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Violência colonial

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 79-83)

2.1 Localizando a discussão do capítulo

2.1.3 Violência colonial

Os acontecimentos passam a ser chamados de "catástrofes", "acidentes", tomando a aparência do produto de um processo "objetivo", não executado por ninguém e, como pontuou Zizek, para o qual não houve um "Manifesto Capitalista".

Nessa direção, podemos afirmar que as fronteiras do visível e do invisível estão associadas às fronteiras de centro-periferia, ou Norte-Sul. A violência política estabelece e organiza as dinâmicas territoriais, econômicas-sociais e, assim, os estigmas. A apropriação do medo enquanto política de controle é fator fundamental da edificação das fronteiras sociais, desde sua conotação mais física, como os muros, até as relações de exclusão social.

Hobbes é talvez quem inaugura a linha de raciocínio lógico que culmina na relação de cegueira, com traços de voluntariedade, motivada pelo medo. No momento anterior à constituição do Estado, por ele designado Estado de Natureza, todos os seres humanos são substancialmente iguais e possuem os mesmos direitos e justamente por isso vivem numa condição de guerra perene, de "desconfiança geral" e de "medo recíproco". Através de um pacto, eles saem dessa situação caótica renunciando a alguns direitos (em última instância o

"direito" à morte do outro ameaçador) que são delegados à representação política. Nasce, assim, o Estado, Leviatã, que, pelo princípio de manutenção e preservação da segurança, passa a ser o único com poder de julgar a vida, detendo o monopólio da violência.

Segundo Carlo Ginzburg (2014), o termo Leviatã foi resgatado por Hobbes do Livro de Jó e designa uma baleia, "um gigantesco animal marinho que ninguém consegue fisgar com um anzol"55. Ginzburg observa que Hobbes cita, no frontispício do Leviatã, um versículo extraído do capítulo 41 do Livro de Jó: "Non est super terram potestas quae comparetur ei":

"não existe poder sobre a terra comparável a ele". A figura Leviatã, esse monstro gigantesco, armado e incapturável, se apresenta como onipresente. Um único ser capaz de controlar todas as outras vidas, através de seu monopólio da violência. A violência, real ou possível, descontrolada, gera inicialmente o medo e, em seguida, o impulso a sair do medo. Desde sua formação, o Estado Moderno teve de enfrentar a tarefa de administrar - e também de produzir- o medo.

"A atmosfera de violência, depois de impregnar a fase colonial, continua a dominar a vida nacional, pois, como dissemos, o Terceiro Mundo não é excluído. Muito pelo contrário, ele está no centro da tormenta" (FANON, 2013: 94)

Já nos referimos a alguns autores que pensam a violência de uma perspectiva colonial, tais como Sorel, Balibar e o próprio Fanon, mas ainda discutiremos a questão. Nos interessa observar a atualidade das análises dos autores para pensar contextos atuais, que ganham centralidade na medida em que trabalharemos com o que percebemos como atualizações da violência colonial nos territórios da Palestina e de favelas do Rio de Janeiro. Em 1961, em Os Condenados da Terra, Fanon já sinalizava que "Entre a violência colonial e a violência pacífica na qual está mergulhado o mundo contemporâneo, há uma espécie de correspondência cúmplice, uma homogeneidade." (FANON, 2013: 99)

Fanon, ao tratar do colonialismo, compreende que a violência é chave analítica central na elaboração das argumentações, na medida em que não há sistema colonial que não seja violento. Seja em sua dimensão mais visível, desde o próprio processo de invasão dos territórios até a disposição geográfica do espaço colonial, território necessariamente cindido, seja na dimensão menos visível, que diz respeito aos efeitos na psiqué e autodeterminação dos colonizados.

No que tange às determinações do espaço, em que as pessoas vivem, interagem, constituem suas identidades, Fanon sustenta que o mundo colonizado "é um mundo cortado em dois", sendo a linha divisória indicadas pelas "casernas e pelos postos policiais". As relações coloniais são mediadas pelos interlocutores legítimos e institucional das colônias: o policial ou o soldado. O que se comunica, nessas mediações, é nada além de uma expressão de "pura violência". Falar de colonialismo é falar de violência. (FANON, 2013:54).

