bell hooks, no artigo “Vivendo de amor” (2010), traz o contexto escravocrata como condicionante das mulheres negras quanto a contenção dos seus sentimentos e afetividades. As mulheres negras, na condição de escravas, experimentavam constantemente a separação de seus filhos e demais parentes, sofrendo também abusos sexuais, além trabalho forçado nas lavouras, ao qual os homens também estavam submetidos. Desta forma, tinham seus laços afetivos constantemente rompidos, situação com a qual foram obrigadas a conviver. Angela Davis apresenta a condição da mulher, neste contexto, como “reprodutora” aos olhos de seus proprietários, diante da abolição do tráfico internacional de mão de obra escrava, o que a tornava um instrumento para a garantia da ampliação da força de trabalho:
“Uma vez que as escravas eram classificadas como ‘reprodutoras’, e não como
‘mães’, suas crianças poderiam ser vendidas e enviadas para longe, como bezerros separados das vacas”. (DAVIS, 2016, p.19-20)
Distanciadas da exaltação ideológica da maternidade, as mulheres negras eram vistas apenas como reprodutoras, tendo muitas vezes suas crianças vendidas e enviadas para longe.
A mulher negra é constantemente exposta a situações de violência, em virtude da sua condição histórica de discriminação. Esta realidade reverbera até a atualidade em nossas dificuldades com a arte e o ato de amar. Para as mulheres negras, reservam-se os cargos de menor prestígio, os salários mais baixos, a hipersexualização dos corpos, a solidão nos relacionamentos afetivos, os olhares atravessados e tantas outras violências, silenciosas ou não, herdadas de um passado escravocrata e racista, que ainda vive no imaginário social.
vai culminar na caminhada para grafitagem coletiva, três meses depois, em direção a uma praça que fica na região conhecida como Nova Holanda, atividade que eu chamo de “mergulho na Maré”. Na caminhada, motocicletas, ruas estreitas, pequenas barbearias, vasos da planta de origem africana conhecida como “espada de São Jorge” nas portas das casas, algumas armas penduradas nos ombros e muitos grafites pelos muros.
Participavam da oficina, mulheres de diversos bairros e de cidades vizinhas: Duque de Caxias, Pìlares, São João de Meriti, Manguinhos. A faixa etária variava dos 8 aos 31 anos. A cada sábado, meu relato sobre o campo começava mais cedo, antes de chegar no galpão: no caminho de ônibus, ou nos tiros que ouvi enquanto me arrumava, em casa, para ir até a Maré, por exemplo. Tudo foi passando a fazer sentido e as relações entre as tintas, o grupo de mulheres e meu cotidiano se estreitando cada vez mais.
Minhas idas e vindas para a Maré, aos sábados, foram importantes para muitas reflexões sobre a pesquisa. Como no seguinte relato de uma observação feita no ônibus:
“São quase dez da manhã, um homem negro, aparentando ter uns 50 anos, camisa azul social dobrada nos punhos e entreaberta, cabelos grisalhos, pisando na parte de trás do sapato preto, o que deixa o peito do pé rachado de fora. Ele traz nas mãos algumas folhas de caderno, ainda com rebarbas, e de longe consigo ler alguns nomes manuscritos “João Cândido” “Machado de Assis” “André Rebouças”. O homem sentado no ônibus lê e balbucia as palavras, ora olhando para o papel, ora desviando os olhos dele. Estaria estudando sobre estes homens? Fico curiosa, passo a observá-lo. Alguém sinaliza que vai descer e o motorista para. Estamos em frente à Casa do Marinheiro, no bairro da Penha, Zona Norte da cidade. Outro homem negro de aproximadamente 40 anos se posiciona em pé perto da porta para descer do ônibus. Ele usa uma camisa branca com estampa da Marinha e algumas coisas escritas, das quais consigo ler que ele pertenceu à turma de 1990/1991. Imagino que esteja indo participar de algum evento. Volto meus olhos novamente para o senhor que lê seu papel sentado durante a viagem e penso que o outro que acabara de descer só está lá porque João Cândido esteve. João Cândido:
presente! Desço do ônibus, atravesso a passarela 10 da avenida Brasil cantarolando Elis Regina... “O mestre-sala dos mares”. (Diário de campo.
8/10/2016)
Figura 3 - Foto
Fonte: A autora. Outubro de 2016.
Em muitos momentos, os papéis de participante da oficina e pesquisadora se confundiram. E para estes momentos, a leitura do texto “De que lado estamos?”, de Howard Becker, trouxe reflexões que me fizeram tomar partido e não me esconder nesta pesquisa, pois isto não inviabiliza o estudo e também não o torna menor. Estou na pesquisa, na primeira pessoa do singular.
