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As origens do Estado Islâmico

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 32-40)

Desde a década de 2010, o autointitulado Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS), tem sido um ator presente no jogo da política internacional, devido ao seu envolvimento nos conflitos na região da Síria e do Iraque e, também, por mobilizar diversos militantes pelo mundo para que atuem de acordo com os seus interesses. Em pouco tempo, os jihadistas combinaram o fanatismo religioso com a estratégia militar, obtendo vitórias sobre as forças dos governos sírio, iraquiano, milícias curdas e outros grupos paramilitares, ocupando cidades importantes na região. No Iraque, o ISIS consegue controlar as cidades de Anah, Anbar, Baiji, Erbil, Falluja, Haditha Dam, Kirkuk, Mosul, Qaim, Ramadi, Ruba, Samarra, Tal Afar e Tikrit. Na Síria, o Estado Islâmico conquistou o controle de parte de Alepo, e dominou as cidades de Hama, Homs, Palmira e Raqqa, além de diversos vilarejos sunitas (Dhakal, 2019).

O ISIS tem suas origens na dissidência entre a al-Qaeda do Iraque e a al-Qaeda Central. A primeira, contrariando as ordens da matriz, estabeleceu-se de forma autônoma fundando a organização conhecida como Estado Islâmico do Iraque em 2006, realizando fusões com outras redes extremistas sunitas na região e também absorvendo uma divisão da al-Nusra, sede da al-Qaeda na Síria nos anos seguintes (Napoleoni, 2016; Fonseca & Lasmar, 2017).

Sua gênese está sobretudo no pensamento do jordaniano Abu Musab al-Zarqawi10, fundador da al-Qaeda no Iraque. Nascido na Jordânia, al-Zarqawi se radicalizou durante a juventude. Foi um dos milhares de foreign fighters que foram para o Afeganistão para lutar na resistência jihadista contra a invasão soviética. Após sua participação nos conflitos, o jordaniano voltou ao seu país onde tentou estabelecer uma célula jihadista. Foi preso, solto e após se envolver novamente com grupos extremistas e ter novamente a sua prisão sentenciada, fugiu para o Paquistão, onde ficou de passagem e retornou ao Afeganistão11 para se reunir com lideranças da al-Qaeda, dentre elas, Osama Bin Laden.

O objetivo de al-Zarqawi era o de conseguir fundos para fomentar uma revolução jihadista na região do Crescente Fértil. Os espiões da al-Qaeda, antes do contato direto com o

10Abu Musab al-Zarqawi é um nome de guerra, chamado de kunya pelos jihadistas. O nome verdadeiro de al- Zarqawi é: Ahmad Fadeel al-Nazal al-Khalayleh.

11Cabul tinha papel essencial na lógica jihadista da al-Qaeda. Dominado pelos Talibãs desde 1996, o país era chamado de Emirado Islâmico do Afeganistão. Segundo o pensamento medieval islâmico, um “emirado” (imara) significa um governo de uma região que deve ser submetido ao Estado (dawla), que é governado pelo califa.

Porém, não havendo o Califado, os jihadistas atuais utilizam tanto a palavra dawla quanto imara para descrever um governo que eles têm a intenção de instituir (McCants, 2015).

jordaniano, alertaram sobre a sua visão extrema quanto a quem deveria ser considerado um bom muçulmano, além disso, também levantaram atenção em relação à sua rejeição extrema ao xiismo, inclusive a sua opinião negativa sobre o Irã, afirmando que os persas, xiitas, agiam em cooperação com o Ocidente para oprimir os muçulmanos sunitas. Porém, ambas as partes concordavam sobre a necessidade do estabelecimento de um Califado capaz de conjugar os muçulmanos dignos (McCants, 2015).

Thomas Asbridge (2010) afirma que al-Zarqawi se inspirava em Noradine Zengi, soberano que governou, na era medieval, uma faixa territorial que ia de Aleppo, na Síria, até Mossul, no Iraque. Noradine expulsou os cruzados do Iraque e era conhecido pela sua falta de remorso e pela sua eficiência. De acordo com os estudos de Asbridge (2010), Sayf al-Adl, uma das principais lideranças militares da al-Qaeda no Afeganistão, afirmava que o futuro fundador da al-Qaeda no Iraque sempre pedia livros sobre a história de Noradine, e que os escritos também teriam inspirado al-Zarqawi com as suas campanhas e incursões no Iraque, o que afetou diretamente os interesses do jordaniano na região.

