• Nenhum resultado encontrado

Adolescente? Bebel, menor e sujeito-homem

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 169-175)

cíclico do tempo, e que eu possa aferir isso a partir do fracasso de entender um calendário. Mas afirmo que, ao longo da vida escolar, a partir de “situações de aprendizagens apropriadas”, esse conceito tão abstrato, o tempo, torna-se mais palpável e cotidiano, já que, tal qual Elias apontou, ele é uma construção de fora para dentro.

Um indivíduo, ao crescer, aprende a interpretar os sinais temporais usados em sua sociedade e a orientar sua conduta em função deles. A imagem mnêmica e a representação do tempo num dado indivíduo dependem, pois, do nível de desenvolvimento das instituições sociais que representam o tempo e difundem em seu conhecimento, assim como das experiências que o indivíduo tem delas desde a mais tenra idade (ELIAS, 1998, p.15).

Por fim, um pequeno desabafo: só acredita que escola não serve para nada quem não convive com crianças que não foram escolarizadas. Outros exemplos poderiam ser dados, mas creio que já me fiz clara. Diante de todas essas reflexões, vamos à atividade.

como sempre, podia dar certo ou não. Diante de uma atividade bem-sucedida, ficávamos satisfeitos, o que diminuía a necessidade debatê-la. Porém, diante de alguma experiência de fracasso – entendendo uma atividade fracassada como uma que desperta pouco interesse dos alunos –, debatíamos quais seriam as estratégias para que, nos próximos encontros, fôssemos mais certeiros.

Iniciamos o curso com uma atividade que já foi apresentada no primeiro capítulo desta dissertação, a dinâmica dos papéis sociais78 e, muitos apontamentos foram importantes para as aulas, mas o que mais interessa indicar aqui é que a partir dessa atividade percebemos que aqueles alunos tiveram dúvidas em identificar a qual fase da vida humana eles pertenciam, ou com qual se identificavam, entre as que foram disponibilizadas a eles por nós: adultos, crianças, jovens ou adolescentes.

Não houve unanimidade quanto a essa “classificação etária”, alguns se sentiam adolescentes, outros, adultos. Nenhum aluno se identificou como criança.

Esta pesquisa parte do pressuposto de que na nossa sociedade existe uma diferenciação significativa entre as etapas da vida humana. A etapa inicial − que chamamos de infância – é aquela em que o ser humano precisa de cuidados e, para sobreviver, depende de outros; uma outra etapa – que chamamos vida adulta é aquela em que o indivíduo conquista certa autonomia. Existem ritos de passagem que demonstram que um indivíduo, ao alcançar determinadas competências, já possui responsabilidades para com a coletividade, que espera dele certa postura por ter atingido um amadurecimento. Essa é uma construção social comum a todos os seres humanos.

Também partimos do pressuposto de que, na nossa sociedade, entre esses dois polos, o que compreende as crianças e o que compreende os adultos, há uma fase transitória, a adolescência, que também é uma construção social. Em diferentes épocas, em diferentes lugares e diferentes classes sociais, a adolescência é percebida de formas distintas, próprias. Mas será que existe adolescência para todos os brasileiros? Para Valente e Oliveira, não.

Adolescência não está ao alcance de todos os adolescentes. A depender de sua inscrição social − étnica, de gênero, classe econômica e comunitária, entre outras − a qualidade dos processos de desenvolvimento

78 A fim de reavivar a memória do leitor, essa atividade consistia em: o educador lia papéis sociais com os quais os alunos poderiam se identificar ou não. Caso se identificassem, escreviam a palavra em um papel, ao lado do próprio nome. Caso todos os alunos se identificassem, o educador colava o papel com a palavra em um cartaz.

juvenil pode sofrer um impacto negativo de distintos processos sociológicos.

Pobreza, criminalização, estigmas, preconceitos e invisibilização dos adolescentes são dispositivos sociais que contribuem para estreitar oportunidades e, em alguns cenários, comprometer a vida [...]. Em outras palavras, nem todos têm acesso aos direitos sociais e às adequadas condições de desenvolvimento, sendo especialmente prejudicados os que vêm expostos a situações de risco e violência (OLIVEIRA;

VALENTE, 2017, p. 39, grifo nosso).

