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A transmissão das narrativas através da internet

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 153-159)

As redes sociais e outros tipos de plataformas virtuais, como fóruns de discussões, possibilitaram que atores insurgentes e outros tipos de movimentos sociais pudessem dominar meios de comunicação e transmitir suas mensagens para outras pessoas em escala global. A revolução digital111 alterou os modelos de warfare. Como afirma Neville Bolt (2012, p. 161), as tecnologias digitais fizeram com que a violência não-estatal encontrasse um ecossistema favorável para o aumento de “simpatizantes e recrutas para ação coletiva com o potencial de evadir o Estado”.

Nessa conjuntura de efervescência digital, que é ao mesmo tempo impulsionada e impulsionadora do processo de globalização, o escrutínio sobre a expressão propaganda of the deed112 se faz pertinente para se analisar a estratégia de entidades não-estatais que utilizam a violência como forma de política. O conceito se tornou o principal modus operandi de grupos insurgentes, estes não limitam a propaganda of the deed ao impacto militar. Também não a restringem ao seu efeito simbólico, que é o de passar uma mensagem revolucionária a partir da violência113.

A propaganda of the deed é um ato de violência política que tem como meta a criação de um evento capaz de gerar a mobilização nas populações em torno da mudança social. Ou seja, a ação violenta não possui apenas a missão primária que, por exemplo, pode ser a destruição de um determinado alvo, mas também tem como objetivo infligir uma

“consequência maior”, podendo ser a conquista de corações e mentes para a realização dos interesses do grupo que comete o atentado, ou a imposição da ameaça e do medo a um grupo antagonista. Dessa forma, para Bolt (2012, p. 2), a propaganda of the deed é um ato terrorista e racional, pois tem como objetivo atingir uma preferência qualquer de um grupo:

111 Nesta parte do texto, Bolt entende o termo ‘revolução digital’ como mudança radical nas comunicações e na sociedade graças ao impacto da internet (Bolt, 2012, p. 163).

112 “Propaganda pelo ato” (tradução nossa).

The violent deed may be planned in the first instance for military, destructive gain, but only secondly for the added benefit of producing a persuasive effect on readers and viewers in and beyond the immediate operations theatre. Frequently, it is planned dramaturgically with precision, rendering it primarily strategic (Bolt, 2012, p. 3)114.

Há diversas contribuições que versam sobre a relação entre propaganda e guerra. E.H Carr (1981) coloca a propaganda como uma das principais formas de se exercer poder na política internacional. O autor escreve que a propaganda tem sido usada como ferramenta de guerra psicológica desde a Primeira Guerra Mundial. Neste período, o seu uso se dava, sobretudo, através de materiais que elevassem a moral dos soldados e abalasse o ânimo das linhas inimigas. Não somente isso, para Carr, a propaganda de guerra também tem como objetivo influenciar a opinião pública de acordo com os interesses do Estado que a instrumentaliza.

Macdonald (2004) afirma que as operações psicológicas, especialmente as que utilizam a propaganda, foram utilizadas durante o processo de independência das Treze Colônias e, posteriormente, na insurgência cubana contra a Espanha. Outros inúmeros exemplos podem ser citados, como a propaganda dos aliados direcionada ao povo alemão contra o regime nazista e os falsos comunicados dos nazistas em relação à invasão na União Soviética. Para o autor, a trapaça e a propaganda podem garantir a vitória a um custo mais baixo. Macdonald também cita Sun Tzu que aponta que a propaganda e a trapaça permitem impor a derrota ao adversário sem precisar lutar uma batalha.

As consequências posteriores aos atentados reverberam na mídia, na opinião pública e, além disso, também criam relações com memórias, tanto históricas quanto atuais. Esse processo forma o que Bolt (2012) chama de “arquipélago de violência”. Ou seja, somente olhando de volta para o passado que é possível formar um sentido holístico. As imagens causam “mensagens cristalizadas” que são passadas ao lado de lembranças de injustiça e de ofensa. Essa cristalização, em um contexto de intenso fluxo de informações e de ideias, não é apenas um comunicado, mas também um espaço de estabilidade e de certeza: “POTD (propaganda of the deed) acts as a lightning rod for collective memory”115 (Bolt, 2012, p. 7).