Por ter uma relação tão direta entre a pesquisa e minhas experiências pessoais, a escolha dos autores foi muito na direção de permitir que esta relação apareça. Neste sentido, tanto Roberto Cardoso de Oliveira quanto Howard S. Becker, apontam a importância de uma aparição mais direta da pesquisadora, seja na forma – escrita na primeira pessoa do singular – ou no conteúdo – exposição do posicionamento político e pessoal.
A seguir, um trecho do diário de campo, de quando peguei a lata de tinta pela primeira vez. Era meu aniversário e eu tinha levado um bolo temático sobre a oficina de grafite para comemorar, tamanho era o meu encantamento com o campo nestes primeiros contatos. De acordo com a cultura na qual estive inserida durante toda a vida, o ato de usar uma tinta spray para pintar muros na cidade era considerada uma transgressão, um crime, algo que rompe com os padrões de comportamento esperado pelos meus pais e pela sociedade. Poder fazer isso
representou um rompimento com a minha trajetória que previa outros tipos de comportamento;
de ocupar, portanto, lugares de transgressão à ordem e aos padrões. Considero este momento interessante para mostrar como minha participação fica evidente e interfere na observação, o que seria mais difícil de perceber se o texto não estivesse em primeira pessoa:
“O suor escorre dos nossos rostos, enquanto recebemos as orientações a respeito dos equipamentos de segurança que iremos usar. Cada uma recebe um par de luvas descartáveis e uma máscara descartável. Em seguida, recebemos latas de tinta spray preta. Daí para frente, eu tento continuar sendo pesquisadora, porque estou tão tomada pelo momento de pegar pela primeira vez em uma lata que pareço não conseguir mais prestar atenção em nada”.
(Diário de campo. 15/10/2016)
Howard S. Becker considera que o dilema da neutralidade não existe, alertando para a impossibilidade de realização das pesquisas sem a presença de simpatias pessoais do pesquisador. Para o autor: “... a questão não é se devemos ou não tomar partido, já que inevitavelmente o faremos, mas sim de que lado estamos nós”. (BECKER, 1976, p.122)
Becker questiona as acusações sofridas nas pesquisas etnográficas e porque elas ocorrem com mais frequência quando tomamos partido dos que estão do lado subordinado. Um dos momentos em que meu posicionamento pessoal também fica evidente e interfere no campo, está no trecho a seguir:
“O debate se estendeu sobre o tema da criminalização da pichação e nesse ponto confesso que, após dar minha contribuição no debate, fiquei confusa entre os papeis de pesquisadora e participante da oficina, desempenhados por mim naquele espaço. Até que ponto eu deveria intervir? Seria melhor apenas observar? Minha intervenção poderia influenciar na discussão. Nesse momento, o texto “De que lado estamos”, de Howard S. Becker parece estar aqui bem na minha frente. Sim, eu tenho lado e não vou me esconder nessa pesquisa”. (Diário de campo. 8/10/2016)
Roberto Cardoso de Oliveira, no texto “O trabalho do antropólogo: olhar, ouvir, escrever”, entende que a escrita precisa reconhecer a pluralidade de vozes presentes na investigação etnográfica, incluindo a voz do pesquisador, na primeira pessoa do singular.
Todo discurso é atravessado por muitas vozes, e sobre esta polifonia, o autor conclui:
“... essas vozes têm de ser distinguidas e jamais caladas pelo tom imperial e muitas vezes autoritário de um autor esquivo, escondido no interior dessa primeira pessoa do plural”. (OLIVEIRA, 2006, p.30)
Ainda neste sentido, considerar os pensamentos que Wright Mills chama de “marginais”
- aqueles que temos em momentos não programados e muitas vezes desprezamos, mas que podem se tornar fundamentais – também personalizam o texto, evidenciando mais uma vez meu envolvimento e participação direta no processo de construção. No relato abaixo, um dos pensamentos que poderiam ser considerados ‘marginais’, registrado no meu diário de campo:
“Minhas reflexões, hoje, começam ainda na rua onde moro, ao sair de casa.
