Marx e Engels observam, em A ideologia alemã, que "Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes". A classe que dispõe de meios de produção material dispõe também dos meios da produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles aos quais são negados os meios de produção também está submetido à classe dominante. Assim se configuram aparatos de dominação hegemônica por via de uma manipulação velada que implica em uma relação imbricada de controle e consentimento. Dilui-se, assim, a dimensão visível da imposição dominadora sobre os imaginários.
A partir de Gramsci, é possível depreender-se que emerge um “novo terreno ideológico” associado a uma atualização da “atitude psicológica” que “alimenta a afirmação da “aparência” das superestruturas” (GRAMSCI, 1984b). O toyotismo26, na década de 1970, é a expressão maior dessa relação do capitalismo por sua administração profundamente ancorada em demandas comportamentais, diluindo a prática de chão de fábrica. São exigidos do trabalhador um comportamento pró-ativo, a criação do "homem produtivo", efetuando-se uma incisiva manipulação da mente e do corpo por recursos psíquicos encobertos por processos de naturalização.
Essa manipulação do modo de produção capitalista, em especial no toyotismo, pode ser pensada como tendência, mas também como consolidação de uma obstacularização e
26 Modo de produção industrial, idealizada pelos japoneses Eiji Toyoda e Taiichi Ohno. Foi impulsionado no contexto do neoliberalismo e popularizado pelo resto do mundo a partir da década de 1970.
dilaceramento do desenvolvimento das personalidades humanas, já que o modelo econômico incide também sobre capacidades simbólicas fundamentais de formulação da realidade, tais como a linguagem. Há uma conformação das aparências (em nível discursivo e imagético) e das "atitudes psicológicas" por narrativas prontas e impostas. A questão fundamental da linguagem como aspecto de dominação fora apontada por Marx e, não por mera coincidência, foi posteriormente recuperada pela psicanálise, em que Lacan é o teórico da linguagem por excelência. Em A ideologia Alemã, Marx e Engels comentam:
“Sempre pesou sobre o "espírito" a maldição de estar preso à matéria, a qual aqui se manifesta sob a forma de camadas de ar em movimento, de sons, em outras palavras:
sob a forma de linguagem. A linguagem é tão velha quanto a consciência, a linguagem é a consciência real prática que existe também para outros homens e que, portanto, só assim existe também para mim, e a linguagem só nasce, como a consciência, da necessidade, da carência de contatos com os outros homens. Onde existe uma relação, ela existe para mim. ” (MARX; ENGELS 2006: 37 e 38).
Negri e Lazzarato (2001), em Trabalho Imaterial, expressam que o novo management hoje prescreve: "é a alma do operário que deve descer na oficina". Os autores observam criticamente que, na atualidade, "é a sua personalidade, a sua subjetividade, que deve ser organizada e comandada"27. Marx já apontava que, no processo social de produção, a subjetividade pode ser assumida como questão relativa à transformação radical do sujeito na sua relação com a produção.
Negri e Lazzarato ressaltam que "esta não é mais uma relação de simples subordinação ao capital"28. Segundo eles, a categoria comum de trabalho não é capaz de dar conta do que se expressa por trabalho imaterial, na medida em que este não pode ser situado na forma inteira do ciclo "reprodução-consumo". O "trabalho imaterial não se reproduz (e não reproduz a sociedade) na forma de exploração, mas na forma de reprodução de subjetividade"29.
Há, nesse sentido, uma compreensão de que o momento pós-fordismo é uma fase do capitalismo centrada na conformação do "General Intellect"30,– ou de sua releitura – conceito forjado por Marx, em sua obra póstuma Grundrisse, com vistas a uma dominação ainda maior no campo da subjetividade. A noção de tendência, elaborada originalmente por Marx a partir de sua formulação da Tendência Decrescente das Taxas de Lucro (TDTL), se mostra bastante
27 NEGRI, A. e LAZZARATO, M. (2001) Trabalho Imaterial. Rio de Janeiro: Editora DP&A. p.25
28 Ibidem, p. 30
29 Ibidem.
30 O trabalho se transforma integralmente em trabalho imaterial e a força de trabalho em "intelectualidade de massa" (os dois aspectos que Marx chama General Intellect).
efetiva ao extrapolar sua origem nas contingências econômicas para penetrar o próprio pensar político das contingências do real.
Para Negri, a terminologia marxiana de tendência nos permite visualizar "todas as articulações da fase do desenvolvimento capitalista na qual nós vivemos e na qual se desenvolvem os elementos constitutivos da nova subjetividade" (NEGRI e LAZZARATO 2001:31). O autor desenvolve, a partir disso, uma análise bastante otimista, em que o trabalhador possui possibilidades alternativas de uso do tempo nas novas dinâmicas de rede da produção, – com independência crescente da atividade produtiva – para um processo de constituição de uma "subjetividade autônoma ao redor do que chamamos de 'intelectualidade de massa'"31.