Entretanto, é importante destacar que a memória coletiva é uma invenção, é um ato de construção. Historicamente, as lembranças e tradições têm sido construídas pelas elites e pelo

114 “O ato violento pode ser planejado em primeira instância para o ganho destrutivo militar, mas, em segundo lugar, ele adiciona ganhos ao produzir efeito persuasivo nos leitores e observadores e além do teatro imediato de operações. Frequentemente, é planejado dramaturgicamente com precisão, tornando-o primeiramente

estratégico” (tradução nossa).

115 “A propaganda pelo ato funciona como um para-raios para a memória coletiva” (tradução nossa).

Estado. Estes foram os grupos capazes de investir em educação, instituições e outros tipos de instrumento de administração capazes de criar e propagar as narrativas de tradições e memórias. Assim, a partir da propaganda of the deed, atores não-estatais ganham força para propagar as suas próprias histórias através do ato (Bolt, 2012, p. 7).

De acordo com Vuorinen (2012, p. 2), a construção da propaganda de caráter violento tem a ver com a construção do inimigo através de imagens. Esse processo se dá a partir de projeções psicológicas e culturais de estereotipização do outro, da formação de rótulos e da criação de exageros quanto às características do inimigo. Cria-se

“A vicious circle forms when negative presuppositions gain evidence through seemingly spontaneous, neutral observation, making them seem natural and eternal.

Every community has members whose behaviour is less than perfect; sometimes they even resemble the negative stereotype. This so-called kernel-of-truth argument provides ground for negative characterisation and makes the negative stereotypes appear partly true” (Vuorinen, 2012, p. 2) 116.

Neville Bolt (2012, p. 162) afirma que, desde a década de 1990, os grupos não-estatais conseguiram mover o “ato” para o centro do seu pensamento estratégico. Agora, o que mais importa é o resultado comunicativo, não mais a pureza do objetivo. Três fatores foram essenciais para essa mudança: o crescimento da importância das palavras, das imagens e das ideias na mobilização coletiva; a capacidade de levar, grandes quantidades de arquivos em formatos digital, que contém imagens e ideias, ao mundo inteiro de forma fácil, rápida e praticamente sem custos; e o crescimento do uso de tecnologias que transmitem esse tipo de arquivos.

Dessa maneira, atores não-estatais conseguem fazer o controle de informação, além de manipularem e disseminarem a mesma de maneira relativamente rápida, fazendo com que o Estado não seja capaz de responder com a sua versão dos fatos. Esse processo também permitiu a disseminação de notícias falsas, podendo empreender guerras de informação com qualquer tipo de ator.

Por exemplo, em comparação à televisão, um meio de comunicação que depende de investimentos e tecnologias complexas, além de ter um sistema organizacional restritivo, com poucos indivíduos nas posições de controladores dos editoriais das companhias, a internet estabeleceu a filosofia dos comunicadores peer-to-peer, com pouquíssimas restrições de acesso. Basicamente, o único custo é ter acesso a uma rede de internet, a um computador ou

116 “Um círculo vicioso se forma quando pressuposições negativas ganham evidência por meio de uma observação aparentemente simples e neutra, fazendo-as parecerem naturais e eternas. Cada comunidade tem membros cujo comportamento é menos do que perfeito; às vezes eles até se assemelham ao estereótipo negativo.

Este chamado argumento do núcleo da verdade, que fornece base para a cacterização negativa e faz os eterótipos negativos parecerem parcialmente verdadeiros” (tradução nossa).

smartphone. Mesmo as empresas de redes sociais, como o Twitter e Facebook tendo donos e sócios, a liberdade de criação de conteúdo e de ideias, e a proliferação dos mesmos se tornou a normalidade nessa conjuntura de revolução digital (Bolt, 2012).

Os computadores, os celulares, programas de edição de áudio e de vídeo, as estruturas de internet, os meios que conseguem conectar indivíduos à longa distância através de conexões sem fio e os satélites formam a cadeia de tecnologias digitais. Assim sendo, enquanto crescem os processos de comunicação baseados nessa premissa digital, os custos também diminuem consideravelmente com a massificação dos mesmos.

