Faremos um pequeno panorama sobre a situação dos órgãos executores de medidas socioeducativas no Brasil, já que existem atualmente 484 unidadades
delas, incluindo todas as modalidades definidas pelo ECA (artigo 112): internação, internação provisória, semiliberdade, internação-sanção e atendimento inicial.
Grande parte dessas unidades localiza-se na região Sudeste, que possui 217 delas, o correspondente a quase metade (45%) de todas as unidades do país. Seguindo, temos a região Nordeste, com 102 (21%); a Região Sul, com 74 (15%); a Região Norte, com 50 (10%); e a Região Centro-Oeste, com 41 (8%)11 (BRASIL, 2019, p.
64).
Os estados brasileiros possuem alguma autonomia no que tange o gerenciamento do lócus institucional do sistema socioeducativo. Como veremos mais adiante, nem sempre foi assim. A partir da década de 1990, cada unidade da federação ganhou o direito de decidir em qual de suas pastas estaria localizada a socioeducação. Na maior parte delas, a responsabilidade da aplicação das medidas se localiza nas áreas da Justiça e Segurança Pública (13 Secretarias), seguidas pelas áreas de Assistência Social e Cidadania (6 Secretarias) (Brasil, 2018, p. 24).
Materializando esses dados com exemplos, podemos afirmar que a maioria dos órgãos gestores do sistema socioeducativo está vinculada à área de segurança pública. Isso pode ser percebido tanto pelo número de estados (13 de 27) quanto pelo número de jovens atendidos, já que São Paulo – o maior contingente populacional de adolescentes cumprindo medidas12 – tem a fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação Casa)13, relacionada à Secretaria de Estado da Justiça e da Defesa da Cidadania.
No Maranhão, o sistema socioeducativo está vinculado à secretaria de Direitos Humanos. O Distrito Federal dispõe de uma pasta própria. Esses estados representam um distanciamento da maior parte do país, assim como o Rio de Janeiro, que possui a peculiaridade de ser o único estado do Brasil em que as medidas de socioeducação são gerenciadas pela Seeduc, a partir do Degase.
É importante destacar que desde a sua criação, o Degase já esteve vinculado a outras secretarias estaduais, em áreas como a da Justiça, a da Assistência Social e a dos Direitos Humanos. Sua inclusão na pasta da educação é, para muitos, uma
11 Tais valores foram aproximados, a fim de facilitar a leitura.
12 Segundo os dados do Sinase, São Paulo possui 9021 adolescentes dentro do sistema socioeducativo. O segundo lugar é do Rio de Janeiro, com 1931, seguido por Minas Gerais, com 1839, e Rio Grande do Norte, com 1606. (BRASIL, 2019, p. 29)
13 Para maiores informações, ver: <http://www.fundacaocasa.sp.gov.br/View.aspx?title=a- funda%C3%A7%C3%A3o&d=10>. Acesso em 20 jun. 2019.
vitória do ponto de vista da valorização de um espaço pedagógico de cumprimento de medidas socioeducativas, e não de punições.
Esse histórico de mudanças, no entanto, revela aspectos complexos do Degase e foi chamado por Lopes de “nomadismo institucional” (LOPES, 2015, p.
150). Debruçar-se sob esse nomadismo institucional não é um mero apreço à burocratização das instituições. Tais mudanças refletem entraves, tensões e disputas cotidianas para os atores sociais envolvidos.
Muitos seriam os exemplos para ilustrar a importância de entender a qual lócus institucional o Degase está vinculado, mas selecionamos apenas um, que, além de exemplificar o nosso ponto, é muito atual: a luta de alguns agentes socioeducativos para poder usar arma de fogo fora das unidades de internação14. Tal debate foi travado oficialmente na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), mas transbordou para a sociedade civil, inclusive por cobertura midiática15. Partindo do pressuposto de que a unidade de internação faz parte da gestão da educação do governo estadual, por que parte dos funcionários que lidam diretamente com os adolescentes pleiteia armas junto ao Legislativo? Não seria este um reflexo da vinculação das medidas da socioeducação com a área da Justiça?
Diante da conturbada pauta sobre armamento vivida pelos brasileiros desde 2018, o último período eleitoral, esse assunto tem mobilizado discussões acaloradas nos jornais, colocando o Degase no foco de polêmicas. Esse exemplo visa apenas ilustrar meu ponto de vista, mas está longe de se esgotar.
Retornemos ao debate “órgão executor de medida x qual secretaria dever estar relacionado” tomando como marco cronológico o ano de 2008, momento em que o Degase é transferido, sem aumento de verba, para a Secretaria de Educação.
No início de 2007, o Degase pertencia à Secretaria de Direitos Humanos e Assistência Social. “Depois de a primeira-dama estadual visitar duas unidades do sistema e surpreender-se com as condições encontradas, o governo estadual começou uma intervenção no Degase, que passou a ser vinculado à Secretaria de Estado da Casa Civil. No primeiro semestre de 2008, o órgão passou a ser da pasta
14 Esse projeto de lei é de autoria do Deputado Marcos Muller (PHS/RJ) e foi sancionado pelo governador Witzel após greve dos agentes socioeducativos. <https://g1.globo.com/rj/rio-de- janeiro/noticia/2019/05/24/witzel-sanciona-porte-de-arma-e-cela-especial-para-agentes-do-
degase.ghtml>. Acesso em 22 mar. 2020.
15 Muitas foram as reportagens sobre esse assunto, como, por exemplo: <https://g1.globo.com/rj/rio- de-janeiro/noticia/2019/05/24/witzel-sanciona-porte-de-arma-e-cela-especial-para-agentes-do-
degase.ghtml>. Acesso em 22 jun. 2019.
da Educação”. (NERI, 2009, p. 48). A partir do ano seguinte, 2009, ele foi dirigido por Alexandre Azevedo de Jesus, tenente-coronel da Polícia Militar do Rio de Janeiro, até a atual mudança de governo a partir das eleições de 2018, quando foi substituído por André Monteiro que em pouco tempo foi exonerado do cargo. Hoje, o diretor-geral é Márcio de Almeida Rocha16, major da Polícia Militar e ex-coordenador do Leblon Presente.
Como se estivesse dando um zoom, e nos aproximando ainda mãos do local em que esta pesquisa foi realizada, conheceremos a origem do Degase.
1.4 Um breve apanhado histórico: a redemocratização do Brasil e a criação do