No cotidiano, os elementos das cidades saltam aos olhos e destoam as realidades: "A cidade do colono é uma cidade sólida, toda de pedra e ferro. A uma cidade iluminada, asfaltada, onde as latas de lixo transbordam sempre de restos desconhecidos, nunca vistos, nem mesmo sonhados". As vestimentas, os sapatos e cor de pele branca e estrangeira marcam aqueles que a habitam, a caminhar pelas ruas "limpas, lisas, sem buracos, sem pedriscos". "A cidade do colono é uma cidade empanturrada, preguiçosa, seu ventre está sempre cheio de coisas boas". (FANON, 2013:55).

Em cruel contraste, situam-se os indígenas, na cidade dos colonizados, ou, na "aldeia negra". "É um mundo sem intervalos, os homens se apertam uns contra os outros, as cabanas umas contra as outras. A cidade do colonizado é uma cidade faminta, esfomeada de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz." Ela é, na medida em que é em relação à cidade dos colonos, falta-lhes tudo aquilo que a eles sobra. "A cidade do colonizado é uma cidade agachada, uma cidade de joelhos, uma cidade prostrada". (FANON, 2013: 57).

O sistema colonial arquiteta a cidade feita para dividir, incluindo os colonos e excluindo os colonizados. Sua violência é, nesse sentido, a forma objetiva de instrumentalizar a dominação e exploração:

"A zona habitada pelos colonizados não é complementar à zona habitada pelos colonos. Essas duas zonas se opõem, mas não a serviço de uma unidade superior. Regidas por uma lógica puramente aristotélica, elas obedecem ao princípio de exclusão recíproca: não há conciliação possível, um dos termos é demais." (FANON, 2013:55)

Quanto aos efeitos mais subjetivos, o autor aponta que as reações defensivas que nascem da violência do sistema colonial, se estruturam naquilo que se revela como a personalidade do colonizado. O autor insiste que o povo colonizado não é somente um povo dominado, como ocorreu em territórios ocupados na Europa. Não são apenas os territórios, mas também o íntimo das pessoas é ocupado na colonização.

O colonizado o é em meio social de tipo colonial. "Porque é uma negação sistematizada do outro, uma decisão obstinada de recusar ao outro todo atributo de humanidade, o colonialismo obriga o povo dominado a perguntar-se constantemente: "Quem sou eu, na verdade?" (FANON, 2013: 288). A partir dos desdobramentos de sua atuação na psiquiatria clínica, no contexto dos processos de luta de libertação da Argélia, Fanon identifica "psicoses reacionais" com ênfase não na história psicológica, afetiva e biológica do sujeito, mas sim no acontecimento desencadeante como a "atmosfera sangrenta, impiedosa, a generalização de práticas desumanas, a impressão tenaz que as pessoas têm de assistir a um verdadeiro apocalipse". (FANON, 2013: 290).

Albert Memmi, diferentemente de Fanon, apresenta a maneira como o colonizador enxerga e retrata o colonizado, tomando-o como preguiçoso, débil, incapaz. Com isso, interpõe-se um comportamento tutelar diante desses sujeitos pouco inseridos no "processo civilizatório". Para Memmi, há uma estratégia colonial de despersonalização do colonizado,

marcada pela coletivização desses indivíduos por meio do colonizador. Ou seja, são reificados na medida em que não são tomados enquanto indivíduos, mas como um corpo coletivo colonizado quase não humano. “No limite, ambição suprema do colonizador, ele deveria passar a existir apenas em função das necessidades do colonizador, isto é transformar-se em colonizado puro” (MEMMI, 2007:124).