Durante esse período, graças ao apoio da al-Qaeda, al-Zarqawi pôde estabelecer sua própria base jihadista no Afeganistão. Entretanto, acabou por se distanciar da organização, cuja base principal ficava ao leste do país. O campo de treinamento do jordaniano mantinha pouquíssima conexão com as lideranças do grupo de Osama Bin Laden, e não se havia se filiado devido às suas próprias crenças religiosas. Zarqawi afirmava que deveria jurar fidelidade apenas ao califado, que era um tipo de organização política inexistente naquele contexto. A opinião de al-Zarqawi mudou e o mesmo se tornou vassalo da organização em 2004, após se estabelecer no Iraque, depois da invasão dos Estados Unidos, mudando o nome de seu grupo para “al-Qaeda no Iraque”. Neste país, tornou-se o líder da principal força jihadista na luta contra a ocupação dos Estados Unidos e, além disso, passou a empreender uma política anti-xiita, ao acusá-los como subservientes ao domínio norte-americano (Bunzel, 2015).

As ambições de Abu Musab al-Zarqawi podem ser melhor exemplificadas a partir de correspondências enviadas por três lideranças da al-Qaeda para o jordaniano, em 2005.

Na primeira, o estrategista militar Sayf al-Adl, aconselha al-Zarqawi sobre a necessidade de anunciar claramente que o seu plano deve ser o reinício da vida islâmica

através da criação de um Estado de caráter islâmico, o que resolveria os problemas da umma12, unificando os povos muçulmanos espalhados pelo mundo.

Na segunda correspondência, interceptada em julho do mesmo ano pelas forças dos Estados Unidos, Ayman al-Zwahiri13 resume uma estratégia de 4 fases para a al-Qaeda no Iraque: expulsar os estadunidenses do Iraque, estabelecer um Estado islâmico, expandir a Jihad para os vizinhos do país e, por último, enfrentar Israel. Sobre os objetivos, Zwahiri considerava que os dois primeiros seriam temas de curto prazo, a formação do Califado, derivado de um Estado de caráter islâmico, seria uma eventualidade (Bunzel, 2015).

A terceira correspondência interceptada foi a de Atiyyat Allah al-Libi, escrita em dezembro de 2005. Nessa carta, Allah al-Libi deixava explícito do desejo de al-Zarqawi em formar um tipo de Estado, após destruir um governo aleatório no Oriente Médio. Além dessas cartas, em diversos discursos públicos o líder jordaniano também demonstrava interesse em formar um califado. Em maio de 2004, em uma outra troca de correspondências com a staff da al-Qaeda, afirmou: “I am currently in Iraq waging jihad with my brothers to establish for Islam a homeland and for the Qur’an a state” 14 (Zarqawi in Bunzel, 2015, p. 15). Mais ainda, quando jurou fidelidade à al-Qaeda, em outubro de 2004, novamente indicou as suas intenções sobre a construção do califado: “[its estabilishment] could be [achieved] by our hands”15 (Zarqawi in Bunzel, 2015, p. 15).

O principal método de operação da al-Qaeda no Iraque, nos tempos de al-Zarqawi, foi o patrocínio de inúmeros atentados terroristas. Dentre eles, destaca-se a explosão de um caminhão-bomba no Hotel Canal, sede das Nações Unidas em Bagdá, matando o Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello. O jordaniano justificou o ataque dizendo que Mello era um ‘cruzado’ e um ‘herege’, acusando-o de ser aliado dos Estados Unidos, além de ter roubado um pedaço de terra do islã, devido a sua atuação pelo fim da ocupação da Indonésia no Timor-Leste (Hitchens, 2005).

