não ação. Assim, nos aproximamos mais de compreender o que tratamos aqui como desejo da alienação social.
Ao desfazermos as determinações normativas sobre o ser, que pensa os sujeitos dotados de unidade, identidade, vontade comum, passamos a situar a categoria de "sujeito"
num lugar de indeterminação. Safatle aponta que "Um sujeito não é o que tem a forma de um eu, de um indivíduo ou uma pessoa. Ele é espaço de uma experiência de descentramento (Lacan) e não-identidade (Adorno)." (SAFATLE, 2016: 29).
Com isso, insistimos em uma noção antipredicativa do ser. Pensar sujeitos a partir de sua predicabilidade é pensá-los a partir de relações de possessão, ou seja, indivíduos essencialmente definidos como "quem tem uma propriedade em sua própria pessoa".
(LOCKE, s.d.), na medida em que um predicado é algo que possuo. Tomando como verdade o pressuposto dos sujeitos por sua predicabilidade, caminhamos no sentido da naturalização de uma antropologia e de um modo geral de relação, que pode somente culminar na lógica, já confrontada por nós, de uno. Entender a identidade em um lugar de indeterminação, é também dar respostas mais complexas aos questionamentos do por que há ação contestatória e do por que há a não ação.
Retomaremos Spinoza, na dimensão dos afetos, a fim de recolocar certos problemas políticos fundamentais em outro plano. A reflexão desenvolvida até aqui estimulou o questionamento da corporeidade política e sua dinâmica de afetos, o que possibilita nos livrarmos de algumas ilusões próprias de teorias da democracia hegemônicas que cumprem o padrão do falso racionalismo.
O pensador contrapõe o entendimento frequentemente atribuído aos afetos pelos teóricos, que, segundo Spinoza, os toma como "defeitos" e "tolices dos homens segundo o método geométrico" (SPINOZA, 2009:97) e que, além de "vãos" e "absurdos", opõe-se à razão. Spinoza defende que, ao tratarmos da virtude dos afetos e da potência da mente, só podemos nos referir a uma mesma origem, logo a uma mesma natureza. Mais uma vez a metáfora do corpo apareceu, quando o autor afirma que levará em consideração "as ações e apetites humanos exatamente como se fossem uma questão de linhas, de superfícies ou de corpos". (SPINOZA, 2009: 98)
Com isso, Spinoza introduz as definições gerais que guiarão sua compreensão relativa aos afetos. Cabe a transcrição:
1- Chamo de causa adequada aquela cujo efeito pode ser percebido clara e distintamente por ela mesma. Chamo de causa inadequada ou parcial, por outro lado, aquela cujo efeito não pode ser compreendido por ela só.
2- Digo que agimos quando, em nós ou fora de nós, sucede algo de que somos a causa adequada, isto é (pela def. prec.), quando de nossa natureza se segue, em nós ou fora de nós, algo que pode ser compreendido clara e distintamente por ela só. Digo, ao contrário, que padecemos quando, em nós, sucede algo, ou quando de nossa natureza se segue algo de que não somos causa senão parcial.
3. Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções.
Explicação. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação; caso contrário, uma paixão. " (SPINOZA, 2009:98).
"Por ideia entendo um conceito da alma, que a alma forma pelo fato de ser uma coisa pensante". E, logo mais, na Explicação, Spinoza ressalta: "Digo conceito de preferência a percepção porque a palavra percepção parece indicar que a alma é passiva relativamente a um objeto, enquanto que conceito parece exprimir uma ação da alma". Desde o Tratado Teológico-Político notamos, em Spinoza, uma preocupação em situar o pensar, opinar, imaginar como ações da alma, de direito individual e que guardam sempre sua margem de liberdade.
Recuperemos o trecho: "Si fuera tan fácil mandar sobre las almas (animus) como sobre las lenguas, todo el mundo reinaría con seguridad y ningún Estado sería violento, puesto que todos vivirían según el parecer de los que mandan y sólo según su decisión juzgarían qué es verdadero o falso, bueno o malo, equitativo o inicuo. Es imposible, sin embargo, como ya he advertido al comienzo del capítulo XVII, que la propia alma esté totalmente sometida a otro, ya que nadie puede transferir a otro su derecho natural o su facultad de razonar libremente y de opinar sobre cualquier cosa, ni ser forzado a hacerlo. De donde resulta que se tiene por violento aquel Estado que impera sobre las almas, y que la suprema majestad parece injuriar a los súbditos y usurpar sus derechos, cuando quiere prescribir a cada cual qué debe aceptar como verdadero y rechazar como falso y qué opiniones deben despertar en cada uno la devoción a Dios. Estas cosas, en efecto, son del derecho de cada cual, al que nadie, aunque quiera, puede renunciar." (SPINOZA, 2015: 1378-80).