Quanto às formas de engendramento da violência colonial, vimos que Quijano nos auxilia pensar as permanências do colonialismo nas esferas do poder, do saber e do ser na população que foi colonizada. De modo que é preciso refletir as implicações da materialidade na dimensão subjetiva/cognitiva, e vice-versa. Quijano, e poderíamos citar também o autor Pablo Casanova, a partir de seu trabalho que reflete sobre o colonialismo interno56, preocupam-se com essa espécie de confinamento das vítimas às estruturas coloniais, seja na absorção de sua identidade colonizada, inferiorizada, seja na busca por tornar-se o opressor, vestir-se de colonizador, como forma de libertação individual entre seus iguais.

Ao passo que Fanon e Quijano justificam a reprodução da colonialidade através da estrutura do capitalismo, que impõe relações de desigualdade e hierarquia como pressuposto de seu funcionamento, seja em escala global, seja em escala local, Casanova pensa essa relação com enfoque étnico de exploração que se dá numa dinâmica "estrangeiro" versus

"autóctone". Defendemos, entretanto, junto com Fanon e Quijano, que o próprio antagonismo de classes envolve, necessariamente, a relação de criação e divisão exploratória de raças, etnias, povos.

Aimé Césaire (2006), parte de uma outra perspectiva, pensando a violência não pelos efeitos psíquicos no colonizado, mas no colonizador. Segundo ele, a colonização trabalha no sentido de "descivilizar" o colonizador, embrutecê-lo, no sentido literal da palavra, para degradá-lo, despertar seus instintos mais violentos, de ódio racial, de relativismo moral e etc.

A aceitação e tolerância nos países colonizadores da violência colonial posta em curso é, segundo o autor, o envenenamento dessas civilizações. Para ele, a experiência brutal vivida com o nazismo, por exemplo, demonstra, na prática, a vivacidade e presença da figura do Hitler na própria regularidade da violência legitimada no capitalismo. Em suas palavras:

56 Expressão cunhada por Wright Mills e retomada por Pablo Gonzáles Casanova, o qual atualiza a expressão de uma perspectiva descentralizadora da abordagem que relaciona a exploração colonial com classes, que, aliás, o autor sustenta ser o equívoco de Fanon, e argumenta que a relação originária do problema colonial se refere à exploração de etnias determinadas.

He hablado mucho de Hitler. Lo merece: permite ver con amplitud y captar que la sociedad capitalista, en su estadio actual, es incapaz de fundamentar un derecho de gentes, al igual que se mostra impotente para fundar una moral individual. Quiérase o no, al final del callejón sin salida de Europa, quiero decir de la Europa de Adenauer, de Schuman, de Bidault y de algunos otros, está Hitler. Al final del capitalismo, deseoso de perpetuarse, está Hitler. Al final del humanismo formal y de la renuncia filosófica, está Hitler.

(CÉSAIRE, 2006: 16).

Para Césaire, não se pode falar em contato humano ao tratarmos da relação entre colonizador e colonizado. Só existem relações de dominação e submissão, que transformam o

"homem colonizador" em "vigilante, em suboficial, em comitre57"; e o nativo, em

"instrumento de produção".

Fanon, em acurada crítica, escreve:

"O mundo colonial é um mundo maniqueísta. Não basta ao colono limitar fisicamente, isto é, com seus policiais e soldados, o espaço do colonizado.

Como que para ilustrar o caráter totalitário da exploração colonial, o colono faz do colonizado uma espécie de quintessência do mal." (FANON, 2013: 58)

É, desse modo, que os estigmas tais como "selvagens", "criminosos", "terroristas", dentre outros, são constituídos. A opressão produz um oprimido-inimigo, ou seja, uma caracterização capaz de contribuir para a legitimação dos atos violentos promovidos contra ele, bem como critério justificador para apartá-lo socialmente, por constituir ameaça à vida e segurança comuns.

É interessante notar que, como observa Sartre (2013), Fanon se dirige a todos os outros, que não os europeus, e lhes fala efetivamente de um futuro em que seria superado o

"medo ao outro". O medo, como potencial de ativação e também de passividade, atravessa a obra de Fanon e ganhará proeminência na abordagem que se segue.

No documento universidade do estado do rio de janeiro (páginas 79-83)