No ano de 2006, a al-Qaeda no Iraque dá um passo importante para a criação do Estado que almejavam. Em janeiro daquele ano, al-Zarqawi forma a organização chamada de

12 Suposta lealdade existente entre as comunidades islâmicas espalhadas pelo mundo, que representa uma identidade imaginada compartilhada por todos os muçulmanos do planeta, independente da sua nacionalidade ou etnicidade. Sobrepondo-se aos outros particularismos locais (Demant, 2011).

13 Zwahiri é o atual líder da rede al-Qaeda, na época das cartas era o segundo homem na cadeia de comando, sendo o braço direito de Osama Bin Laden.

14 “Eu estou atualmente no Iraque empreendendo a jihad com os meus irmãos para estabelecer para o Islã uma pátria e, para o alcorão, um Estado” (tradução nossa).

15 “[seu estabelecimento] poderia ser [alcançado] pelas nossas mãos” (tradução nossa).

Conselho da Shura dos Mujahidin16, juntando a al-Qaeda no Iraque com outros grupos sunitas: Jaish al-Ta’ifa al-Mansurah, Katbiyan Ansar Al-Tawhid wal Sunnah, Saray al-Jihad, al-Ghuraba e al-Ahwal. Em um vídeo em abril do mesmo ano, Zarqawi declara que o Conselho seria o primeiro passo para a formação de um emirado (Bunzel, 2015).

Em junho de 2006, um bombardeio das forças aéreas estadunidenses mata Abu Musab al-Zarqawi, apesar disso, os seus aliados dão continuidade aos seus objetivos e em outubro o Estado Islâmico no Iraque é fundado, sendo Abu Umar al-Baghdadi declarado o “Comandante da Fé”. O Estado Islâmico no Iraque passa a ser conhecido pelo público iraquiano e pelo mundo muçulmano por dois nomes: o Estado Islâmico no Iraque ou o Estado Islâmico do Iraque (McCants, 2015).

Quando aparece o primeiro termo, Estado Islâmico no Iraque, o sentido que é mostrado ao público é a criação de um Estado para os muçulmanos, um quasi-califado inspirado pela al-Qaeda. Como afirma Muharib al-Juburi, porta voz do Estado Islâmico em 2007, que relaciona o seu surgimento à jornada do profeta Maomé, que saiu de Meca para Medina para criar um Estado (Bunzel, 2015).

Em janeiro de 2007, o Conselho da Sharia do Estado Islâmico produz uma carta de justificativa para a condição estatal da organização política criada, chamada de “Uthman ibn Abd al-Rahman al-Tamimi, Ilam al-anam bi-milad Dawlat al-Islam” (al-Furqan, 2007, p.41)17.

Feita em formato de tratado, a carta tentava formalizar a legitimidade do Estado Islâmico de acordo com a sharia18. Apesar de não ter consenso na literatura sunita sobre a questão da formação de um Estado islâmico, a organização se esforçou para se adequar aos textos do sunismo e conectar a criação do Estado Islâmico no Iraque à possibilidade de existência de um futuro califado.

O tratado aponta três formas pelas quais é possível uma pessoa assumir o posto de comandante da religião islâmica. A primeira é através da escolha de um grupo de eleitores de elite, chamados de ahl al-hall wa’l-‘aqd19; a segunda forma para um indivíduo se tornar o comandante da fé é a de que o mesmo seja indicado por um líder que o antecedeu e, por último, que ele consiga esse posto através da força bruta (Bunzel, 2015, p. 19).

16 Em árabe: Majlis Shura al-Mujahideen fi al-Iraq.

17“Informando o nascimento do Estado Islâmico à humanidade (tradução nossa)”, Muassasat al-Furqan, 2007, p.

41, https://ia801901.us.archive.org/31/items/OZOOO67/DAWLA_ISLAMIA.pdf

18 Jurisprudência islâmica baseada nos escritos do Alcorão. Para os sunitas, inclui-se a sunna, como fonte de jurisprudência junta ao Alcorão.

19 “aqueles que soltam e amarram (tradução nossa)”.