De fato, quem não tem acesso a direitos básicos morre um pouco todo dia.

Sem educação, saúde, saneamento básico, é difícil alcançar a vida adulta. Ou é mais fácil, muitas vezes, entrar precocemente nela, tornando a sua adolescência, mais curta. Diante dessa ponderação tão necessária, fica a pergunta: Existe adolescência para os meus alunos em situação de privação de liberdade?

Ao aplicar a dinâmica de papéis sociais, a turma 2019.1 suscitou esta questão: para mim, aqueles alunos eram adolescentes; mas para eles, não necessariamente. Na época, escolhi utilizar as nomenclaturas criança, adolescente, jovem e adulto, também porque elas fazem parte das formalidades legais, isto é, previstas no Estatuto da Criança e do Adolescente e no Estatuto da Juventude.

Porém, até mesmo por parte do poder público, há certas “zonas cinzentas” que tornam estas classificações um pouco embaralhadas. É o que percebemos no Estatuto da Juventude [Lei n°. 12.852 de 5 de agosto de 2013, em seu art. 1º, § 1º e

§ 2º]:

Art. 1º. Esta Lei institui o Estatuto da Juventude e dispõe sobre os direitos dos jovens, os princípios e diretrizes das políticas públicas de juventude e o Sistema Nacional de Juventude − SINAJUVE.

§ 1º. Para os efeitos desta Lei, são consideradas jovens as pessoas com idade entre 15 (quinze) e 29 (vinte e nove) anos de idade.

§ 2º. Aos adolescentes com idade entre 15 (quinze) e 18 (dezoito) anos aplica-se a Lei n o 8.069, de 13 de julho de 1990 − Estatuto da Criança e do Adolescente, e, excepcionalmente, este Estatuto, quando não conflitar com as normas de proteção integral do adolescente (BRASIL, 2013, grifo nosso).

As pessoas que têm 15, 16 e 17 anos são, oficialmente, ao mesmo tempo, adolescentes e jovens, caso seja utilizada uma análise estritamente legal. Sendo que, ao menos para o Estado, jovem é todo indivíduo com idade até os 29 anos. E os adultos? Jovens adultos? Velhos adultos?

Essa confusão se dá também porque, apesar de haver um critério etário para balizá-las, as fases da vida não são definidas apenas por tal parâmetro. Há valores subjetivos, ligados ao comportamento humano. Para mim, foi inusitado constatar que

alguns jovens (ou adolescentes), de, por exemplo, 16 anos, por vezes até mais novos, se identificassem como homens formados, que já haviam feito o rito de passagem para a vida adulta, apesar da idade.

No entanto, é preciso respeitar o mundo do educando, seus valores culturais e sociais. Dentre os jovens que estão na “cadeia”, muitos já dirigiram carro ou moto, possuem vida sexual ativa, consomem com frequência drogas ilícitas e álcool, já tiveram filhos ou planejam ter em pouco tempo, têm tatuagens, deixaram de estudar para trabalhar, entre outras experiências, conjecturadas por mim, comuns às pessoas mais velhas. Algumas, inclusive, consideradas ilegais para a idade deles. A própria condição em que estão, internados para cumprir MSE, e a maneira como muitas vezes são (mal) tratados por parte de funcionários do Estado contribuem para afastá-los do mundo infanto-juvenil. De acordo com Lyra, as

[...] transformações que se passam na vida dos jovens não dependem da idade, embora dialoguem com ela. A subjetividade das "idades da vida" no morro é complexa e pode ser que ocorram condensações, prolongamentos ou supressões de certas etapas (LYRA, 2013, p. 81).

Por tudo isso, posso assegurar: os meus alunos sistematicamente adentraram de maneira precoce na vida adulta e, por isso, sentem dificuldade de se reconhecerem como eu (e o Estado, na lei) os reconheço: como adolescentes.

