Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Dissertação de Mestrado (Mestrado em Educação, Cultura e Comunicação na Periferia Urbana) – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Protagonismo x silenciamento
Ao observar que os participantes da prática do graffiti são majoritariamente homens, Caldeira problematiza a exclusão das mulheres nesta cena ambientada no contexto urbano. Uma mulher que escreve é um poder que, segundo Anzaldúa, refletirá na nossa sobrevivência, pois “(..) uma mulher que escreve tem poder.
Desigualdades interseccionais
Além da falta de representatividade na indústria de brinquedos e no mundo da moda, por exemplo, as mulheres negras também aparecem nas pesquisas como as principais vítimas da violência no Brasil. Dissociadas da exaltação ideológica da maternidade, as mulheres negras eram vistas apenas como reprodutivas, muitas vezes vendendo e mandando embora os filhos.
Um mergulho no mundo do grafite
O medo de falar, de ser vista, julgada, oprimida, tudo isso faz parte do silêncio que se produz ao longo da vida das mulheres negras. Novos contatos são feitos para mulheres negras que continuam lutando por visibilidade e representatividade através de sua arte.
Territórios e territorialidades
Teresa Pires do Rio Caldeira, num artigo publicado em 2014, constata uma reconfiguração da circulação da população periférica e marginalizada nos espaços que lhes são negados, a partir da prática do graffiti. Neste contexto, pensar o lugar das mulheres na prática do graffiti é pensar numa dupla violação, pois além do graffiti, elas ocupam espaços naturalizados como ambientes masculinos. No próximo capítulo discutirei os processos de institucionalização do graffiti e as possibilidades de acesso a determinados espaços como suporte à arte.
Problematizo também a arte urbana a partir de uma leitura de Norbert Elias, que busca compreender o graffiti a partir de sua personalidade estética que vem das ruas, mesmo em espaços privilegiados. O autor utiliza a expressão “colonizar a paisagem” para falar da publicidade no espaço público, e nesse sentido percebo que a estética do graffiti começa a ser colonizada, para que se aproxime de uma estética desejada por quem domina os territórios ocupados de aulas. Não pretendo evocar uma pureza do graffiti de rua que o contraste com o que está na galeria e passou pelo processo de artificialização, apenas destacar que há uma origem estética implícita nesta relação.
Meu envolvimento com a área durante o processo de pesquisa trouxe meu próprio ressignificado da prática do graffiti e minha descoberta como pesquisadora, desenvolvendo esses dois papéis em paralelo, resultando em uma autoetnografia, tecida ao longo desse período.
Arte, alteridade e racismo: o caso da Escola Municipal Rivadávia Corrêa
Neste sentido, o protagonismo das mulheres no lançamento do projeto proposto pelo município é um benefício. O grafite, que traz a imagem de uma mãe negra analfabeta contando histórias para os filhos de forma lúdica, foi criado pela paulistana Luna Buschinelli, 20 anos, e pode ser reconhecido como o maior grafite do mundo feito por uma mulher. Quero ressaltar também que a representação de uma mulher negra é feita por uma mulher branca, que conta com agências e redes específicas da classe que ocupa, possibilitando o reconhecimento de sua arte e o suporte necessário para sua concretização.
Porém, a busca pela reprodução de uma relação de amizade entre senhores e escravos a partir de imagens fotográficas apenas perpetua ausências, o que, segundo o autor, evidencia a impossibilidade de haver um lado positivo na relação de propriedade de uma pessoa por outra. . Embora muitas mulheres e homens brancos, ou mesmo homens negros, tenham escrito sobre a condição das mulheres negras na sociedade escravista, a escrita de uma mulher negra traz na própria pele a experiência de como é vivenciar a discriminação racial e de gênero. , de forma latente, mesmo tantos anos depois da abolição. A representação, como prática de produção de sentidos, significa que, por exemplo, um atleta negro representado na capa de uma revista vencendo um evento atlético é um alerta sobre a questão do uso de drogas neste esporte em nível internacional.
No primeiro capítulo de sua obra “Pele Negra, Máscaras Brancas”, o sociólogo Frantz Fanon apresenta a linguagem como símbolo de assimilação cultural.
Estabelecidos e Outsiders da Arte
Minha entrada na área se deu a partir de uma oficina de graffiti para mulheres negras na favela da Maré, em outubro de 2016, onde me matriculei como aluna, mas também me apresentei ao grupo como pesquisadora. Juliana usou o verso de uma de suas pinturas para servir de tela para os exercícios que fizemos e me mostrou algumas intervenções artísticas que fez na casa. Poucas semanas depois houve uma quebra nesse padrão, seguindo a sugestão de um dos participantes da oficina: “Até então estávamos organizados em filas, da mesma forma que na semana passada.
Ao contrário da “solidão povoada”, os encontros tornam-se cada vez mais familiares com o passar das semanas. Durante pesquisa de campo com um grupo de grafiteiros em uma praça da Baixada Fluminense à noite, vivenciei a atividade em espaço aberto, sem regulamentação institucional. Ao ler “Pátria, Empresa e Mercadoria”, de Carlos Vainer, percebe-se o movimento das cidades no sentido de assumirem características de empresa, de mercadoria a ser consumida.
29 Referência ao poema “a flor e a náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, que fala sobre a resistência de uma pessoa.
