• Nenhum resultado encontrado

Como eu fui parar na “cadeia”?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-83)

maneira como o saber é produzido; 3) o saber docente é desenvolvido e atravessado pelas produções acadêmicas.

trechos da Declaração Universal de Direitos Humanos (XX). Hoje, percebo que a temática do tempo já estava presente.

Elaboramos a oficina juntos, tentando moderar as expectativas de dar aula para um público tão diferente daquele com o qual eu estava acostumada. Pegamos metrô, depois trem, até que chegamos a Bangu. Pegamos uma van e, duas horas depois do início da jornada, chegamos ao Complexo de Gericinó. Unidades de medidas socioeducativas não podem fazer parte de complexos penitenciários, mas o ESE faz. Ou fazia, porque agora, em 2020, ele encontra-se fechado. A sensação é de estar entrando de fato numa cadeia. A van (tanto da ida quanto da volta) já marcava a forte presença feminina para as visitas ao presídio, que fica ao lado da unidade.

Fomos revistados, deixamos todos os nossos pertences em um armário, passamos por umas três grades e finalmente entramos − eu, meu amigo e seu estagiário − no local onde a aula aconteceria. Um dos agentes foi muito provocativo, debochou várias vezes do meu interesse em estar ali. Esse mesmo agente entrou na aula, constrangeu os alunos, os chamou pelos números “de entrada” e não pelos nomes. Deu-nos diversas orientações de segurança (muito mais com um tom de ameaça do que de orientação): nós não deveríamos ficar de costas para os alunos e deveríamos ter cuidado com materiais que podem virar arma (apontador, lápis e até papel). O clima foi amedrontador. Nada do que narrei até aqui se parece com a experiência de dar aula nas unidades da Ilha do Governador. O ESE tinha fama de ser um lugar mais difícil de se trabalhar. Mesmo assim, eu não me senti desencorajada.

Na sala, não havia janela, as carteiras eram comuns (aquelas de um braço só), havia um quadro branco que de tão manchado não servia para escrever e uma TV grande, dessas novas, que definitivamente não combinava com o entorno − marcado pelo abandono.

Nós nos preparamos para duas aulas, uma de manhã e outra de tarde, com um intervalo de almoço com os agentes e funcionários. A aula da primeira turma, a da manhã, foi embaraçosa, pois eu ainda estava muito nervosa e pouco confortável com toda aquela situação. Para piorar o clima de tensão, os alunos dessa turma não se entrosavam muito, pois ou eram aqueles que ficavam no “Seguro”, ou então eram

da “Minoria”42. Na segunda turma, a da tarde, pelo contrário. Os alunos já se conheciam e tinham certa amizade, pois eram todos da “Maioria”, isto é, integrantes do Comando Vermelho (CV); isso já conferia uma identidade ao grupo. Eu também já estava mais à vontade e, por isso tudo, a aula foi bem mais leve; em muitos momentos, eu até esqueci que estava na “cadeia”.

Eu fiquei muito impactada com essa experiência. Muito mesmo. Dar aula ali foi diferente de tudo que eu já tinha vivido (na época eu tinha 12 anos de sala de aula como professora). Muitas falas daqueles meninos me motivaram a voltar ao Degase, não necessariamente para Gericinó. Eles eram muito espertos e debochados, um humor rápido, que muitas vezes eu não entendia, por causa das muitas gírias e do tom quase cantado com que falavam, difícil de pôr no papel (embora hoje eu seja até capaz de imitar). A comunicação entre nós já evoluiu bastante, mas ainda sinto alguma dificuldade. Apesar da desconfiança inicial, eles foram muito acolhedores, e ficaram espantados quando souberam que eu estava ali voluntariamente (de graça) e que eu era professora. Mesmo aqueles que faziam

“cara de brabo” disputavam minha atenção para mostrar uma letra bonita ou um desenho que tinham feito.

Um deles, bem alto e já mais velho, me contou que aprendeu a ler na “cadeia”

e que por isso não era tão ruim estar ali. Eu brinquei que não acreditava e pedi que ele lesse o que estava escrito no quadro (diante de muitas palavras e pichações, destaquei uma). Ele, com muita dificuldade, leu: “muito” (“mu-íííí-to”); todos riram.

Eu, sem nenhuma experiência em dar aula para alunos analfabetos ou pouco alfabetizados, escolhi uma palavra difícil de ser lida em voz alta. Provavelmente um dos muitos problemas da aula. Então, continuei falando com ele:

Não foi difícil aprender a ler?

E ele: − Sim!

Não pareceu que você não ia conseguir?

Sim, toda hora eu desistia!

Você não se sentiu burro várias vezes?

Sim! – desta vez ainda mais animado, como quem concordava demais com o que eu estava descrevendo.

E quando conseguiu ler, não foi bom demais?

42 Fazer parte da Minoria é não pertencer a maior facção criminosa do Rio de Janeiro, o Comando Vermelho. Podem fazer parte da facção Amigos (ADA) e a organização Terceiro Comando.

E ele: − SIM!

Eu, então, concluí:

Então, o segundo que separa o momento em que a gente não sabe algo daquele em que passamos a saber é prazeroso!