Mas não só por isso. As palavras apresentadas na dinâmica da primeira aula, baseadas em aparatos legais, não representavam para eles uma identificação imediata ou unânime porque também não faziam parte do vocabulário cotidiano deles. Após observar, pesquisar e refletir sobre isso, acredito que os termos que os jovens das camadas populares do estado do Rio de Janeiro comumente usam para representar algum tipo de classificação/organização etária são: menor, sujeito- homem e bebel. Apesar de já apontadas e problematizadas nesta dissertação, creio que algumas reflexões ainda merecem ser feitas.

Bebel é uma gíria que poderia ser substituída por “novinho” ou, em uma linguagem mais chula, “pirralho”. Assim, bebel pode ser tanto o adolescente muito novo (lembrando que, apesar de não ser comum, eles podem cumprir MSE a partir dos 12 anos) quanto o adolescente que aparenta ser muito novo, isto é, aquele jovem que parece ter menos idade do que tem. O bebel também pode ser entendido como alguém imaturo, por ter atitudes consideradas infantis pelos outros, uma

pessoa que não fez o rito de passagem para a vida adulta. É, portanto, um termo considerado pejorativo. Se eu quisesse repetir a atividade em outra turma no futuro, ainda assim não incluiria o termo na lista de opções para que eles escolhessem.

Essa informação serve mais para que eu entenda significado da gíria, caso ela apareça numa conversa com eles, do que para usá-la em aula. Afinal, o bebel não gosta de ser assim identificado pelos demais, e não tem por que fomentar esse tipo de embate na aula.

Menor é o termo mais utilizado entre eles para se referir ao que eu chamaria de adolescente79. Para eles, não é um termo positivo, nem negativo, não é definidor de envolvimento (ou não) no crime; a origem se relaciona com o fato de serem

“menores de idade”, isto é, menores de 18 anos. Mas, como já foi dito, a adolescência, no Brasil, é sentida de diferentes formas, dependendo do recorte de classe, gênero e cor de pele. Por isso, o uso de menor merece alguma reflexão. O ator Lázaro Ramos, em seu livro Na Minha Pele, problematiza essa questão. Apego- me à literatura (sempre um bom recurso) para conferir nuances mais sensíveis ao meu argumento:

[...] quem é negro como eu sabe que a cor é motivo de discriminação diária, sim. Um bom exemplo é blitz de ônibus. Em determinada época, elas eram bastante frequentes em Salvador. O curioso é que só descia negão dos ônibus. O cara branco era chamado de cidadão e eu virava menininho, garoto, moleque. Ou vocês nunca repararam na cor da pele de quem é

"menor" e de quem é "criança" nos textos da Imprensa, no vocabulário popular ou mesmo em pronunciamento de autoridades? (RAMOS, 2019, p. 49, grifo nosso).

Lázaro Ramos é um ator negro que denuncia, de maneira bastante didática, o uso da palavra menor por parte de autoridades e imprensa. Eu, enquanto pesquisadora da juventude, condeno essa palavra, pois ela carrega um sentido pejorativo, remete à concepção menorista, já comentada no primeiro capítulo. A

79 Na reta final da escrita desta dissertação, para entender exatamente o valor da palavra menor e testar a minha hipótese, pedi ajuda a dois ex-alunos com os quais mantenho contato pelas redes sociais. Um deles, inclusive, fez parte desta pesquisa. Perguntei se eles usam entre os amigos a palavra adolescente e como falariam, entre amigos, a frase: “O adolescente lá da minha rua...”. As respostas foram negativas para a primeira pergunta, isto é, ambos não utilizam o termo adolescente em seu cotidiano. Já em relação à segunda pergunta, responderam que a frase seria dita desta forma: “Tô vendo um menor passando lá do outro lado da rua” e “Ah, a lá, vamo chama aquele menor ”. Todas as respostas foram enviadas por áudio e transcritas por mim, mas, a fim de dar um

exemplo ainda mais concreto, um deles respondeu por escrito trazendo o irmão (João, de uns 8 anos, que conheci na cerimônia de encerramento das aulas) para a frase inventada: “Meu irmão, o João, ele passa na rua, os ‘menó’ fala: e ‘menozin’ cadê teu irmão?”. O irmão João é menor ainda que os outros adolescentes, portanto, um “menorzin”.

