Antes de situar conceitualmente o fenômeno do Estado Islâmico, é necessário compreender o seu plano de fundo ideológico e religioso. Mesmo não sendo o único representante do islã, não é possível negar que o ISIS segue esta religião como sua base doutrinária. A organização é fundada em premissas muçulmanas e utiliza os principais ensinamentos do sunismo como fonte para guiar suas ações. Portanto, é preciso entender o que é o islã e como a religião pode ser entendida no processo de formação do ISIS.
O termo islã vem da palavra árabe islam, que significa “submissão à Deus (Alá)”. Já a palavra “muçulmano”, a que faz referência ao seguidor da religião islâmica, é originada do termo árabe muslim, que serve para denominar “aquele que se submete”. Pete Mandaville (2001, p.54) aponta que o termo “muçulmano” é eivado de uma autoconsciência de caráter identitário, já o termo islã deve ser encarado como manifestação universal, capaz de desempenhar uma unidade nas diversas comunidades políticas muçulmanas espalhadas pelo mundo, sendo fluido e que constantemente ignora fronteiras.
Em relação ao tempo de existência, a religião islâmica surge no início do século VII na Península Arábica, através da figura de Maomé, que recebeu uma revelação divina do anjo Gabriel, para que fosse um mensageiro e difundisse os dogmas de Alá. Maomé passa a ser chamado de profeta.
Peter Demant (2011, p.14) também faz diferenciações entre as palavras “muçulmano”
e “islã”. A primeira funciona como um fenômeno sociológico, enquanto a segunda é de caráter estritamente teológico. Portanto, para facilitar o entendimento, pode-se afirmar que países cuja maior parte da população é muçulmana e culturalmente de origem islâmica, não devem ser considerados como “Estados islâmicos”, mas sim apenas unidades políticas estatais cuja maioria da população tem o islã como profissão de fé.
Na atualidade, um pouco mais de um quinto da população da Terra é muçulmano.
Geograficamente, esta parte populacional está concentrada em um arco que vai da África ocidental até a Indonésia, passando pelo Oriente Médio e uma parte da Índia. Em diversos
países dessas regiões, os muçulmanos são a maioria da população local, mas também possuem importantes representações minoritárias na Europa, na Rússia e na América do Norte (Demant, 2011, p.13).
O islã, entretanto, é uma religião heterogênea. Após a morte de Maomé, a religião se fragmentou devido as discordâncias de suas lideranças posteriores. Desse processo de cisma, surgem o xiismo e o sunismo. Os xiitas acreditam que Ali, genro do mensageiro, é o verdadeiro líder da comunidade islâmica após a morte de Maomé. Sendo as lideranças políticas, que ganham força após a morte do profeta, lideranças ilegítimas. Já os sunitas, além de se guiarem pelo Alcorão, livro sagrado islâmico, também se guiam pela sunna, que é um conjunto de textos que acreditam serem baseados nos ensinamentos de Maomé (Guellouz, 1997).
Apesar de ter ocorrido a separação entre essas duas maiores vertentes do islã, a religião não possui um histórico de revoluções internas e reformas, como ocorreu na doutrina cristã, por exemplo22. O islã é muito mais abrangente e tenta cobrir todas as esferas da vida individual. Quanto a essa totalidade, Demant (2011) afirma que a umma é um modo de vida que abrange as relações na comunidade, as relações entre homens e mulheres, a educação e a política. Esse modo de vida está concentrado no arcabouço jurídico e filosófico da sharia, estabelecendo-se uma classe de legistas especializados, conhecido como ulemás (Demant, 2011, p.35). Esta estrutura está baseada na impossibilidade de divisão entre a religião e a política. Atualmente, a fronteira entre o islã e a política, no mundo muçulmano, segue porosa, sendo a religião um fator determinante na estrutura administrativa de diversos países islâmicos.
Sami Zubaida (2011) afirma que a emergência do global e do transnacional se manifesta de duas formas diferentes na relação entre o islã e a política: o jihadismo global e as redes transnacionais de migração. Estas duas divisões possuem em comum a umma global islâmica, noção abstrata que permeia as relações políticas e sociais das comunidades muçulmanas espalhadas pelo mundo.