O texto afirma que o Estado Islâmico segue o primeiro caminho para alcançar o cargo de representante da fé muçulmana. Os autores do tratado escrevem que o ahl al-hall wa’l-‘aqd é legítimo, pois foi composto por aqueles que realizavam a jihad contra os xiitas e os norte- americanos e constituíram em outubro de 2007 a Aliança dos que Percebem os Sinais, um grupo inclusivo formado através de consulta, que teria obtido o apoio de 60% dos sheiks tribais sunitas espalhados pelo Iraque. A Aliança justificou a reivindicação pelo Estado devido ao sucesso político e, também, graças aos seus esforços na imposição da sharia. Na verdade, o período da criação do Estado Islâmico, de acordo com o tratado, era favorável a um avanço da lei islâmica pelo Iraque, pois, segundo os seus autores, as forças norte-americanas ocupantes estavam enfraquecidas e que o governo iraquiano, por ser um fantoche ocidental, colapsaria em breve (Bunzel, 2015).

Quanto às relações do recém-fundado Estado Islâmico com a al-Qaeda, esta última não havia sido consultada sobre a criação desta nova unidade política. Apesar de oficialmente ter apoiado o novo emirado20, as comunicações entre as duas partes mal existiam.

Constantemente, o grupo de Osama Bin Laden pedia relatórios sobre as condições em que se encontrava o Estado Islâmico, entretanto poucas eram respondidas e, quando eram, as mensagens reportavam que o proto-califado se encontrava em estado crítico. Alguns territórios importantes, como a cidade de Ramadi, haviam sido retomados pelas forças inimigas. Quanto aos seus apoiadores, o grupo perdia gradualmente o suporte de sheiks sunitas e mentia em seus vídeos de propaganda, mostrando operações antigas como se estas tivessem acabado de ocorrer.

Embora as duas principais lideranças da al-Qaeda Central, Bin Laden e al-Zawahiri, fossem discretos em relação ao Estado Islâmico, as outras lideranças da rede jihadista constantemente faziam declarações negativas sobre a organização. Por exemplo, o porta-voz e conselheiro Adam Gadahn, advertiu em uma de suas cartas endereçadas a Bin Laden que o Estado Islâmico no Iraque parecia um “Estado imaginário”, e que seus atos de violência manchavam o nome da al-Qaeda (Gadahn, 2011).

20 Em 2007, Osama Bin Laden, líder da al-Qaeda divulgou um áudio defendendo o Estado Islâmico em relação a outros grupos jihadistas que condenavam a sua fundação. Além disso, Bin Laden criticou as declarações de outros líderes jihadistas que afirmavam que a estabilidade política era sine qua non para a formação de um emirado islâmico, pois, se esse sempre for o requisito para tal, nunca seria possível formar um Estado. Ayman al-Zawahiri, o segundo na hierarquia da al-Qaeda, chamou o suposto Estado de “caravana abençoada” e também convocou a comunidade islâmica para apoiar o empreendimento no Iraque, chamando-o de um caminho para a liberação da Palestina e para o renascimento do Califado (Bunzel, 2015).

O processo de decadência do Estado Islâmico no Iraque começou a ser controlado após a morte de Abu Umar al-Baghdadi, fato ocorrido durante uma operação das forças norte- americanas e iraquianas na região de Tikrit, em abril de 2010. A troca de comando, aliada à conjuntura regional significou um combustível para a consolidação e expansão do grupo. Em maio de 2010, o Conselho da Shura dos Mujahidin elege Abu Bakr al-Baghdadi como o novo Comandante da Fé, que se considerava descendente da tribo de Quraysh, tendo assim a mesma origem do profeta Maomé.

Abu Bakr al-Baghdadi era conhecido pela sua erudição, por falar um árabe clássico e ser melhor orador em comparação aos seus antecessores. Além disso, fazia pouquíssimas aparições públicas, o que acabou por criar uma aura de mistério em torno da sua figura nos círculos jihadistas. De acordo com Turki al-Bin’ali21, al-Baghdadi havia se tornado doutor em Jurisprudência Islâmica na Universidade Islâmica de Bagdá e trabalhou em diversas mesquitas no Iraque. Havia se juntado ao Estado Islâmico do Iraque em 2006 como um juiz de conselhos da sharia (Bunzel, 2015).