Constituição de 1988 e o ECA são os aparatos legais que marcam a mudança das relações entre jovens acusados de cometerem atos infracionais e o Estado. No

[...] lugar dos "menores", classificados como carentes, abandonados, delinquentes e objetos de intervenção do Estado, um novo paradigma trata de crianças e adolescentes, sujeitos de direitos, pessoas em condição peculiar de desenvolvimento e que constituem prioridade absoluta do Estado, sociedade e família (PEREIRA; GOMES, 2017, p. 22).

É interessante perceber que os meus alunos, adolescentes internados, pobres e, muitas vezes, negros, não problematizam o uso dessa palavra. Lázaro Ramos, que foi um adolescente negro e pobre, muitas vezes tratado como “menor”, isto é, distinto dos adolescentes abastados, reconhece o tom segregador da expressão. Tenho, portanto, muita dificuldade em utilizar o termo menor, mesmo querendo respeitar a maneira como eles se comunicam e sabendo que para eles a expressão é cotidiana e leve. Afinal, Kilomba, afirma que

[...] a língua por mais poética que possa ser, tem também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define um lugar de identidade. No fundo, através das suas terminologias, a língua informa-nos constantemente de quem é normal e de quem é que pode representar a verdadeira condição humana.

(KILOMBA, 2019, p. 14, grifo da autora)

Esse trecho foi retirado do prefácio à edição brasileira do livro Memórias da Plantação – Episódios de racismo cotidiano (2019). A autora faz vários apontamentos sobre o racismo, o machismo e o colonialismo presentes em palavras da língua portuguesa, a fim de que a força de suas posições políticas não se perca por conta da tradução. Tal passagem me remeteu a esta discussão sobre os usos do termo menor, ainda muito centrada no meio acadêmico, pouco sentida entre os que a falam. Não considero que, ao usar esse termo, meus alunos estejam ressignificando a palavra, tal qual muitos grupos minoritários já fizeram, com queer (para os homossexuais) ou com black (para os negros), por exemplo. Por fim, entendo que não deva ser eu a responsável por protagonizar essa discussão, pois nunca me identifiquei nem fui identificada como “menor”. Cabe a mim, enquanto professora, questionar o uso e explicar algumas considerações, e, enquanto pesquisadora, apontar que os alunos que participaram deste estudo se entendem enquanto “menores”, já os especialistas condenam o termo.

Sujeito-homem é uma categoria definida por Diogo Lyra para definir o jovem favelado que, de certa forma, passou pelo rito de passagem de “independência” dos demais e, por isso, já não é mais um menino, mesmo que não tenha idade para, legalmente, ser considerado um adulto. O pesquisador percebeu que

Ainda que em última instância o jovem favelado se encontre submetido aos requisitos legais que definem quem é adulto, sua dinâmica social também se encontra regida por parâmetros de passagens diferentes daqueles que conhecemos. Por uma série de circunstâncias [...], seu processo de independência começa mais cedo e, em certo ponto da vida, pode ser que ele opte pelos pré-requisitos diferenciados presentes na dinâmica coletiva do morro para se tornar um adulto. Assim nasce o sujeito-homem, categoria nativa que expressa para os jovens um status de respeito e aceitação, mas que também revela a tensão entre sua condição prática de indivíduo autônomo na sua comunidade e seu enquadramento como “menor de idade", tal qual o concebemos no mundo legal (2013, p. 74-75, grifo nosso).

Afirmar que adolescente é a pessoa com menos de 18 anos é uma explicação simplista. Mas ignorar esse marco também é; afinal, é um critério etário que define que alguns serão internados para cumprir medida socioeducativa, e não penas, na cadeia (neste caso, sem aspas). A ideia de trabalhar as fases da vida com os alunos na “cadeia” veio engatada à ideia de trabalhar a conscientização de que por terem menos de 18 anos de idade, eles estão em desenvolvimento, e, por isso, pertencem a uma dimensão garantista de direitos, função fundamental do ensino de História.

Lembrando que eles possuem também muita dificuldade em se reconhecerem como detentores de direitos, já que se assumem e reconhecem como violadores da lei, como se isso fosse um pressuposto para perder o direito a ter direitos.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 169-175)