Embora há essas divisões dentro do islã, todas as vertentes da religião compartilham uma ideia de identidade compartilhada a todos os muçulmanos. Mandaville (2001) afirma
22 O princípio de separação entre a Igreja e o Estado é baseado em diversos versículos encontrados nos
evangelhos: Mateus 22:21, Marcos 12:13-17 e Lucas 20:20-26. O cristianismo sofreu muitas revoluções em suas doutrinas, culminando com a Reforma Protestante que fomentou a separação entre os Estados europeus e a Igreja Católica com a formação de igrejas nacionais. Graças a inexistência de reformas na doutrina, os valores do islã sofreram pouquíssimas mudanças através dos tempos, portanto, a ideia de religião como modelo total é tão enraizada no mundo muçulmano.
que, tomar como pressuposto essa identificação como representante de um sistema universal que engloba os fiéis islâmicos, não significa um reducionismo. Ele prefere relacionar a umma ao conceito de ‘significante mestre’ de Jacques Lacan. O mesmo é proposto por Bobby Sayyid (1997, p. 114) que analisa o ‘significante mestre’ como uma estrutura abstrata no qual os discursos são totalizados, assim, as práticas muçulmanas são essa totalidade. A umma é a dissolução do concreto e do específico, pois dissolve as identidades particulares, como os xiitas e os sunitas, e até mesmo as identidades nacionais, como o árabe, o turco ou o persa. A concluir, a umma se torna um ‘significante mestre’, pois passa a ser a referência como um todo.
A umma entretanto, apesar de ser um ‘significante mestre’ e, por muitas vezes, dissolver outras identidades particulares, não necessariamente irá ocultá-las em definitivo. As solidariedades nacionais, além de outros tipos podem continuar coexistindo, na realidade, o cenário é de uma pluralidade identitária, que às vezes é levada à fragmentação e à anomia23. Ademais, a umma, apesar de ser um ‘significante mestre’, não necessariamente será considerada da mesma forma em todas as vertentes do islã, ou, de forma uniforme, pelos grupos políticos jihadistas e islamistas. Muito pelo contrário, no Estado Islâmico, a umma é considerada a identidade unificadora de todos os muçulmanos, colocando as nações como invenções da modernidade, porém, se um muçulmano for sunita, ele não é considerado parte da umma, apenas um apóstata infiel. Ou seja, a solidariedade ainda existe, porém ela tem seu conceito alterado de acordo com quem constrói a narrativa da umma.
De acordo com Piscatori e Saikal (2019, p. 134), a ideia de umma a partir da perspectiva do Estado Islâmico pode ser definida através de cinco variáveis. A primeira é a de que a umma é baseada na visão de mundo salafista, que é sectarista e exclui todos os que não cumprem os requisitos da sua perspectiva de islã verdadeiro: que segue um conjunto específico de textos e é estruturada a partir do modo de vida dos muçulmanos dos três primeiros séculos a partir do nascimento da religião. A segunda variável é a visão da umma de acordo com o jihadismo que coloca dos muçulmanos em “estado de guerra permanente”. A terceira variável é a indispensabilidade quanto ao processo de purificação da umma e de inimizade em relação aos muçulmanos que não concordam com a interpretação do Estado Islâmico sobre a religião. Os autores destacam que a ênfase na purificação e na hostilidade contra os que discordam justificam as declarações de takfir (excomunhão) e o emprego da violência contra os que se desviam da verdadeira fé. A quarta variável expande a noção
23 As ideias de anomia e de fragmentação identitária serão discutidas no próximo capítulo na seção sobre a Sociologia das Relações Internacionais e, posteriormente, na seção de Terrorism Studies.
politizada da umma ao defender a conexão inerente entre a comunidade islâmica e “a territorialidade do khilafa (califado)” e as ações e deveres referentes à expansão e a proteção da unidade política. A quinta variável é o “Estado ideal” que é a perspectiva de um futuro glorioso do Estado Islâmico através da sua ideologia.