Em 2011, aproveitando os movimentos iniciais da Guerra Civil da Síria, al-Baghdadi anunciou o retorno dos ímpetos expansionistas do grupo vendo no conflito uma janela de oportunidade para o seu crescimento. No fim de 2011, al-Baghdadi envia tropas de jihadistas para a Síria formando um grupo chamado Jabhat al-Nusra, chamada em 2013 de uma continuação do Estado Islâmico na Síria.

Neste ano, as lideranças jihadistas anunciaram a mudança do nome da organização para Estado Islâmico do Iraque e do Levante que, doravante, passou a existir sob a égide de uma bandeira. Entretanto, Abu Mohammad al-Jawlani, líder da Jabhat al-Nusra, declarou que não abdicaria da existência do seu grupo, reafirmando a fidelidade à al-Qaeda, tornando-se uma filial oficial da organização na Síria. Apesar da negação das lideranças da al-Nusra, Baghdadi enviou seus soldados para lutar nos conflitos na Síria, sendo mais uma força contra Bashar al-Assad na balança de poder da guerra civil. Posteriormente, em 2016, a al-Nusra deixou de ser uma ramificação da al-Qaeda e alterou o seu nome para Jabhat Fateh al-Sham.

Essa ruptura se deu de forma muito menos radical do que o corte de relações com o Estado Islâmico, sendo uma escolha mais motivada por razões estratégicas. Em 2017 a Jabhat Fateh al-Sham se fundiu com as organizações Harakat Nur al-Din al-Zanki, Liwa al-Haqq, Ansar al-

21 Acadêmico na área de Estudos Islâmicos, atuava no Estado Islâmico como chefe da Maktab al-Buhuth wa al- Dirasat (Escritório de Estudos e Investigações), uma entidade responsável por pesquisar assuntos relacionados à lei islâmica, conectada ao Estado Islâmico.

Din e a Jaysh al-Sunnah, criando a Tahrir al-Sham, conhecida como Organização para Liberação do Levante (Joscelyn, 2017).

Ao não abrir mão do seu comando na Síria, a inflexão de al-Baghdadi reverberou nas lideranças da al-Qaeda Central, fazendo com que Ayman al-Zawahiri se pronunciasse de maneira a negar a união das forças jihadistas da Síria e do Iraque, declarando que os dois grupos devam continuar tendo jurisdições e administrações diferentes (al-Zawahiri, 2013).

As ordens da al-Qaeda Central são ignoradas por Baghdadi, que contestou al-Zawahiri dizendo que o mesmo não é seu líder. Como Comandante da Fé, al-Baghdadi não poderia sofrer constrangimento de nenhuma autoridade humana. Assim sendo, o líder do Estado Islâmico do Iraque e do Levante passou a elevar cada vez mais o seu status, dando um caráter divino a sua função política. A partir desse momento, o Estado Islâmico começou a sua transformação, de um emirado islâmico para se caracterizar como o califado, considerando-se o legítimo representante político de todos os muçulmanos na Terra, pelo menos de acordo com a visão dos seus líderes. E o principal sinal dessa transformação se deu com o rompimento com a al-Qaeda (al-Baghdadi, 2013).

Em fevereiro de 2014, a al-Qaeda anunciava a quebra de relações com o ISIS. No documento que expõe o rompimento, as lideranças reiteraram que não se responsabilizavam pelas ações do Estado Islâmico da Síria e do Iraque, além de não possuírem ligação com a sua estrutura organizacional. Mais ainda, o texto trata o ISIS como um “grupo”, deixando ausente a sua “questão estatal”, outrora comum nos documentos da al-Qaeda.

Em julho de 2014, o Estado Islâmico já havia conquistado a maior parte dos territórios sunitas do Iraque, dominando a cidade de Mosul. Na mesquita local, em sua primeira aparição pública, seu Comandante, Abu Bakr al-Baghdadi declarou “oficialmente” a criação do califado, cuja soberania deveria ser expandida para o resto do mundo, não se limitando apenas à Síria e ao Iraque.

Quadro 1 – Fundação da al-Qaeda no Iraque até a autoproclamação do Califado em Mosul (jun. 2014)

Quadro 2 - Lista de comandantes da al-Qaeda no Iraque, Estado Islâmico no Iraque e ISIS

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 32-40)