O afeto é noção chave da ética spinozana e é pensado não apenas do ponto de vista da paixão, mas também da ação, o que implica operar a afetividade por uma via de ambivalência, ou seja, pensá-la tanto em termos de passividade quanto de atividade. Ou seja, assim como podemos tratar de afetos passivos, podemos também tratar de afetos ativos. Na contramão da tradição, portanto, Spinoza opera com a ideia de que não há correspondência direta entre sermos seres afetivos e a passividade47. Naquilo que postula os afetos, para o pensador, as maneiras com que o corpo humano é afetado é a via pela qual a potência de agir pode ser diminuída ou aumentada. Isso antecipa a noção de conatus que será apresentada por Spinoza, na Ética.
A ideia de conatus, deduzida da noção de "potência de agir", trata do esforço de agir para perseverar na existência. Isso pode ser melhor compreendido depois de estabelecido o que Spinoza entende por afetos. O aumento e diminuição de potência é precisamente o aumento ou diminuição do conatus, ou seja, da capacidade de ser e agir. Ao passo que a relação criada entre afecção do corpo e a ideia de afecção operam em momento de simultaneidade, na medida em que um afeto sempre corresponde a uma afecção. Isto é, exprimem o mesmo acontecimento, significando que a mente é ideia do corpo: o que acontece nele como afecção ela o experimenta como um afeto, ou seja, como uma ideia da afecção.
No Tratado Político, o autor aponta ainda que os homens estão necessariamente submetidos aos afetos e que agem naturalmente pelo desejo (impulsos do desejo de conservar- se). Ressalta, nessa via argumentativa, que não há diferença entre os desejos que a razão engendra em nós e os que possuem outra origem, qual seja, a das paixões.
O fundamento que desmistifica a separação entre afeto e razão, situando-os em lugar de interlocução entre o interior e o interior, retoma a questão posta em tópica anterior a partir da angularidade que se mede pela via afetiva. Na obra O circuito de afetos, de Safatle, esse olhar ganha força, na medida em que, explica o autor:
“[...] a própria noção de "afeto" é indissociável de uma dinâmica de imbricação que descreve a alteração produzida por algo que parece vir do exterior e que nem sempre é constituído como objeto da consciência representacional. Por isso, ela é a base para a compreensão tanto das formas
47 Embora quase toda a parte III e IV da Ética se atenha a afetos passivos, é possível perceber que, nas partes seguintes do livro, o autor busca precisamente a contraposição desses afetos, seja de forma a confrontá-los, como pesos opostos em disputa, seja no sentido de um equilíbrio. O processo de liberdade, central na parte V do livro, dedica-se justamente à essa sobreposição dos afetos ativos em aumento de potência.
de instauração sensível da vida psíquica quanto da natureza social de tal instauração. ” (SAFATLE, 2016: 38)
A utilidade, para nós, da noção de afetos, está em desconstruir a tradição que defende que uma teoria dos afetos não contribui para o esclarecimento dos impasses sociopolíticos.
Freud, menciona Safatle, reiteradamente apontou o quão "fundamental é uma reflexão sobre os afetos, no sentido de uma consideração sistemática sobre a maneira como a vida social e a experiência política produzem e mobilizam afetos que funcionarão como base de sustentação geral para a adesão social" (SAFATLE, 2016: 37).
Spinoza, na Ética, propõe, — como já referido —uma divisão dos afetos entre aqueles que aumentam a potência de agir, os afetos ativos, felizes, e aqueles que a diminuem, os afetos passivos, tristes. O que buscamos extrair de seus próprios questionamentos e, nos apoiando em uma perspectiva freudiana dos afetos, é uma relação de que há um poder de ambivalência dos afetos em que cada um deles pode ser tanto triste quanto feliz, ativo ou passivo, aumentando ou diminuindo a potência segundo a forma como o corpo se deixa afetar.
