum menino queria dançar conosco, e quando dançavam o faziam muito contrariados. Faço uma intervenção para dizer que, na escola onde trabalho, situações como essa acontecem sempre, e sinalizam para nós que ainda há muita luta pela frente”. (Diário de campo. 22/10/2016)

Nesta conversa percebo que há a criação de uma alegoria do que é ser uma menina negra em contextos escolares de escolas nas periferias do Rio de Janeiro, nos quais a cor de nossas peles, nossos traços e a textura de nossos cabelos, nos colocam em um perfil menos preterido pelos colegas e professores no ambiente escolar. Esta cronologia das histórias, no entanto, não é linear, ela atravessa muitos momentos das nossas vidas. Qual seria a importância por exemplo

31 Antropóloga americana que realizou extenso trabalho de campo entre o povo Kung San, do deserto Kalahari, no Sul da África. Conhecida por suas descrições das vidas das mulheres nesta sociedade.

de ter sido escolhida como princesa da festa, sinhazinha ou par para a dança, na construção das nossas identidades?

No texto “ilusão biográfica”, de Pierre Bourdieu, há o questionamento de ser a vida um deslocamento linear, seguindo necessariamente uma ordem cronológica. O autor acredita que tratar a vida como uma história seria conformar-se com uma ilusão retórica. O nome próprio, por exemplo, é entendido como uma imposição arbitrária que designa propriedades biológicas e sociais em constante mutação, que garante uma identidade em todas as histórias possíveis da vida de alguém. A demanda social nos registra em um documento assim que nascemos com um nome escolhido pelos nossos pais, que teremos que usar para existir socialmente durante toda a nossa trajetória, a despeito de todas as mudanças biológicas e sociais que viermos a passar ao longo da vida. O autor cita Proust32, que utiliza artigo definido antes do nome próprio para simbolizar a multiplicidade do sujeito (“a Albertina de então”).

Pensando nestas questões propostas pelo texto, a criação da Tag no universo do grafite seria então uma maneira de romper com esta imposição do nome próprio, permitindo novos modos de se reconhecer e ser reconhecida, a partir de escolhas baseadas em um momento específico da vida.

A escolha da minha Tag se deu a partir do cotidiano na escola, com meus alunos, além de representar o momento atual: “a Elisa de então”. Durante a construção de um móbile do Sistema Solar, usando bolas de isopor, com a turma do quinto ano, em 2016, pensei em como o sol é imponente e brilhante, além de estar no centro do Sistema e iluminar tudo o que está à sua volta. Depois dessa aula com as crianças, já participando da oficina de grafite, fui para casa pensando nisso e comecei a rabiscar numa folha de caderno, tentativas de criação de uma Tag que tivesse este conceito solar: iluminar e estar no centro, pois é exatamente assim que me sinto:

no centro da minha vida e tentando iluminar quem está à minha volta e se permite ser iluminado.

Pensei em assinar meus grafites com “solar”, mas ainda não estava satisfeita, pois queria alguma referência ao meu nome também. Esta escolha também pode ser relacionada ao processo de construção desta pesquisa onde estive no centro, trocando energias com as minhas interlocutoras.

No sábado seguinte à aula de Ciências com a minha turma, na oficina de grafite na Maré, já com o conceito de ser “solar” em mente, consegui definir a Tag “Liz”, na qual o pingo do “i”

é um sol. E que, depois de um tempo, me atentei de que a troca da vogal “i” pela vogal “u”

transformaria a Tag em “Luz”, convergindo com a ideia de “solar”. A Luz fica subentendida

32 Marcel Proust foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra “À la recherche du temps perdu” (Em

busca do tempo perdido), publicada em sete partes entre 1913 e 1927.

em Liz. Para algumas das minhas interlocutoras, essa Tag já existia antes da oficina de grafite, para outras a criação aconteceu na oficina, como foi o meu caso. Os motivos para as escolhas relacionam-se com fatos de suas vidas pessoais, assuntos que considerem importantes ou mesmo por gostos individuais. Em geral, as assinaturas precisam ser curtas para caberem nas letras bomb e se tornarem mais fáceis de “pegar”, inclusive em alguns casos que veremos a seguir, a Tag é tão marcante que a grafiteira é reconhecida pelos seus pares apenas pela Tag e desconhecem seu nome de registro. É bom poder escolher como a gente quer ser conhecida e chamada.

Com uma frase deixada em Irajá por uma das meninas da PPKrew, encerro este capítulo, que é apenas o começo de uma longa jornada: “mulher artista, resista”.

3 EXPERIÊNCIA ETNOGRÁFICA: ENTRE TINTAS E IDENTIDADES

Considero que este terceiro capítulo corresponderia ao coração da pesquisa, se ela fosse um corpo. Nele, pretendo descrever minha experiência no campo a partir das entrevistas, estabelecendo diálogos possíveis com as leituras realizadas. É como se as identidades fossem impressões digitais, que vão para os muros.

Destaco minha experiência pessoal e envolvimento com o campo, sem nenhuma intenção de me distanciar das interlocutoras. Pelo contrário: estamos cada vez mais próximas.

A ideia é apresentar as experiências e diálogos surgidos a partir das entrevistas realizadas, com objetivo de oferecer pistas para os pressupostos desta pesquisa.

Organizei as entrevistas em três blocos: sobre história de vida, arte, e por último, relações étnico-raciais e de gênero. Eventualmente surgiam outras questões durante as conversas e procurei absorver o máximo possível o que foi confiado a mim, enquanto pesquisadora. O critério para a escolha foi por serem mulheres grafiteiras, em processo de construção de suas identidades, que têm ocupado a cidade para se fazer representar, em diferentes espaços, que participam de Crews formadas a partir de 2015, de maneira mais independente. Portanto, os critérios foram a auto identificação, os contatos e as indicações, pensando também nas pessoas com as quais fiz a opção de dialogar.

Optei por priorizar as artistas com menos tempo de atuação, organizadas em coletivos, que desenvolvem também outras atividades para além do grafite. Cabe ressaltar que estas meninas vêm passando por um processo de redescoberta de suas identidades, muitas vezes iniciado ou reafirmado nos espaços das oficinas de grafite, que abordam temáticas de combate às opressões por gênero e raça.

Este capítulo traz ainda a importância dos registros fotográficos feitos por mim durante a pesquisa de campo, e que influência estes ensaios exerceram sobre a escrita etnográfica.

No documento Universidade do Estado do Rio De Janeiro (páginas 66-69)