A Tag como símbolo identitário
Pensando nessas questões sugeridas pelo texto, a criação do Tag no universo do graffiti seria então uma forma de romper com essa imposição do próprio nome e permitir novas formas de reconhecer e ser reconhecido, a partir de escolhas baseadas em um momento específico da vida. vida. Pensei em assinar meu graffiti com “solar”, mas ainda não estava satisfeito porque também queria uma referência ao meu nome. Essa escolha também pode estar relacionada ao processo de construção desta pesquisa, onde estive no centro, trocando energias com meus interlocutores.
No sábado depois da aula de ciências com minha turma, na oficina de graffiti da Maré, com o conceito de ser “solar” em mente, consegui definir a Tag “Liz”, em que o “i” está pontilhado. Para alguns dos meus interlocutores essa Tag já existia antes da oficina de graffiti, para outros a criação ocorreu na oficina, como foi o meu caso. Nele pretendo descrever minha experiência no campo a partir das entrevistas, estabelecendo possíveis diálogos com as leituras realizadas.
Portanto, os critérios foram autoidentificação, contatos e recomendações, pensando também nas pessoas com quem escolhi conversar.
Apresentando personagens e coletivos
Ela disse que mudou sua visão sobre isso: “Ela não é branca, sempre pensei que fosse, ela é negra porque é filha de preto, ela é negra” (Negra). Uma das características desse coletivo é a organização de uma loja de venda de tinta spray e outros itens de graffiti, em uma galeria no centro do Rio. Os organizadores são: Lara, que mora em uma ocupação no centro do Rio de Janeiro, e Klein, morador de São João de Meriti, na Baixada Fluminense.
A primeira entrevistada desse coletivo é formada em artes plásticas e escultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mora em Cascadura e enfrenta alguns dilemas quanto à autodeclaração da cor, pois sua pele é um pouco mais clara. A entrevista aconteceu em uma tarde chuvosa no Parque Madureira, zona norte do Rio de Janeiro. Os outros três entrevistados falaram comigo no mesmo dia, tendo como pano de fundo a loja de tintas no centro do Rio de Janeiro.
Ela mora em uma ocupação no Morro do Pinto, região central do Rio de Janeiro, trabalha como assessora parlamentar e é formada em Economia.
História de vida: moradia – violência – escola – infância – racismo
Tais situações, segundo ela, a fazem sentir medo: “Tenho medo de ficar perto de casa, das pessoas saberem onde moro e fazerem alguma coisa” (Lolly). Klein falou pela primeira vez quando sua mãe trançou seu cabelo para ir à escola: “Eu chorei o dia todo porque pensei que todo mundo ia tirar sarro de mim na escola” (Klein). Ela e a irmã sempre tiveram bonecas brancas: “Nunca tive uma boneca preta na minha vida.
Ela falou sobre uma boneca Pocahontas: "Eu não gostei, achei feia e cortei o cabelo dela e ela estava careca, e chamei ela de 'Vergonha', então ela sempre foi a má" (Lolly) . Além do mais, ele gostava de ver os meninos empinando pipas: “Nunca soube e nunca me importei, só gostava de assistir”. Ela passou mais tempo desenhando, brincando com tinta e modelando massinha, mas descobriu outras brincadeiras favoritas: “Adorei brincar com pistas de Lego, Hot Wheels” (Amora).
Ela também revelou que gostava de brinquedos e jogos interativos: “Eu tinha um pula-pula, um brinquedo que você podia pular” (preto).
Arte e representatividade: educação – trabalho – negritude – feminismos - grafite
Perguntei se ela achava que a professora achava que ela não era capaz e ela disse: “Nunca pensei nisso, é porque estou tirando essa história da cabeça” (Lolly). Para muitas meninas negras, frequentar a escola acaba sendo um ato de coragem porque não se sentem aceitas naquele espaço. Lara disse ainda que já tentou organizar atividades educativas com a Tripulação, mas elas ainda não se concretizaram, embora esse seja o desejo do grupo desde a sua fundação.
Alternativas como docência ou empregos em outras áreas não relacionadas às artes têm sido opções para esses artistas em suas carreiras. O trabalho pode ser uma frustração para as mulheres negras que desejam seguir a arte como profissão, mas trabalham em outras áreas com as quais não se identificam. Nas palavras de Lolly, que também acha importante divulgar e vender o graffiti de uma forma mais institucional, há artistas que acabam por permanecer anónimos, mesmo que sejam bons: “tem outras pessoas que fazem um trabalho muito fixe e que nunca ir numa galeria, porque o mercado de arte A arte não liga para essas pessoas” (Lolly).
Mais uma vez proponho a reflexão: qual a classe social, cor e gênero dessas pessoas que o mercado de Arte não se importaria.
Reú daz Mina (São João de Meriti) - Julho/2017
Oficina de Pichação no Fazendo Gênero (Florianópolis SC) – Agosto/2017
Oficina e contação de história em Escola Municipal (Bangu) – Novembro/2017
Grafite com performance (Penha) - Novembro/2017
Das muitas reflexões que esta pesquisa trouxe, uma delas é que falar de artistas negras é falar de um grupo heterogêneo, portanto não há resposta para essa questão. Mas há outras questões possíveis depois dessa: é preciso identificar pichações de uma mulher negra na rua. Por que os grafiteiros negros não podiam tirar vantagem do anonimato frequentemente evocado nos grafites de rua.
Se há algo que diferencie o graffiti feito por uma mulher negra, essa diferença seria ela mesma, como protagonista do graffiti e por ter sua arte nas ruas, entre tantas outras. Dissertação (Mestrado em Educação, Comunicação e Cultura) – Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Conclusão de Curso (Especialista em Mídia, Informação e Cultura) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015.
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