É assim que podemos encontrar, nos mesmos afetos que incorrem em sofrimento e mal-estar social, bem como em obediência, a fagulha que traça um caminho emancipatório. Antes de seguir, tendo em vista que a poesia expressa o que talvez não alcancemos de outra forma, a reflexão fez recordar o belíssimo texto poético do cantor e compositor cearense, Ednardo, na contra-capa de seu disco "Berro":
O eterno é embaraçoso e difícil / A fugacidade das coisas me fascina e me mete medo / Mas eu sei que existe sempre um recomeçar / Assim como recomeça o mar no levante das ondas / Então se no peito de cada um existe o incontido berro / Pra que ser só ouvidos? / No espelho desse passado, minha imagem não contente em somente horrorizar-se com as rugas / Quebrou o cristal em muitas arestas / Onde cada uma delas, dá um tipo de corte / Que é um tipo de festa ou um tipo de fresta / Por onde escapo da morte / O eterno é embaraçoso e difícil / A fugacidade das coisas me fascina e me mete medo / Mas eu sei que, onde se imagina fim de caminho / Está plantado o marco de uma nova e possível estaca zero.
Ednardo, contra-capa de "Berro", 1976.
O próprio Spinoza evidencia que não há esperança sem medo, nem medo sem esperança. Lacan, posteriormente, acrescenta:"viver sem esperança é também viver sem
medo".48 A complementaridade entre metus e spes sinaliza que não há poder que se fundamente exclusivamente no medo, há sempre um aspecto positivo calcado na promessa esperançosa. No Tratado Teológico-Político, em 1670, Spinoza afirma:
Que en cualquier Estado hay que establecer de tal modo las leyes, que los hombres sean controlados, no tanto por el miedo, cuanto por la esperanza de algún bien que desean vehementemente, ya que entonces todo el mundo cumplirá gustoso su oficio. (SPINOZA, 2015:514)
Safatle (2016) trabalha a aproximação entre medo e esperança como indicativo de uma
"dimensão estrutural profunda", pois referem-se à uma mesma forma de temporalidade, calcada na expectativa. Sendo o corpo uma forma de experimentar o tempo, percebemos que o corpo político produzido pelo medo e esperança é um corpo que tende a retirar-se da potencialidade do instante e se conectar no tempo da espera de uma providência por vir.
A sociedade é, em geral, pensada como um sistema de "normas, valores, regras que estruturam formas de comportamento e interação em múltiplas esferas da vida" (SAFATLE, 2016:15). Dessa forma, as normatividades que parecem intersubjetivamente partilhadas são os parâmetros de avaliação das produções sociais (no campo da linguagem, do desejo e do trabalho), compondo assim a chamada coesão social.
Safatle (2016) propõe ainda uma perspectiva crítica que rompa com essa noção de sociedade, assumindo-a como "circuitos de afetos". As sociedades dotam, enquanto sistema de reprodução material de formas hegemônicas de vida, de "formas de força de adesão ao produzir continuamente afetos que nos fazem assumir certas possibilidades de vida a despeito de outras". O autor sugere que formas de vida determinadas estão ancoradas em afetos específicos e, somente assim, podem continuar a "se repetir, a impor seus modos de ordenamento definindo, com isso, o campo dos possíveis" (SAFATLE, 2016: 16).
Ao observar que certas formas de vida demonstram sua resiliência mesmo em situações que não correspondem mais aos acordos tácitos dos sistemas de normas nos quais elas, em princípio, se fundamentavam, podemos, então, pensar que a coesão social depende de muito mais que os critérios normativos explícitos. Safatle sugere que são circuitos de afetos que cumprem esse papel revelador. São eles que, de certa forma, podem descortinar como
"normatividades sociais fundamentam-se em fantasias capazes de reatualizar continuamente os mesmos afetos em situações materialmente distintas umas das outras" (SAFATLE, 2016).
48 Essa relação proposta por Spinoza, e retomada por Lacan, será melhor retomada nos capítulos seguintes.
Há, nesse sentido, uma espécie de intervenção política dos corpos que se evidencia no descortinar do medo. A intervenção não se dá mais, ou melhor, somente, no formato trabalhado em desenvolvimentos teóricos críticos mais clássicos, ou seja, em sua maneira hegemônica, "através das formas da disciplina e da coerção normativa". Mas, sim, se manifesta através de um processo da "internalização da experiência da anomia produzida pela universalização da forma geral da intercambialidade e da equivalência". (SAFATLE, 2016:
27)