O cyberspace, que não é apenas um espaço, mas abrange uma gama de grupos e também produz comunidades de identidades. Nesses lugares, o Estado Islâmico consegue oferecer a sua propaganda, conectando-se a pessoas dispostas a consumirem os vídeos e revistas produzidas pela organização jihadista. É a partir do espaço desregulado da rede de computadores que o ISIS consegue divulgar as suas narrativas de violência e alcançar o maior número possível de pessoas. Ademais, o cyberspace também está cada vez mais percebido como um novo campo de batalha.

Diferentemente da guerra convencional, no espaço digital, o empreendimento da guerra não é restrito aos Estados. Até mesmo atores não-estatais, como grupos paramilitares, conseguem infligir danos a sistemas de internet e, por isso, conseguem afetar as sociedades com alto nível de informatização. Quanto à tipologia de conflito no cyberspace, Greathouse (2014, p. 24) afirma que uma das tipologias mais completas sobre a guerra cibernética é a de Schaap (2009, p. 127), que define a cyberwar como o emprego de ferramentas baseadas em rede, por um Estado, de forma a “corromper, negar, degradar, manipular ou destruir”

informações que estão contidas em redes de computadores, bem como as próprias redes, de outros Estados. Entretanto, Greathouse (2014) considera que a definição de Schaap (2009) não é suficiente, pois não abarca o uso dessas ferramentas realizado por atores não-estatais.

Por exemplo, o grupo hacker Anonymous conseguiu realizar ataques a multinacionais como a Visa, Paypal e Amazon. O próprio Anonymous declarou guerra ao Estado Islâmico em 2015, derrubando diversos sites de propaganda dos jihadistas na dark web. Um dos ataques mais famosos foi realizado pelo GhostSec, ramificação do Anonymous, que substituiu textos do ISIS em um site, por uma propaganda do medicamento Prozac e pelo seguinte conteúdo irônico: “Mantenha a calma. Muitas pessoas estão nas coisas do ISIS. Por favor, contemple este adorável anúncio para que possamos atualizar a nossa infraestrutura para dar a

vocês, Estado Islâmico, o conteúdo que vocês todos desesperadamente desejam” (Geers, 2011; Hathaway, 25 nov., 2015)117.

Kremer e Müller (2014, p. 42) oferecem uma abordagem complementar construindo um modelo de análise ampliado, considerando que a crescente informatização da vida faz com que o cyberspace esteja em todos os lugares, o que também altera a percepção sobre as ameaças à segurança. Dessa maneira, os autores elaboram a perspectiva da estrutura de análise “SAM”, na qual as tipologias de investigação de ameaças no ciberespaço são divididas em ‘stakeholders’, ‘atividades’ e ‘motivos’118.

Essa perspectiva de digitalização e informatização do conflito se assemelha ao que Arquilla e Ronfeldt (1997, p. 28) chamam de netwar:

[…] information-related conflict at a grand level between nations or societies. It means trying to disrupt, damage, or modify what a target population “knows” or thinks it knows about itself and the world around it. A netwar may focus on public or elite opinion, or both. It may involve public diplomacy measures, propaganda and psychological campaigns, political and cultural subversion, deception of or interference with local media, infiltration of computer networks and databases, and efforts to promote a dissident or opposition movements across computer networks119.

Essa ideia de guerra em rede significa um novo olhar sobre ações que eram praticadas em conflitos anteriores, mas geralmente eram percebidas de forma segmentada, como as formas política, econômica, militar e social das guerras. A netwar tem a comunicação e a informação no seu centro gravitacional. Apesar de ser amplamente não-militar, pode possuir algumas implicações que podem escalar para o conflito bélico, como atacar as capacidades de comunicação, comando, controle e inteligência (C3I) de um inimigo, o que é chamado de cyberwar por Arquilla e Ronfeldt (1997, p. 30). A netwar pode se apresentar a partir de diversas maneiras de acordo com os atores que estão envolvidos nesse processo, podem ocorrer tanto entre governos, como entre governos e atores não-estatais.

117 Do original: “Enhance your calm. Too many people are into this ISIS-stuff. Please gaze upon this lovely ad so we can upgrade our infrastructure to give you ISIS content you all so desperately crave”.