Uma chuva fina e fraca molha as lentes dos meus óculos, mas consigo ver, abaixada perto de uma pilha de sacos de lixo, uma mulher negra, de uns quarenta ou cinquenta anos. Observei que ela buscava materiais que pudessem ser vendidos para reciclagem, e repetia o gesto nas calçadas seguintes. Hoje é sábado, dia da coleta de lixo aqui em Bangu, por isso os moradores colocaram suas sacolas nas calçadas. Ao olhar para ela, naquela condição, dei-lhe meu
“bom dia” como quem gostaria de dar-lhe algo mais, uma condição de vida que não a obrigasse a ter de fuçar o lixo dos outros num sábado chuvoso, pela manhã. Tudo que posso oferecer agora é o meu bom dia, mas dou a ela também, minha luta, minha pesquisa, minha vontade de que as coisas sejam diferentes para ela, para mim e para todas as mulheres negras”. (Diário de campo 22/10/2017)
Pensar nesta mulher que acabo de descrever, é pensar em Carolina Maria de Jesus e em tantas outras mulheres negras que circulam pelas cidades, invisíveis, sob a ótica do apagamento ou ocupando os lugares da subalternidade. Durante a leitura do artigo “Para não ser trapo no mundo: as mulheres negras e a cidade na literatura brasileira contemporânea”, da professora Regina Dalcastagnè (2014), uma fala retirada do diário de Carolina me chamou atenção, quando sua mãe lhe diz que “o protesto ainda não estava ao dispor dos pretos”, portanto não havia muito o que fazer para mudar a situação na qual viviam. A condição de nômade da mulher negra, desde a diáspora até as remoções, faz com que se tornem como “folhas espalhadas pelo vento”, ocupando sempre o “lado de fora” da cidade, o quarto de despejo.
O artigo traz também a trajetória da escritora Conceição Evaristo, cuja mãe era empregada doméstica e leitora de Carolina de Jesus. Em seu romance de 2006, “Becos da memória”, na fala de uma de suas personagens, a escritora deseja que “todos os negros escravizados de ontem e os supostamente livres de hoje, libertem-se na vida de cada um de nós que consegue viver”. Neste sentido, ao observar a mulher “supostamente livre” catando lixo na rua, sinto que minha liberdade está implicada na existência dela.
Em outro sábado na Maré, tínhamos uma convidada que falava sobre cultura afro- brasileira e pudemos refletir sobre a desenvoltura no uso desse instrumento tão poderoso que é a fala, pois uma das meninas, que era branca, demonstrava muita desenvoltura em suas colocações, enquanto a maioria das meninas negras pareciam mais tímidas. O medo de falar, de ser vista, julgada, reprimida, tudo isso faz parte do silenciamento produzido ao longo da vida de mulheres negras. Nossa arte é nosso grito.
Ainda falando sobre silenciamento, passamos pela interrupção antecipada da oficina, que duraria seis meses, mas durou apenas três, permanecendo apenas os núcleos de outros bairros do Rio, a saber, na Favela de Acari, Zona Norte; e Pedra do Sal, na região central da cidade. Decisão que consideramos arbitrária por ter acontecido logo após um questionamento
sobre a falta de flexibilidade durante a participação do grupo em um evento internacional de grafite, sem uma possibilidade prévia de diálogo.
As alegações para o término da oficina da Maré passam por justificativas que vão desde a violência do território – que pode ser considerada como racismo ambiental, por determinar que uma favela seja percebida apenas pelo signo da violência, criminalizando a existência de seus moradores como um todo - até o baixo número de participantes – éramos em média 15, mesmo número de alunas participando da oficina nos outros núcleos. Sem uma justificativa que nos convencesse, fomos conversar com a direção do projeto, no entanto, a decisão já estava tomada, segundo as organizadoras. Teríamos como opção escolher se integrar em um dos outros dois grupos que continuariam funcionando. O que não fizemos, por ser em dias, locais e horários diferentes; além dos laços que já tínhamos criado.
Achei que estava me tornando grafiteira, no sentido mais institucional da palavra, mas apesar de reconhecer a importância deste primeiro contato com o grafite, a pesquisa trilhou seus próprios caminhos e, em um movimento natural, expandi as redes de contato a partir desta experiência inicial.
Figura 4 - "Amiga oculta" na Maré
Fonte: Vivi Laprovita, 2016.
O poder exercido por uma organização financiada por grandes nomes do Capital ou com uma rede extensa de parceiros, mostrou-se incoerente entre seu discurso e sua prática, ao interromper uma oficina de grafite sem uma abertura maior para o diálogo com as participantes.
Criamos, a partir deste momento, um grupo em um aplicativo de conversas
instantâneas e durante uma semana trocamos mensagens de indignação e solidariedade. No sábado seguinte, que seria o último, fizemos uma brincadeira que chamamos de “amiga oculta”
da arte, e trocamos itens como latas de tinta spray, revistas especializadas, telas, stencils, canetas de ponta grossa, blocos para desenho, artigos artesanais/autorais e objetos afins.
Em seguida, realizamos a grafitagem coletiva na Maré, sob o olhar curioso de algumas crianças e de homens armados que passavam pelo local. No retorno ao galpão para a organização do material, tivemos então a notícia. Sobre esta situação, escrevo no diário de campo:
“Foi assim, em círculo, em pé, na calçada, com as mãos sujas de tinta, que soubemos oficialmente sobre a interrupção da oficina. Falamos, questionamos, não aceitamos, pedimos uma conversa com a presidente, queríamos explicações que justificassem esta ação. Nos sentimos desrespeitadas, continuamos protestando. Mas com a desculpa de “está tarde e estamos todas com fome”, a anunciante da notícia nos despediu. Não fiquei em silêncio. Disse que era uma decisão arbitrária e muito contraditória com o que se propunha uma rede feminista, com discurso de empoderamento da mulher”. (Diário de campo. 17/12/2016)
Entendemos esta interrupção como um processo que vai contra os ideais da rede, que é de trazer o debate sobre o empoderamento de mulheres negras e periféricas através da Arte.