Ao contrário de Negri, o que observamos é um crescente controle das formas mais íntimas do ser no capitalismo. Há uma homologia entre a divisão social do trabalho e a divisão do sujeito, percebida por Marx, que se fortalece na dinâmica de acentuada hegemonização social no pós-fordismo, em que tempo no trabalho e tempo de reproduzir-se enquanto ser humano são mediados por uma mesma alienação dos desejos. É notável, ainda, que essa hegemonia seja composta por consentimentos que tem no medo, afeto político fundamental na constituição da subjetividade contemporânea, um dos seus elementos cruciais.
Em O Manifesto do Partido Comunista, escrita em 1848, Marx (1998) expressa: "Essa revolução contínua da produção, esse abalo constante de todo sistema social, essa agitação permanente e essa falta de segurança distinguem a época burguesa de todas as precedentes."
A própria relação retroalimentada entre a violência e o medo torna-se uma espécie de
"moeda de troca" dos "consentimentos espúrios das individualidades de classe", de que fala Alves (2011). Há, nesse sentido, uma função estrutural na consolidação da violência disseminada que é a de produção simbólica do medo como afeto de controle e disciplinamento social introjetado nas formulações subjetivas.
O que Marx descreve, no Manifesto, é precisamente a ebulição entre perda, continuidade, transitoriedade, ou seja, referências temporais que nos remetem à crise que é contradição inerente à própria ordem do sistema capitalista. N'O Capital, o Marx apontou para uma dinâmica na produção capitalista caracterizada como uma tendência, Tendência Decrescente da Taxa de Lucro (TDTL). De maneira resumida, a lei da TDTL expressa o resultado da análise do autor sobre as forças elementares que dão origem aos ritmos da
31 NEGRI e LAZZARATO (2001) Trabalho Imaterial. Rio de Janeiro: Editora DP&A. p. 31
acumulação capitalistas: longos períodos de crescimento acelerado, seguidos de períodos de crescimento desacelerado e eventuais convulsões econômicas generalizadas. Como a crise é, ela mesma, resultado do amadurecimento da ordem, apenas enfatiza-se que ordem e crise no capitalismo se confundem e que para entender as crises, é preciso antes entender a ordem. Há um impasse, decorrente do incremento tecnológico na produção e o limite de redução dos salários, diante da necessidade de consumo. Disto podemos verificar a contradição inerente ao capital: ele precisa ser consumido para se realizar. É a ideia hegeliana de que uma coisa só existe quando vai deixando de existir.
O capitalismo é um sistema que se mantém pela conformação de princípios fundamentalmente opostos: ordem e crise. A harmonia está na perversidade. Isso faz com que a vida social nesse sistema seja viver em um real que na verdade não passa de nossa forma de representar32. E as representações do contraditório, que são construções territorializadas, sustentam a harmonia do perverso, como exemplificamos no caso da Palestina. Há, nesse sentido, uma demanda por permanente agitação para fazer sentir a vida social existente em forma de abalos, eventos, desastres, etc.
Podemos perceber esse contexto de acentuado controle dos "corpos e espíritos" a partir dos sintomas sociais que marcam nossos tempos, quais sejam a insegurança, a angústia e o desamparo (DUNKER, 2015). Importa, nesses termos, recordar que Lacan afirma33 que foi Karl Marx, e não Freud, quem inventou a própria noção de sintoma. "Sintoma", de maneira bastante simplificada, pode ser entendido como aquilo que foge à curva da coisa, mas termina por reforçar a coisa.
O sintoma social, diante dos impasses de uma época, esconde uma verdade ao mesmo tempo que a denuncia. É sintoma, portanto, o complexo de experiências da divisão social entre burgueses e proletários; a alienação social do desejo de produzir mais; a perda da experiência da totalidade social e também o retorno da perda da experiência, da alienação e da consciência (DUNKER, 2015).
Esse compartilhamento da experiência do sofrimento que se apresenta como sintoma social, envolve um processo de indeterminação dos sujeitos, trabalhadores cindidos de si mesmos no processo de produção. Poulantzas (1978), acertadamente, tecera consideração
32 É como sustenta a abordagem hegeliana, proposta na Fenomenologia do Espírito, parágrafo 182: a consciência de si como aquilo que se representa.
33 Essa afirmação é feita por Lacan em O seminário, livro 18. De um discurso que não fosse semblante (1970- 1971).
importante quanto às invasões da ideologia dominante no íntimo até mesmo daqueles que contestam:
“O predomínio dessa ideologia [dominante] é mostrado pelo fato de que as classes dominadas vivenciam suas condições de existência política através das formas do discurso político dominante: isso significa que, muitas vezes, elas vivenciam até mesmo sua revolta contra a dominação do sistema dentro do quadro de referência da legitimidade dominante.”34