Todos na sala riram, debochando da palavra “prazer”. Eu emendei:

É prazeroso mesmo, que nem comer chocolate, fazer xixi quando se está muito apertado ou até mesmo isso que vocês estão pensando. Aprender é prazeroso e é por isso que eu sou professora. Porque além de gostar de estudar e, consequentemente de aprender, eu sinto prazer quando os meus alunos estão aprendendo alguma coisa. Como agora, vendo vocês aqui.

Sem ter a dimensão do quão carinhoso estava sendo, o aluno me questionou:

Você tem certeza de que é professora?

Um deles brincou: “Sabia que você tem aluno famoso, professora? Apareceu no RJTV e tudo!”. O tal famoso ficou tímido com o apontamento, mas entrou na brincadeira. Eu não dei muita atenção, mas depois o meu amigo me contou que esse rapaz era acusado de estar envolvido em um crime que ganhou muita repercussão midiática. Esse mesmo rapaz era muito inteligente e foi ele que, pela primeira vez, me chamou atenção para a questão do tempo em uma sala de aula em um ambiente de privação de liberdade.

Em determinado momento da oficina, mostramos o Código de Hamurábi, e eu comentei que ele havia sido feito há mais de 4.000 anos. Ele então exclamou:

Como 4.000 anos se a gente está em 2017?”. Eu então expliquei que estávamos em 2017 na contagem dos cristãos, um “combinado” feito pela Igreja para homenagear o nascimento de Cristo, mas que existia história antes disso: “Por exemplo, a mãe de Cristo nasceu antes dele, logo, há mais de 2017 anos”. Ele então emendou: “Alguém no mundo não está em 2017?”. Ao que eu respondi: “Sim!”. E ele: “Quem? Quem não é cristão? Existe alguém que não é cristão?”. Ele disse isso com um olhar de choque. “Sim, muitas pessoas no mundo não são cristãs”. Ele manteve a feição de chocado. E esse olhar foi mais um exemplo do tal prazer de aprender mencionado há pouco.

As dúvidas desse rapaz com relação à descoberta de que existem outras formas de organização do tempo são, normalmente, esclarecidas no 6º ano do ensino fundamental, quando aprofundamos a discussão sobre calendários iniciada ainda nos primeiros anos da escolarização. Não foi nas aulas de História que ele foi

convidado a refletir sobre isso, pois provavelmente ele não frequentou as aulas de História, já que a evasão escolar é uma realidade no sistema socioeducativo. Mais do que não conhecer outros povos, esse aluno não sabia que o tempo é uma construção social43.

O aprendizado da variedade e da diversidade humanas no tempo é uma tarefa precípua do professor de história, que está na escola não apenas para ensinar dado conteúdo, cumprir um currículo: a finalidade precípua do ensino da história é a formação de valores, é a produção de subjetividades, é a construção de sujeitos capazes de conviver com a diversidade e a diferença, com que não é familiar. [...] Não terá valido a pena um curso de História, um ano estudando história numa aula de história, se o aluno não tiver sido minimamente deslocado de seu lugar, abaladas as suas certezas, se ele não for minimamente desterritorializado, distanciado do que julgava ser a sua identidade, seu si mesmo. (ALBUQUERQUE, 2016, p. 26-27, grifo nosso)

Esse aluno provavelmente era cristão ou de família evangélica e achou surpreendente alguém não ser cristão e, por isso, não contar o tempo como os cristãos. Ali, naquele momento, ele foi desterritorializado, convidado a refletir sobre aquilo que lhe é natural, tendo, como afirmou Albuquerque, “suas certezas abaladas”. Isso me impactou muito.

A verdade é que aqueles meninos, já quase homens, me impressionaram de muitas maneiras desde a primeira vez que os vi. Eles entraram de cabeça baixa, raspada, com as mãos para trás, uniformizados, camisa branca para dentro da bermuda azul. Todos muito iguais. Para fazer uma comparação imagética, a cena me pareceu a do quadro Os Operários (1933), de Tarsila do Amaral. No entanto, conforme as aulas foram fluindo, o tempo passando e o debate acontecendo, eu vi a educação de uma forma que nunca tinha visto. Eu aprendi e ensinei com pouquíssimos recursos. Eu percebi quanta potência era desperdiçada com o encarceramento daquela juventude pobre.

Quando o meu amigo disse que a aula acabaria em poucos minutos, eles fizeram aquele sonoro “Aaaaaaaahhhhhh” e me aplaudiram. Foi muito emocionante, alguns fizeram até uma pequena fila para me abraçar, sendo sempre muito respeitosos. Ao final da aula, eles já não eram mais “iguais” para mim. Eu já conhecia alguns pelo nome, pelos apelidos, pelo local onde moravam. Já dava para reparar que tinham altura, peso, cor de olhos diferentes. Tal qual o quadro da

43 Assunto que aprofundaremos mais a diante.

Tarsila, se olharmos de perto e com cuidado, veremos que aquelas pessoas são únicas, que há individualidades ali. É isso: a cadeia desumaniza, a sala de aula provoca tensão nessa relação.

A partir de então, eu resolvi que seria professora daqueles meninos.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-83)