118 Como o objetivo desta pesquisa não está relacionado a uma maior problematização do que significa o

ciberespaço, estes conceitos não serão analisados de forma profunda. O objetivo de mostrar a estrutura de análise

“SAM” é basicamente entender como o Estado Islâmico se insere na warfare cibernética. Ver mais em: Kremer e Müller (2014).

119 “[…] conflitos informacionais de grande abrangência entre nações e sociedades. Isso tenta romper, causar danos, ou modificar o que uma população-alvo “sabe” ou pensa que sabe sobre ela mesma e o mundo ao redor disso. Uma netwar pode focar na opinião pública ou da elite, ou ambas. As campanhas psicológicas, a subversão política e cultural, a fraude ou a interferência da mídia local, infiltração de redes de computadores e bases de dados, e esforços para promover movimentos dissidentes ou de oposição através de redes de computadores”

(tradução nossa).

Sobre as ‘atividades’, Kremer e Müller (2014, p. 42) incluem não somente as ações de hackers, mas também a utilização da internet para a divulgação de notícias falsas, a propaganda extremista, o recrutamento e a radicalização. Em ‘stakeholders’, consideram atores não-estatais, como hackers individuais, coletivos (4chan e Anonymous), grupos (LulzSec e jihadistas) e empresas, além disso, os Estados também podem ser considerados como ameaças.

Apesar da crescente força dos atores não-estatais no ciberespaço, isso não quer dizer que as novas tecnologias digitais sejam a causa da degradação do poder tradicional, localizado na instituição do Estado. É claro que a internet e as redes sociais estão alterando a política, o poder, os movimentos sociais, a economia e a forma como os atores não-estatais propagam seus princípios. Mas são ferramentas que para criar impacto, precisam de pessoas motivadas por algo. Por exemplo, mídias sociais como o Twitter e o Facebook foram importantes na difusão das manifestações na época da Primavera Árabe, entretanto, as causas propulsoras dos movimentos foram questões internas e externas dos países onde ocorreram esse tipo de processo. A quantidade de pessoas envolvidas é muito maior do que os que se engajam nesse tipo de plataforma na internet. Ao mesmo tempo, negar o papel dessas novas tecnologias nas alterações do sistema internacional, seria tão reducionista quanto justificar essas transformações apenas através da emergência dessas tecnologias.

A internet é uma ferramenta de livre acesso para os jihadistas e outros tipos de grupos de ódio, pois, graças a degradação do poder dos Estados, sobretudo nas regiões democráticas, a falta de regulação permite o crescimento de atividades ilegais nesse ecossistema digital.

Porém, as iniciativas na internet nada seriam se não fossem motivadas por encontros entre pessoas de diversas nacionalidades, pela fragmentação identitária e pela degradação do poder.

O mesmo pode ser dito sobre as narrativas de violência derivadas dos conjuntos de ideais jihadistas. Elas não teriam o impacto de mobilização se não fosse esse panorama de crise do Estado-nação, do surgimento de novas formas de violência e do fortalecimento da mundialização. Portanto, qualquer tipo de investigação sobre as narrativas e imaginários não deveria descartar essas variáveis. A pesquisa que se atentar apenas nos processos do discurso acaba se limitando (Naim, 2013; Badie, 2006).

Uma forma de análise das narrativas de violência como propaganda, é através da identificação das histórias e arquétipos contidos nas revistas utilizadas pelo Estado Islâmico no recrutamento de indivíduos. Este tipo de investigação, voltada para a construção narrativa, não irá eliminar as questões como a globalização, as novas violências, a degradação e a contestação do poder. Ao contrário, através da pesquisa dos arquétipos e narrativas, será

possível analisar como essas variáveis são apresentadas nas histórias e nos imaginários inventados pelo Estado Islâmico.

Dessa maneira, como o objetivo é focar nas ferramentas de propaganda voltadas para o mundo ocidental, a investigação se concentrou nas revistas Dabiq e Rumiyah, publicadas em inglês. A partir dos textos e das imagens é possível entender quais elementos caracterizam os chamados “inimigos” do ISIS, além da própria identificação do “herói” ou “eu” do grupo, produzindo histórias e personagens que dão tom nas narrativas de violência instrumentalizadas pela organização jihadista.

3.3 As revistas do Estado Islâmico, a série de vídeos Flames of War e a figura do inimigo

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 153-159)