Nos sentimos sendo, mais uma vez, silenciadas. No entanto, a partir do bom relacionamento durante os três meses de oficina na Maré, foi organizado um grupo independente, que posteriormente formou uma Crew feminina.
Fonte: Amora, 2017.
Figura 5- PPKREW no Santo Cristo
Fonte: Lolly, 2017.
No mundo da arte urbana, “Crew” é um conjunto de grafiteiros/as que se reúne para pintar ao mesmo tempo. Começamos a combinar saídas para estampar nossa arte pela cidade.
Participei de algumas delas, e a primeira foi quando fomos pintar em pilastras entre as pistas de via expressa da Avenida Brasil, na altura de Irajá.17
A saída aconteceu em janeiro de 2017 (éramos três meninas e dois meninos). Foi uma experiência única, desde as aventuras para chegar ao local da grafitagem como em todo o processo de criação das letras ‘bomb’18 com nossas Tags19. Levamos a lei do grafite20 impressa, mas não foi necessário usá-la. Os meninos que nos acompanhavam já estavam mais acostumados a sair para grafitar e foram eles que sugeriram o local.
Para este dia, relato a seguir uma experiência de circulação na cidade que vivenciei pela primeira vez em campo, envolvendo riscos, não só os de tinta, mas também os de arriscar-se:
“Caminhamos com nossas mochilas cheias de tintas e cadernos de desenho, até a beira da Avenida Brasil, as pilastras de cor cinza estão entre as pistas da via expressa, então começo a ficar tensa em pensar como chegaríamos até lá. Faço uma pergunta que já sei a resposta, apontando para frente: “as pilastras são aquelas ali?” Sim, nós vamos atravessar duas pistas da Avenida Brasil sem usar a passarela. É a primeira vez que faço isso na vida, sinto um pouco de medo, mas também me sinto muito corajosa fazendo isso. Esperamos um intervalo
17 No Rio de Janeiro, o decreto número 38307 de 18 de fevereiro de 2014 regulamenta a atividade do grafite na
cidade e autoriza a prática em postes, colunas, muros cinzas (desde que não considerados patrimônio histórico), paredes cegas (sem portas, janelas ou outra abertura), pistas de skate e tapumes de obras.
18 grafite feito com letras gordas e vivas.
19 Assinatura do nome ou apelido da grafiteira ou grafiteiro.
20 Decreto número 38307 de 18 de fevereiro de 2014.
Figura 6 - PPKREW em Irajá
maior entre os carros (eu nunca sei quando é a hora certa, mas acompanho o grupo) e corremos. Primeira etapa vencida e conseguimos ficar em pé em uma parte plana que divide as pistas, mas na próxima teremos que pular as muretas pintadas de amarelo para chegar a parte de baixo do viaduto inacabado, onde estão as pilastras que iremos pintar. Do segundo em que tirei os pés do chão para correr no asfalto quente da Avenida Brasil até chegar à mureta e sentar nela, passando uma perna após a outra, fui tomada por uma coragem que nunca tive”. (Diário de campo, 6/1/2017)
A seguir, outro momento em que grafitei durante um evento no Morro do Pinto, junto com minhas interlocutoras:
Fonte: A autora e Coletivo I Love MP, 2017.
Figura 7 - Sopa de Letras no Morro do Pinto
Fonte: A autora, 2017.
Tomei a decisão de me afastar um pouco, quando percebi que meu envolvimento no campo estava intenso demais. Ainda em janeiro de 2017, surgiu a oportunidade de participar de um Workshop com a artista Juliana Fervo, no Itanhangá. Foram três sábados de muitos aprendizados sobre técnicas de ilustração e grafite, além de trocas fundamentais para o prosseguimento da minha pesquisa. Fervo foi muito importante para a definição da minha personagem (um cacto com uma flor em seu cabelo crespo, que simboliza a resistência da mulher negra) e me apontou outros caminhos possíveis para a pesquisa de campo. Novos contatos estão sendo feitos com mulheres negras que seguem na luta por visibilidade e representação através da sua arte.
Com a saída do projeto na Maré, passei a refletir mais profundamente sobre favelas e periferias como territórios e suas territorialidades, uma vez que a inserção de projetos envolvendo grafite em nestes espaços pode representar a busca por pertencimento à cidade. Os locais se tornam territórios de experimentações em um grande mapa de significações.
Figura 8 - Workshop com Juliana Fervo